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A valorização do professor como fator decisivo para a qualidade do ensino


O ano de 2014 promete ser agitado no Brasil. Com eleições para a presidência da república, além da escolha de governadores, senadores e deputados federais e estaduais, e Copa do Mundo, discussões sobre a situação atual e o futuro do país prometem ser intensas, ainda mais após as grandes manifestações populares nas ruas, em 2013. E a educação, como um dos assuntos estratégicos, certamente estará em pauta.

Há seis anos como diretora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um importante polo de formação docente, a professora Ana Maria Ferreira da Costa Monteiro acredita que, apesar dos avanços alcançados nos últimos anos, principalmente no ensino fundamental e no acesso à escola, o Brasil ainda tem um longo caminho para percorrer. "Temos ainda problemas graves no ensino médio e na educação infantil, com a oferta de creches, que já é uma obrigatoriedade legal, mas as prefeituras só estão construindo escolas de educação infantil e creche agora. Sobre a qualidade do trabalho realizado, ainda temos muitas deficiências, precisamos caminhar bastante. Os índices que expressam o nível da nossa educação mostram que existe muito trabalho e investimentos para serem feitos", comentou.

Uma das principais necessidades, de acordo com ela, é valorização do professor, que precisa de melhores salários, um bom plano de carreira e melhores condições de trabalho. A educadora também falou sobre as dificuldades dos centros de formação docente, as políticas de meritocracia na educação e o atual modelo de acesso ao ensino superior público, por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que utiliza o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como critério.

FOLHA DIRIGIDA - Quais são as principais deficiências e dificuldades enfrentados pelo país no setor da educação?
Ana Maria Monteiro -
Em relação ao ensino fundamental e acesso à escola, oportunidades de estudo, avançamos bastante nas últimas duas décadas. Acho que essa questão está praticamente equacionada no sentido de termos matrículas e escolas, embora essa oferta de instalações, do ponto de vista brasileiro, ainda ter muito para avançar. Muitos colégios sofrem com instalações precárias, que não são condizentes com as necessidades e possibilidades do mundo atual. No que tange à chegada dos recursos às escolas, também melhoramos. Primeiro com o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef) e depois com o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb). As prefeituras passaram a ser responsabilizadas e, com isso, há um controle maior sobre o dinheiro. Temos ainda problemas graves no ensino médio e na educação infantil, com a oferta de creches, que já é uma obrigatoriedade legal, mas as prefeituras só estão construindo escolas de educação infantil e creche agora. Sobre a qualidade do trabalho realizado, ainda temos muitas deficiências, precisamos caminhar bastante. Os índices que expressam o nível da nossa educação mostram que existe muito trabalho e investimentos para serem feitos, com o objetivo de garantir que as crianças permaneçam com sucesso até o final dos 9 anos de escolaridade do ensino fundamental.

E, na sua opinião, quais são as origens dos problemas ligados à qualidade do ensino oferecido aos cidadãos brasileiros?
Muitas coisas têm sido colocadas como responsabilidade dos docentes. Dizem que são despreparados e não conseguem realizar seu trabalho de forma adequada. Em função disso, foram criadas ações com a oferta de materiais, como o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), que oferece livros aos alunos e servem de apoio para os docentes. Acho sim que temos um grande problema, com um número significativo de professores nos anos iniciais sem a formação de nível superior, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) exige desde 1996, sem a formação na disciplina que lecionam, com dificuldades no uso das novas tecnologias, entre outras carências. Porém, vejo que as nossas autoridades enfrentam esse problema de forma equivocada. Ao mesmo tempo que reconheço que existem falhas, vejo um discurso muito recorrente de desqualificação dos profissionais do magistério e implementação de políticas de responsabilização e premiação por resultados alcançados como uma forma de pressionar os professores para que tenham avanços. Isso tem gerado um desencontro entre docentes e autoridades que agrava ainda mais a situação. Vejo os educadores muito acuados, estressados, inseguros e perdendo autoridade. Quando se fala publicamente que são incapazes, despreparados ou desqualificados, repercute negativamente. O aluno pode não ter lido no jornal, mas ouviu a família comentar. Isso acaba minando a autoridade dele dentro de sala. Claro que não pode ser autoritário, mas é uma autoridade. Está exercendo a função de ensinar, transmitir conhecimento e ajudar no desenvolvimento de crianças e jovens. Essa figura merece respeito, do contrário o aluno não vai confiar nele. Junta-se a isso, em certos lugares, o cenário violento, com confrontos entre polícia e bandidos, aulas suspensas e uma série de situação, que melhoraram um pouco nas áreas com UPP, mas permanece em várias comunidades, que afetam de forma grave o rendimento. Imagina uma criança que precisa se jogar no chão no meio da aula para se proteger dos tiros?

Qual a sua percepção sobre as ações do poder público voltadas para a valorização docente?
Estamos em um momento de muita necessidade de valorização do professor sob o ponto de vista salarial. Vi uma reportagem mostrando que o professor ganha bem menos se comparado com outros profissionais de nível superior. No momento de mercado de trabalho aquecido, isso faz com que as pessoas não procurem o magistério. Falamos tanto da importância de melhorar a qualidade da educação brasileira, que do ponto de vista econômico está sendo considerado um apagão, pois as empresas precisam de profissionais bem preparados e não encontram. Isso passa, necessariamente, por uma valorização da escola e do profissional que está ali. Vejo pouco disso nos discursos e quando acontece é para falar do despreparo, anunciam que vão distribuir materiais e aulas prontas. Esse tipo de coisa deve existir como sugestão, não mostrando que o professor não sabe dar aula, pois tira a autonomia dele. Por mais que afirmem que só usa quem quiser, a obrigatoriedade está imposta no discurso. A mensagem que fica é que os professores são tão ruins que precisam receber as aulas prontas para trabalharem durante o ano. Isso repercute muito mal. Outra coisa é que, por causa do baixo salário e de um sistema que obriga professores a trabalharem em várias escolas, a qualidade do trabalho cai. É inevitável, pois é cansativo, perdem a voz, têm um número imenso de alunos, falta tempo para preparar as aulas, etc. Precisamos pensar em um plano de carreira que dê não apenas um salário melhor, mas boas condições de trabalho, de preferência em apenas uma unidade e com salário digno. Nos colégios federais, como Pedro II e os de aplicação da Uerj e UFRJ, por exemplo, os docentes trabalham em regime de dedicação exclusiva. Podem se dedicar àqueles alunos, têm tempo para estudar, avaliar, corrigir e ter uma vida, sem a correria de uma escola para a outra. Além disso, é preciso oferecer boas condições estruturais. Outro dia vi o ministro da Educação falando que vão distribuir tablets, mas isso é de uma efetividade pequena se o professor precisa continuar trabalhando em vários lugares. Eles não têm tempo nem de olhar o tablet, pois chegam em casa exaustos precisando de descanso. Por isso, acredito que a valorização não deve ser apenas salarial, mas também de tudo que envolve o processo educacional e a carreira.

Quais são as maiores dificuldades enfrentadas pelos centros de formação de professores? O governo oferece apoio?
Estou próxima de completar 20 anos na Faculdade de Educação, já trabalhei como professora. Na década de 90, tínhamos pouquíssimos recursos e professores. Nos últimos anos, a situação melhorou bastante. Tivemos muitos concursos, as verbas aumentaram um pouco, mas ainda temos carências. O MEC vem apresentando editais para formação continuada e prestando apoio nesse sentido. Nós estamos na zona sul do Rio, um lugar valorizado, mas nossas instalações são insuficientes. Só que nossa sede é um prédio antigo, tombado pelo patrimônio histórico, onde não podemos fazer quase nenhuma alteração. Enfrentamos problemas na rede elétrica, infiltração no telhado, entre outros. Existe a possibilidade de um novo prédio no Fundão, mas estamos aguardado o que será decidido. Nós, assim como outras faculdades, sentimos falta de espaço, os professores de 40 horas precisam de uma sala para fazer suas pesquisas, orientar os alunos e não temos capacidade para acomodar essa demanda. Na parte do currículo, temos feito atualizações, principalmente no nosso principal curso, o de Pedagogia, que forma professores para a educação infantil, anos iniciais, jovens e adultos e para gestão pedagógica. Estamos fazendo uma avaliação do currículo para analisar o que podemos mudar. Também fazemos a formação pedagógica das 26 licenciaturas da UFRJ. Trabalhamos junto com dos docentes do outros institutos e, para ser bem sincera, acho que ainda precisamos avançar em termos de articulação. Nossa ida para o Fundão nos aproximaria. Além disso, temos uma questão cultural da UFRJ, a valorização da atividade de pesquisa, que é importante, mas a licenciatura ainda precisa de mais atenção.

Alguns especialistas afirmam que o currículo dos cursos de formação docente deveria ser reformulado, para dar maior espaço à prática pedagógica. A senhora concorda com esta visão?
A partir de 2002 para Licenciatura e 2006 para Pedagogia, algumas resoluções ampliaram muito o tempo de prática. Agora, a forma como tem acontecido realmente precisa avançar. Os alunos precisam cumprir 400 horas de estágio orientado, mas deve ser uma atividade que some. Dentro da nossa proposta, participam de reuniões semanais com os professores para refletir sobre o que acontece na escola, ver como o profissional age, discutem possibilidades e soluções, mas há casos e casos. Uma parte da Pedagogia, que é o trabalho com o ensino de Ciências, Matemática, História, etc, passa por uma discussão de como tornar isso ainda mais consistente na formação dos professores. Eles têm uma formação ampla de escolas e pensamento nas Ciências Humanas, mas precisamos ver na prática. O MEC tem o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid). Nele, os alunos ficam dois anos frequentando a escola, vendo como ensinar, fazer uma atividade externa, etc. Tem sido um apoio importante, porque dá uma bolsa ao estudante, que se sente valorizado. Quando vai fazer um estágio, já chega com a bagagem de ter feito uma discussão aprofundada sobre prática do ensino. Não basta apenas discutir teoricamente, é preciso conhecer a realidade, ver e questionar. Do ponto de vista da organização do currículo, já temos essa oportunidade, mas acho que ainda precisa ser ampliado.

Muitos professores criticam a chamada meritocracia, que tem o objetivo de dar bonificações aos educadores que conseguem alcançar um determinado resultado com a sua turma ou escola. Qual é a sua opinião sobre essa linha de ação na educação?
Quem orienta essas práticas entende que é uma forma de valorizar o docente. Contudo, a meritocracia tem repercutido negativamente, porque o professor interpreta como se estivesse sendo vigiado e desvalorizado. A greve do ano passado foi em embate bastante longo e duro, mas infelizmente não conseguiram o que queriam. São duas formas diferentes de enxergar. O professor que entra em sala e não dá aula está errado, mas, por outro lado, parece uma visão policialesca em cima dos educadores. Acredito que não seja esse o caminho. O que precisamos mesmo é de um trabalho que dê material e apoio, articulado a um plano de carreira e valorização salarial. Acho justo cobrar responsabilidade, mas não dessa forma tão presa aos resultados e avaliações. O trabalho da escola não é uma linha de montagem. Temos alunos e situações diferentes. Essa fórmula tem deixado os professores muito acuados. Ensinar é uma atividade complexa, que varia de acordo com fatores variados. Muitas apostilas padronizam o ensino e esperam um determinado resultado. Além disso, há uma necessidade urgente de investir na formação de gestores. Uma direção comprometida, que tenta dar boas condições de trabalho, faz diferença, pois às vezes um bom trabalho em sala pode ser perdido pela má gestão. Os diretores precisam saber como lidar com a legislação, como utilizar o dinheiro de forma inteligente e prestar contas.

Estamos começando 2014, um ano de eleições e Copa do Mundo, que atrairá atenções de toda parte do mundo para o país. Como isso pode ser utilizado à favor da educação?
Acredito que teremos movimentações populares nas ruas, assim como no ano passado. O brasileiro precisa cobrar mais educação. Ano passado tivemos o movimento com relação aos transportes e depois ampliou. Tem muito discurso retórico em época de eleição, mas eu não via muitas pessoas cobrando efetivamente ações por uma educação de qualidade. Os pais e familiares, caso a escola não esteja bem, sem aulas, devem cobrar, saber o motivo de o filho ter voltado mais cedo para casa. Não é por ser pública que não devemos lutar por isso, da mesma maneira que reclamamos de hospitais. É um momento importante, em ano de eleição, de cobrar. Nossos meios de comunicação também falam muito pouco sobre educação. Ou abordam naqueles programas mais tarde, em debates da TV por assinatura ou falam dos problemas. Em relação à Copa, é uma época de muito foco no Brasil. Acho que essa demanda por educação e valorização vai explodir. Por outro lado distrai, pois teremos jogos, as aulas serão suspensas e haverá um mês de férias. Ou seja, a Copa é mais importante. É um desvirtuamento. É a hora de termos mais atenção. Os debates na TV são poucos, faltando poucos dias para as eleições, as campanhas são muito telegráficas. Há a necessidade de mais aprofundamento e de discussões mais sérias e aprofundadas sobre a educação.

Uma das suas especializações é em História. Como a senhora vê o ensino dessa disciplina no Brasil?

Existem boas experiências, mas ainda vejo professores muito presos às aulas expositivas. Aquela coisa de chegar e explicar para alunos que ficam ali sentados olhando. Quando alguém consegue desenvolver um bom discurso, com narrativas atraentes, e alguns fazem isso muito bem, funciona. Mas no que diz repeito a desenvolver um raciocínio histórico, ainda existe certa dificuldade. Os docentes dizem que os alunos reagem, dizem que é coisa velha e não serve para nada, pois estão muito focados no presente. Tem sido difícil reverter esse pensamento. Porém, digo que ensinar História é tirar as pessoas da zona de conforto. Temos uma rua que está assim, mas não pela vontade de Deus, existe toda uma história por trás. Então, por mais que às vezes possa parecer, não é uma disciplina fácil de ser ministrada. Quando o professor consegue, temos alunos fascinados. Muitas vezes, a religião também faz os alunos recusarem. Por conta disso tudo, acho importante estabelecer relações com o presente e tentar fazer com que o aluno veja algum sentido no que está estudando. É um grande desafio. Trabalhar com imagens, filmes e passeios ajuda, mas não basta. Às vezes, você olha, mas não vê. Então, é preciso desenvolver uma visão crítica também e problematizar as questões. Porém, o professor precisa ter tempo e disponibilidade, mas trabalhando em quatro escolas é complicado.

A senhora acha que a escola brasileira está desatualizada?

Tem muita crítica sobre a escola, que foi criada dentro de uma lógica de dividir, disciplinar e controlar as crianças. Certamente, tem isso. Foi criada nesse modelo e, embora falemos de avanços, temos muita dificuldade de rever isso. Apoio a reinvenção da escola. Não podemos abrir mão desse espaço de discussão, transmissão, reflexão crítica e socialização das crianças e jovens. Precisamos de bons colégios para nossos filhos se desenvolverem, com atividades ricas, onde o aluno possa crescer. A informação está disponível, todo mundo tem um celular na mão hoje em dia, mas até que ponto os meninos e meninas estão buscando coisas novas ou apenas jogando e trocando mensagens entre si? Que você até desperte neles como usar isso, como buscar informações e como criticar. Temos a possibilidade de lidar com a inteligências das pessoas, por isso a escola é importante. Mas, infelizmente, temos muitas em péssimo estado, bagunçadas e desorganizadas. A escola deve ser um lugar para aprender o que é um bem público, outra dificuldade do brasileiro. As pessoas acham que o público não é de ninguém, então podem levar para casa, quebrar e sujar. As escolas deveriam ser o primeiro exemplo para as crianças, a ideia de que pertence a todos e precisa ser bem cuidada.

Há alguns dias, os vestibulandos realizaram suas inscrições no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que mudou a forma de selecionar alunos para universidades públicas do país. O Enem passou a ser o critério para a ocupação das vagas, no lugar dos vestibulares descentralizados. Como enxerga esta mudança?
Foi uma grande discussão aqui na UFRJ, porque tivemos um papel muito importante na década de 80 quando iniciamos o vestibular com questões dissertativas. Provocamos um impacto positivo nas escolas, que passaram a focar em respostas escritas e redações. Trabalhar com a organização e correção desse vestibular era algo extremamente complexo e estava se mostrando inviável operacionalmente. Então, veio a abertura para participarmos do Enem e do Sisu. É uma forma de democratizar o acesso e abrir para mais pessoas. O Enem foi pensado para ser uma avaliação, e ao ser usado no Sisu, passa a ser classificatório. Isso gera uma certa distorção. Agora, as provas estão sendo analisadas. É um processo que está em curso. Ainda não temos muitos dados para dizer se o aluno que entra está melhor, pior ou igual, sob o ponto de vista acadêmico. Precisamos de tempo para avaliar, pois varia de acordo com o curso, nota de corte, procura, etc. Certamente, amplia a oportunidade de acesso, junto com as cotas. Também não temos dados concretos sobre o perfil social dos novos estudantes.

Por: Renata - [email protected]
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