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A escola do século XXI


O surgimento e popularização das novas mídias revolucionou não só a convivência entre as pessoas. Estes recursos têm lançado novos paradigmas sobre o ensino nas escolas. Afinal, a tendência é que as tecnologias façam, cada vez mais, parte do dia a dia da atual e das próximas gerações. Com isso, não há como dissociá-las do processo de ensino.

A principal questão que se apresenta, hoje, para os educadores, é como utilizar os recursos tecnológicos de maneira eficiente, do ponto de vista pedagógico. É sobre este, entre outros temas, que fala, nesta entrevista, o professor Marcus Garcia que, ao lado da professora Maria do Carmo Duarte Freitas, criou a coleção “A Escola no Século XXI”.

Com formação na área de Educação e Tecnologia da Informação, o professor Marcus Garcia leciona há 30 anos e é palestrante há 15. Possui mestrado em Ciência, Gestão e Tecnologia da Informação pela Universidade Federal do Paraná e graduação em Pedagogia.
 
Um dos conceitos que ele apresenta é o da convergência de mídias. Segundo o educador, é necessário promover a interação entre as mídias existentes, que vão veículos de comunicação, como sites e jornais, passando por aparelhos como televisão, até os “gadgets”, como celulares e reprodutores de MP3. De acordo com o especialista, a possibilidade de combinar as ferramentas da era digital, entre elas, a fotografia, o vídeo, o áudio e a animação, acaba por caracterizar o conceito de convergência de mídias – ou multimídia – como o grande mote da construção de projetos escolares de hoje. Ele também destaca o papel que as redes sociais podem ter no processo educacional.

“O mesmo papel que as ‘redes sociais reais’ desempenharam até hoje: propiciar a troca de informações e a comunicação em rede. Cabe à escola e seus educadores orientarem o melhor uso deste importante mecanismo de comunicação para propiciar a troca de experiências”, destaca o especialista.
 
FOLHA DIRIGIDA — O senhor organizou a série de livros A Escola No Século XXI. Pode nos falar um pouco sobre este trabalho e sobre como imagina a escola do futuro?
Marcus Garcia - A série de livros “A Escola no Século XXI” foi organizada por mim e pela dourora Maria do Carmo Duarte Freitas. É o resultado da produção em colaboração de 39 professores, pesquisadores e educadores brasileiros das áreas da educação, tecnologia da informação e tecnologia. Inclusive, esta produção só foi possível com o uso articulado e coordenado da Internet como meio, pois devido à dimensão continental do Brasil, a reunião e compartilhamento de ideias dentro deste grande time com pessoas localizadas nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Pernambuco, Ceará e Distrito Federal, inviabilizaria o projeto. O conceito por trás da organização da obra é o da práxis, ou seja, procuramos trazer fundamentos de sustentação em teorias que foram aplicadas em sala de aula, e também o relato desta aplicação no formato de casos reais, desenvolvidos pelos próprios autores em suas realidades locais. O compartilhamento estruturado que fazemos destas experiências e os resultados obtidos podem apoiar o trabalho pedagógico e a prática didática para o aprimoramento do processo ensino-aprendizagem com o uso de tecnologias emergentes da informação e da comunicação. Sobre a escola do futuro, eu imagino que, possivelmente será mais contemplativa, comunicacional, interpretativa e voltada a projetos colaborativos, e menos focada em conteúdo, avaliação de conteúdo e trabalhos isolados. Isto deverá se sustentar, cada vez mais, na evolução natural da sociedade humana, suas estruturas de comunicação e trocas de informações, na necessidade urgente de preservar uma quantidade cada vez maior de saberes e na integração prática dos saberes às necessidades latentes para a vida das pessoas em sociedade.
 
Há muito especialistas destacam que o uso das tecnologias pode dinamizar e melhorar o ensino nas escolas. O que falta para isto, efetivamente, acontecer?
Desde o advento da prensa de tipos móveis ou imprensa, passando pelas máquinas a vapor, eletricidade, telégrafo, telefone, rádio, televisão, computadores, smartphones, tablets, computadores de vestir, entre outros, as tecnologias sempre permitiram dinamizar e melhorar o ensino nas escolas e fora delas. O que falta sempre é o alinhamento do descompasso entre a evolução da tecnologia de consumo e seu efetivo uso para fins didático e pedagógico. A escola e o ensino estão sempre um passo atrás. Mas é assim que sempre aconteceu na evolução da sociedade humana: as inovações surgem e começam a permear o dia a dia das pessoas e, depois que aquilo que se firma como algo bom e útil - não necessariamente as duas coisas, acaba sendo incorporado nos meios escolares.
 
Como o senhor imagina uma sala de aula daqui a 20 anos? Qual será a principal característica dela: os recursos tecnológicos modernos ou o comportamento dos alunos e professores?
Imagino que em 2033, a grande discussão será sobre a adoção nas escolas de pulseiras que façam o monitoramento neuro-psico-cognitivos permanente dos alunos enquanto estiverem nos espaços escolares e fora deles, ou se utilizarão implantes subcutâneos, mais eficazes. Já as melhores escolas estarão atuando fortemente com os profissionais da educação, para assumirem o papel de tutoria efetiva com foco no melhor potencial de cada grupo de alunos, desde a primeira infância, permitindo o despertar precoce para as vocações de cada um. Os computadores de vestir e as interfaces neurais permearão o cotidiano dos usuários da mesma forma que temos hoje os tablets e smartphones.
 
Uma das tendências, em especial no longo prazo, é o trabalho educacional a partir do uso das mais diversas tecnologias. Os professores, de maneira geral, ainda têm problemas com relação ao uso de tecnologias no seu trabalho diário?
Sim, pelos motivos já ditos em relação ao desenvolvimento e apropriação das tecnologias pela sociedade humana. Não há culpados aqui: de fato o que se chama de “problema” nada mais é que a capacidade dos educadores em fazer o melhor uso efetivo do que as novas tecnologias podem trazer. Isto só se desenvolve e consolida à medida que a própria sociedade se apropria adequadamente desses meios tecnológicos.
 
O que é preciso para que os professores possam utilizar a tecnologia de forma produtiva para o aprendizado em sala de aula?
Uma vez que o processo de incorporação das inovações pela sociedade está devidamente estabelecido, inicia-se uma fase de adequação e acomodação que deve, preferencialmente, ser rápida. Nesta fase de adequação, o acesso aos meios tecnológicos e aos conteúdos a eles adaptados são imprescindíveis. Assim também como a capacitação dos educadores para fazer o uso mais adequado dos meios que dispõe. Se os educadores não estiverem bem preparados, o melhor é não dar acesso aos meios, pois o uso será diferente do esperado para apoiar o processo ensino-aprendizagem. Por exemplo, se um(a) professor(a) despreparado(a) ministra uma aula para os alunos na sala de computadores, ou laboratório de informática como chamam em algumas escolas,  com acesso à Internet, é muito provável que os alunos tenham mais afinidade com os equipamentos e softwares do que o(a) professor(a). Ao ser questionado(a) sobre o que irão fazer, o(a) professor(a) só saberá dizer: “Bem... podem ligar e acessar a internet, mas nada de Facebook, tá bom?”.
 
Que papel as redes sociais podem ter, no curto e médio prazos, para o processo educacional nas escolas?
O mesmo papel que as “redes sociais reais” desempenharam até hoje: propiciar a troca de informações e a comunicação em rede. Cabe à escola e seus educadores orientarem o melhor uso deste importante mecanismo de comunicação para propiciar a troca de experiências.
 
Como as redes sociais podem ser usadas pelo professor, em sala de aula, para dinamizar e tornar mais interessante o ensino?
Um professor, com um mínimo de preparo, poderia propor um trabalho transdisciplinar integrado com professores de outras disciplinas e de outras escolas, para formar grupos de discussão sobre temas por aderência, ou seja, permitir que os alunos criem comunidades para discutir e trocar ideias sobre projetos das áreas de seu interesse. Por exemplo, os professores podem sugerir os seguintes grupos: a) usos e costumes na nossa escola; b) lugares legais de minha cidade; c) pisadas de bola de nossos colegas; d) olimpíada de contos e poesias; e) animais exóticos de minha região, entre outros temas que desejarem trabalhar.
 
Quais os cuidados que devem ser tomados pelos professores, no trabalho pedagógico a partir do uso de redes sociais?
Nunca deixar de orientar suas turmas para o uso efetivamente social das redes, que é a troca de informações e a comunicação. Esta forma gera ruído, mas permite a livre circulação de ideias e ideais não estruturados, que são culturalmente ricos e interessantes e promovem aprendizado, incentivo e respeito aos aspectos multiculturais da sociedade.
 
O que precisaria ser melhorado, na formação dos professores nas universidades, para que eles saíssem dos cursos mais preparados para trabalhar com as tecnologias no ensino?
Os docentes saem das universidades preparados para atuar com aquilo que já é realidade em suas próprias comunidades. Não adianta preparar o docente para utilização de aparatos tecnológicos mirabolantes para os quais a realidade local não está ou estará preparada em 5 anos. É necessário entender que a velocidade de cada comunidade é diferente e isto precisa ser respeitado. O que pode, sim, ser feito, independentemente de tecnologia de ensino, é ampliar a carga teórica e os estudos de caso de uso sobre metodologias de aplicação de ferramentas para apoio ao processo ensino-aprendizagem, incluindo linguagens e mídias.
 
De que forma os recursos tecnológicos e a internet podem aperfeiçoar a qualidade das aulas, nas escolas?
Através da transposição das fronteiras geográficas, culturais e comunicacionais. O docente que tiver bom domínio das metodologias de aplicação de ferramentas, incluindo linguagens e mídias, poderá criar desafios muito interessantes aos estudantes: de olimpíadas de conhecimentos à fóruns para discutir problemas políticos contemporâneos locais, nacionais e internacionais.
 
Há vários casos de governos e prefeituras que distribuem computadores portáteis para alunos e professores. Como vê este tipo de medida?
O acesso aos recursos é um importante passo para universalização da aplicação prática e efetiva das ferramentas de apoio ao processo ensino-aprendizagem, desde que não sejam descoladas da orientação e apoio permanente aos docentes e à escola para manutenção de conteúdos e uso mais adequado em cada realidade escolar.
 
Além de distribuir os computadores, o que mais precisaria ser feito para que o uso destes equipamentos no ensino fosse realmente produtivo para o processo de ensino?
É necessário um suporte permanente para avaliação baseada nesta nova mídia e criação de conteúdos locais e regionais, disponibilização de conteúdos atualizados, capacitação permanente da comunidade escolar para o uso das ferramentas, apoio para revisão dos planos de ensino, contemplando o uso das novas ferramentas, orientação aos gestores escolares e educacionais, para revisar permanentemente a aplicação dos recursos e mídias, e para atualização do projeto políticos pedagógico, com a participação da comunidade escolar nos tópicos locais e regionais.

Por: Larica Santos - [email protected]
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