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As competências exigidas para o sucesso na vida profissional


Há algumas décadas, era fácil saber o que era necessário para ter boas chances de conseguir um emprego. Ter um diploma de curso de graduação e, de preferência, falar e escrever em Inglês eram decisivos para conquistar uma vaga de destaque.

Estes aspectos continuam sendo muito importantes. Mas, com as transformações no mundo corporativo, outros atributos são avaliados com bastante interesse pelas empresas que têm valorizado muito as chamadas competências comportamentais.

Ter habilidade de comunicar-se bem, espírito de colaboração, flexibilidade para cumprir tarefas de naturezas distintas, espírito empreendedor e facilidade de trabalhar em grupo e liderar equipes são características valorizadas pelas empresas na hora de contratar, como ressalta a presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Leyla Nascimento. Para ela, estas competências são tão estratégicas que poderiam ser trabalhadas, até mesmo, na educação básica.

“Quanto mais cedo melhor. A própria formação do ensino fundamental já deveria vir com essa questão da experiência do conhecimento e da aplicação na vida de cada um sobre o ambiente profissional”, destacou Leyla Nascimento, que, nesta entrevista, também aborda questões como liderança, importância do envolvimento em atividades ligadas ao voluntariado, hora certa para buscar um curso de pós-graduação, mercado de trabalho para os jovens, entre outros temas.

Quais são as principais competências mais valorizadas atualmente pelo mercado de trabalho?
Leyla Nascimento —
A principal competência hoje, além da parte que cabe à cada formação, está muito ligada à questão da flexibilidade desse profissional. Hoje estamos passando por momentos de total mudança dentro do ambiente corporativo, que está tudo muito ligado à questão do aprendizado, uma vez que não somos mais profissionais de uma só formação ou de uma única experiência. A capacidade desse profissional de aprender e de se auto-desenvolver tem sido privilegiada. Isso porque, hoje, por mais que as empresas queiram, não há um modelo de gestão. As coisas vão se adaptando, os organogramas são modificados frequentemente e, por conta disso, a multifuncionalidade é algo bastante prestigiado como uma competência que faz a diferença dentro de uma organização. A outra competência importante é a capacidade do colaborador de estabelecer uma relação de confiança dentro da organização. As empresas estão cada vez mais delegando o posicionamento, o relacionamento de seus colaboradores com seus clientes. E o profissional cria essa relação de confiança através do que ele constrói com a equipe, com a sua liderança e com a organização como um todo.

Há outras competências valorizadas?
A capacidade de comunicação é mais uma dessas competências. É fundamental para um estudante ou profissional ter o hábito da leitura facilita, pois a verbalização do pensamento e de tudo que se quer transmitir. Hoje, mais do que nunca, a comunicação é uma competência individual importante. Mais uma das competências diz respeito ao conhecimento de outras culturas. Cada vez mais somos convidados a diversos encontros profissionais, sejam presenciais ou a distância, com pessoas de outros países. Se falássemos de liderança feminina no Brasil, ela teria um perfil. Na Inglaterra teria outro. E em outros países, outros perfis. No Brasil, a mulher quando está no papel de liderança, ela tem uma preocupação permanente com os filhos, com a casa. Ela faz todas essas atribuições de uma maneira fácil, muito fluida. Faz parte dela coordenar essas atividades de casa. Já na Inglaterra, a mulher aparece mais delegando essas missões aos maridos, lida com as questões de uma pessoa que possa administrar a casa pra ela. São experiências diferentes que precisamos entender e aprender. Uma outra competência que deveria ser básica, como uma competência técnica importante, é a de que, independente da profissão, todos deveriam aprender sobre finanças, orçamento e planejamento estratégico.

Você falou sobre liderança. Quando pensamos nessa palavra, associamos àquele que está à frente de um grupo. Seria importante que as pessoas que fazem parte de uma equipe desenvolvam essa capacidade de liderança? Isso ajuda, de certa forma, a ter um trabalho melhor como colaborador também?
A liderança não está restrita a um cargo. Posso ser líder de uma atividade, de um projeto que me foi confiado, de um momento específico da empresa. A minha primeira responsabilidade é me imbuir de minhas atividades. Aquilo com que me comprometo, eu entrego. Logo, tenho que ser cada vez mais competente nessa entrega. A outra questão é a liderança ligada à função, ao cargo que aquela pessoa ocupa, quando ela dirige e responde por um grupo, com a função de coordenar essa área e desenvolver a equipe para que atinjam os resultados. Está muito ligada à questão de gerir pessoas.

Quais são os principais erros que a pessoa comete quando está em uma posição de liderança?
A primeira questão está ligada ao estilo dessa liderança. Não há espaço para uma liderança centralizadora, que não dê oportunidade às pessoas de se desenvolverem. Um outro erro grave é quando esse líder não consegue comunicar com clareza para onde esta organização está indo, quais são as metas, o que meu setor representa em termos de conjunto para a empresa, entre outros aspectos. Ninguém mais quer estar numa área sem saber sua competência de fato. Outro ponto é quando o líder não consegue fazer de sua liderança um crescimento conjunto através de feedback. A geração atual lida muito bem com esse retorno. O feedback é um alimento para o crescimento desses profissionais. O líder que reconhece, que dá esse feedback para que as pessoas saibam como seu trabalho está sendo realizado, certamente terá talentos em desenvolvimento.

Sobre essas competências valorizadas, como que elas poderiam ser disseminadas nas escolas e universidades, para que as pessoas já chegassem ao mercado de trabalho com algum domínio delas?
Quando pensamos em universidades, temos algumas que já trabalham um pouco nesta perspectiva. Mas, ainda estamos naquele sistema de ensino departamentalizado. Eu estudo Administração, tenho uma parte de Economia, outra de Contabilidade. Uma vez fui entrevistada por uma jovem jornalista e ela falava sobre a disputa que há entre aquilo que se tem na escola e na prática da empresa. Quando ela estava no curso de Jornalismo, o que era passado pra ela eram estratégias de como se desenvolver. Quando ela foi para uma redação, ela percebeu que o ritmo era outro. Ao mesmo tempo que ela cuidava de uma matéria policial, ela também cuidava de outra sobre bem-estar. Então, o ambiente corporativo é um ambiente em constante desenvolvimento. Quando observamos as disciplinas clássicas dentro de uma universidade, percebemos que ainda estamos fragmentando os conhecimentos. E o ambiente corporativo tem um olhar sistêmico. Mesmo sendo uma profissional de Pedagogia, eu tenho que olhar como um todo, onde os negócios da empresa estão posicionados nesse cenário, onde o meu setor está nos negócios da empresa, onde eu estou no meu setor e de que forma ele contribui para os negócios da empresa. Por isso o olhar sistêmico é importantíssimo. Porém, as faculdades ainda apresentam essa dificuldade em fazer essa conjunção de forma a fazer com que o aluno tenha essa visão e possa desenvolver e aplicar tudo isso em uma tarefa profissional que o convide a ser sistêmico.

Seria possível trabalhar essas competências antes mesmo do ensino superior?
Quanto mais cedo melhor. A própria formação do ensino fundamental já deveria vir com essa questão da experiência do conhecimento e da aplicação na vida de cada um sobre o ambiente profissional. Por exemplo, quando estou trabalhando com criança sobre a questão das atividades, das profissões, da socialização que faço com as crianças, de forma que elas possam perceber onde está a liberdade dela e a do colega, a questão de trabalhar junto, as atividades escolares. A criança se desenvolveria com muito mais naturalidade.

A questão do envolvimento com as atividades de voluntariado, as atividades em prol do próximo, isso também é valorizado no mercado? Por que?
Quando uma pessoa lida com um trabalho voluntário, está trabalhando com uma atividade para alguma causa que tenha importância naquele trabalho. Essa causa, geralmente, serve para suprir necessidades ou promover uma maior eficácia daquela atividade, ou fazer uma mobilização daquela causa. Todo projeto social tem uma parte de conhecimento, um aspecto relacional, de persuasão e proximidade. Tudo isso, sem esquecer do aspecto da liderança. Todo voluntário, até pela iniciativa dele, tem um atributo de liderança muito forte. Essas atividades extraclasse têm um valor muito grande porque desenvolvem naquela pessoa uma experiência que ele vai levar para o mundo corporativo.

Outro assunto que se fala muito é sobre a busca pela especialização. Hoje em dia, há vários caminhos para se especializar. O que se deve levar em conta na hora de buscar uma especialização que possa especificamente abrir as portas do mercado de trabalho ou aumentar a empregabilidade da pessoa?
Em primeiro lugar, não posso participar de qualquer tipo de curso, seja de curta duração, MBA, curso técnico, tecnólogo, enfim, sem antes fazer o exercício de olhar para a minha formação e tomar ciência das exigências das empresas com os profissionais que tem a mesma formação que eu. O que faltaria para que o currículo ficasse ainda mais valorizado? Aí sim poderia buscar o curso que cumpra uma deficiência que eu tenho. Sou contra as pessoas que fazem um curso de graduação e em seguida ingressam em uma pós-graduação ou MBA. O estudante que acaba de se graduar tem que experimentar o mercado, buscar no mercado um pouco mais de vivência e experiência para que possa perceber um curso que possa de fato agregar ao currículo conhecimentos que darão o direcionamento de carreira. Cursos de pós-graduação e especialização necessitam de uma auto-avaliação sobre a questão da carreira relacionada a sua experiência com o mercado.

Ainda nessa questão de formação e qualificação, há décadas se fala sobre ter cursos de idiomas, de Informática, entre outros cursos específicos. Hoje em dia há algum tipo de conhecimento que é valorizado ou a tentativa de buscar novos conhecimentos é mais importante?
Ainda são muito valorizadas as pessoas que dominam as tecnologias. É considerado importante saber trabalhar, por exemplo, com uma planilha de Excel, com o Acrobat, o Powerpoint, e outras ferramentas que são utilizadas dentro das organizações. Outro ponto é a questão relacional, quer dizer, como uso essas ferramentas ligadas à web para abordar o cliente, negociar contratos não necessariamente presenciais, ou seja, como me relaciono através da web. Efetivamente, são ferramentas de trabalho e, principalmente, de resultados. A questão do domínio idiomas estrangeiros é fundamental. Não dá para ficar sem isso. As empresas estão cada vez mais seletivas com relação a esse aspecto. Claro que, às vezes, o profissional é exigido, na prática, nunca utiliza o idioma em seu ambiente de trabalho. Mas, tudo isso continua em alta e é importante, principalmente pelas relações internacionais que as empresas, de maneira geral, vêm desenvolvendo cada vez mais.

Os jovens são os que mais sofrem com o desemprego no país. A seu ver, o que causa essa dificuldade: seria realmente uma questão do mercado ou seria a falta de preparo da juventude?
Eu diria que não é somente o jovem. Vivemos, na verdade, uma invasão de estrangeiros, uma vez que nosso país é a “bola da vez”. O mercado está muito competitivo. Então as empresas não podem errar no sentido da contratação de pessoas e de preservar aqueles que são bons. Ninguém quer perder seus melhores profissionais. Mas eu não diria que são necessariamente dificuldades. Nunca tivemos tantas chances de ingresso para os jovens como agora: o crescimento dos programas para trainee, dos programas de estágios, o desenvolvimento da geração Y no mercado. Vejo que é uma transição que está acontecendo com todos os profissionais. Um outro detalhe importante que tem acontecido no mercado é a volta de profissionais que já têm uma experiência e se aposentaram, mas que são convidados pelas empresas. Como o país não está conseguindo ter o número suficiente de profissionais qualitativamente, mas sim quantitativamente, está ocorrendo esse reingresso no mercado de trabalho. A área Naval, por exemplo, está muito aquecida e por conta disto os profissionais antigos estão retornando às empresas.

Por: Diego Da - [email protected]
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