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Colégio de São Bento: formação humanista ultrapassa as cobranças do Enem


Foi com surpresa que a comunidade educacional do Rio de Janeiro recebeu as notas, por escola, do Exame Nacional do Ensino Médio de 2011 (Enem 2011), divulgadas pelo Ministério da Educação (MEC) no último dia 22. Sem computar a pontuação da redação e considerando somente escolas com o mínimo de dez alunos por turma e com participação de mais de 50% dos estudantes, os critérios adotados pelos MEC resultaram em uma queda expressiva das instituições de ensino fluminenses no ranking nacional do Enem.

Um dos casos mais gritantes foi o do Colégio de São Bento. Desde que o ranking foi criado, a instituição ocupou as primeiras posições da lista das melhores escolas. Nas edições do Enem de 2005, 2007, 2008 e 2010 obteve a liderança, o primeiro lugar. Em 2006 ocupou a segunda posição e, em 2009, o terceiro lugar. E agora, no Enem 2011, passou para a 10ª posição no ranking nacional. Mas continua na liderança do ranking das instituições do Estado do Rio de Janeiro.

Supervisora pedagógica do Colégio de São Bento, Maria Eliza Penna Firme Pedrosa explica que não houve mudanças no trabalho da instituição, e que o colégio se empenha em preparar os estudantes para o desafio do novo Enem. Para a educadora, o novo Enem tornou mais difícil o ingresso de seus alunos nas universidades públicas do Rio de Janeiro.

Para além da posição no ranking do Enem, o coordenador de ensino médio da instituição, Pedro de Araújo, observa que, ao longo dos últimos cinco anos, a pontuação dos melhores colégios do Rio de Janeiro — que nas primeiras edições lideravam o ranking do Enem — vem caindo. Para o educador, a curva decrescente é resultado da elevação do grau de dificuldade da prova, que serve como “vestibular” para a maior parte das instituições federais de ensino e várias instituições estaduais e municipais de todo o Brasil. 

Na entrevista, a dupla de educadores analisa os resultados do Enem 2011 e reafirma a proposta pedagógica da instituição de 154 anos que aceita somente estudantes do sexo masculino e tem entre os seus ex-alunos nomes como o maestro Heitor Villa-Lobos (1887-1959) e o comediante Hélio de La Peña.

“O Colégio de São Bento tem 154 anos, já viveu muitas modalidades de avaliação, de vestibular, tendências das mais variadas. Mas não abrimos mão de algumas tradições. A tradição da erudição, da cultura clássica, do conhecimento humanístico, das línguas, da literatura, da filosofia. Isso permanece porque vai muito além do Enem. É para formação do ser humano”, disse Maria Eliza Penna Firme Pedrosa.
 
FOLHA DIRIGIDA - O Colégio de São Bento caiu da 1ª para a 10ª posição no ranking do Enem 2011. Por que isso aconteceu?
Maria Eliza Penna Firme Pedrosa
- Acredito que outras escolas tenham trabalhado muito bem. Com relação ao nosso trabalho, não foi diferente. Toda vez que sai um resultado, temos o senso crítico de fazer um quadro comparativo: o que melhorou, o que piorou. Temos de considerar que a redação não foi computada. A redação sempre foi um diferencial no São Bento, tinha um peso maior. Se o colégio tivesse a redação computada, talvez ficasse em 4° ou 5° lugar. Não estaria muito deslocado das posições que costuma ocupar, entre os três ou quatro primeiros lugares. Muitas instituições estão vivendo a mesma situação; alguns saíram mais prejudicados, outros menos. Mas, hoje, fazer uma análise em relação ao trabalho do São Bento, e apontar se algo foi pior, não há como dizer isso. Ao contrário, temos sempre um olhar cuidadoso, cada vez mais, para fazer com que a aprendizagem e o aproveitamento dos alunos seja bem melhores. O novo Enem tornou muito mais difícil o ingresso nas universidades e, cada vez mais, temos que nos empenhar para que o aluno possa fazer suas escolhas. A preocupação é muito mais com a entrada do aluno na universidade do que o resultado no ranking do Enem. Um parâmetro muito bom para os nosso trabalho será o resultado de ingresso nos vestibulares. Esse é o cuidado que temos todos os anos.
 
A boa colocação de instituições de São Paulo e Minas Gerais revela que a adoção de um trabalho específico, pautado nesse modelo do TRI e com vistas a galgar colocações no ranking do Enem?
Maria Eliza Penna Firme Pedrosa
- Eu não posso afirmar algo que não conheço. Sei que muitas escolas se dedicam muito a preparar para o Enem: fazem muitos simulados durante o ano, cuidam muito do programa do Enem para preparar os alunos e os resultados provavelmente aparecem, de alguma maneira. São escolas que estão preocupadas com um bom resultado, preocupadas com um bom ensino, querem fazer um trabalho de qualidade, é louvável isso. Acho que se o Enem serve para que as escolas levem mais compromisso e se dediquem mais ao que é bom, então, seu resultado é muito importante. Não há como dizer porque uma escola está hoje no ranking e depois não está mais. Porém, nós temos algumas escolas que, de modo geral, permanecem nas 20 melhores posições. Observamos um trabalho regular. E, outros, esporadicamente aparecem. Esse é um resultado excelente para um quadro de 26 mil escolas. Não estamos falando de 100 escolas, estamos falando de 26 mil unidades de ensino.
Pedro de Araújo - Mais interessante do que ficar preso em apontar quais foram os cinco ou dez primeiros lugares é analisar aquelas instituições que sempre estão entre as melhores nesse ranking. Há um grupo, entre as dez melhores, que permanece nas melhores posições, com algumas oscilações de colocação: vão às vezes do segundo para o terceiro lugar, mas sempre estão ali. O primeiro lugar realmente não é uma posição confortável porque quando se vai para segundo ou terceiro lugar, as pessoas já perguntam: o que houve? Quando se está em décimo lugar e se passa para oitavo ou para o sétimo, as pessoas pensam: melhorou! Temos que olhar aqui quais foram as disciplinas em que nós perdemos pontuação para os outros colégios melhor classificados e ver o que precisamos fazer. Em educação não se pode fazer nada rapidamente, tudo é processo.
 
Uma das argumentações do MEC para a mudança nos critérios foi a busca da objetividade por meio da metodologia da Teoria de Resposta ao Item (TRI). A elaboração de um ranking nacional baseado em critérios estritamente objetivos pode levar as escolas, a longo prazo, a “adestrarem” seus alunos para o Enem?
Maria Eliza Penna Firme Pedrosa
- Precisamos separar duas questões: uma é que a questão pode ser objetiva, mas sua elaboração é complexa e vai depender do raciocínio do aluno e não de “adestramento” — o que seria utilizar apenas recursos da memória, como se fosse uma nova decoreba. As provas do Enem, até então, não têm característica de provas que busquem apenas memorização, mesmo sendo provas de múltipla escolha. São provas que exigem a correlação de fatos: avaliações inteligentes que fazem o aluno pensar. A objetividade que é colocada agora pelo MEC está muito mais ligada ao fato de ser certa ou errada a questão objetiva, não haver discussão. Quando o MEC diz que a prova da redação é subjetiva, sem dúvida, a redação sempre tem correção subjetiva. Mesmo que se faça uma grade de critérios de correção, com uma banca para tirar difirenças caso haja alguma discrepância. Mas não importa, essa banca tem de ser chancelada e autorizada para esse resultado. E essa nota da  redação vai ser levada em consideração para o ingresso do aluno na universidade: não será desprezada. É difícil entender essa argumentação. Aceitamos, mas é difícil entender.
 
A própria dinâmica do Enem, com 180 questões e uma redação, aplicadas em dois dias consecutivos de prova, não exige um preparo específico dos estudantes? No momento da prova, a otimização do tempo e a agilidade não se tornam fatores decisivos, especialmente para os jovens que buscam uma vaga no ensino superior?
Maria Eliza Penna Firme Pedrosa
- O estudante que vai fazer a prova do Enem deve estar preparado e ter habilidade para dar conta do tempo estipulado. O aluno pode, às vezes, ter um profundo conhecimento, mas se não tiver com um bom estado físico para a realização da prova, pode se prejudicar. Outros exames ou outras avaliações que ele possa fazer, como concursos públicos, por exemplo, também impõem limites de tempo. As  escolas trabalham com limite de tempo. E esse limite vai sendo graduado à medida em que o aluno vai crescendo, amadurecendo e se preparando para dar conta de apresentar seus conhecimentos dentro do limite de tempo. Isso é um condicionamento ou capacitação que o aluno desenvolve ao longo da escolaridade. Não adianta pegar um aluno que não está acostumado a fazer provas longas, elaboradas, provas com textos, e, em um ano, achar que ele está preparado para fazer essa prova. Isso é uma capacitação que ele adquire desde pequeno. Não abrimos mão de provas discursivas. Trabalhamos a construção do texto, a formação do pensamento do aluno. A escola precisa preparar os alunos para esse desafio: em um tempo determinado tempo, dar conta daquele conteúdo. A adoção da prova de múltipla escolha, para nós, é uma perda realmente. Em termos de vestibular, o da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por exemplo, era o nosso carro-chefe. Essa era uma forma muito melhor de o aluno apresentar seus conhecimentos pois o vestibulando tinha liberdade para se expressar, criar, construir, colocar sua proposta dentro da resposta.
Pedro de Araújo - O Enem trabalha com um modelo que vai avaliar o Brasil inteiro. É difícil. Mas o modelo que considero mais interessante, hoje, é o adotado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). No Rio, atualmente, temos apenas o Enem, o vestibular da Uerj e o da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). A Uerj aplica o primeiro Exame de Qualificação, o segundo Exame de Qualificação e provas específicas com redação, na segunda fase. Desse modo, é possível avaliar o aluno como um todo. Entendo que, em termos de Brasil, seja difícil adotar um modelo assim, mas com o modelo da Uerj é possível aferir, muito bem, se o aluno domina todo o conteúdo e todas as técnicas. O modelo da Uerj e o antigo modelo da UFRJ têm condições de avaliar melhor os alunos. Em seu vestibular, a PUC-Rio também mescla esse modelo de provas objetivas e discursivas. No Enem, o tempo é muito curto. Há uma média de três minutos para fazer cada questão. É um processo muito estressante para o aluno.
 
A senhora acredita que o novo Enem tornou mais difícil o ingresso no ensino superior? A aplicação das cotas a partir de 2013 tornará a disputa ainda mais acirrada?
Maria Eliza Penna Firme Pedrosa
- Regionalmente ficou pior. O aluno do Rio, hoje, não concorre mais apenas com alunos do seu estado. Concorre com o Brasil, com candidatos que desejam vir para o Rio de Janeiro, que são muitos. Há alunos que desejam sair de suas localidades onde há menos recursos. Há os que vêm para o Rio pois a opção de cursos que querem fazer está aqui. Com essa facilidade do Enem, de simplificar o ingresso do aluno para qualquer universidade do país, as chances locais são muito menores.
Pedro de Araújo - No curso de Medicina da UFRJ, por exemplo, talvez tenham ingressado apenas um cinco estudantes do Rio de Janeiro. Os nossos vizinhos geralmente querem vir para o Rio de Janeiro. E nós não queremos ir estudar em São Paulo, Minas Gerais. Há uma tendência muito forte de os alunos escolherem o Rio de Janeiro, que está na moda, em função dos grandes eventos.
 
Há algum levantamento, desde de que esse novo modelo do Enem foi adotado, se houve mudança no ingresso dos estudantes do São Bento nas universidades?
Maria Eliza Penna Firme Pedrosa
- Houve. No ano passado, especialmente, nós sentimos essa mudança. Percebemos um número menor de alunos ingressando nas universidades. Costumávamos ficar na faixa de 90 a 92% de aprovação. Acredito que caimos uns 10%. Isso se deve ao fato de alunos de outros estados estarem na disputa por vagas nas instituições do Rio de Janeiro.
Pedro de Araújo - A pontuação dos melhores colégios do Rio de Janeiro está caindo. A curva é decrescente. A pontuação, que era alta, começa a cair no Enem. A pontuação do Enem nos últimos cinco anos vem caindo. As melhores instituições são as mesmas, mas o grau dos alunos cai. A dificuldade da prova com o novo Enem aumentou.
 
Neste ano, os dados do Ideb, outro ranking elaborado pelo MEC, indicaram que o Ideb da rede privada do Rio de Janeiro não atingiu as metas estabelecidas pelo MEC. A senhora acredita que existe uma queda na qualidade de ensino da rede privada do Rio de Janeiro? Por quê?
Pedro de Araújo
- O MEC trabalha para igualar a média das redes pública e particular. Isso é algo difícil de acontecer, mas o  MEC informou que pretende desenvolver ações para chegar lá. As notas do Enem estão caindo pois as provas estão mais difíceis. Mas as escolas particulares ainda têm uma nota alta e estão bem à frente da rede pública.
Maria Eliza Penna Firme Pedrosa - Esse dados do Ideb são critérios para os quais, talvez, algumas escolas não estejam atentas. Mas em resultado direto, absoluto, as médias das escolas privadas ainda são maiores do que as das escolas públicas. Quem dera que as escolas públicas tivessem com uma qualidade maior do que as privadas. O objetivo é dar a educação básica de qualidade. Essa deve ser a maior preocupação no Brasil. No próprio o Enem, mesmo que haja um movimento conjunto de queda — a prova está ficando mais difícil,  complexa e elaborada ano a ano —, o resultado das escolas particulares ainda é melhor do que as públicas. Com exceção de instituições públicas que fazem seleção e têm uma clientela diferenciada, as escolas públicas ainda têm o resultado menor do que as escolas privadas.
 
A proposta pedagógica do Colégio de São Bento, que prega uma formação integral e religiosa, permanece? Qual a pertinência de uma proposta como esta, nos dias de hoje?
Maria Eliza Penna Firme Pedrosa
- O Colégio de São Bento tem 154 anos, já viveu muitas modalidades de avaliação, de vestibular, tendências das mais variadas. Mas não abrimos mão de algumas tradições. A tradição da erudição, da cultura clássica, do conhecimento humanístico, das línguas, da literatura, da filosofia. Isso permanece porque vai muito além do Enem. É para formação do ser humano. Poder identificar um pintor, uma tendência de arte, é algo que se leva para a vida e não apenas para o Enem. Disso não iremos abrir mão. Essa formação ampla trabalha indiretamente o desenvolvimento de muitas competências. O aluno amplia seu conhecimento, faz correlações. Quantos conteúdos estão incluídos quando o aluno estuda cultura clássica, entende o legado dos gregos e traz isso para a sua realidade atual, estudando sociologia e filosofia, porque todos esses conhecimentos estão entrelaçados. O Enem é uma consequência dessa formação, que não começa no ensino médio, mas sim no fundamental. A formação do aluno não pode começar no ensino médio. Por isso, devemos investir nas crianças, na formação básica,, valorizando a leitura e o contato com o conhecimento, com a informação. Hoje, vivemos essa estimulação visual, eletrônica, com mudanças muito rápidas. As escolas não podem cair nessa tentação. O Enem pode estar caminhando para uma modalidade diferente. Não vamos deixar de preparar o nosso aluno para este novo desafio, mas não vamos fazer aquilo em que não acreditamos. O colégio existe para abrir as portas para o conhecimento, que é ilimitado. Ao mesmo tempo em que precisamos estar atentos às novas tendências e às novas tecnologias, estar atualizados, temos o nosso o pé fincado na tradição do Humanismo Clássico.
Pedro de Araújo - O Enem é passageiro. Já passamos pelo Vestibular Unificado da Cesgranrio; passamos pelos vestibulares isolados e discursivos das universidades aqui do Rio e, agora, existe esse modelo do novo Enem. Preparamos os nossos alunos, mas permanecemos fiéis à nossa proposta.
 
E já existe previsão para o ingresso de meninas no São Bento?
Maria Eliza Penna Firme Pedrosa - Não. Ainda não discutimos esse assunto.
 

Por: Tainara Silva - [email protected]
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