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Uma nova educação
 
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  Média de leitura baixa em comparação a outros países  
  Evasão escolar, poucas bibliotecas e altos preços dos livros são alguns dos problemas que contribuem para que o hábito da leitura seja fato raro no Brasil  
  Arnaldo Niskier : "a leitura ajudará sempre qualquer pessoa a escrever melhor e falar melhor"  
 

A "obrigação de aprender a ler" é um dos primeiros e maiores obstáculos que fazem da leitura um hábito raro no Brasil, principalmente entre crianças de cinco e seis anos. A análise é do educador e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Arnaldo Niskier, que, em entrevista à FOLHA DIRIGIDA, tece duras críticas às quase inexistentes políticas educacionais, aponta alguns caminhos para melhoria e compara nossa realidade com a de países europeus. Para Arnaldo Niskier, a falta de bibliotecas, de prática ou conhecimento das técnicas de alfabetização, por parte dos professores, além da evasão escolar e dos altos preços dos livros, são alguns dos principais problemas que traduzem a média de leitura do brasileiro de dois livros por ano. O aumento da escolarização e a criação de iniciativas que incentivem a leitura são importantes na visão do professor, mas somente serão percebidas a médio e longo prazos.

 
 


FOLHA DIRIGIDA - O Brasil comemora a melhoria de alguns indicadores educacionais, como o aumento da escolarização na última década. No entanto, o número de leitores permanece praticamente o mesmo. Em quanto tempo será possível observar alguma mudança no índice de leitores com o aumento da escolarização?
Arnaldo Niskier
- Em Educação, os resultados são sentidos a médio e longo prazos. A estruturação do hábito de leitura passa, também, por esse processo. É importante que se desenvolva, nas crianças, desde os primeiros anos, o gosto pela leitura. Só haverá mudança no índice de leitores, isto é, só teremos mais pessoas lendo, independentemente da escolarização, quando o acesso ao livro e de mais meios for mais fácil (mais bibliotecas, preços menos elevados etc.).

FOLHA DIRIGIDA - Por que motivo os programas de incentivo à leitura, como “Hora da Leitura”, do Estado do Rio de Janeiro, e "Leitura na Escola", do MEC, nem sempre trazem os resultados desejados?
Arnaldo Niskier
- Inegavelmente, esses programas de incentivo à leitura consistem em um bom começo. Os resultados ainda não podem ser avaliados, pois aqueles projetos foram implementados há pouco tempo. Tenho certeza de que futuramente teremos os resultados desejados.

FOLHA DIRIGIDA - Dados indicam que a média de leitura dos brasileiros é de dois livros por ano, sendo um deles de cunho didático. Quais países apresentam média de leitura de livros por pessoa satisfatória?
Arnaldo Niskier
- Os países da Europa, em geral, apresentam uma média entre 8 e 10 livros per capita/ano.

FOLHA DIRIGIDA - Por que o brasileiro lê tão pouco?
Arnaldo Niskier
- A “obrigação de aprender a ler”, pois esta é a máxima indiscutível que faz parte do dia-a-dia das nossas crianças que completam 5, 6 anos, é o primeiro obstáculo. A falta de atendimento pré-escolar e a conseqüente dificuldade do domínio da leitura, professores sem prática ou conhecimento das técnicas de alfabetização, além das tão decantadas: evasão e distorção idade/série. Não se pode esquecer, também, que temos poucas bibliotecas públicas, temos poucas bibliotecas escolares, temos poucas bibliotecas de sala de aula e o alto preço dificulta o acesso do brasileiro ao livro, na minha opinião, ainda, o maior manancial da cultura.

FOLHA DIRIGIDA - O que é preciso fazer, efetivamente, para incentivar o hábito da leitura?
Arnaldo Niskier
- Resolver as situações citadas no item anterior.

FOLHA DIRIGIDA - O professor é considerado o agente dinamizador da leitura em sala de aula. A literatura faz parte dos currículos dos cursos de formação de professores?
Arnaldo Niskier
- Sim. Não só nos cursos de formação de professores, mas em todo o ensino médio.

FOLHA DIRIGIDA - Atualmente, o próprio mercado de trabalho valoriza quem fala, se comunica e escreve bem. Na sua avaliação, está havendo uma revalorização da importância da leitura?
Arnaldo Niskier
- Desejo que sim. A leitura ajudará sempre qualquer pessoa a escrever melhor e falar melhor.

FOLHA DIRIGIDA - Por causa de dificuldades econômicas, os acervos de muitas bibliotecas deixaram de ser atualizados. Com isso, muitas vezes, a visita à biblioteca pode tornar-se uma frustração para o estudante e a Internet surgir como a melhor alternativa. Qual a importância de desenvolver nos estudantes o gosto por freqüentar bibliotecas?
Arnaldo Niskier
- Em primeiro lugar incentivá-los a freqüentar as bibliotecas. Seja qual for o estado de uma biblioteca há sempre bons livros no seu acervo. Quanto ao estado dessas instituições depende, exclusivamente, de vontade política.

FOLHA DIRIGIDA - Quando ingressou no magistério e quais os educadores que mais o influenciaram?
Arnaldo Niskier
- Em 1952. Os educadores que mais me influenciaram foram Francisco Alcântara Gomes, Ney Cidade Palmeiro e Felipe Santos Reis.

FOLHA DIRIGIDA - Que contribuição a LDB trouxe para a melhoria do ensino?
Arnaldo Niskier
- É uma lei mais condensada e realista. Isto é, vai mais ao encontro das nossas necessidades. Já a sua antecessora (Lei nº5692/71) que apesar de muito bem redigida era totalmente utópica. Inexeqüível, até. Por exemplo: obrigava o ensino profissionalizante quando não tínhamos nem recursos materiais nem humanos.

FOLHA DIRIGIDA - Comente a iniciativa do MEC para a compra de 20 milhões de livros paradidáticos que irão “equipar” as bibliotecas das escolas públicas.
Arnaldo Niskier
- A compra de 20 milhões de livros paradidáticos é sempre oportuna. A escolha desses livros e a sua distribuição são pontos relevantes, que responderão mais tarde pelo resultado da iniciativa.

 
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