Entrar Assine

“Antigamente, o professor era um ídolo”


São 45 anos ininterruptos em sala de aula, lecionando uma das disciplinas consideradas mais complicadas pelos estudantes: a Matemática. Essa é parte da trajetória do professor Roberto Zaremba, que atuou em colégios tradicionais do Rio de Janeiro, como o Pedro II, Instituto de Educação, Escola Alemã Corcovado e Metropolitano.

O currículo do educador é extenso. Foram mais de 435 participações em bancas examinadoras de concursos públicos com documento comprobatório e mais de 50 sem esta documentação. A via escritora também aflorou durante sua vida profissional, com mais de dez livros didáticos escritos. “Não tenho a pretensão de escrever tantos livros, mas confesso que gostaria de completar 50 anos em sala de aula. Falta pouco.”

Zaremba afirma que as provas dos vestibulares são bem feitas, mas critica o número de questões impostas aos alunos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Para ele, a quantidade de itens que devem ser respondidos, muitas vezes, pode não aferir o conteúdo dos estudantes.

“Para fazer uma boa avaliação, não precisa fazer uma prova com tantas questões. Muitas vezes, nem testa direito, pois se o candidato não tiver um preparo físico e mental muito bom, pode sucumbir e não conseguir mostrar o seu potencial. Dois dias seguidos, com 90 questões, ninguém aguenta isso. É desumano. Se fizermos uma enquete com 1 mil professores experientes nessa área sobre o que acham dessa quantidade de questões, não tenho dúvidas de que teremos 90% dizendo que são contra”, ressalta.

O educador destaca, ainda, que as questões do exame nacional não possuem a complexidade das provas discursivas específicas que as universidades adotavam em seus vestibulares.

“O Enem está muito longe da complexidade das avaliações discursivas específicas das universidades. Se analisar a segunda fase da Uerj e da UFF, e a UFRJ, como era até o ano passado, e comparar com o nível das questões do Enem, é um abismo. Uma diferença enorme”, afirma.

O senhor completou 45 anos de magistério em 2011. O que mudou, ao longo desses anos, no exercício da profissão?

Roberto Zaremba - Mudou o aluno e o professor. O estudante mudou porque há uma garotada que, há 30 ou 40 anos, não tinha todas essas facilidades - ou dificuldade, como alguns acham - como a internet, tv a cabo. Os atrativos são muito maiores e, consequentemente, se não tem um professor acompanhando a evolução da coisa, a aula se torna chata. Enquanto é prazerosa para o aluno e se desenvolve de uma forma legal, ele curte. Muitos professores reclamam que os estudantes mudaram muito, mas muitos deles não acompanharam essas transformações e continuam dando a mesma aula de 20, 30 anos atrás. Isso não dá. É preciso interagir com o discente e procurar entender as suas dificuldades, já que as demandas são diferentes. O próprio livro didático já é outro. Sou autor de livros. Se pegar um meu antigo, é muito chato. É baseado apenas em teorias e exercícios, é massante. Hoje em dia, eles são muito mais agradáveis, coloridos, com ligação das matérias com o cotidiano. Assim, o aluno passa a entender mais a explicação das coisas. Quando escutamos em um telejornal: ‘um terremoto na Cidade do México atingiu 5.8 na escala Richter’, isso pode ser abordado em sala, pois trata-se de uma escala que, na sua utilização, tem logaritmo, que é assunto de Matemática. Sempre foi, na minha época de aluno e até quando iniciei na vida de professor, uma matéria muito árida. Os jovens aprendem aquilo e nem sabe o motivo. O xampu que usamos tem pH neutro. A fórmula do pH envolve logaritmo. É necessário ter uma maneira de mostrar ao aluno a ligação daquilo que está passando para ele com o que vai ser útil no dia a dia.

Qual a influência dos programas de vestibulares em relação a isto?
Ainda há programas de vestibular que exigem coisas que são importantes, mas para quem vai cursar para a área tecnológica. São os mesmos conteúdos, mesmos programas, para qualquer carreira que a pessoa venha a estudar. De repente há uma parte da Matemática, como Trigonometria ou números complexos, que o aluno que vai fazer Comunicação ou Direito não vai precisar nunca. Já aconteceram algumas tentativas de tornar o programa mais inteligente, mas sempre esbarra em algo que deixa as coisas nessa mesmice. Já houve um avanço com o Enem, a primeira fase da UFF, a Uerj. São provas que buscam a interdisciplinaridade, com questões contextualizadas. Não se vê: ‘calcule o valor de x’. Há uma situação-problema e, em cima disso, o candidato equaciona e resolve a questão. Nesse aspecto, os livros avançaram muito, as provas, de um modo geral, estão mais inteligentes e agradáveis, mas a sala de aula não melhorou, pois a formação do professor não evoluiu da maneira esperada. Fica um buraco negro nessa história. Isso precisa estar bem encaixado, pois, de outra forma, a engrenagem na funciona. Os baixos salários, carga horária elevada, más condições de trabalho, tudo isso afasta esse profissional, desestimula-o a ingressar no magistério. São poucos os professores que, depois de muito tempo de magistério, ainda têm prazer no que fazem. Conheço muitos, graças a Deus. O docente antigamente era muito mais respeitado do que atualmente. Uma professora primária era valorizada, ganhava bem. Era comum na classe média o pai que era médico, engenheiro, ou militar, por exemplo, desejar que a filha fosse professora. Era uma profissão que a mulher normalmente gostava, havia status, com possibilidade de trabalhar em meio expediente, o que era bom para quem era dona de casa, comum na época, conciliando atenção ao marido, filhos e o trabalho.

Qual o segredo para essa atualização constante, sempre passando conhecimentos novos aos alunos e sem ficar ultrapassado?
É imprescindível continuar estudando, ler muito, não apenas de sua matéria, mas sobre outras formas de conhecimento. É importante sempre associar sua disciplina a outras, prezando a interdisciplinaridade, exatamente para sair da mesmice. Os livros didáticos melhoraram muito isso e facilitaram a vida do professor que quer ler. Existe uma bibliografia muito boa para os docentes que desejarem estudar e que tiverem tempo para isso. Muitas vezes, o profissional quer, mas não encontra tempo para se atualizar. Só fui pensar em mestrado depois de muitos anos de magistério, pois é necessário sustentar os filhos, a casa. Tem que ser quando surge uma oportunidade. A garotada hoje está sendo mais esperta: quando acaba a graduação, já emenda uma pós, procura constituir família mais tarde.

Quais as principais dificuldades que o professor enfrenta, hoje, e que existia há algumas décadas?
Particularmente, não tenho queixa de aluno. Adorava dar aula há 40 anos como gosto até hoje. Muitos dizem que a garotada piorou, mas acredito que não é bem assim. Ela é mais transparente, de um modo geral é educada. Se tratar o aluno com interesse e respeito, há retorno. Da minha parte, sempre houve. Nunca tive problema de colocar estudante para fora de sala. A única vez que coloquei alguém para fora foi no Pedro II, era um estudante que gostava muito de mim e eu dele. Na semana seguinte, foi preso por assalto a mão armada. Se drogava, cometia esses delitos, para ajudar a comprar remédio para a mãe, que era muito doente. Na época, o diretor pensou em o excluir da escola, mas a pedido dos colegas e de alguns professores, preferimos auxiliar de outra forma. Em vez de dar o dinheiro para ele, cada um dava um pouco para comprarmos o remédio. Encontrei esse rapaz, anos mais tarde, na cidade. Está formado, trabalhando. Existe isso também, é preciso tentar ajudá-los da melhor forma possível. Não é para se igualar ao aluno, é importante ter uma distância professor - aluno, mas não pode ser uma barreira. Se não houver amizade, interesse por ele e respeito, não se conquista a turma. O professor que dá aula com prazer, seguindo as coisas que falei, de um modo geral, não tem do que se queixar de problemas com o aluno.

Muitos defendem que o professor tenha perdido o seu prestígio social nas últimas décadas. O senhor concorda com essa premissa? Por que?
Sem dúvida, houve uma perda. Atualmente, você pergunta ao aluno quais foram os professores dele do ano anterior, ele é capaz de esquecer alguns. Lembro de todos os meus professores, por matéria, que trabalharam comigo no que é hoje o 6° ano do ensino fundamental. Lembro-me de cada um deles. Hoje em dia, isso não existe. Antigamente, o professor era um ídolo. Trabalho no Metropolitano coordenando o vestibular e o 9° ano especializado, dou aula de Matemática só no 3° ano do nível médio, auxilio na montagem do horário, mas há docentes aqui que são verdadeiros ídolos. Tem um aqui que é paraninfo de turmas de 9° ano desde que ele está na escola, há pelo menos 18 anos. Esse é um camarada que é do bem, tudo que ele falar os alunos seguem. Eles têm tanta confiança nele, pelo o que ele representa - ainda existe este tipo de professor, porém em uma escala muito menor.

Os professores que utilizam as redes sociais, como Facebook e Twitter, têm um relacionamento mais próximo ao estudante?
Facilita, desde que ele tenha cuidado. O Facebook é legal, mas se não tiver cuidado, ele se mistura com o estudante e vira uma faca de dois gumes. A recomendação é exatamente de você ter bastante atenção com aquilo que coloca na internet. Pode ter um retorno e uma interpretação diferente do que pretende postar e aquilo gerar problemas sérios. Já vi algumas vezes acontecer, aqui e em outras escolas. O profissional quer ser amiguinho do aluno e acaba falando coisas que não deve. Não dá para misturar, pois depois perde o controle da situação. Há sempre um maldoso que resolve encaminhá-la de uma outra forma. Não sou contra nenhuma rede social, é só ter cuidado.

Como o senhor vê a diferença na relação aluno-professor nos dias de hoje em comparação com 40 anos atrás?

Essa relação era bem distante antigamente. Quando se tinha um professor que chegava até o aluno, era fato de todo mundo comentar, pois não era algo normal. A distância que havia entre professor e estudante era uma barreira.

Como essa barreira foi sendo quebrada ao longo do tempo?
Tanto a garotada foi mostrando que não era aquilo que eles queriam como o próprio professor foi percebendo que, ou cediam um pouco em algumas coisas ou então não iriam a lugar algum. Trabalhei em uma época no Pedro II em que, quando o professor entrava em sala, os alunos ficavam todos de pé. Mas isso não é necessariamente respeito. Pode todo mundo se levantar e o camarada, sem você ver, fazer uma besteira, soltar uma bomba. O respeito não é conquistado com autoritarismo. Autoridade se adquire com postura de professor, tratamento ao aluno, respeito é fundamental. Sempre tive a garotada na mão, nunca tive problema com estudante. E não é porque sou maioral e sim porque eu sempre respeitei. Se quer ser respeitado pelo aluno, não tenha dúvidas: é preciso respeitar, mostrar que tem interesse por ele, é amigo sem ser coleguinha. Com um estudante do vestibular, não vou mostrar que sou amigo dele tomando um chopp no bar da esquina. Mas ele precisa ter a confiança em você, de saber que pode contar com o professor se tiver algum problema, seja com a família, amigo ou namorada. Ele deve ter no docente um irmão mais velho. Quem começa com muita pose, muitas vezes nem consegue nada.

Há maior compromisso do estudante com a escola nos dias atuais, em comparação com o início da sua carreira?
É difícil dizer. Antigamente, até por falta de outras opções, o aluno estudava mais. Percentualmente, o alunado era mais focado em outra época. Não havia muitas coisas para desviar a atenção deles. Matavam aula para jogar futebol, para sair com uma menina. Atualmente, há diversos atrativos, os celulares fazem de tudo. Era uma coisa que antigamente nem todos tinham.

O senhor é professor de Matemática. Qual é o segredo para ensinar esta disciplina de forma cativante e interessante para o aluno?
Primeiro é você procurar tornar a Matemática divertida, recreativa. Existem livros da disciplina nesses moldes, que são importantes de o professor ter ciência. É fundamental buscar sempre algo novo. Em uma turma que está desmotivada, o professor faz uma brincadeira e, a partir dali, os jovens passam a ter uma outra visão. Uma dica é apresentar a relação da Matemática com outras ciências. Os concursos estão mostrando isso. Se verificarmos o Enem, Uerj e primeira fase da UFF, já encontramos questões agradáveis, curiosas. A coisa fica mais atrativa. A Matemática antigamente era o bicho-papão.

O senhor acredita que a Matemática ainda é esse bicho-papão?
Ainda é, como é a Física. Mas já melhorou muito. As médias em Física, por exemplo, nos últimos vestibulares da UFRJ, variavam de 1,8 a 3,0. O que mostra que os estudantes têm uma dificuldade com a disciplina. A Matemática já foi pior? Com certeza, mas as pessoas têm buscado melhorar isso.

Por que tantos jovens encontram problemas com o aprendizado da Matemática?
Exatamente pela falta de o professor passar para ele a matéria de forma diferenciada, sem passar apenas fórmulas e exercícios. Matemática não é isso. Tive um professor que dizia que ‘Matemática se aprende pelos dedos’. Ele queria dizer que se aprende exercitando, realmente é verdade. Mas só vai praticar o aluno que tem desejo de melhorar o que gosta na Matemática. O professor tem que arranjar uma fórmula para motivá-lo, fazer com que tenha interesse. Tive alguns estudantes inesquecíveis, tal a sede de querer saber a matéria cada vez mais. Alguns até seguiram alguma carreira ligada à Matemática.

A forma como a matéria tem sido cobrada nos vestibulares, nos últimos anos, tem contribuído para torná-la ainda mais interessante para o aluno?

As provas, hoje, são tecnicamente muito bem feitas. Não estou discutindo a mecânica e o vestibular pelo Enem, estou debatendo a qualidade das questões, que é muito boa. A banca examinadora desses lugares conta com pessoas da melhor qualidade. Pode-se discutir que o exame nacional possua 45 questões só de Matemática, sem contar as de outras disciplinas. Para fazer uma boa avaliação, não precisa fazer uma prova com tantas questões. Muitas vezes, nem testa direito, pois se o candidato não tiver um preparo físico e mental muito bom, pode sucumbir e não conseguir mostrar o seu potencial. Dois dias seguidos, com 90 questões, ninguém aguenta isso. É desumano. Se fizermos uma enquete com 1 mil professores experientes nessa área sobre o que acham dessa quantidade de questões, não tenho dúvidas de que teremos 90% dizendo que são contra. A impressão que tenho é de que as pessoas que estão na organização do exame nunca trabalharam nessa área para saber o que realmente funciona. Não estou discutindo a qualidade de quem trabalha lá. Mas o modelo é que está errado. Não dá para ter uma prova como essa para ser um processo seletivo para todo país, sem respeitar as diferenças regionais.

Como avalia a forma como o Enem cobra a Matemática? É uma referência adequada para o trabalho nas escolas?

Acredito que sim. Para um aluno que vai fazer uma área tecnológica da UFRJ, por exemplo, o Enem avalia de uma forma muito superficial. De repente, pode entrar em uma universidade como a UFRJ, em Engenharia, por esse modelo, um candidato que em Matemática pode ter ido até mal naquela prova.

As questões do Enem não possuem a complexidade das provas discursivas específicas, que os vestibulares tinham há alguns anos. Isso é um problema? A parte de Matemática do exame nacional tem o grau de dificuldade necessário para a seleção de candidatos bem preparados para a área de Exatas?
As questões do Enem estão muito longe da complexidade das questões discursivas específicas das universidades. Se analisar a segunda fase da Uerj e da UFF, e a UFRJ, como era até o ano passado, e comparar com o nível das questões do Enem, é um abismo. Uma diferença enorme.

Por: Marcella Dos - [email protected]
Assine e tenha acesso completo ao conteúdo do Folha Dirigida
OU

Comentários

NEWSLETTER
Cadastre-se para receber notícias e Informações