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Enem por região teria menor risco, dizem educadores


Em 2011, mais uma vez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) apresentou problemas operacionais. Depois da primeira edição, quando a prova foi roubada, e da segunda, onde ocorreram problemas com a impressão de milhares de exemplares, dessa vez, 14 questões foram aplicadas em um simulado, às vésperas da realização do exame.

Diante de mais uma edição marcada por incidentes de natureza operacional, fica a pergunta: o que fazer para que o Enem, nas próximas edições, ocorra sem problemas e possa, definitivamente, gozar da credibilidade dos vestibulandos. Para três professores com experiência em processos seletivos para ingresso em universidades, a principal medida deveria ser regionalizar a aplicação do exame. Dessa forma, seria possível ter um controle maior dos riscos que envolvem uma prova da dimensão do Enem.

“Já que o Inep afirma dispor de um mecanismo que possibilita criar quantas provas desejarem com mesmo grau de dificuldade, porque não realizar uma prova para o Norte, outra para o Nordeste, outra para o Sudeste, a assim por diante?”, defende o professor Paulo Armando Areal, diretor do Colégio Pentágono, de Vila Valqueire.

A professora Leila Schiesari, da Rede MV1 de Ensino, também se mostrou favorável à realização de edições regionais. “O Enem é de uma grandiosidade absurda. É muito difícil ter condições de aplicar com 100% de eficiência uma prova que envolve mais de 5 milhões de candidatos e que possui mais de 100 mil pessoas envolvidas na sua operacionalização.”

O professor Victor Notrica, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Rio (Sinepe-Rio), tem uma posição mais radical. Para ele, o melhor seria as instituições realizarem seus próprios processos seletivos. “Penso que os vestibulares isolados deveriam ser retomados ou que houvesse uma seleção unificada dentro de cada estado, como é o caso da Fuvest”, argumentou o educador.


Victor Notrica
Presidente do Sinepe-Rio
“Penso que os vestibulares isolados deveriam ser retomados ou que houvesse uma seleção unificada dentro de cada estado, como é o caso da Fuvest. Uma das críticas que faço ao Enem é que o exame fere o princípio Federativo, tira a autonomia das universidade de cada estado. A ideia do Enem é simplesmente homogeneizar a seleção e impedir que a instituição defina o perfil de aluno que pretende receber. Uma universidade do Amazonas deve ensinar da mesma forma que uma instituição de São Paulo ou do Rio de Janeiro?

Além disso, um exame criado para avaliar e montar um panorama do ensino médio no Brasil não tem capacidade para servir como meio de seleção para as principais universidades do país. Os organizadores afirmam que a principal proposta do Enem é avaliar competências do aluno e não o conhecimento. Mas que habilidades são essas? A pessoa com essas competências não deveria também dominar o conteúdo?

Por fim, em relação à polêmica desse ano, acho que o Enem deveria ser anulado para todo o Brasil, pois a invalidação das questões vazadas apenas para os alunos do Colégio Christus fere o princípio da isonomia. A prova é aplicada em mais de mil lugares, acho difícil que haja estrutura para evitar problemas como esses.”

Paulo Armando Areal
Diretor do Colégio Pentágono
“Mais uma vez me entristeço, pois torço pelo sucesso do Enem como instrumento de acesso à universidade. Entretanto, em um país de dimensões continentais como o nosso, é muito difícil que não ocorram, a cada ano, independentemente da boa ou má organização, episódios como esses.

Sou favorável a provas regionais. Já que o Inep afirma dispor de um mecanismo que possibilita criar quantas provas desejarem com mesmo grau de dificuldade, porque não realizar uma prova para o Norte, outra para o Nordeste, outra para o Sudeste, a assim por diante? Uma ação nessa linha certamente diminuiria riscos de quebra de sigilo, por exemplo.

Do ponto de vista acadêmico, o trabalho que o Enem desenvolve, do ponto de vista pedagógico, não deixa a desejar. E com relação ao episódio desse ano, creio que a prova para todos os candidatos seria até um pouco de egoísmo. Sabemos como é oneroso um exame como esse para 5 milhões de candidatos.

Mas acho que realmente a solução de anular para só os alunos daquele colégio ficou restrita demais. Talvez fosse mais recomendado anular para os candidatos do Ceará ou, pelo menos, para os de Fortaleza. Quem me garante que as questões não foram vistas por colegas dos alunos do Colégio Chistus?”

Leila Schiesari
Rede MV1 de Ensino
"A meu ver, regionalização pode ser uma solução para que o Enem não enfrente tantos problemas. O Enem é de uma grandiosidade absurda. O país muito grande. Então, é muito difícil ter condições de aplicar com 100% de eficiência uma prova que envolve mais de 5 milhões de candidatos e que possui mais de 100 mil pessoas envolvidas na sua operacionalização.

É muito diferente de fazer uma prova de vestibular com 50 mil ou 60 mil inscritos. A própria dimensão territorial dificulta. A regionalização minimizaria os riscos mas não sei se resolveria. E é fundamental encontrar uma solução pois o Enem vem se tornando o único instrumento de para ingresso do aluno na graduação.

Pode ter a certeza de que todos esses problemas com a prova têm gerado uma insegurança e uma falta de credibilidade muito grande entre os alunos. Do ponto de vista pedagógico, a meu ver, a prova é muito bem elaborada, absolutamente atrativa, apesar de cansativa. O aluno já enfrenta o Enem sabendo que trata-se de uma prova mais de resistência psicológica e física do que conteudista.

É uma prova contemporânea, de leitura agradável, mas temos de reconhecer que é um cansaço muito grande. E o pior é, depois de enfrentar uma prova cansativa como essa, o aluno conferir o gabarito, ver que teve uma boa produção, ficar feliz com seu desempenho para, depois, vir dúvida sobre se ele vai ter de enfrentar isso outra vez."
 

Por: Diego Da - [email protected]
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