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Uma nova educação
 
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  Uma fonte de pesquisas da realidade educacional do país  
  A presidente do Instituto Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais (Inep), Maria Helena Guimarães de Castro, lamenta que os pequisadores brasileiros não utilizem os dados da instituição  
  Maria Helena: "só com pesquisa aplicada ao ensino é que os professores terão condições de melhorar seu desempenho"  
 

O Instituto Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais (Inep) não tem do que se queixar em relação à sua produtividade, que é farta. Mas, em contrapartida, o vasto material que produz sobre o quadro educacional brasileiro não está sendo aproveitado. Pelo menos, não pelos pesquisadores brasileiros.

Esta é a avaliação que a presidente Maria Helena Guimarães de Castro faz do instituto, criado em 1937 com a finalidade de orientar, através de suas pesquisas, a formulação de políticas públicas para a educação, e que, hoje, é fonte de todos os governos - federal, estaduais e municipais - para traçar suas ações dirigidas à educação. É, inclusive, com base nos dados do Inep que é feita a distribuição dos recursos orçamentários destinados às escolas.

 
 

Segundo queixas da presidente, a desatenção parte dos pesquisadores brasileiros, que ainda não criaram o hábito de utilizar o instituto como referência para seus estudos. Os números do Inep, via de regra, têm, sim, atendido a pesquisadores estrangeiros, que vêm beber na fonte do Inep referências para estudos que têm a educação como objeto.

A World Education Indicators, divulgada este ano pela Unesco e que causou impacto no meio acadêmico por apontar o Brasil como um dos piores países do mundo em termos educacionais, por exemplo, trabalhou com dados fornecidos pelo Inep.

- Em todos os seminários a que vou, em todas as reuniões em universidades, em conferências, eu ofereço os dados do Inep para os pesquisadores aprofundarem suas análises, porque nós temos excesso de informações, dados completíssimos... que não são bem aproveitados - queixa-se Maria Helena, que, nesta entrevista à FOLHA DIRIGIDA, fala da situação da pesquisa no Brasil, analisa índices, identifica tendências do sistema educacional brasileiro e, sobretudo, mostra o que o Inep tem.

FOLHA DIRIGIDA - As pesquisas em educação feitas no Brasil mostram um retrato efetivo da realidade?
MARIA HELENA GUIMARÃES DE CASTRO
- A questão da pesquisa no Brasil tem que ser vista de dois lados. De um lado a pesquisa científica vem apresentando resultados muito positivos, como mostram esses últimos relatórios do Ministério da Ciência e Tecnologia, e alguns relatórios internacionais, que apontam a importância do Brasil na produção de artigos científicos, que são catalogados pelas associações internacionais na área científica. Então, desse ponto de vista a pesquisa básica no Brasil até tem dado saltos muito importantes. Agora, do ponto de vista da produção de novas tecnologias aplicadas à produção industrial, nesse campo o Brasil perde terreno para muitos países semelhantes ao nosso, do ponto de vista do desenvolvimento socioeconômico. A impressão que se tem é de que há um certo descompasso entre a pesquisa científica, desenvolvida para fins acadêmicos, e a pesquisa aplicada, desenvolvida em geral em muitos países articulada com o setor privado, para produzir novas tecnologias que sejam aproveitadas pelo setor produtivo no sentido de melhorar a produtividade, a efetividade, a qualidade, dos produtos fabricados. Então nesse sentido eu acho que a pesquisa no Brasil, do ponto de vista do apoio que o Ministério da Educação tem dado, vai bem. Do ponto de vista da pesquisa aplicada ao desenvolvimento docente apoiada pela Capes, vai muito bem, nunca a produção de mestres e doutores foi tão intensa.

FOLHA DIRIGIDA - Como essa produção é aferida?
MARIA HELENA
- Nunca nós tivemos tantas teses sendo produzidas anualmente como temos agora. Tivemos um crescimento extraordinário do número de mestres e doutores e isso se deve ao papel da Capes, ao fomento aos programas de mestrado e doutorado e, obviamente, quanto mais mestres e doutores, mais pesquisa se tem a respeito de temas pouco conhecidos e outros mais conhecidos são aprofundados.

FOLHA DIRIGIDA - Por que, então, a posição brasileira na produção de Ciência e Tecnologia é tão desfavorável nas pesquisas mundiais?
MARIA HELENA
- No ponto de vista das tecnologias aplicadas à produção, o Brasil vai mal, e é por isto que, no último relatório da Unesco, que traz uma classificação dos países segundo a sua produção de Ciência e Tecnologia, a posição do Brasil não é tão boa. Se não me engano, ele está em 43º lugar, e essa posição tem a ver principalmente com a falta de efetividade da pesquisa aplicada às novas tecnologias.

FOLHA DIRIGIDA - E a pesquisa sobre o ensino, sobre a educação?
MARIA HELENA
- É uma área que eu acho um pouco opaca... Não há muita clareza sobre a produção científica da pesquisa aplicada ao ensino. Aí nós também temos uma situação precária, porque as instituições responsáveis pela formação dos professores deveriam também estar dedicando um espaço e condições de trabalho adequadas para que eles pudessem aproveitar o seu processo de formação e usar uma parte de seu tempo para o treinamento em serviço e outra parte para o desenvolvimento de pesquisas aplicadas ao ensino.

FOLHA DIRIGIDA - A pesquisa pode, de fato, tornar o professor mais qualificado e, desta forma, melhorar a qualidade do ensino?
MARIA HELENA
- Apenas com pesquisa aplicada ao ensino, aplicada ao dia-a-dia da escola, ao processo de aprendizagem das crianças, é que os professores vão ter condições de melhorar seu desempenho, de rever sua atuação em sala de aula, de rever o seu papel como mediador do conhecimento.

FOLHA DIRIGIDA - Você diz que as faculdades de educação produzem pouca pesquisa. As públicas e as privadas estariam na mesma situação?
MARIA HELENA
- Há algumas instituições públicas também que produzem pouca pesquisa, ou quase nenhuma, aplicada ao ensino. Nesse caso, nós temos um déficit de produção e que me parece fundamental para a melhoria da qualidade da educação e principalmente para o processo de reciclagem dos professores, para que eles possam ter uma melhor atuação na escola, porque sem pesquisa aplicada ao ensino será impossível aos professores entenderem qual é a sua nova missão, quais competências precisam desenvolver, quais os problemas reais que a escola brasileira enfrenta hoje.

FOLHA DIRIGIDA - E quais problemas vêm sendo identificados?
MARIA HELENA
- Alguns são de ordem psicológica, outros de ordem mais moral, como a questão da violência, do uso de drogas, desajuste familiar etc. São temas que afetam o processo de aprendizagem, além do que, em áreas como matemática e das ciências, em particular, se os professores não tiverem tempo para se dedicar às pesquisas aplicadas àquilo que eles vão trabalhar em sala de aula e poderem melhorar o que os livros didáticos apresentam, terão pouca chance de oferecer aos alunos incentivo para o aprendizado destas disciplinas de um modo geral. A matemática está passando por mudanças importantes do ponto de vista dos referenciais teóricos e dos paradigmas que vêm orientando o ensino de matemática, a produção do livro didático. Os professores são formados muitas vezes numa perspectiva tradicionalista, presa a conceitos muitas vezes descontextualizados. A idéia é contextualizar cada vez mais os conceitos matemáticos, oferecer para os alunos a oportunidade, como jogos, brinquedos, para que esses alunos possam aprender os conceitos abstratos.

FOLHA DIRIGIDA - Em relação às pesquisas realizadas pelo Inep, quais as dificuldades encontradas?
MARIA HELENA
- O Inep hoje é um grande órgão produtor de fonte primária a respeito da educação brasileira. Nós produzimos todas as estatísticas educacionais, todos os censos, desde atendimento a creches, pré-escola, até a educação superior, educação profissional, educação indígena, educação especial, jovens e adultos etc. Além das estatísticas básicas, nós produzimos as avaliações que são indispensáveis para monitorar as políticas educacionais, identificar problemas e ao mesmo tempo mostrar quais são as saídas, ou quais são as soluções que poderiam ajudar a escola a se rever, a melhorar seu desempenho. Para fazer esse conjunto de levantamentos, tanto as estatísticas educacionais, quanto as avaliações da educação básica, o Enem, o Provão, avaliação das condições do ensino superior, o Saeb, nós nos apoiamos em vários estudos que são desenvolvidos, alguns pelos próprios técnicos do Inep, e outros que nós encomendamos às universidades. Eu diria o seguinte: todas as pesquisas que nós encomendamos têm tido um retorno muito grande. Temos encomendado estudos sobre o Saeb, estudos sobre o Provão, estudos sobre o Enem, estudos na área cognitiva, para realmente entender como é que está sendo o processo de aprendizagem das crianças, jovens e dos adultos, para poder orientar os especialistas que formulam provas, que definem as matrizes curriculares, as competências e habilidades que serão avaliadas. Temos um grande contato com especialistas na área de amostras, de produção estatística, de informação, de projeção demográfica, nós trabalhamos com a Unicamp, com o IBGE, então as respostas que nós temos das pesquisas que nós encomendamos a respeito dos trabalhos que nós fazemos têm resultados muito bons. Eu acredito que hoje nós chegamos a um patamar de desenvolvimento do sistema de avaliação da educação do país bastante elevado. Hoje o Brasil, comparado a países como Argentina, Chile e México, se destaca em qualquer fórum internacional. A Argentina e o Chile estão criando um instituto semelhante ao Inep, porque sentem falta de um órgão produtor de informação com o seu desenho.

FOLHA DIRIGIDA - Os pesquisadores brasileiros têm usado estes dados como base de suas pesquisas?
MARIA HELENA
- O que me deixa um pouco desapontada é que em todos os seminários a que eu vou, em todas as reuniões em universidades, conferências, eu sempre ofereço as bases de dados do Inep para os pesquisadores interessados em aprofundar análises, porque nós temos excesso de informação hoje, nós temos bases de dados que são completíssimas, nunca o Brasil dispôs de tantas informações como dispõe hoje. Dá para fazer milhares de teses de doutorado, dissertações de mestrado, nós temos oferecido isso às universidades, aos pesquisadores que já têm bolsa da Capes e do CNPq, para desenvolver suas teses e suas dissertações.

FOLHA DIRIGIDA - O que leva à necessidade desse corpo-a-corpo? As bases de dados do Inep não são utilizadas pelos pesquisadores?
MARIA HELENA
- O retorno é pequeno e eu não sei dizer os números exatos, mas há maior procura de pesquisadores internacionais do que de pesquisadores brasileiros. Isso é realmente um contraponto para nós, porque me parece que essa é a maneira de nós estarmos realmente contribuindo para a melhoria da qualidade, quer dizer, fazer sque um número cada vez maior de pesquisadores procure as nossas bases de dados, nos procurem, se interessem por analisar essas bases, para que descubram coisas que nós ainda não descobrimos, porque, quanto mais você mexe na informação, mais você levanta pistas, mais você levanta perguntas que precisam ser investigadas.

FOLHA DIRIGIDA - Qual é a causa deste desinteresse?
MARIA HELENA
- Eu não sei explicar, porque muitas vezes perguntam assim: "bom, mas vocês têm dinheiro para financiar a pesquisa?". Eu sempre digo o seguinte: nós não temos dinheiro para financiar a pesquisa para todo mundo que aparecer, bater na porta e dizer "olha eu quero examinar essa base de dados". Para isso nós não temos. O dinheiro que temos é para apoiar estudos e pesquisas que são fundamentais para melhorar os projetos que nós estamos desenvolvendo. Então é uma pesquisa aplicada ao desenvolvimento institucional do próprio Inep, daquilo que o Inep vem fazendo. Agora, todo mundo que já foi professor, pesquisador, sabe que, quando nós fazemos pesquisa, em geral nós ganhamos uma bolsa para fazer o mestrado e o doutorado. Esta bolsa é para financiar o trabalho do pesquisador. Então com essa bolsa o jovem pesquisador tem a garantia básica da sua sobrevivência e do material de que ele precisa para desenvolver a pesquisa. Não tem tido interesse grande. O interesse que aparece é de instituições, como é o caso do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas). O Ipea tem um interesse enorme em pesquisar as bases do Inep.

FOLHA DIRIGIDA - Isto não estaria relacionado ao baixo valor das bolsas?
MARIA HELENA
- Eu também fiz mestrado e doutorado com bolsa da Capes e olha que para conseguir uma informação... Eu me lembro de que, quando eu fiz a minha dissertação de mestrado, precisava de uma tabulação especial do IBGE, era caríssima e eu tive que pedir ao meu pai que pagasse, porque eu não tinha dinheiro. Era muito difícil você ter acesso à informação, tudo era muito difícil. Agora eu não consigo entender porque, embora nós ofereçamos todas as informações, não tenha procura. Eu acho que é mais por falta de informação do que pelo valor das bolsas. Para os pesquisadores é um grande prêmio ter acesso a uma base de dados. No ano passado, uns quatro pesquisadores da USP nos procuraram, nós cedemos as bases, houve também uns dois pesquisadores da Federal de Minas, mas eu acho pouco...

FOLHA DIRIGIDA - Quem acessa as bases de dados do Inep?
MARIA HELENA
- São principalmente aqueles interessados em resultados. São as secretarias estaduais de educação, os alunos interessados em saber do resultado do Enem, estudantes interessados em saber o resultado do Provão, as empresas interessadas em saber o resultado da avaliação do ensino superior, o Ipea, que tem um interesse muito grande em saber o que o Inep faz, os jornalistas de modo geral, a imprensa toda, a mídia toda, a eletrônica toda.

FOLHA DIRIGIDA - Então não se pode dizer que falta divulgação do produto.
MARIA HELENA
- É. Mas ele precisa ser mais bem aproveitado.

FOLHA DIRIGIDA - A pesquisa comparativa do Brasil com outros países, recentemente divulgada pela Unesco, causou um grande impacto. A fonte de dados sobre o Brasil foi o Inep?
MARIA HELENA
- Essa pesquisa é o Inep que faz. Você sabe que a Unesco não tem um grupo de pesquisadores em cada país, nem tem recursos para fomentar a pesquisa nos países? Nessa última pesquisa o tema foi formação de professores e aí em cada país do mundo, e são mais de 180 países-membros da Unesco, tem um órgão que é a interface da Unesco para produzir as informações. E o órgão que produz as informações para a Unesco é o Inep. Então essa pesquisa foi o Inep que desenvolveu. Mas nós seguimos a metodologia de lá, os nossos dados são validados pela Unesco e pela UCB, e são divulgados. Temos que manter sigilo até que os dados sejam divulgados em Paris. Depois disso, podemos liberar a informação.

FOLHA DIRIGIDA - Mesmo sem serem utilizadas como o instituto espera, as pesquisas feitas resultaram efetivamente em crescimento, em avanço para o sistema educacional?
MARIA HELENA
- Há muitos resultados práticos. O primeiro é que, a partir dos resultados do Saeb, nós identificamos alguns aspectos muito importantes para subsidiar o sistema de avaliação do livro didático, para melhorar o livro didático, que é um instrumento básico da escola, é um recurso pedagógico básico. Quer dizer: aquele que está socializado para todas as escolas brasileiras é o giz, o quadro-negro, o livro didático e a merenda escolar, porque todas as escolas têm isso. Computador algumas poucas têm, laboratório umas têm, outras não, biblioteca a metade tem, agora o que é comum é o livro didático, que é o recurso básico do professor, e ele tem que ter uma qualidade boa para o professor, que muitas vezes aprende com ele. Então o Saeb ajudou a produzir insumos para o sistema de avaliação do livro didático. Segundo lugar, quando em novembro de 96 nós publicamos o primeiro resultado do Saeb, já com essa nova metodologia, mostrando que o maior problema do mau desempenho dos alunos estava relacionada à distorção idade/série, a partir daí houve várias iniciativas, a primeira, inclusive, foi do Distrito Federal. Cristovam Buarque era o governador e uma semana depois o Distrito Federal lançou um programa de aceleração da aprendizagem, que foi a Escola Candanga, para enfrentar o problema da distorção idade/série, além da implantação dos ciclos de aprendizagem e de progressão continuada e, concomitantemente a isso, outros estados tomaram iniciativas semelhantes. É o caso de São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Maranhão, Ceará. Então houve uma série de políticas e cada estado formou a sua, com a sua cara.

FOLHA DIRIGIDA - Uma das principais medidas adotadas foi a aceleração, que sofre a crítica de beneficiar somente as estatísticas. Ela tem compromisso com a qualidade, com o aprendizado?
MARIA HELENA
- Veja bem... ela deveria ter. O que significa um bom programa de aceleração? Significa em primeiro lugar produzir bons materiais para que o professor possa trabalhar com turmas aceleradas, com alunos mais velhos em relação à série cursada, com materiais adequados a essa distorção de série. Então, disso o MEC cuidou. O MEC produziu uma série de materiais e os colocou à disposição gratuitamente em todas as secretarias. Há outras iniciativas e outros materiais, como por exemplo o da Fundação Ayrton Senna, o Acelera Brasil, que produziu um excelente material para a aceleração da aprendizagem. Bom, segundo passo, além do material, é preciso que haja recursos para investir na formação dos professores que vão trabalhar em turmas aceleradas. Esses professoree têm que ser treinados para usar o material e treinados para trabalhar com alunos que já vêm apresentando dificuldades.

FOLHA DIRIGIDA - Quais as causas da defasagem entre idade e série?
MARIA HELENA
- São alunos que foram reprovados inúmeras vezes, que têm a auto-estima muito baixa, que têm problemas em casa. São muito mais velhos, trabalham, estão cansados, têm que ajudar a família, enfim, uma série de coisas... Estes alunos têm que ser tratados de uma maneira que os faça realmente recuperar o seu incentivo para o estudo, ou seja: o aluno tem que ganhar a confiança nele mesmo e ao mesmo tempo ser convencido, ser persuadido de que é importante que ele estude, que ele aprenda, porque isso é fundamental para o futuro dele. Passo a passo, a escola tem que se reorganizar para os programas de aceleração. Para isso, a escola tem que oferecer condições de trabalho adequadas, então essas turmas, em geral, são turmas que ficam separadas das turmas dos alunos que estão na série correspondente à sua idade. Muitas vezes, em programas de aceleração, supõe-se que os sistemas de ensino possam oferecer um algo a mais ao salário dos professores, para que eles possam dar um reforço para os alunos que estão tendo dificuldades, para que eles possam fazer um atendimento mais individual, fora do horário de sala de aula. Bom, se todas essas condições forem obedecidas, o aluno aprende e poderá, em seis meses, por exemplo, fazer um ano, um ano e meio, e dar um salto não só quantitativo, mas qualitativo no seu processo de aprendizado. Isso acontece em todos os lugares, não é uma invenção do Brasil. A Califórnia fez um programa de aceleração para enfrentar o problema de aprendizagem que ela tinha em relação aos latinos; a Inglaterra e a França têm antiqüíssimos programas de aceleração de aprendizagem que são usados para todos os imigrantes que recebem permanentemente.

FOLHA DIRIGIDA - Os que as pesquisas internas têm mostrado em relação ao ensino superior?
MARIA HELENA
- Por exemplo, a avaliação do ensino superior mostra que há uma grande preocupação das instituições públicas e privadas para melhoria dos cursos de graduação, tanto do ponto de vista da infra-estrutura, de bibliotecas, de laboratórios, quanto do ponto de vista da qualificação docente e do projeto pedagógico dos cursos. Isso nós temos observado muito nas análises que têm sido feitas do Provão.

FOLHA DIRIGIDA - E em relação ao Ensino Médio?
MARIA HELENA
- Os estudos sobre o Enem têm também mostrado que este exame tem sido muito importante para orientar a implantação da reforma do ensino médio nas escolas brasileiras, públicas e privadas. As escolas têm se apoiado no material produzido pelo Enem, nas provas, no projeto básico, nos documentos sobre competências, habilidades, referencial curricular etc. Para implantar a reforma, porque é uma reforma muito ousada, é uma reforma que rompe com a tradição conteudista disciplinar e estanque do passado, é uma reforma que busca trabalhar sempre os diferentes conteúdos numa abordagem interdisciplinar e ao mesmo tempo contextualizada e, mais do que isso, procura mostrar as diferentes reações que existem entre os diferentes códigos de linguagem e as suas tecnologias. Se nós formos trabalhar linguagem e língua portuguesa, o professor tem que estar apto para trabalhar com seus alunos como é que aquele código, o domínio da norma culta, é importante para que o aluno saiba como operar outros códigos de linguagem, como o da matemática, a linguagem cultural, a linguagem artística. A interpretação de um gráfico vai fazer que o aluno acione todas as competências e habilidades que ele vai adquirindo, para manusear um conjunto de conteúdos que ele aprendeu, para que possa entender um gráfico. Para isso ele vai acionar códigos matemáticos, códigos de linguagem da norma culta. Para isso o Enem tem sido bastante útil.

FOLHA DIRIGIDA - As políticas públicas para educação usam exclusivamente os índices do Inep como referência?
MARIA HELENA
- Sim, porque os índices do Inep são os oficiais. O IBGE usa os nossos índices, todas as políticas públicas do Governo Federal tomam por base os índices produzidos pelo Inep. A distribuição do dinheiro do Fundef, a definição das alíquotas do Fundef, a distribuição do dinheiro na escola, a distribuição do livro didático, a distribuição da merenda escolar, todas as políticas públicas nacionais ligadas à educação, todos os atos de autorização, credenciamento, reconhecimento dos cursos de nível superior de graduação. Agora vamos começar o recredenciamento, tudo com base nas informações produzidas pelo Inep. O Inep é o órgão produtor de todas as informações.

FOLHA DIRIGIDA - Qual contribuição a pesquisa da Unesco, que compara os baixíssimos índices educacionais do Brasil aos índices de 46 países, pode nos trazer?
MARIA HELENA
- Veja, eu acho que o mundo é uma realidade cada vez mais interligada e interdependente. Não existe hoje no planeta Terra nenhum tipo de ação ou de produção científica que não passe pelo crivo da comparação com outros países. Isso não existe mais, quer dizer, a educação como o aspecto central do século XXI, que é conhecido por ser o século do conhecimento, ela tem que ser comparada. Nós sabemos que hoje estamos aqui e amanhã nós podemos estar no nosso país vizinho, no Paraguai, Uruguai, Argentina, daqui a seis meses nós podemos estar na Ásia e ao mesmo tempo nós estamos recebendo essas pessoas de fora. Nós temos que produzir para o mundo, produzir conhecimento para o mundo, nós temos que ser cidadãos para o mundo, sermos cidadãos do mundo, portanto os dados necessariamente têm que ser comparados. Todos os países do planeta, hoje, produzem informações e essas informações são trabalhadas de forma comparativa. Veja bem, a questão da Aids, que é um drama, principalmente africano, como é que está sendo trabalhada? Com base na comparação da Aids na África com a Aids nos outros países, países como o Brasil, por exemplo, que conseguiu diminuir enormemente os índices de notificações nesta área. Veja também o caso da mortalidade infantil. Como é que foi construído pela Organização Mundial de Saúde o índice de mortalidade infantil? Pela comparação, ou seja, você não define um índice bom se você não pode comparar. Como é que é produzido um índice bom a respeito do que é a universalização do ensino, se você não pode comparar a matrícula? Então essa questão está fora de cogitação. Para mim o mundo é realmente global, nós podemos questionar a forma da globalização, é outra coisa, aí há coisas que são boas, há coisas que são péssimas, outras que são excludentes, mas que o mundo é integrado cada vez mais, interligado, interativo, não tenho a menor dúvida.

FOLHA DIRIGIDA - A principal dificuldade em relação ao Provão ainda é a resistência dos estudantes?
MARIA HELENA
- Não. O último Provão mostrou que o índice de provas em branco e boicote foi muito baixo. Os alunos têm apreciado cada vez mais o Provão, na realidade mais de 90% dos alunos que fazem o Provão pedem que nós enviemos o seu boletim individual com seu resultado. Então, isso não é verdade.

FOLHA DIRIGIDA - O fato de o Provão não resultar em ônus ou bônus aos estudantes não compromete a qualidade dos resultados?
MARIA HELENA
- Essa é uma questão que tem sido muito discutida em seminários, em universidades públicas e privadas. Eu acho que as instituições devem mostrar para os alunos a importância de o curso ser avaliado e do seu papel nesse processo de avaliação.

FOLHA DIRIGIDA - Por que essas avaliações não usam como referência os resultados dos testes de desempenho realizados pelas próprias universidades? Isso significa que os critérios de aprovação das universidades não são referendados pelo MEC?
MARIA HELENA
- Não, isso é outra coisa. Uma coisa é a avaliação feita pela própria instituição, pelo próprio curso. Cada curso define seu critério, a forma como vai avaliar, o programa que vai ser avaliado, os conteúdos. Outra coisa é a avaliação externa ao sistema, que tem como ponto de partida algumas competências e habilidades gerais que têm que ser atingidas por todos que estão se formando no caso do ensino superior, e no caso da educação básica. Aquilo que é comum aos currículos oferecidos pelos sistemas estaduais e municipais de ensino.

FOLHA DIRIGIDA - Os resultados das avaliações feitas com os estudantes e os das condições de oferta de cursos têm sido compatíveis ou se contradizem?
MARIA HELENA
- Têm sido bastante coerentes, em geral, quando nós comparamos os resultados de cursos com D e E, no Provão, e cursos com condições insuficientes na avaliação das condições de oferta. Há uma semelhança grande nesses resultados. Em alguns pouquíssimos casos, nós observamos que há cursos com condições insuficientes na avaliação das condições de oferta e com B ou A no Provão, mas essa não é a regra, não tem sido a regra.

FOLHA DIRIGIDA - A pesquisa da Unesco indica que a demanda por professores tende a cair. Quais indicadores levaram a esta conclusão? Isso está relacionado com os programas de ensino a distância, com tecnologia?
MARIA HELENA
- Não. Isso está relacionado, principalmente, às mudanças demográficas. A matrícula está caindo no ensino fundamental, o crescimento da matrícula já foi negativo no ano passado, o perfil demográfico da população brasileira está mudando substancialmente. Nós vamos ter que pensar é em educação para a terceira idade, já estamos pensando nisto. O Brasil daqui a 20 anos será um país que terá 1/3 da sua população com 50 anos ou mais, portanto vai mudar completamente o perfil da nossa população.

FOLHA DIRIGIDA - O MEC promete um concurso para 2 mil professores, quando as entidades de classe apontam uma defasagem de 8 mil. Por outro lado, as pesquisas mostram que o Brasil é o país que tem a menor relação professor/aluno. Como essa equação se explica?
MARIA HELENA
- As universidades públicas mostram que, dado o processo de aposentadoria nas instituições federais, nós deveríamos estar repondo 8 mil vagas. O Governo tem uma política e a política é de não repor essas vagas com base no regime jurídico único, o regime anterior, e sim com base na lei do emprego público. O Governo só abriu essa enorme oportunidade para as instituições públicas federais de ceder em 2 mil vagas, para que nós façamos a transição até que a lei do emprego seja aprovada e que nós possamos realizar concurso público.

FOLHA DIRIGIDA - As pesquisas mostram que o Brasil é o país que tem professores mais jovens, com menos de 30 anos. Por quê? Que fenômeno é esse?
MARIA HELENA
- Por várias razões. Primeiro a aposentadoria. Os professores todos que já tinham mais idade se aposentaram com 25 anos de tempo de serviço, com medo da Reforma da Previdência. Todos se aposentaram com pouca idade, com 40, 42, 45 anos, e isso fez que houvesse uma grande renovação dos quadros. Isso no Brasil como um todo, no caso específico do Nordeste e do Norte, onde se nota uma maior proporção de professores jovens, a razão não é a aposentadoria, é o fato de que a expansão do sistema ocorreu nos últimos seis anos. Eles foram obrigados a contratar, a realizar concurso, porque se você olhar os indicadores de dez anos atrás no Nordeste, menos de 87% das crianças de 7 a 14 estavam na escola. Hoje, 95% delas estão na escola.

 
-> Educação: a necessidade de se criar novas metodologias
-> Uma fonte de pesquisa da realidade educacional do país
-> A importância da pesquisa para o setor educacional
-> Uma área estratégica para o crescimento econômico do país
-> Ampliar o espaço da cidadania, um desafio para a escola
-> Média de leitura baixa em comparação com outros países