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A pesquisa como fator de desenvolvimento


Nos últimos anos, o desenvolvimento tecnológico foi um dos principais responsáveis por uma intensa transformação na estrutura produtiva em escala global, indicando o surgimento de um modelo econômico baseado no conhecimento e na inovação. Neste contexto, as pesquisas científicas realizadas, sobretudo, dentro das universidades vêm conquistando um papel cada vez mais central para o crescimento econômico e social.

Apesar dos recentes problemas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), que enfrenta grande dificuldade financeira, a avaliação é de um cenário cada vez positivo para a produção científica, na opinião de Ruy Garcia Marques, professor associado da Faculdade de Ciências Médicas da instituição e ex-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), órgão estadual responsável por atividades de apoio à ciência, ao desenvolvimento tecnológico e à inovação.

De acordo com ele, de 2007 até o início deste ano, quando foi presidente da Faperj, a Fundação publicou cerca de 250 editais, com financiamentos na ordem total de R$2,5 bilhões, sendo R$550 milhões destinados à Uerj. "É um volume bem satisfatório e a universidade pôde tirar bom proveito para todas as suas unidades, alguns demandando mais outros menos. Isso possibilitou, sobretudo na Uerj, a recuperação da infraestrutura para a pesquisa, que estava bastante deficitária", afirmou.

Há 42 anos na Uerj, desde a época de estudante, passando pela especialização em Cirurgia Geral, mestrado e doutorado, até os dias de hoje como professor atuante no Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), Marques não acha que exista um clima de tensão na Uerj em razão dos recentes protestos que terminaram em confronto entre seguranças e estudantes. "Todo mundo está livre para se manifestar como bem entender em torno das suas pautas de reivindicações e espero que isso permaneça, mas não com excessos, o que certamente é prejudicial para todos", disse.

Nos últimos anos, quais foram os principais avanços que as instituições do estado do Rio de Janeiro tiveram, em relação à pesquisa científica?
O principal legado deste período foi o início da recuperação da infraestrutura para pesquisa em todas as instituições de ensino e pequisa sediadas no Rio. Todas que solicitaram apoio da Faperj, de uma forma ou de outra, conseguiram. Isso permitiu que o estado pudesse voltar a fazer pesquisas de ponta e aumentar o índice de produção científica no índice nacional. Até então, a infraestrutura era muito deficitária. É algo que precisa sempre ser atualizada, este foi um eixo importante que seguimos. Outro ponto é a difusão e popularização da ciência e da tecnologia. Tentamos fazer que a sociedade entenda o que estamos fazendo, pois precisamos visar a melhoria da qualidade de vida da população. Este é o mote que qualquer pesquisa deve ter. Algumas são mais imediatistas, mas a maioria leva a vida inteira e o pesquisador não chega ao resultado. Essa conquista fará com que a população se ponha ao nosso lado e defenda esse pensamento. Precisamos que as pessoas entendam isso, ainda mais em um momento de crise, quando o orçamento fica mais limitado e as pessoas questionam os gastos.

Na opinião do senhor, a que se deve tal crescimento na área de pesquisas?
Em um momento em que o Rio estava muito bem de saúde financeira, o governador da época, Sérgio Cabral, conseguiu cumprir o que diz a Constituição Estadual: destinar 2% da arrecadação tributária líquida para a Faperj. Isso já existe desde 1989, mas nunca havia sido cumprido. Isto significou um salto fantástico no orçamento e permitiu fomentar pesquisas científicas em todas as instituições públicas e privadas localizadas no estado. As inovações que levassem a melhores resultados de micro e pequenas empresas também faz escopo da Faperj e teve evolução. Pudemos desenvolver programas muito interessantes. Por exemplo, em todos os anos tivemos editais que visavam a melhoria do ensino em escolas públicas, o que permitiu colocarmos as instituições de ensino e pesquisa em parceria com colégios de nível médio e fundamental, com a ida do pesquisador, professores envolvidos em projetos, alunos das escolas e universidades trabalhando juntos. Também tivemos editais de apoio às tecnologias assistivas, para a qualidade de vida de pessoas com deficiência. Apoio à aquisição de acervos bibliográficos para várias instituições. Programas dedicados à infraestrutura de instituições de ensino. Foram 250 editais em 8 anos.

Como foi o comportamento do segmento de pesquisa científica no Estado entre as diferentes áreas nos últimos anos? Algum campo do conhecimento evoluiu mais que os demais?
Diria que houve um crescimento como um todo. Tivemos muita preocupação em financiar pesquisas em todas as áreas do conhecimento. O apoio à produção e difusão das artes no estado do Rio de Janeiro é um exemplo, pois nunca havia tido um edital para a área de artes, mas artes como ciência e cultura. Também foi dado apoio às humanidades. São áreas que dificilmente tem edital. Nós pegamos tecnológicas, exatas, humanidades, saúde, biológicas e agrárias e contemplamos todas. Claro que a demanda de umas é bem maior que de outras. Se somarmos, por exemplo, ciências da saúde, biológica e agrárias teremos 45% da demanda. Se é tão alta assim, ganha mais que as demais. Mas a Faperj sempre procura contemplar todas as áreas.

O senhor acredita que o potencial de pesquisa da Uerj tem sido bem aproveitado pelo estado?
Tem sido sim, mas sem dúvidas de que ainda pode crescer mais. Em oito anos, foram aplicados cerca de R$2,5 bilhões, sendo R$550 milhões só para a Uerj. É um volume bem satisfatório e a universidade pôde tirar bom proveito para todas as suas unidades, alguns demandando mais outros menos. Isso possibilitou, sobretudo na Uerj, a recuperação da infraestrutura para a pesquisa, que estava bastante deficitária. Entretanto, pesquisador sempre vai ter demandas, faz parte das suas funções. Porém, diria que não podem reclamar do que lhes foi oferecido ao longo dos últimos anos, mas é claro que fizeram por merecer. Solicitar não significa que vão ganhar o financiamento. A taxa de contemplação dos pedidos na Faperj, de um modo geral, está entre 45% e 48%. Em alguns editais, isso chega a 5% ou 10%. Então depende do edital, do programa e da demanda, mas a Uerj sempre buscou participar de todos, não só dos específicos para as universidades. Acredito que obteve avanços significativos.

A Uerj vem passando por uma série de problemas nos últimos tempos, como paralisação dos funcionários terceirizados, que ficaram meses sem receber, e bolsistas com pagamentos atrasados, além greve estudantil. Na sua opinião, qual é o cerne da crise? Por que chegou até este ponto?
É a universidade estadual do Rio, portanto se o Estado vai mal, com problemas, sobretudo, em função diminuição dos royalties do petróleo, o que gerou redução de sua capacidade econômica, reflete na Uerj. Isso fez com que atrasasse uma série de pagamentos devidos, embora reconhecidos. Sabemos que afetou a Uerj porque estamos aqui no dia a dia, mas também atingiu outras instituições estaduais. O Estado ficou uns 3 ou 4 meses sem pagar praticamente nada. Foi um grande problema para os órgãos públicos, pois geralmente os terceirizados são os responsáveis pela limpeza, manutenção e outros serviços importantes. Não diria que está tudo bem, mas vejo que está se normalizando e a tendência é que nos próximos meses não tenhamos mais essa situação. Soma-se o fato de estarmos em um novo governo, ainda que seja continuidade do anterior, são novos métodos de trabalho e equipe diferente. Até tudo funcionar direito demora um pouquinho, mas certamente estamos caminhando para resolver esse problema.

Como o corte de gastos tem afetado as atividades no Hospital Universitário Pedro Ernesto?
Em termos de limpeza, ficou comprometido. Isso se nota muito mais em um hospital do que qualquer outro recinto, pois é um espaço que não pode ter sujeira. Mas, de uma forma geral, o problema sentido aqui não foi maior do que nas demais instituições públicas estaduais. Como aqui é um espaço voltado para a saúde, que não pode conviver com sujeira, talvez tenha aparecido de maneira mais intensa.

No final do mês passado, estudantes que vinham de um protesto contra a remoção de moradores da Favela Metrô-Mangueira e seguranças da Uerj entraram em conflito. Como o senhor analisa esse episódio?
O que tiro disso é que foi um episódio muito triste para quem tem amor pela Uerj, que é a imensa maioria das pessoas transitam pela universidade. Teve participação de um pequeno grupo da Uerj, mas também externa. Não houve polícia no campus, apenas agentes de segurança da instituição impedindo que fizessem um estrago maior. Ninguém é a favor de depredação do patrimônio público. Entendemos que possa ter manifestação, panelaço, apitaço e gritos de ordem, pois tudo isso faz parte do jogo. O que não não dá para concordar é passar para a agressão de pessoas e depredação do patrimônio público. O intuito deles era chegar até a reitoria, assim como no protesto anterior.

Há um clima de tensão na Uerj por conta dessas situações? Isso o preocupa de alguma forma?
Acredito que não. Existe tristeza pelo que aconteceu, mas não há clima de tensão. O que temos são conversas para que casos como esse não prosperem. Sabemos que é um grupo pequeno com pessoas de fora da universidade. As conversas seguem no sentido de que isso não se repita ou perpetue. A Uerj sempre teve muito movimento por parte de estudantes, professores e técnico-administrativos. Todo mundo está livre para se manifestar como bem entender em torno das suas pautas de reivindicações e espero que isso permaneça, mas não com excessos, o que certamente é prejudicial para todos.

Sob quais aspectos, na sua opinião, a Uerj poderia ser modernizada, sob o ponto de vista da gestão e da atividade acadêmica?
Em muita coisa. Acho que a universidade precisa de planejamento. Precisamos pensar na Uerj que queremos e precisamos para os próximos 5, 10 e 20 anos, ou seja, a curto, médio e longo prazo. Além disso, refletir sobre como podemos realizar. Não adianta criar metas absurdas que não podem ser concretizadas. Isso deve acontecer desenvolvendo prioridades a partir de conquistas que já existiram. Desde a sua criação, todas as reitorias tentaram de alguma forma melhorar a Uerj, e o que precisamos é continuarmos avançando em todos os níveis. Isso tanto no que diz respeito ao campus Maracanã quanto os demais campi, cada um com seus problemas específicos, mas que necessitam ser olhados como um todo. Isso só pode ser tratado a partir de um conjunto grande de pessoas que querem o bem da universidade se unirem para que ela continue crescendo. As pessoas podem até ter diferenças de ideias, mas devem trabalhar juntas. A administração precisa partir de um entendimento amplo com os três segmentos universitários: docentes, estudantes e técnico-administrativos. A quase totalidade desses grupos quer o bem da Uerj.

E quais deveriam ser as prioridades, na opinião do senhor? Quais as maiores necessidades da Uerj hoje?
As prioridades não podem ser definidas por uma única pessoa, seja da reitoria ou não. Elas devem ser tiradas após muito diálogo e a partir do entendimento de prioridades, porque nem todas as necessidades poderão ser resolvidas de uma vez. Dentro de um conjunto de coisas, será preciso discutir o que é mais urgente. Portanto, não tenho como responder essa pergunta. Posso ter as minhas prioridades, mas talvez não sejam as que a Uerj mais necessita. Por isso, é preciso construir um amplo diálogo entre os três segmentos para termos uma definição.

Na sua visão, o que representa uma universidade moderna e qual o seu papel para o desenvolvimento social?
Não há como pensar uma melhoria da qualidade de vida da população sem o desenvolvimento do ensino e da pesquisa. Se é dentro da universidade que se faz isso, seu papel é fundamental. Uma universidade moderna é aquela que caminha de mãos dadas com a sociedade. Entendo que a Uerj deva trabalhar, por exemplo, como parceira do governo estadual para a solução de diversos problemas que afligem a nossa população. Quando houver uma necessidade em determinada área, que os governantes lembrem da Uerj, porque pode contribuir com boas soluções. Temos um time de professores e pesquisadores de primeiríssima linha que podem tocar qualquer problema em qualquer área do conhecimento. Isso é ser moderno: trabalhar junto e para a sociedade.

Por: Renata - [email protected]
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