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Uma nova educação
 
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  Ampliar o espaço da cidadania, um desafio para a escola  
 

DEBATE - O desafio de formar cidadãos, além de simples estudantes, se impõe aos professores, que tentam cumprir sua tarefa PROFISSIONAL em meio a centenas de adversidades

As escolas brasileiras estão atentas às necessidades de, além de ensinar a ler, escrever e contar, compartilhar com seus alunos os valores que formam um cidadão? Em sua geografia pedagógica há espaço para tratar de conceitos abstratos como cidadania e civismo? É nos pátios e nas salas que se aprende que o sentido da vida é a felicidade? Os professores - vítimas históricas das vicissitudes políticas e administrativas -, sem dinheiro e atônitos com os obstáculos a uma boa formação continuada, estão preparados para elevar os olhos e os sentimentos para além de seus conflitos pessoais? Podem, com convicção e verdade, motivar seus alunos e adverti-los de que são os principais agentes das mudanças sociais? Que senão a erradicação, pelo menos a redução das diferenças que fazem que poucos tenham muito e muitos não tenham nada, deve ser o sentido elementar dos anos de estudo, provas, provões, boletins e prováveis castigos que lhes reserva a vida acadêmica? Para debater pelo viés da Pedagogia e, ocasionalmente, da Filosofia, estas que são a nosso ver questões fundamentais da formação humana, estiveram sentados à mesma mesa, a convite da FOLHA DIRIGIDA, quatro educadores que têm feito do ensinar a ser a sua razão de viver. A união destes professores/pensadores resultou em instigantes pistas para reflexão, pistas estas que reproduzimos a seguir:

FOLHA DIRIGIDA - Para a legião de marginalizados do processo social cada dia é um drama, de forma que a sociedade não pode esperar os resultados de planos de longo prazo. No campo da educação, quais medidas de emergência podem ser adotadas para atenuar este quadro?

 
  Edgar Flexa Ribeiro, diretor do Colégio Andrews, vice-presidente do Sindicato das Escolas Particulares do Município do Rio, membro do Conselho Estadual de Educação
 
 

EDGAR FLEXA RIBEIRO - Costuma-se atribuir muito à educação o papel de resgatar, ou ajudar a superar o problema da pauperização e sou muito pessimista a respeito disso. Eu acho que a educação por si só pode pouco em pouco tempo, pode muito em muito tempo. Eu não acredito num processo que consiga fazer superar de uma geração para outra as desigualdades sociais. Acho que quanto mais cedo se começa, mais cedo se chega, mas é uma coisa que demora mais tempo. Acho que o esforço que o Brasil está fazendo, de universalizar o acesso à escola, já é uma coisa muito significativa hoje. Eu me lembro da década de 60, quando a situação do Rio de Janeiro, então capital da República, era dramática. Eram 100 mil crianças sem escola.

 
 

Ter conseguido universalizar o ensino primário, como o Brasil fez ao longo de 40 anos, é uma coisa significativa, mas não há a menor dúvida de que não só você precisa de tempo, como a educação não é o bastante, não é o suficiente. Outras coisas poderiam ter sido feitas ao longo desses 40 anos que estariam dando uma nova condição de vida ao que se chama, hoje, legião de marginalizados. Nesse sentido, a educação por si deu acesso à escola. Não deu tudo que precisava dar, mas promoveu um expressivo avanço e, no entanto, estamos vendo que não foi suficiente.

FOLHA DIRIGIDA - E o que deixou de ser feito? Na sua opinião, quais as causas da existência de um número tão grande de excluídos?
EDGAR FLEXA RIBEIRO
- Pegue por exemplo a expansão dos centros urbanos no Brasil. Isso não foi nenhum acidente. Sabia-se que isso ia acontecer. A população nesses 40 anos inverteu-se. Eram 30% nas cidades, 70% no campo; hoje são 70% na cidade e 30% no campo. As cidades brasileiras não se prepararam para este crescimento. Não se prepararam em termos de transportes, não se prepararam em termos de saneamento, não se prepararam em tudo aquilo que cerca o ser humano e faz que deixe de ser marginalizado. Não houve um plano de habitação que funcionasse, não houve um plano de área que funcionasse, não houve um plano de transporte de massa que funcionasse. Congestionaram-se os centros urbanos, as megalópoles se degradaram, as periferias se marginalizaram. Você criou uma outra cultura paralela. E agora, o que a educação vai fazer? O que a educação fez? A educação fez um bom pedaço, mas não era suficiente. Nós não somos uma sociedade solidária e isso ficou demonstrado ao longo desses 40 anos. Nós geramos guetos e esses guetos são enormes. É claro que toda sociedade tem os seus guetos, mas eles não precisam ser tão grandes, tão avassaladores. As políticas de urbanização das periferias são chocantemente falhas. Não é só um problema de educação, é um problema de planejamento urbano, de compreensão do fenômeno. A ocupação da Baixada Fluminense ocorreu de 1950 para cá e 50 anos não é nada em matéria de tempo histórico. Foi uma monstruosidade o que se fez ali e não se fez de graça, foi-se fazendo. E não era uma coisa que pudesse se dizer que ninguém tinha consciência da forma como foram ocupados os chamados loteamentos irregulares. Como é que tudo aquilo começou ao longo das linhas de trem, a ocupação desordenada sem nenhuma assistência, sem nenhum socorro, sem nenhuma previsão. Não houve saneamento, não houve uma política de habitação consistente. Foram 40 anos jogados no lixo. O Banco Nacional de Habitação foi criado em 1965/66, começou a querer fazer, mas não houve continuidade. Nós todos somos autores disso tudo. Eu acho que ao longo desse processo eu vejo a educação como algo que bem ou mal aconteceu, menos por vontade de quem promoveu do que por pressão. As redes se expandiram, bem ou mal as oportunidades se multiplicaram. Eu acho que a educação não fez uma mau papel neste sentido, o Brasil sim, fez um mau papel.

 
Miriam Paura Sabrosa Zippin Grinspun, professora da Faculdade de Educação da Uerj, membro da Academia Internacional de Educação
  MIRIAM PAURA - Eu acho que a pergunta nos leva a dois momentos de reflexão: primeiro, quando se coloca a questão da legião de marginalizados pressupõe já um contingente inteiramente significativo que esteja fora da escola ou, mesmo dentro da escola, não tenha aquele sucesso alcançado. O outro é aqueles que estão dentro da escola. Será que não estão excluídos pelo próprio sistema das oportunidades de uma educação que não corresponda à realidade? Seja um enfoque ou seja outro, o que a gente tem que pensar é que a educação é uma prática social, portanto ela está envolvida com os outros aspectos dessa sociedade. O grande problema para mim hoje é que a escola tem um contingente significativo de problemas sociais para serem resolvidos que não são da competência dela.  
  Daí a questão, sem entrar no mérito da discussão da bolsa-escola. O que é isso? É para o aluno não faltar à escola, para que a famíla seja "obrigada" a mandar seu filho para a escola. Isso é um problema social, não é um problema da escola. Assim como não é problema da escola criar-se um grande refeitório para dar alimentação, criar uma sala médica/odontológica e uma série de problemas que cada vez mais a escola vem tomando para si, porque o Estado, a sociedade, não tiveram condições para resolver? Então, a legião de marginalizados, no meu entender, é fruto deste momento que nós vivemos. O Edgar Morin já fala que nós vivemos uma sociedade extremamente complexa e é uma sociedade que precisa estar voltada para dentro dela para saber quais são as alternativas a curto prazo. Têm? Eu acho que têm. Primeiro tem a questão da política na educação. O grande problema da educação brasileira é que ela é um ziguezague, quer dizer, a cada novo governo começam novas propostas que se extinguem quando acaba aquele governo e começa outro. Precisamos de uma política que seja da educação, no sentido de tentar ver, a médio prazo, quais as alternativas possíveis. Num segundo momento, seria criar alternativas dentro das escolas, em parcerias entre escola e comunidade. Não dá hoje, principalmente na escola pública, para passar por cima dos problemas sociais. Então, o que eu acho que se podia fazer é tentar ver com a própria comunidade quais são as possibilidades. Como é que eu poderia abrir um maior número de matrículas para aquela região; onde eu poderia localizar estes alunos; quais são as igrejas, quais os espaços que me permitem este tipo de trabalho? Isso, em termos de demanda. A segunda, é uma questão da própria requalificação do professor. Que ele possa ter um salário e que não haja falta de professores. Quais são as políticas para isso? E em terceiro, quais são as possibilidades de uma atualização deste professor, de um ressignificado dessa educação a partir deste momento que nós vivemos? Eu não estou falando aqui de treinamento de serviço, estou falando de uma melhor capacitação do professor para ele entender isso sob a luz dos diferentes aspectos que envolvem a questão da educação. Concordo plenamente que não podemos mais esperar planos a longo prazo. O que tem que ser feito é uma mobilização em três áreas: a primeira é a sociedade, a importância do seu papel junto à educação; segundo, veicular junto com os elementos que mais ativamente estão trabalhando nisso, as secretarias, as universidades e outros órgãos, as possibilidades de uma educação mais efetiva, no sentido de conseguir os seus objetivos e seus resultados. E terceiro, um trabalho junto com os alunos, educando-os por uma educação que não se alie apenas à questão do conhecimento, mas principalmente à formação da cidadania.
 
  Regina de Assis, presidente da MultiRio, ex-secretária municipal de Educação, membro do Conselho Nacional de Educação
 
  REGINA DE ASSIS - Eu acredito que o Brasil é um país que desde sua origem foi extremamente desigual, é um país onde infelizmente houve a escravidão, foi o país do mundo onde a escravidão foi abolida mais tarde. Isso deixou e continua deixando marcas profundas no sentido não só da desigualdade de situações socioeconômicas, mas da situação dos cidadãos, vistos de maneira discriminada pela cor da pele, pela origem familiar etc. Isso ainda não foi superado e nós registramos ainda essas profundas desigualdades, onde atualmente 5% são detentores dos bens, serviços, terras etc, num país com praticamente 160 milhões de habitantes. É um país que ao longo desses séculos ainda não conseguiu redemocratizar de fato a sociedade, no seu sentido mais amplo, no sentido de que a sociedade é pensada para todos e não para alguns, onde todos têm que ser iguais perante a lei.  
  Desde a origem, este foi um país em que poucos foram donos e a maior parte sempre foi empregada, sempre foi submetida à elite. Qual é o papel da educação neste processo? A educação pública, que é direito de todos, é direito de cidadania, e a partir da nova Lei de Diretrizes e Bases, que foi promulgada em 1996, nós vemos algumas coisas muito auspiciosas no ensino fundamental. A educação infantil, pela primeira vez na história da política educacional deste país, engloba crianças de zero a 6 anos, pela primeira vez ela é considerada parte inicial da educação básica. Ela não é obrigatória, mas é um direito das famílias e das crianças e um dever do Estado. O ensino médio, que compõe o quadro da educação básica pelo que a lei prescreve gradualmente, se tornará obrigatório também. Um outro aspecto, que já foi abordado pelo professor Flexa e e pela professora Miriam, a questão das desigualdades foi agravada pelo longo das décadas e dos séculos pela falta de visão dos governantes. Quando se governa, quando se tem um mandato, não se governa para o imediato apenas, se governa para o imediato, mas para o médio e para o longo prazo. Então, num país com a riqueza do nosso em termos de diversidade cultural, de recursos naturais, era mais do que esperado que os governantes tivessem, como outros países menores ou de igual tamanho que o nosso, de prever todo esse processo de industrialização, o êxodo do campo para a cidade, a necessidade de se criarem políticas agrárias que mantivessem as famílias nas regiões rurais com recursos, o reconhecimento dos direitos dos seus 200 povos indígenas. Desde que aqui chegaram os portugueses, toda a política educacional do país priorizou as elites. A escola pública foi uma conquista já mais tardia da nação brasileira. A professora Miriam faz menção a isto com clareza: a política educacional nem sempre contempla a qualidade, contempla a quantidade. Ao pensar na universalização do direito à educação básica, educação infantil, ensino fundamental e ensino médio, há que se pensar no professor, na valorização do profissional que tem a responsabilidade de trabalhar com estes corações e mentes, constituindo conhecimentos e valores indispensáveis à vida da criança, do adolescente e jovem no presente, no curto e no médio prazo. Assim como houve uma pauperização da população em geral no Brasil, também houve uma pauperização dos professores. Os professores deixaram de ganhar um salário digno, deixaram de ter uma carreira atraente, passaram a ter muita dificuldade de se manter como cidadãos. O professor é um profissional que tem que ler, viajar, escrever, ter acesso aos bens de cultura e isso durante muitas décadas foi sendo destruído e alijado de seu alcance. Eu não acredito que foi só para o professor, foi para toda a população de profissionais do país, mas em particular isso deixa uma marca extremamente perniciosa no professor. Porque um profissional que não tem uma preparação prévia e uma atualização em serviço e condições de se tornar um cidadão e um profissional cada vez mais sábio, mais experiente, mais cidadão do mundo, com olhar para o seu país, para sua localidade, para sua cidade, para o seu bairro, mas uma pessoa que se vê como integrante deste planeta com toda cultura que a inteligência humana tem criado, se ele não tem a possibilidade do acesso, como é que ele abre estes caminhos na escola? Mas eu não sou pessimista, porque apesar de todo este quadro negativo de imprevisão dos governantes e em grande medida de falta de participação da sociedade brasileira cobrando seus direitos, ainda assim eu encontro uma enorme qualidade nos professores, uma qualidade humana de uma consciência ética e política do seu papel na sociedade brasileira. Para mim os professores são cidadãos de primeira classe, são profissionais indispensáveis a um país que se redemocratiza nesse lugar chamado escola, onde gerações e gerações de jovens são introduzidas a uma cidadania plena e os professores são realmente, como a gente costuma dizer, os senhores e as senhoras da passagem de uma vida familiar, bastante singela, mais localizada, para uma vida de plenitude no âmbito da sociedade. São eles os intérpretes da sociedade brasileira com todas as suas desigualdades, mas também com um campo maravilhoso de possibilidades. Eu não sou pessimista neste sentido, mas como professora e como cidadã brasileira eu reclamo dos governantes que cumpram as leis que são produto do esforço de toda a sociedade e que nós sociedade também entendamos que não cabe só ao governo este trabalho. A educação brasileira, especialmente a educação pública, só melhorará na medida em que os professores, tendo atendidos os seus direitos, também coloquem em funcionamento as suas responsabilidades e os seus deveres.
 
Eulália Pimenta Souza de Oliveira, professora de rede municipal e particular de ensino, coordenadora do projeto Planeta Azul da Fundação Mokiti Okada (FMO)
  EULÁLIA PIMENTA - Não estou querendo fugir da pergunta, mas quando se falou em educação, em legião de marginalizados, eu estava aqui pensando, ouvindo todos os outros que já se colocaram e vou tentar fazer uma comparação. Entendem-se por marginalizados aqueles que vivem à margem da sociedade e foram muito apontadas as questões dos governantes, das responsabilidades, do compromisso, do passado que continua presente nas dificuldades e o papel da escola nesse processo. Mas só a escola pública aparece como vítima deste processo. Por que só ela é questionada? Educação é uma coisa muito ampla e não exclui só a legião reconhecida como marginalizada. Temos uma rede de escolas privadas que também deve ser questionada quanto à formação do elemento humano. Por quais escolas nossos governantes passaram? Se queremos mudar, temos que apontar todas as falhas. Todos somos reponsáveis, independentemente de qual escola viemos.  
 

Quando e como vamos ter uma sociedade justa, com ensinos diferenciados? Formar cidadãos é responsabilidade de toda escola. Se queremos uma sociedade justa, isso tem que começar a ser despertado fora e também dentro de todas as escolas, independentemente do tipo de clientela que esteja sendo atendida. Se queremos governantes justos e conscientes, temos que prepará-los dentro da escola, não importa qual seja a escola, a qual classe atenda. É dessa forma que nós vamos conseguir realmente mudar este país. Estar na escola não significa, necessariamente, que o cidadão esteja incluído ou esteja sendo orientado sob valores que façam dele um verdadeiro cidadão. Não significa que, estando a criança na escola, nosso compromisso acabou.

EDGAR FLEXA RIBEIRO - Parece que estamos falando mais ou menos a mesma coisa de diferentes maneiras. O negócio do marginalizado que a professora Eulália levantou é muito curioso, porque hoje você pode fazer a seguinte consideração: quem é marginalizado aqui, a maioria ou a minoria? Desde quando a minoria vai acusar o outro de ser marginalizado, quando na verdade ela está marginalizada? Vira o jogo. Quem é marginalizado aqui? Nós, que vamos para as universidades e ocupamos as vagas gratuitas das universidades públicas, que cursamos as boas escolas particulares? Eles que são marginalizados ou somos nós? Parece que o Brasil está vivendo um momento muito rico nesta medida, porque na verdade, e a professora Regina colocou isso muito bem, o problema está na natureza deste país. O problema, a meu ver, se coloca no nosso processo de colonização ainda não terminado. Nós hoje temos no país uma metrópole cujo domínio coincide com o território da colônia. Não há no Brasil uma sociedade solidária, como eu havia falado, porque nós temos uma sociedade de colonizadores e colonizados. Isto não acabou. Todas as revoluções, todas as repúblicas, todas as constituições, todas as leis de diretrizes e bases, não conseguiram dar cabo deste enigma. Por isso é que nós podemos nos tratar uns aos outros de uma forma tão desleixada. Por isso que é possível deixar tantos milhões de brasileiros viverem em condições tão terríveis como nós permitimos. Porque nós somos colonizadores, eles são colonizados. Na verdade, o problema brasileiro é muito grave e vou mais longe, acho que o problema não é do Brasil. Hoje, com 500 anos do encontro da América com a Europa, a gente pode chegar e dizer que o sonho americano não deu certo, o sonho americano está todo em crise. Do México à Patagônia o sonho americano, que socorreu a Europa durante cinco séculos, porque foram cinco séculos de inferno na Europa ocidental e oriental, e aquela gente sobreviveu porque havia um novo mundo para onde eles correram. Da Ucrânia a Portugal, veio de todos os países gente para a América, para tentar refazer a vida fora da tirania de monarquias que desabavam, fora dos terrores, fora das pestes. Só se educa aquilo que se tem. Nós estamos refletindo a situação que existe entre nós. A reversão deste quadro não vai ser pela educação. Seria necessário que houvesse projetos institucionais, em que a gente pudesse se sintonizar, mas acontece que nós temos elites e nossas elites não têm mais valor. Nós estamos vivendo uma crise de valores no mundo e uma crise de valores das elites. Uma elite sem valor gera um povo sem padrão. A elite perdeu os valores e o povo não tem padrões para seguir. Nesse sentido que eu volto ao início da conversa: esta elite sem valor está marginalizada, porque está se construindo uma nova forma de existir, diferente, e sabe Deus aonde vai parar, mas que está acontecendo do lado de fora dessa elite, porque marginalizada ela está.

MIRIAM PAURA - Eu tinha pensado uma outra coisa, mas eu quero dar continuidade a esta reflexão por dois caminhos. O primeiro, que vai mostrar qual a importância dessa crise, que não é mais a crise aqui, é mundial, principalmente neste continente americano. A educação fica como a salvadora da pátria, a responsável por trazer nos seus ombros o revertério da situação, o que é impossível. Isso é um processo, demanda tempo, não é da noite para o dia que se faz. Quero confirmar a importância da educação, mas também lembrar como os aspectos econômicos há algum tempo achavam que tinham primeiro que fazer crescer o bolo para depois repartir, primeiro resolver o problema social para depois resolver o da educação. É óbvio que não é por aí. É uma coisa concomitante e precisamos saber qual educação aplicar neste momento. O segundo caminho que eu pego traz as questões dos valores. Eu acho que bem ou mal a escola, aqui entendida como aquela que produz uma educação sistemática, dá conta das questões dos conhecimentos, dos saberes e um pouquinho do saber fazer, mas deixa muito a desejar quanto à questão dos valores. E um povo se forma pelo conhecimento e pela cultura, pelos valores que estão nela. Os valores, as crenças, as idéias, os ritos, os mitos, o imaginário, tudo isso faz parte da cultura, como diz Edgar Morin. E é nessa questão dos valores que está o grande problema, o grande eixo, não só dessa legião de marginalizados, mas de todos que passam por este espaço chamado escola.

REGINA DE ASSIS - Eu discordo um tanto do professor Flexa, nem tanto da Miriam, mas também um pouquinho. Embora eu entenda, junto com a Miriam, que tem que haver uma sinergia entre ações de governo e ações da sociedade brasileira, eu entendo que isso só terá êxito se a educação também for parte deste processo. Eu de maneira alguma tenho uma visão sonhadora da educação como redentora dos problemas nacionais, mas sem ela também os problemas não ficarão resolvidos. Se por um passe de mágica, num mundo globalizado o país se tornar demandante de capitais, como os Estados Unidos, como a Inglaterra, França, Itália, essas potências que mandam mais do que as demais, se por um passe de mágica o Brasil se tornar a nona potência, ainda assim os problemas prevalecerão. O problema do racismo, que é grave, que deriva em grande medida da escravidão, mas muito mais do que isso, de uma visão ariana, uma visão de uma estética, uma visão política em que se vê uma raça superior à outra. A Europa se digladiou na Segunda Guerra Mundial em torno disso, mas todas as guerras, de uma maneira geral, agora mesmo no final do século XX, são guerras étnicas, são guerras religiosas. A humanidade ainda é muito rudimentar no seu entendimento da possibilidade de convivência local, regional e global. O que o Edgar Morin disse e a Miriam está citando, e numa citação muito oportuna, ele disse numa palestra que fez aqui no Rio há três anos, no Instituto Cândido Mendes, quando falava sobre a ética em termos de incerteza. Ele começou a palestra usando um provérbio turco muito bonito que diz "As noites estão grávidas de dias que não sabemos como serão". Qual é o nosso papel como intelectuais, no caso dele, de intelectuais da ação prática, como os professores, principalmente os da educação básica, seja no sistema público ou privado? E aí eu faria um comentário ao que a nossa colega Eulália disse: em uma democracia tem que haver sistemas público e privado e ambos têm a mesma responsabilidade. Chamaria muito a atenção ao fato de que a nova LDB propõe diretrizes curriculares nacionais para todo sistema de ensino, tanto público quanto privado. Eu fui a relatora das diretrizes para educação infantil e para a educação fundamental e nós partimos da seguinte constatação, que é o que disse a Eulália: para onde a gente quer ir com as escolas; que país a gente quer, a partir de uma ação via escola, via educação escolarizada? A primeira diretriz curricular da educação básica propõe que as escolas nas suas propostas político-pedagógicas partam da definição de princípios éticos, e aí a gente ousou nomear alguns desses princípios bastante inspirados no Edgar Morin, príncipios da autonomia, que todos pensemos com a própria cabeça e que atuemos de maneira independente, mas sempre na perspectiva, como o professor Flexa coloca, da solidariedade. Nós não somos ilhas, nós somos muito mais um continente. A espécie humana só sobreviverá no momento em que ela entender que depende desses acordos e negociações. Então, princípios éticos, da autonomia, da solidariedade sempre, da opção pelo bem comum. Se há que fazer escolhas, que se olhe o bem para a maioria e que se faça opção pela ordem democrática. Por isso eu acho que é muito importante ter setores da educação privada atuando dentro de uma dimensão religiosa, política, filosófica, mas nehuma religião nesse país, nenhum partido político, nenhum quadro filosófico pode se sobrepor ao desejo maior da nação e da sua população pela ordem democrática, não há nada superior a definir um organismo chamado escola e sua equipe de trabalho e a relação entre equipe, direção, professores, alunos, famílias, que não seja através de princípios democráticos, onde haja uma hierarquia de poder, mas onde haja lei. E princípios estéticos também têm que reger a educação nacional, porque o ser humano e principalmente os jovens são pessoas que querem ser felizes. Para que viemos a esse planeta? Só para trabalhar? Não. Foi para usufruir da beleza deste planeta, da maravilhosa capacidade de criação artística, tecnológica, científica. Então, a questão da estética no ambiente da escola, a estética que pede sensibilidade dos professores, que pede uma pedagogia da sensibilidade, do reconhecimento e do acolhimento da diversidade étnica, da diversidade de gênero, da diversidade socio-econômica, cultural. Se nós voltarmos os olhos para este atual desdobramento da legislação brasileira, para a educação que parte da concepção de quem somos nós no Brasil, veremos um país diverso, ricamente diverso e tristemente desigual. Porque uma coisa é a diversidade, que é maravilhosa, e outra coisa é a desigualdade, o que nos faz injustos e excludentes, tanto dentro quanto fora da escola. Se nós, educadores, governantes, responsáveis pela vida da nossa cidade, nosso estado, nosso país, voltarmos os olhos para o que a gente quer, as transformações acontecem.

EULÁLIA PIMENTA - O professor Flexa destacou o seu pessimismo e eu, pelo contrário, vou pela via do otimismo. A cada dia que passa acredito mais na educação como um dos pontos fundamentais de transformação. Não só a educação, mas a família, que é o maior agente educador. Juntas, a escola e a família transformarão a sociedade sim. A questão da ética, que agora está tanto na mídia, vai ser despertada onde, se não na escola? Não é possível que um professor entre em sala de aula diariamente com aquele espírito de que nada mais tem jeito, porque o aluno absorve isso. Como educar sem esperança? A escola tem que ocupar o seu espaço como local de sonho, de esperança, para mudar a sociedade, e a curto prazo, porque ela tem a ciência e a tecnologia a seu favor. Já foi tempo em que se levavam séculos e décadas para que as coisas acontecessem. Hoje é tudo muito rápido, as coisas vão mais rápida do que imaginamos. Eu não consigo sair da minha casa, entrar no meu local de trabalho, se eu não tiver esperança, confiança de que isso realmente vai mudar. Tem uma frase de que eu gosto muito, que diz que para que o equilíbrio exista é preciso que o cidadão não olhe apenas seu próprio umbigo. E isso se aprende onde? Dentro de uma escola e ensinar isto é um papel de todos os educadores, sejam eles professores, pais ou educadores professores.

 
   
-> Educação: a necessidade de se criar novas metodologias
-> Uma fonte de pesquisa da realidade educacional do país
-> A importância da pesquisa para o setor educacional
-> Uma área estratégica para o crescimento econômico do país
-> Ampliar o espaço da cidadania, um desafio para a escola
-> Média de leitura baixa em comparação com outros países