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A dinâmica de grupo como prática pedagógica


Cada vez mais, os especialistas defendem que o processo de ensino/aprendizagem precisa abrir mais espaço para o desenvolvimento de atitudes essenciais para a vida profissional. E uma das mais citadas, nesta linha, é a capacidade de trabalhar em equipe.

E a educadora Edigleide Rabelo propõe uma estratégia ousada para atingir este objetivo: utilizar, em sala de aula, a dinâmica de grupo, estratégia bastante comum na seleção de profissionais no mundo corporativo. Em seu livro Maneiras criativas de ensinar - dinâmicas de grupo e jogos cooperativos para ensino fundamental I e II (Editora WAK), ela explica como esta e outras práticas podem ser incorporadas pedagogicamente na educação básica.

Segundo ela, este tipo de prática contribui para fortalecer outras habilidades importantes, como  o desenvolvimento das relações interpessoais e o autoconhecimento. Edigleide, que também é especialista em Gestão Educacional e Gestão de Recursos Humanos, apresenta algumas das vantagens de se trabalhar com a dinâmica em aula.

“Contribuirá para que tenhamos melhores oradores, pessoas com maior capacidade de elaboração e levantamento de hipóteses”, destacou a educadora, que, nesta entrevista, também fala sobre que tipo de informações uma dinâmica de grupo pode trazer para os professores, quais atividades podem tornar o ensino mais interessante para os alunos, o papel dos professores para diversificar as práticas pedagógicas e como, apesar dos extensos currículos, é possível diversificar o trabalho educacional nas instituições de ensino.

FOLHA DIRIGIDA — As dinâmicas de grupo são muito comuns nos processos seletivos para empresas. Mas, e na educação: como ela pode ser usada para melhorar o ensino?
Edigleide Rabelo — Como ferramenta de extrema importância para estabelecer uma melhor interação e relação de confiança entre professor e aluno, já que esta interfere na aprendizagem. Ao utilizar as dinâmicas de grupo: de apresentação, de aprendizado e de recreação, o professor estará oportunizando a criação de um clima favorável à integração, aproximação, resultando em maiores oportunidades de aprendizagens significativas. Isso acontece porque a ludicidade é uma necessidade para a criança. O professor precisa tornar-se criativo, aproveitando a vida que se apresenta em cada momento como matéria bruta pronta para ser lapidada e validada por uma educação alegre, viva, lúdica e inovadora, pois o ensino por meio do exemplo, de vivências, é rápido e eficaz.

Em que a dinâmica de grupo de sala de aula se assemelha e se diferencia às dinâmicas realizadas para selecionar profissionais em empresas?
Assemelham-se na capacidade de aproximar, integrar, reconhecer habilidades, atitudes, conhecimentos, descontrair, proporcionar reflexões valiosas através do CAV - Ciclo de Aprendizagem Vivencial. Pouco tem se trabalhado nas salas de aula, as dinâmicas com foco no desenvolvimento das relações interpessoais, da busca pelo autoconhecimento e da capacidade de se trabalhar em equipe, compreendendo de fato, o valor do bem comum, da liberdade de expressão, da participação, da inovação. É na sala de aula onde enfrentamos conflitos que certamente seriam minimizados se desde pequenos os alunos e todos os profissionais da escola viessem estabelecendo, no âmbito escolar o investimento no fortalecimento destes relacionamentos, onde o aluno e cada profissional são visto com ser que tem necessidades e que necessita conviver, ser, aprender e fazer.

Que contribuição o desenvolvimento da capacidade de trabalhar em público pode trazer para um estudante, principalmente do ensino fundamental?
Maior segurança, elevação da autoestima, capacidade de inovar e de desenvolver o senso crítico. Contribuirá para que tenhamos melhores oradores, pessoas com maior capacidade de elaboração e levantamento de hipóteses. Possibilitará que os alunos desenvolvam a capacidade de trabalhar em público, garantindo-lhes a oportunidade de pensar, de escolher, de sentir prazer e de encarar situações diversas, que farão deles, no futuro, pessoas mais preparadas para a vida.

Frequentemente, os professores realizam trabalhos em grupo com seus alunos. A dinâmica de grupo, aplicada ao contexto da sala de aula, vai além? Por que?
Vai além, sim. Porque se observarmos bem, na maioria das vezes que o professor solicita um trabalho em grupo, os alunos já tem seu grupo estabelecido ou a minoria que o forma interessa-se em realizar a atividade. Trabalhar com dinâmica de grupo, de acordo com o objetivo a ser atingido, pode desenvolver a capacidade de compreensão de que cada um dos participantes é importante e que podem somar para o alcance do objetivo comum proposto, sendo este trabalho feito de forma coletiva.

Que tipo de informações sobre os alunos uma dinâmica de grupo, em sala de aula, pode trazer para o professor?
O professor poderá conhecer melhor o aluno, suas necessidades e especificidades; potencializar avanços com base nas experiências já vivenciadas. As informações e hipóteses obtidas após a realização das dinâmicas podem servir para o professor reavaliar seu planejamento, a forma como cada aluno reage a determinados comandos e/ou situações. Pode também gerar uma relação de confiança e respeito em que o aluno poderá, de fato, apresentar seu verdadeiro mundo. E a aceitação, o amor e a valorização que o professor demonstrará a ele serão decisivos.

Além da dinâmica, que tipo de atividades poderiam ser adotadas pelo professor para desenvolver, nos alunos, a capacidade de trabalharem em grupo?
O importante é compreender a motivação de se trabalhar em grupo. Utilizar jogos cooperativos é uma excelente oportunidade de ensinar o princípio da coletividade. Possibilitar que os alunos criem revistas, participem de apresentações e projetos que ultrapassem os muros da escola são sempre muito aceitos pelos estudantes, independente da idade, desde que os temas sejam de interesse do grupo.

A senhora é autora do livro Maneiras Criativas de Ensinar: dinâmicas de grupo e jogos cooperativos para o ensino fundamental. Que tipo de jogos cooperativos os professores poderiam utilizar?
Partindo do consenso de que todos nós almejamos mudanças significativas no cotidiano escolar, cabe a nós, professores, proporcionar aos alunos  condições  e um clima onde o jogo possa ter a finalidade de educar, divertir, desenvolver habilidades específicas, despertar a consciência para a busca do bem comum e reforçar a prática de suas virtudes , praticando a ética. Proponho que desde a educação infantil os jogos cooperativos sejam adotados, disseminando a cultura do cooperativismo.
No livro poderão conhecer os jogos: Jogo da Velha Cooperativo; Ortografia e Advinhação; Enigma; Jogo do Hexágono; Jogo dos Triângulos; Ritmo; Qual é o Próximo?  e Jogos de Mesa.

Nas escolas, é comum a reclamação dos professores em relação à sobrecarga de matérias que precisam ensinar. O professor tem condições de aplicar recursos como dinâmicas de grupo e jogos cooperativos, com a obrigação de trabalhar um currículo tão vasto?
Certamente. A proposta é adequar as dinâmicas de grupo e jogos cooperativos ao currículo existente. E mesmo quando o professor desejar realizar um jogo ou uma dinâmica de grupo que não necessariamente trabalhe conteúdos, se a finalidade for resolução de conflitos, fortalecimento das relações interpessoais, descontração, o retorno após a realização da mesma será benéfico para dar continuidade ao que fora planejado. Muitas vezes queremos resultados diferentes fazendo as coisas do mesmo jeito. O aluno aprende mais rápido quando há inovação no processo de ensino.

Seria necessário rever o tamanho do currículo oficial, para abrir espaço para atividades mais criativas e diversificadas dos professores, para o ensino? A senhora considera que o currículo do ensino fundamental é extenso demais?
O vasto currículo muitas vezes acomoda e impede o professor de enxergar alternativas para a realização de um trabalho diferenciado. Entretanto, a utilização de atividades criativas e diversificadas não está diretamente relacionada ao tamanho do currículo, mas à adequação das atividades propostas para vivenciar os conteúdos. A postura do professor é decisiva, especialmente no que se refere a conteúdos procedimentais e atitudinais. O professor tradicional foca apenas o conteúdo do currículo, sem promover formas diversificadas para a garantia da aprendizagem.

Como melhorar as relações interpessoais e tornar o ensino mais interessante, mais próximo da realidade?
Buscando o autoconhecimento. O professor jamais dará algo ao aluno sem que o tenha. Ele precisa estar bem para desenvolver um bom relacionamento; ele precisa sentir-se valorizado para valorizar o seu aluno, enfim, investindo verdadeiramente nos relacionamentos, importando-se com as pessoas estaremos melhorando nossas relações interpessoais. Para tornar o ensino interessante, o professor precisa mais que dominar o assunto, precisa conhecer a linguagem da sua turma, precisa instigar a curiosidade, a oportunidade de questionar, descobrir, criar e a construir de fato conhecimentos que sejam capazes de promover transformações. É um trabalho de pesquisa também para o professor. Ele precisa antes de trabalhar com os alunos, ter encontrado a utilidade e a motivação para cada conteúdo trabalhado.

Qual o papel do professor para motivar os alunos, na escola? O que é fundamental para atingir este objetivo?
Estimular seus alunos a aprender a aprender e contribuir de forma marcante para que aprendam a ser e a conviver, pois só assim, construirão aprendizagens significativas, podendo colocá-las em prática. O desafio é criar condições adequadas para que haja aprendizagem em cada situação vivenciada. O aluno precisa compreender que o conhecimento é importante para seu crescimento. Para que esta finalidade seja alcançada é necessário acreditar que educar é mais que fazer repetidores, é proporcionar a formação de pessoas capazes de criar soluções novas para os problemas; é contribuir para que os alunos formulem perguntas e busquem respostas na escola e na vida.

Além da utilização de dinâmicas de grupo e jogos cooperativos, que sugestões a senhora daria para um professor tornar suas aulas mais interessantes?
Oferecendo condições para que os alunos expressem e construam aprendizagens utilizando: teatro;  música; pesquisa virtual; pesquisa de campo; aula de campo; construção e desenvolvimento de projetos  interdisciplinares; organização de Feiras Científicas; organização de Feiras Culturais; intercâmbio com outros colégios da mesma série, para troca de experiências acerca de um tema específico; realização de mesa redonda; realização de experiências; apresentação de simpósios; realização de  conferências; organização de seminários, enfim, tudo em que o aluno esteja interessado e o professor conquiste-o para esta finalidade.

Por: Diego Da - [email protected]
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