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Uma nova educação
 
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  A importância da pesquisa para o setor educacional  
  Folha Dirigida entrevistou quatro personalidades educacionais sobre a importância e os desafios impostos à pesquisa nas universidades brasileiras. Veja os depoimentos.  
  Salassier Bernardo, reitor da Uenf  
 

O que diferencia uma faculdade de uma universidade é o envolvimento com a pesquisa. Infelizmente, a maioria das instituições públicas de ensino superior funciona como faculdades e os alunos somente assistem a aulas. A universidade deve ter o compromisso com o ensino, a pesquisa e a extensão. O conhecimento só é gerado e aplicado de fato quando há um trabalho de pesquisa. Do contrário, ocorre a mera reprodução do saber, que é importante, mas não deve ser a única atribuição da universidade.

E esse trabalho de pesquisa é fundamental para a formação do profissional, para o desenvolvimento da universidade e para o próprio país. Atualmente, o Brasil está defasado tecnologicamente porque o investimento está muito aquém do desejável. Agora que todos os estados estão procurando valorizar as atividades de pesquisa, através de suas secretarias de Ciência e Tecnologia.

 
 

Aqui na Uenf, trabalhamos com projetos ligados à atividade de irrigação, entre outras. Existe a pesquisa pura e a pesquisa aplicada. No primeiro caso, os estudos são feitos teoricamente dentro da universidade. No segundo, ocorre a realização das conclusões extraídas dos estudos no ambiente acadêmico na realidade local, respeitando as condições regionais.

Como a região em que se localiza a Uenf é economicamente frágil e defasada em termos tecnológicos, optamos por dar ênfase à pesquisa do tipo aplicada. Nas pesquisas sobre os efeitos da irrigação nas plantações de goiaba, por exemplo, o produtor avalia qual a quantidade de água para a plantação é mais viável. Além disso, trabalhamos também com culturas como cana-de-açúcar, maracujá e abacaxi.

A pesquisa, além de ser fundamental para o desenvolvimento local, também é importantíssima para a formação do aluno. Aqui na Uenf, temos alunos de graduação, que participam de programas de iniciação científica e os de pós-graduação, que obrigatoriamente devem fazer pesquisas. Com isso, firmamos o nosso compromisso de formar estudiosos e cientistas.

Infelizmente o MEC tem investido pouco em pesquisa. Do orçamento das universidades federais, a maior parte dos recursos se destina à manutenção e pagamento de pessoal. O dinheiro da pesquisa vem mesmo dos órgãos fomentadores como Finepe, CNPq, Faperj. É através deles que os pesquisadores conseguem desenvolver seus trabalhos. Aqui na Uenf, ainda não alcançamos um estágio onde as pesquisas realizadas pela universidade possam gerar recursos para investir em outros projetos.

Nós não discriminamos programas por atenderem ou não a necessidades da iniciativa privada. Mas deve haver interesse nosso também. Quando uma empresa quer custear um projeto, nossos pesquisadores avaliam se é eticamente válido e se há possibilidades de este projeto se converter em melhorias para a sociedade aqui da região. Caso aprovem, se estabelece uma parceria em que a empresa custeia parte da pesquisa e a universidade participa com pesquisadores e a outra parcela dos recursos.

Atualmente, nós estamos com poucos projetos em condições de gerar recursos para a universidade. Como nós recebemos capital através do governo, ou seja, dinheiro do contribuinte, não temos a mentalidade de vender resultados. Existe a possibilidade de disponibilizar este saber para empresas privadas, mas nosso objetivo principal não é este. Fomentamos pesquisa para gerar conhecimento para a sociedade.
Apesar das dificuldades, a pesquisa científica dentro da universidade ainda é uma bandeira que precisa ser defendida. E, apesar de funcionarmos há pouco tempo, temos recebido bons conceitos no Provão, o que mostra que estamos no caminho certo. E estas pesquisas são importantes para o desenvolvimento do próprio país. Acho que sem melhorar o nível da educação do povo como um todo e sem um apoio maciço em Ciência e Tecnologia, dificilmente nos transformaremos em uma nação de primeiro mundo, pois a competição é muito grande.

 
 
Fernando Pelegrino, diretor-superintendente da Faperj
 
 

Uma recente avaliação feita pela ONU aponta que o Brasil está em 43º lugar, num grupo de 70 países, no índice de avanço tecnológico. Isto indica que o Brasil está abaixo de países como Argentina, Chile, México, Costa Rica, entre outros, em termos de aplicação do conhecimento científico. É uma posição extremamente desconfortável, se considerarmos que somos a nona ou oitava maior economia do mundo.

 
 

Com certeza um indicador apenas não é suficiente para que se faça uma avaliação mais ampla. Até porque, se analisarmos a qualidade da pós-graduação aqui no Brasil, por exemplo, concluiremos que é uma das melhores da América Latina. Hoje somos praticamente autônomos na formação de doutores em quase todas as áreas do conhecimento. Poucos segmentos necessitam que se envie estudantes e pesquisadores para que terminem seus programas de doutorado fora do país.

Mas o que os índices da ONU avaliam é a tecnologia aplicada ao sistema de produção. Não basta apenas construir o conhecimento, é necessário difundi-lo e aplicá-lo de forma útil no desenvolvimento econômico e social. E o Brasil ficou em uma posição muito ruim. Na minha opinião, isso se deve ao fato de, primeiramente, o incentivo à Ciência ter sido feito a margem do crescimento industrial.

O Brasil fez uma escolha, na qual priorizou o capital e a tecnologia estrangeiros, não guardando, com isso, uma relação com o desenvolvimento científico próprio e a especialização da mão-de-obra nacional. Desta forma, o avanço da nossa ciência ocorreu dissociado das demandas do setor produtivo. Em outros países, as universidades foram criadas para dar sustentação ao crescimento científico. No Brasil, isso não ocorreu.

Quando se fala em desenvolvimento da pesquisa, é importante analisar também que, a partir do final da década de 80, quando encerrou-se o período de substituição das importações, o Brasil entrou na chamada globalização abrindo suas fronteiras radicalmente, sem investir em infra-estrutura e dar condições para que as empresas nacionais pudessem competir com as internacionais. E o jogo é desigual. Especialmente nos ramos de informática e engenharia genética, há multinacionais que investem sozinhas o total de recursos que o Brasil direciona para a pesquisa científica. E, ao invés de expandir o nível de investimento, o poder público acabou reduzindo estes recursos.

Há uma associação quase direta entre o nível de escolaridade de uma povo e o grau de desenvolvimento científico do país a que pertence. Nações que escolarizaram sua força de trabalho e incentivaram a pesquisa são capazes de desenvolver sistemas produtivos mais competitivos em relação ao mercado internacional.

E a pesquisa universitária é fundamental para que um país possa dinamizar sua economia e aumentar sua balança comercial. Um produto vale mais pelo processo tecnológico nele imbutido do que pela matéria-prima. Um ship de computador é pequeno, mas, em alguns casos, pode valer mais de que um navio.

Então, precisamos proceder uma mudança radical no país. Primeiramente, não podemos mais ter analfabetos. Os 15% que já possuímos é uma taxa muito elevada. Necessitamos investir mais em conhecimento científico, não apenas para manter o atual sistema, mas expandi-lo. Temos 40 vezes menos cientistas do que deveríamos. Para que o quadro se modifique, é preciso investir mais nas universidades e na infra-estrutura de produção do conhecimento na nossa área científica e tecnológica.

Apesar de alguns dizerem que não vale a pena ser cientista no Brasil, eu penso o contrário. Especialmente por que, aqui, ainda há muito por fazer. A disputa por uma vaga no mercado em vários países desenvolvidos é muito maior. E muitos deles, encontram-se dispostos a trabalhar em países como o nosso, onde eles possuem mais espaço.

Eu creio que uma boa alternativa para as universidades obterem recursos para seus projetos de pesquisa científica é a busca de parceria com as empresas. Exemplos como a Coope-UFRJ, a Uerj, a UFF e a Uenf, que vêm tentando trabalhar com o sistema produtivo local, podem alavancar recursos do sistema privado para a universidade. Há um dilema já superado, que diz respeito a uma possível interferência da iniciativa privada nos objetivos acadêmicos dos projetos. Este tipo de ingerência seria prejudicial às próprias empresas, um dos usuários mais interessados nas soluções tecnológicas produzidas no meio universitário.

 
-> Educação: a necessidade de se criar novas metodologias
-> Uma fonte de pesquisa da realidade educacional do país
-> A importância da pesquisa para o setor educacional
-> Uma área estratégica para o crescimento econômico do país
-> Ampliar o espaço da cidadania, um desafio para a escola
-> Média de leitura baixa em comparação com outros países