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Ampliar o espaço da cidadania, um
desafio para a escola |
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DEBATE - O desafio de formar cidadãos,
além de simples estudantes, se impõe aos professores,
que tentam cumprir sua tarefa PROFISSIONAL em meio a centenas
de adversidades
As escolas brasileiras estão
atentas às necessidades de, além de ensinar
a ler, escrever e contar, compartilhar com seus alunos os
valores que formam um cidadão? Em sua geografia pedagógica
há espaço para tratar de conceitos abstratos
como cidadania e civismo? É nos pátios e nas
salas que se aprende que o sentido da vida é a felicidade?
Os professores - vítimas históricas das vicissitudes
políticas e administrativas -, sem dinheiro e atônitos
com os obstáculos a uma boa formação
continuada, estão preparados para elevar os olhos e
os sentimentos para além de seus conflitos pessoais?
Podem, com convicção e verdade, motivar seus
alunos e adverti-los de que são os principais agentes
das mudanças sociais? Que senão a erradicação,
pelo menos a redução das diferenças que
fazem que poucos tenham muito e muitos não tenham nada,
deve ser o sentido elementar dos anos de estudo, provas, provões,
boletins e prováveis castigos que lhes reserva a vida
acadêmica? Para debater pelo viés da Pedagogia
e, ocasionalmente, da Filosofia, estas que são a nosso
ver questões fundamentais da formação
humana, estiveram sentados à mesma mesa, a convite
da FOLHA DIRIGIDA, quatro educadores que têm feito do
ensinar a ser a sua razão de viver. A união
destes professores/pensadores resultou em instigantes pistas
para reflexão, pistas estas que reproduzimos a seguir:
FOLHA DIRIGIDA - Para a
legião de marginalizados do processo social cada dia
é um drama, de forma que a sociedade não pode
esperar os resultados de planos de longo prazo. No campo da
educação, quais medidas de emergência
podem ser adotadas para atenuar este quadro?
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Edgar
Flexa Ribeiro, diretor do Colégio Andrews, vice-presidente
do Sindicato das Escolas Particulares do Município
do Rio, membro do Conselho Estadual de Educação
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EDGAR FLEXA RIBEIRO
- Costuma-se atribuir muito à educação
o papel de resgatar, ou ajudar a superar o problema
da pauperização e sou muito pessimista
a respeito disso. Eu acho que a educação
por si só pode pouco em pouco tempo, pode muito
em muito tempo. Eu não acredito num processo
que consiga fazer superar de uma geração
para outra as desigualdades sociais. Acho que quanto
mais cedo se começa, mais cedo se chega, mas
é uma coisa que demora mais tempo. Acho que o
esforço que o Brasil está fazendo, de
universalizar o acesso à escola, já é
uma coisa muito significativa hoje. Eu me lembro da
década de 60, quando a situação
do Rio de Janeiro, então capital da República,
era dramática. Eram 100 mil crianças sem
escola.
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Ter conseguido universalizar
o ensino primário, como o Brasil fez ao longo de 40
anos, é uma coisa significativa, mas não há
a menor dúvida de que não só você
precisa de tempo, como a educação não
é o bastante, não é o suficiente. Outras
coisas poderiam ter sido feitas ao longo desses 40 anos que
estariam dando uma nova condição de vida ao
que se chama, hoje, legião de marginalizados. Nesse
sentido, a educação por si deu acesso à
escola. Não deu tudo que precisava dar, mas promoveu
um expressivo avanço e, no entanto, estamos vendo que
não foi suficiente.
FOLHA DIRIGIDA - E o que
deixou de ser feito? Na sua opinião, quais as causas
da existência de um número tão grande
de excluídos?
EDGAR FLEXA RIBEIRO - Pegue por exemplo a expansão
dos centros urbanos no Brasil. Isso não foi nenhum
acidente. Sabia-se que isso ia acontecer. A população
nesses 40 anos inverteu-se. Eram 30% nas cidades, 70% no campo;
hoje são 70% na cidade e 30% no campo. As cidades brasileiras
não se prepararam para este crescimento. Não
se prepararam em termos de transportes, não se prepararam
em termos de saneamento, não se prepararam em tudo
aquilo que cerca o ser humano e faz que deixe de ser marginalizado.
Não houve um plano de habitação que funcionasse,
não houve um plano de área que funcionasse,
não houve um plano de transporte de massa que funcionasse.
Congestionaram-se os centros urbanos, as megalópoles
se degradaram, as periferias se marginalizaram. Você
criou uma outra cultura paralela. E agora, o que a educação
vai fazer? O que a educação fez? A educação
fez um bom pedaço, mas não era suficiente. Nós
não somos uma sociedade solidária e isso ficou
demonstrado ao longo desses 40 anos. Nós geramos guetos
e esses guetos são enormes. É claro que toda
sociedade tem os seus guetos, mas eles não precisam
ser tão grandes, tão avassaladores. As políticas
de urbanização das periferias são chocantemente
falhas. Não é só um problema de educação,
é um problema de planejamento urbano, de compreensão
do fenômeno. A ocupação da Baixada Fluminense
ocorreu de 1950 para cá e 50 anos não é
nada em matéria de tempo histórico. Foi uma
monstruosidade o que se fez ali e não se fez de graça,
foi-se fazendo. E não era uma coisa que pudesse se
dizer que ninguém tinha consciência da forma
como foram ocupados os chamados loteamentos irregulares. Como
é que tudo aquilo começou ao longo das linhas
de trem, a ocupação desordenada sem nenhuma
assistência, sem nenhum socorro, sem nenhuma previsão.
Não houve saneamento, não houve uma política
de habitação consistente. Foram 40 anos jogados
no lixo. O Banco Nacional de Habitação foi criado
em 1965/66, começou a querer fazer, mas não
houve continuidade. Nós todos somos autores disso tudo.
Eu acho que ao longo desse processo eu vejo a educação
como algo que bem ou mal aconteceu, menos por vontade de quem
promoveu do que por pressão. As redes se expandiram,
bem ou mal as oportunidades se multiplicaram. Eu acho que
a educação não fez uma mau papel neste
sentido, o Brasil sim, fez um mau papel.
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Miriam
Paura Sabrosa Zippin Grinspun, professora da Faculdade
de Educação da Uerj, membro da Academia
Internacional de Educação |
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MIRIAM PAURA -
Eu acho que a pergunta nos leva a dois momentos de reflexão:
primeiro, quando se coloca a questão da legião
de marginalizados pressupõe já um contingente
inteiramente significativo que esteja fora da escola ou,
mesmo dentro da escola, não tenha aquele sucesso
alcançado. O outro é aqueles que estão
dentro da escola. Será que não estão
excluídos pelo próprio sistema das oportunidades
de uma educação que não corresponda
à realidade? Seja um enfoque ou seja outro, o que
a gente tem que pensar é que a educação
é uma prática social, portanto ela está
envolvida com os outros aspectos dessa sociedade. O grande
problema para mim hoje é que a escola tem um contingente
significativo de problemas sociais para serem resolvidos
que não são da competência dela. |
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Daí a questão,
sem entrar no mérito da discussão da bolsa-escola.
O que é isso? É para o aluno não faltar
à escola, para que a famíla seja "obrigada"
a mandar seu filho para a escola. Isso é um problema
social, não é um problema da escola. Assim como
não é problema da escola criar-se um grande refeitório
para dar alimentação, criar uma sala médica/odontológica
e uma série de problemas que cada vez mais a escola vem
tomando para si, porque o Estado, a sociedade, não tiveram
condições para resolver? Então, a legião
de marginalizados, no meu entender, é fruto deste momento
que nós vivemos. O Edgar Morin já fala que nós
vivemos uma sociedade extremamente complexa e é uma sociedade
que precisa estar voltada para dentro dela para saber quais
são as alternativas a curto prazo. Têm? Eu acho
que têm. Primeiro tem a questão da política
na educação. O grande problema da educação
brasileira é que ela é um ziguezague, quer dizer,
a cada novo governo começam novas propostas que se extinguem
quando acaba aquele governo e começa outro. Precisamos
de uma política que seja da educação, no
sentido de tentar ver, a médio prazo, quais as alternativas
possíveis. Num segundo momento, seria criar alternativas
dentro das escolas, em parcerias entre escola e comunidade.
Não dá hoje, principalmente na escola pública,
para passar por cima dos problemas sociais. Então, o
que eu acho que se podia fazer é tentar ver com a própria
comunidade quais são as possibilidades. Como é
que eu poderia abrir um maior número de matrículas
para aquela região; onde eu poderia localizar estes alunos;
quais são as igrejas, quais os espaços que me
permitem este tipo de trabalho? Isso, em termos de demanda.
A segunda, é uma questão da própria requalificação
do professor. Que ele possa ter um salário e que não
haja falta de professores. Quais são as políticas
para isso? E em terceiro, quais são as possibilidades
de uma atualização deste professor, de um ressignificado
dessa educação a partir deste momento que nós
vivemos? Eu não estou falando aqui de treinamento de
serviço, estou falando de uma melhor capacitação
do professor para ele entender isso sob a luz dos diferentes
aspectos que envolvem a questão da educação.
Concordo plenamente que não podemos mais esperar planos
a longo prazo. O que tem que ser feito é uma mobilização
em três áreas: a primeira é a sociedade,
a importância do seu papel junto à educação;
segundo, veicular junto com os elementos que mais ativamente
estão trabalhando nisso, as secretarias, as universidades
e outros órgãos, as possibilidades de uma educação
mais efetiva, no sentido de conseguir os seus objetivos e seus
resultados. E terceiro, um trabalho junto com os alunos, educando-os
por uma educação que não se alie apenas
à questão do conhecimento, mas principalmente
à formação da cidadania.
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Regina
de Assis, presidente da MultiRio, ex-secretária
municipal de Educação, membro do Conselho
Nacional de Educação
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REGINA DE ASSIS
- Eu acredito que o Brasil é um país que
desde sua origem foi extremamente desigual, é um
país onde infelizmente houve a escravidão,
foi o país do mundo onde a escravidão foi
abolida mais tarde. Isso deixou e continua deixando marcas
profundas no sentido não só da desigualdade
de situações socioeconômicas, mas
da situação dos cidadãos, vistos
de maneira discriminada pela cor da pele, pela origem
familiar etc. Isso ainda não foi superado e nós
registramos ainda essas profundas desigualdades, onde
atualmente 5% são detentores dos bens, serviços,
terras etc, num país com praticamente 160 milhões
de habitantes. É um país que ao longo desses
séculos ainda não conseguiu redemocratizar
de fato a sociedade, no seu sentido mais amplo, no sentido
de que a sociedade é pensada para todos e não
para alguns, onde todos têm que ser iguais perante
a lei. |
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Desde a origem, este foi um
país em que poucos foram donos e a maior parte sempre
foi empregada, sempre foi submetida à elite. Qual é
o papel da educação neste processo? A educação
pública, que é direito de todos, é direito
de cidadania, e a partir da nova Lei de Diretrizes e Bases,
que foi promulgada em 1996, nós vemos algumas coisas
muito auspiciosas no ensino fundamental. A educação
infantil, pela primeira vez na história da política
educacional deste país, engloba crianças de zero
a 6 anos, pela primeira vez ela é considerada parte inicial
da educação básica. Ela não é
obrigatória, mas é um direito das famílias
e das crianças e um dever do Estado. O ensino médio,
que compõe o quadro da educação básica
pelo que a lei prescreve gradualmente, se tornará obrigatório
também. Um outro aspecto, que já foi abordado
pelo professor Flexa e e pela professora Miriam, a questão
das desigualdades foi agravada pelo longo das décadas
e dos séculos pela falta de visão dos governantes.
Quando se governa, quando se tem um mandato, não se governa
para o imediato apenas, se governa para o imediato, mas para
o médio e para o longo prazo. Então, num país
com a riqueza do nosso em termos de diversidade cultural, de
recursos naturais, era mais do que esperado que os governantes
tivessem, como outros países menores ou de igual tamanho
que o nosso, de prever todo esse processo de industrialização,
o êxodo do campo para a cidade, a necessidade de se criarem
políticas agrárias que mantivessem as famílias
nas regiões rurais com recursos, o reconhecimento dos
direitos dos seus 200 povos indígenas. Desde que aqui
chegaram os portugueses, toda a política educacional
do país priorizou as elites. A escola pública
foi uma conquista já mais tardia da nação
brasileira. A professora Miriam faz menção a isto
com clareza: a política educacional nem sempre contempla
a qualidade, contempla a quantidade. Ao pensar na universalização
do direito à educação básica, educação
infantil, ensino fundamental e ensino médio, há
que se pensar no professor, na valorização do
profissional que tem a responsabilidade de trabalhar com estes
corações e mentes, constituindo conhecimentos
e valores indispensáveis à vida da criança,
do adolescente e jovem no presente, no curto e no médio
prazo. Assim como houve uma pauperização da população
em geral no Brasil, também houve uma pauperização
dos professores. Os professores deixaram de ganhar um salário
digno, deixaram de ter uma carreira atraente, passaram a ter
muita dificuldade de se manter como cidadãos. O professor
é um profissional que tem que ler, viajar, escrever,
ter acesso aos bens de cultura e isso durante muitas décadas
foi sendo destruído e alijado de seu alcance. Eu não
acredito que foi só para o professor, foi para toda a
população de profissionais do país, mas
em particular isso deixa uma marca extremamente perniciosa no
professor. Porque um profissional que não tem uma preparação
prévia e uma atualização em serviço
e condições de se tornar um cidadão e um
profissional cada vez mais sábio, mais experiente, mais
cidadão do mundo, com olhar para o seu país, para
sua localidade, para sua cidade, para o seu bairro, mas uma
pessoa que se vê como integrante deste planeta com toda
cultura que a inteligência humana tem criado, se ele não
tem a possibilidade do acesso, como é que ele abre estes
caminhos na escola? Mas eu não sou pessimista, porque
apesar de todo este quadro negativo de imprevisão dos
governantes e em grande medida de falta de participação
da sociedade brasileira cobrando seus direitos, ainda assim
eu encontro uma enorme qualidade nos professores, uma qualidade
humana de uma consciência ética e política
do seu papel na sociedade brasileira. Para mim os professores
são cidadãos de primeira classe, são profissionais
indispensáveis a um país que se redemocratiza
nesse lugar chamado escola, onde gerações e gerações
de jovens são introduzidas a uma cidadania plena e os
professores são realmente, como a gente costuma dizer,
os senhores e as senhoras da passagem de uma vida familiar,
bastante singela, mais localizada, para uma vida de plenitude
no âmbito da sociedade. São eles os intérpretes
da sociedade brasileira com todas as suas desigualdades, mas
também com um campo maravilhoso de possibilidades. Eu
não sou pessimista neste sentido, mas como professora
e como cidadã brasileira eu reclamo dos governantes que
cumpram as leis que são produto do esforço de
toda a sociedade e que nós sociedade também entendamos
que não cabe só ao governo este trabalho. A educação
brasileira, especialmente a educação pública,
só melhorará na medida em que os professores,
tendo atendidos os seus direitos, também coloquem em
funcionamento as suas responsabilidades e os seus deveres.
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Eulália
Pimenta Souza de Oliveira, professora de rede municipal
e particular de ensino, coordenadora do projeto Planeta
Azul da Fundação Mokiti Okada (FMO) |
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EULÁLIA PIMENTA
- Não estou querendo fugir da pergunta, mas quando
se falou em educação, em legião de
marginalizados, eu estava aqui pensando, ouvindo todos
os outros que já se colocaram e vou tentar fazer
uma comparação. Entendem-se por marginalizados
aqueles que vivem à margem da sociedade e foram
muito apontadas as questões dos governantes, das
responsabilidades, do compromisso, do passado que continua
presente nas dificuldades e o papel da escola nesse processo.
Mas só a escola pública aparece como vítima
deste processo. Por que só ela é questionada?
Educação é uma coisa muito ampla
e não exclui só a legião reconhecida
como marginalizada. Temos uma rede de escolas privadas
que também deve ser questionada quanto à
formação do elemento humano. Por quais escolas
nossos governantes passaram? Se queremos mudar, temos
que apontar todas as falhas. Todos somos reponsáveis,
independentemente de qual escola viemos. |
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Quando e como vamos ter uma
sociedade justa, com ensinos diferenciados? Formar cidadãos
é responsabilidade de toda escola. Se queremos uma
sociedade justa, isso tem que começar a ser despertado
fora e também dentro de todas as escolas, independentemente
do tipo de clientela que esteja sendo atendida. Se queremos
governantes justos e conscientes, temos que prepará-los
dentro da escola, não importa qual seja a escola, a
qual classe atenda. É dessa forma que nós vamos
conseguir realmente mudar este país. Estar na escola
não significa, necessariamente, que o cidadão
esteja incluído ou esteja sendo orientado sob valores
que façam dele um verdadeiro cidadão. Não
significa que, estando a criança na escola, nosso compromisso
acabou.
EDGAR FLEXA RIBEIRO
- Parece que estamos falando mais ou menos a mesma coisa de
diferentes maneiras. O negócio do marginalizado que
a professora Eulália levantou é muito curioso,
porque hoje você pode fazer a seguinte consideração:
quem é marginalizado aqui, a maioria ou a minoria?
Desde quando a minoria vai acusar o outro de ser marginalizado,
quando na verdade ela está marginalizada? Vira o jogo.
Quem é marginalizado aqui? Nós, que vamos para
as universidades e ocupamos as vagas gratuitas das universidades
públicas, que cursamos as boas escolas particulares?
Eles que são marginalizados ou somos nós? Parece
que o Brasil está vivendo um momento muito rico nesta
medida, porque na verdade, e a professora Regina colocou isso
muito bem, o problema está na natureza deste país.
O problema, a meu ver, se coloca no nosso processo de colonização
ainda não terminado. Nós hoje temos no país
uma metrópole cujo domínio coincide com o território
da colônia. Não há no Brasil uma sociedade
solidária, como eu havia falado, porque nós
temos uma sociedade de colonizadores e colonizados. Isto não
acabou. Todas as revoluções, todas as repúblicas,
todas as constituições, todas as leis de diretrizes
e bases, não conseguiram dar cabo deste enigma. Por
isso é que nós podemos nos tratar uns aos outros
de uma forma tão desleixada. Por isso que é
possível deixar tantos milhões de brasileiros
viverem em condições tão terríveis
como nós permitimos. Porque nós somos colonizadores,
eles são colonizados. Na verdade, o problema brasileiro
é muito grave e vou mais longe, acho que o problema
não é do Brasil. Hoje, com 500 anos do encontro
da América com a Europa, a gente pode chegar e dizer
que o sonho americano não deu certo, o sonho americano
está todo em crise. Do México à Patagônia
o sonho americano, que socorreu a Europa durante cinco séculos,
porque foram cinco séculos de inferno na Europa ocidental
e oriental, e aquela gente sobreviveu porque havia um novo
mundo para onde eles correram. Da Ucrânia a Portugal,
veio de todos os países gente para a América,
para tentar refazer a vida fora da tirania de monarquias que
desabavam, fora dos terrores, fora das pestes. Só se
educa aquilo que se tem. Nós estamos refletindo a situação
que existe entre nós. A reversão deste quadro
não vai ser pela educação. Seria necessário
que houvesse projetos institucionais, em que a gente pudesse
se sintonizar, mas acontece que nós temos elites e
nossas elites não têm mais valor. Nós
estamos vivendo uma crise de valores no mundo e uma crise
de valores das elites. Uma elite sem valor gera um povo sem
padrão. A elite perdeu os valores e o povo não
tem padrões para seguir. Nesse sentido que eu volto
ao início da conversa: esta elite sem valor está
marginalizada, porque está se construindo uma nova
forma de existir, diferente, e sabe Deus aonde vai parar,
mas que está acontecendo do lado de fora dessa elite,
porque marginalizada ela está.
MIRIAM PAURA - Eu tinha
pensado uma outra coisa, mas eu quero dar continuidade a esta
reflexão por dois caminhos. O primeiro, que vai mostrar
qual a importância dessa crise, que não é
mais a crise aqui, é mundial, principalmente neste
continente americano. A educação fica como a
salvadora da pátria, a responsável por trazer
nos seus ombros o revertério da situação,
o que é impossível. Isso é um processo,
demanda tempo, não é da noite para o dia que
se faz. Quero confirmar a importância da educação,
mas também lembrar como os aspectos econômicos
há algum tempo achavam que tinham primeiro que fazer
crescer o bolo para depois repartir, primeiro resolver o problema
social para depois resolver o da educação. É
óbvio que não é por aí. É
uma coisa concomitante e precisamos saber qual educação
aplicar neste momento. O segundo caminho que eu pego traz
as questões dos valores. Eu acho que bem ou mal a escola,
aqui entendida como aquela que produz uma educação
sistemática, dá conta das questões dos
conhecimentos, dos saberes e um pouquinho do saber fazer,
mas deixa muito a desejar quanto à questão dos
valores. E um povo se forma pelo conhecimento e pela cultura,
pelos valores que estão nela. Os valores, as crenças,
as idéias, os ritos, os mitos, o imaginário,
tudo isso faz parte da cultura, como diz Edgar Morin. E é
nessa questão dos valores que está o grande
problema, o grande eixo, não só dessa legião
de marginalizados, mas de todos que passam por este espaço
chamado escola.
REGINA DE ASSIS - Eu
discordo um tanto do professor Flexa, nem tanto da Miriam,
mas também um pouquinho. Embora eu entenda, junto com
a Miriam, que tem que haver uma sinergia entre ações
de governo e ações da sociedade brasileira,
eu entendo que isso só terá êxito se a
educação também for parte deste processo.
Eu de maneira alguma tenho uma visão sonhadora da educação
como redentora dos problemas nacionais, mas sem ela também
os problemas não ficarão resolvidos. Se por
um passe de mágica, num mundo globalizado o país
se tornar demandante de capitais, como os Estados Unidos,
como a Inglaterra, França, Itália, essas potências
que mandam mais do que as demais, se por um passe de mágica
o Brasil se tornar a nona potência, ainda assim os problemas
prevalecerão. O problema do racismo, que é grave,
que deriva em grande medida da escravidão, mas muito
mais do que isso, de uma visão ariana, uma visão
de uma estética, uma visão política em
que se vê uma raça superior à outra. A
Europa se digladiou na Segunda Guerra Mundial em torno disso,
mas todas as guerras, de uma maneira geral, agora mesmo no
final do século XX, são guerras étnicas,
são guerras religiosas. A humanidade ainda é
muito rudimentar no seu entendimento da possibilidade de convivência
local, regional e global. O que o Edgar Morin disse e a Miriam
está citando, e numa citação muito oportuna,
ele disse numa palestra que fez aqui no Rio há três
anos, no Instituto Cândido Mendes, quando falava sobre
a ética em termos de incerteza. Ele começou
a palestra usando um provérbio turco muito bonito que
diz "As noites estão grávidas de dias que
não sabemos como serão". Qual é
o nosso papel como intelectuais, no caso dele, de intelectuais
da ação prática, como os professores,
principalmente os da educação básica,
seja no sistema público ou privado? E aí eu
faria um comentário ao que a nossa colega Eulália
disse: em uma democracia tem que haver sistemas público
e privado e ambos têm a mesma responsabilidade. Chamaria
muito a atenção ao fato de que a nova LDB propõe
diretrizes curriculares nacionais para todo sistema de ensino,
tanto público quanto privado. Eu fui a relatora das
diretrizes para educação infantil e para a educação
fundamental e nós partimos da seguinte constatação,
que é o que disse a Eulália: para onde a gente
quer ir com as escolas; que país a gente quer, a partir
de uma ação via escola, via educação
escolarizada? A primeira diretriz curricular da educação
básica propõe que as escolas nas suas propostas
político-pedagógicas partam da definição
de princípios éticos, e aí a gente ousou
nomear alguns desses princípios bastante inspirados
no Edgar Morin, príncipios da autonomia, que todos
pensemos com a própria cabeça e que atuemos
de maneira independente, mas sempre na perspectiva, como o
professor Flexa coloca, da solidariedade. Nós não
somos ilhas, nós somos muito mais um continente. A
espécie humana só sobreviverá no momento
em que ela entender que depende desses acordos e negociações.
Então, princípios éticos, da autonomia,
da solidariedade sempre, da opção pelo bem comum.
Se há que fazer escolhas, que se olhe o bem para a
maioria e que se faça opção pela ordem
democrática. Por isso eu acho que é muito importante
ter setores da educação privada atuando dentro
de uma dimensão religiosa, política, filosófica,
mas nehuma religião nesse país, nenhum partido
político, nenhum quadro filosófico pode se sobrepor
ao desejo maior da nação e da sua população
pela ordem democrática, não há nada superior
a definir um organismo chamado escola e sua equipe de trabalho
e a relação entre equipe, direção,
professores, alunos, famílias, que não seja
através de princípios democráticos, onde
haja uma hierarquia de poder, mas onde haja lei. E princípios
estéticos também têm que reger a educação
nacional, porque o ser humano e principalmente os jovens são
pessoas que querem ser felizes. Para que viemos a esse planeta?
Só para trabalhar? Não. Foi para usufruir da
beleza deste planeta, da maravilhosa capacidade de criação
artística, tecnológica, científica. Então,
a questão da estética no ambiente da escola,
a estética que pede sensibilidade dos professores,
que pede uma pedagogia da sensibilidade, do reconhecimento
e do acolhimento da diversidade étnica, da diversidade
de gênero, da diversidade socio-econômica, cultural.
Se nós voltarmos os olhos para este atual desdobramento
da legislação brasileira, para a educação
que parte da concepção de quem somos nós
no Brasil, veremos um país diverso, ricamente diverso
e tristemente desigual. Porque uma coisa é a diversidade,
que é maravilhosa, e outra coisa é a desigualdade,
o que nos faz injustos e excludentes, tanto dentro quanto
fora da escola. Se nós, educadores, governantes, responsáveis
pela vida da nossa cidade, nosso estado, nosso país,
voltarmos os olhos para o que a gente quer, as transformações
acontecem.
EULÁLIA PIMENTA
- O professor Flexa destacou o seu pessimismo e eu, pelo contrário,
vou pela via do otimismo. A cada dia que passa acredito mais
na educação como um dos pontos fundamentais
de transformação. Não só a educação,
mas a família, que é o maior agente educador.
Juntas, a escola e a família transformarão a
sociedade sim. A questão da ética, que agora
está tanto na mídia, vai ser despertada onde,
se não na escola? Não é possível
que um professor entre em sala de aula diariamente com aquele
espírito de que nada mais tem jeito, porque o aluno
absorve isso. Como educar sem esperança? A escola tem
que ocupar o seu espaço como local de sonho, de esperança,
para mudar a sociedade, e a curto prazo, porque ela tem a
ciência e a tecnologia a seu favor. Já foi tempo
em que se levavam séculos e décadas para que
as coisas acontecessem. Hoje é tudo muito rápido,
as coisas vão mais rápida do que imaginamos.
Eu não consigo sair da minha casa, entrar no meu local
de trabalho, se eu não tiver esperança, confiança
de que isso realmente vai mudar. Tem uma frase de que eu gosto
muito, que diz que para que o equilíbrio exista é
preciso que o cidadão não olhe apenas seu próprio
umbigo. E isso se aprende onde? Dentro de uma escola e ensinar
isto é um papel de todos os educadores, sejam eles
professores, pais ou educadores professores.
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