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Alfabetização como prioridade das políticas educacionais


Com o intuito de reduzir os índices de analfabetismo entre crianças no país, o governo federal lançou, no ano passado, o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic). O objetivo principal do programa é fazer com que os alunos sejam alfabetizados até os 8 anos de idade.

Para a socióloga, linguista e Sandra Bozza, que, em 1991, fez parte do grupo que produziu a Proposta de Alfabetização para o Currículo Básico de Curitiba, considerada pelo MEC como uma das cinco propostas mais avançadas do país, ela considera válido o programa. Para a educadora, as diretrizes do Pnaic buscam garantir dois aspectos básicos para a formação dos professores: a teoria e a prática.

A especialista considera positivo um dos aspectos mais comentados do Pnaic: o fato de conceder bolsa a professores alfabetizadores e, até mesmo, remunerar melhor aqueles que tiverem melhores resultados na tarefa de alfabetizar. “Se o bom professor é aquele que estuda e aprende para melhor ensinar, nada mais justo do que reconhecer seu êxito nesse processo através do retorno naquilo que mais lhe foi roubado ao longo do tempo: seu pró-labore!”, destacou.

Entre os livros lançados pela educadora, estão “Na escola sem aprender? isso não!”, “Avaliação e aprendizagem: entre o pensar e o fazer”, “Língua Portuguesa a Partir do Texto (4 Volumes)” e “Coleção Trabalhando com a Palavra Viva (2 Volumes)”. Nesta entrevista, ela fala sobre os desafios da alfabetização no país, o impacto das altas taxas de analfabetismo no desenvolvimento econômico e no acesso à cidadania e apresenta ações que considera importantes para incentivar o gosto pela leitura e pela escrita entre os estudantes.

“A palavra convence, o exemplo arrasta! Não há outro caminho que não seja ler com eles, para eles e por eles. Família e escola. Discursar que ler é importante é o que fazemos, com insucesso, nos últimos 40 anos! E somos uma sociedade não leitora”, ressalta Sandra Bozza.

FOLHA DIRIGIDA — O governo federal instituiu o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic). Como avalia as diretrizes deste programa?
Sandra Bozza — Necessárias e coerentes! Não é possível que uma criança permaneça na Escola três anos, portanto mais de 1.600 horas (200 dias letivos por ano de escolaridade), e não consiga se apropriar da linguagem escrita. Vivemos numa sociedade letrada, consumimos a escrita ainda que não a utilizemos conscientemente, dependemos da escrita para legitimar todos os nossos atos sociais legais (do nascimento à morte, passando pelo dever e pelo prazer). Como permitir que isso continuasse acontecendo como já ocorre em nosso país há mais de 20 anos? Embora em alguns estados brasileiros haja diferença de perspectivas na implementação e na concretização de tais diretrizes, elas intentam garantir dois aspectos básicos para a formação dos professores: a teoria e a prática!

Um dos aspectos mais comentados do Pnaic é o fato de conceder bolsa a professores alfabetizadores e, até mesmo, remunerar melhor os professores que tiverem maior produtividade na tarefa de alfabetizar. Como analisa esta diretriz, em especial?
A qualificação do professor não pode ser encarada separadamente do retorno financeiro pessoal. Não acredito que se nós, professores, tivéssemos nossos salários triplicados (como merecemos) a qualidade de ensino do Brasil seria três vezes melhor, pois a melhoria do ensino depende de outros e variados componentes, como o compromisso político para com o aluno, a competência técnica do educador, construída desde a sua formação inicial, as condições de trabalho, a gestão escolar, o número de alunos e o número de horas trabalhadas, só para citar algumas. Sou contra a meritocracia! Há que se considerar as variantes sociais de onde atuam e quem são esses professores. Todavia, enquanto a sociedade continuar alimentando o conceito do professor como um profissional caridoso, como uma segunda mãe, como aquele que escolheu o Magistério como missão, dificilmente poderá obter a produtividade necessária nessa tarefa básica para o desenvolvimento da nossa sociedade. Se o bom professor é aquele que estuda e aprende para melhor ensinar, nada mais justo do que reconhecer seu êxito nesse processo através do retorno naquilo que mais lhe foi roubado ao longo do tempo: seu pró-labore!
 
Que tipo de preparação e qualificação deveriam ter os professores para atuarem na alfabetização das crianças até 8 anos?
Leiturização do professor, saber o que a linguagem representa para o desenvolvimento dos sujeitos e compreender como se aprende! É óbvio que esses requisitos se estendem a todos os profissionais cuja lida é ensinar, contudo, como a base do processo de aquisição de outros conhecimentos passa pela escrita, é imprescindível para estes profissionais que, antes de mais nada, sejam leitores (vorazes, eu tenho afirmado). Ninguém dá o que não tem! Como compreender e mediar a importância desse bem cultural que é a leitura sem vivenciá-lo? Em percebendo o papel que a escrita desempenha na sociedade e concebendo a linguagem como aquela que constitui o ser humano, fica explícita que a forma de ensinar a ler e a escrever não pode ser mecânica, não reflexiva ou através de atividades repetitivas e descontextualizas. Amar se aprende amando, diz Drummond! Ler e escrever se aprende lendo, escrevendo e pensando.

O governo federal realiza uma grande campanha para alfabetizar as crianças até 8 anos de idade. Porém, dos analfabetos brasileiros, a maior parte possui mais de 15 anos de idade. Porque este público de jovens e adultos não é visto com a mesma prioridade pelo governo federal?
São duas faces da mesma moeda! Quem sabe essa fatia citada não é analfabeta exatamente porque a escola não deu conta de compreender e garantir os três aspectos citados acima (ter um professor leitor, saber o que a linguagem representa para o desenvolvimento dos sujeitos e compreender como se aprende)? Será que permanência na escola sem aprender e a evasão escolar desses alunos não têm como causas iniciais a forma como a leitura e a escrita são trabalhadas? Creio que o que se está fazendo quando o governo federal prioriza o ensino qualificado nessa faixa etária tem a metáfora da caixa d’água: não é suficiente secar o alagamento produzido pela água que insiste em jorrar do cano. É necessário ser radial: fechar a caixa d’água! Vamos, então, às raízes: onde tudo começa. Vamos concentrar nossos esforços no processo inicial do letramento.

De que forma as atuais taxas de analfabetismo, tanto entre crianças como em adultos, prejudicam o desenvolvimento econômico do país?
O desenvolvimento econômico também passa pela questão de se ter uma sociedade pensante! A função da escola é formar seres cada vez mais humanos, isto é, afastar o mais possível o sujeito de sua condição natural através da sua inserção cultural, inclusive na cultura letrada. E isso significa, grosso modo, ensiná-lo a pensar a partir do que a humanidade já pensou e produziu. É através da escrita que se tem maior possibilidade da realização dessa travessia. Pesquisas acadêmicas e de mercado já demonstram com clareza que vivemos hoje no Brasil algo conhecido como apagão de competência ou como apagão de mão de obra em todos os níveis de atuação! Em outras palavras: faltam, no mercado de trabalho, profissionais competentes para o exercício de diferentes funções nas empresas. Mas isso ainda seria o menor prejuízo para um povo. O maior, e mais preocupante, é com o efeito cascata desse fato: um povo mal informado (que obtém apenas informações superficiais das mídias orais e virtuais) e que não reflete adequadamente sobre o que ocorre na sociedade tende a perpetuar o estado das coisas, impedindo os avanços necessários para a maioria.

Qual o impacto do analfabetismo para a exclusão social e a falta de acesso à cidadania?
Quem não tem voz, não tem vez! E nossa voz se constrói a partir da voz de muitos outros discursos. Nosso discernimento advém de uma consciência crítica que vamos elaborando no contraponto da compreensão de diferentes discursos. Cidadão é aquele que conhece e cumpre seus deveres, bem como tem ciência e exige seus direitos. Quantos de nós agimos assim? Não ler é compreender o mundo a partir da voz do outro. Isso equivale a impor limites à relação do sujeito com o mundo. É, enfim, alienar o sujeito não apenas socialmente, mas aliená-lo de si mesmo.

Se o Brasil ainda tem altos índices de analfabetismo, o quadro é ainda mais grave quando o assunto é analfabetismo funcional. No mundo de hoje, o que é ser um analfabeto funcional e que ações são necessárias para combater este tipo de analfabetismo?
Viver numa sociedade letrada, sem ter adquirido as competências leitoras ou ler na superficialidade é o mesmo que não ler! Ler significa, acima de tudo, dar sentido ao lido, inferir informações não existentes naquele texto, mas em experiências anteriores, quer de vida prática ou de outras leituras. Para isso, há necessidade da pró-atividade, não bastando decifrar linearmente os códigos e signos apresentados da linguagem escrita, que é exatamente o que o analfabeto funcional faz. Ler exige que se partilhem grandes fatias de conhecimento do mundo em geral, o que só o bom leitor consegue. Para formar esse tipo de leitor acredito que haja necessidade de um esforço bem além da instância escolar. Além de políticas públicas, as ações na iniciativa pública e privada (empresas e repartições públicas) e na área da cultura (programas de formação de famílias leitoras) seriam as que mais efeitos surtiriam para o desenvolvimento do gosto pela leitura.

De que forma os problemas na alfabetização dos brasileiros interferem no aprendizado do estudante nas outras etapas de ensino e qual o papel da leitura e da escrita para o desenvolvimento cognitivo?
O processo de alfabetização atua de forma determinante no desenvolvimento cognitivo e na aquisição de qualquer outro conhecimento!  José Saramago afirma que há venenos tão lentos que quando produzem efeito já ninguém se lembra de sua origem! Esse apagão de leitores que hoje temos deve-se a um veneno chamado treino, muito utilizado no início da alfabetização. Essa mecanização não amplia as capacidades superiores do cérebro (que são responsáveis pelo nosso desenvolvimento cognitivo), que quanto mais exigidas, mais se desenvolvem. O treino de sílabas e de letras pode levar uma pessoa a ler uma palavra ou uma frase, porém não é ele que determinará que o leitor produza sentido no que lê, muito menos que escreva o que tem significado a partir de alguns poucos códigos. A ideia de que primeiro é necessário aprender a escrever para depois ler e escrever atua como um inibidor do desenvolvimento cognitivo da criança. Ela não concebe, nesse processo de juntar pedaços, que tudo o que ela fala pode ser escrito e vice-versa. Assim, a linguagem oral com a qual ela apreende e representa o mundo fica muito distante daquilo que a escola quer que ela aprenda. Isso, quando ampliado para as outras áreas do conhecimento, faz com que a competência reflexiva dos alunos não seja estimulada e, consequentemente, não seja aplicada onde e quando necessário.

O que considera que poderia ser feito para incentivar as crianças e jovens brasileiros a lerem com maior frequência?
A palavra convence, o exemplo arrasta! Não há outro caminho que não seja ler com eles, para eles e por eles. Família e escola. Discursar que ler é importante é o que fazemos, com insucesso, nos últimos 40 anos! E somos uma sociedade não leitora. Ninguém aprende sozinho, ninguém aprende o que não tem significado. O sujeito só aprende com a mediação daquele que faz uso de determinado conhecimento. Isto significa entender que quem ensina deve, não só dominar tal conhecimento, como também, e acima de tudo, utilizá-lo socialmente. Sou uma incentivadora da formação de pais leitores! Uma vez por mês poderíamos chamar a família para o deleite com a leitura na escola.

Muitos acreditam que há uma dificuldade em atrair o jovem para a leitura em função da existência de outros recursos multimídia de entretenimento. Como vê esta questão? É realmente mais difícil incentivar uma criança ou adolescente a ler nos dias de hoje? Ou a estratégia, muitas vezes, não é a mais adequada?
Em uma sociedade multifocal, como a que vivemos, tudo o que exige maior empreendimento da atenção voluntária é mais difícil. Mas, como acredito que ninguém nasce com o poder de “prestar atenção”, precisamos aprender a focar. É comum ouvir adultos dizerem que não conseguem ler mais do que duas páginas porque se dispersam. Assim, há que se apresentar a leitura aos jovens, primeiramente, como fonte de prazer. Se o início do processo passar pela emoção, pelo inusitado, pelo lúdico (mesmo que ele tenha 12 ou 20 anos), sempre haverá um tema que o prenda. Para isso é preciso ouvir os jovens e acompanhá-los em seus desejos mais secretos para saber o que lhes apetece e como persuadi-los a consumir aquilo. Afinal, não se pega mosca com vinagre, como afirma o dito popular.

Por: Diego Da - [email protected]
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