Folha Dirigida Entrar Assine

As lacunas da cultura científica no Brasil


Entre os dias 13 e 22 de junho, o Rio de Janeiro sediou a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, o maior encontro já realizado entre     as lideranças mundiais. Ao final do evento, a cidade ganhou o Centro Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, o Centro Rio+.

O novo órgão surge da parceria entre o Governo Federal, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e agências da ONU. Instituições nacionais e internacionais, públicas e privadas, integram a iniciativa, cujo objetivo é a promoção de discussões sobre os desafios da sustentabilidade no planeta. O Centro Rio+ funcionará nas instalações do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, a Coppe/UFRJ.

O diretor da Coppe/UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, é graduado em Física pela UFRJ, mestre em Engenharia Nuclear pela Coppe/UFRJ e doutor em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É professor titular do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, professor do Programa de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia da UFRJ.

Na entrevista, ele explica como está o processo de implementação do Centro Rio+, que, na sua avaliação, consagra o Rio de Janeiro como capital mundial da sustentabilidade. Ex-presidente da Eletrobrás, Luiz Pinguelli Rosa denuncia a falta de uma “cultura científica” no país. “Penso que é preciso melhorar  o nível científico e técnico da população como um todo. Nós somos uma população de ignorantes científicos. É muito pouca a informação científica que nos chega. E quando chega, chega muito deturpada, tratada como algo fantástico”, revelou o diretor da Coppe/UFRJ, que participa do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC).


FOLHA DIRIGIDA — O Centro Rio+ foi criado com objetivo de dar continuidade às discussões iniciadas pelos Diálogos para o Desenvolvimento Sustentável (www.riodialogues.com). Qual é a importância deste órgão?
Luiz Pinguelli Rosa - O Centro Rio+ é filho da Rio+20. Esse órgão trabalhará com o Pnud, o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas que aderiu a essa ideia divulgada pela ministra do Meio Ambiente, Izabela Teixeira, nas sessões finais da Conferência Mundial. Houve uma influência dos “Diálogos com a sociedade”. Antes do encontro, foi criada um plataforma na internet, com várias temáticas o sobre o desenvolvimento. Depois, na conferência, aconteceram os painéis presenciais, nos quais aproveitamos sugestões feitas pela internet. A ideia do Rio+ é dar uma continuidade a esse processo, se alimentando dos temas discutidos e dando prosseguimento a esse diálogo. Nosso papel é duplo pois oferecemos a sede para o Centro Rio+, que funcionará em um dos prédios da Coppe/UFRJ. E, em paralelo a esse processo, criamos o Instituto Global para Tecnologias Verdes e Emprego, o GIGTech.

A que se destina o GIGTech?
Esse órgão é fruto de parceria da Coppe/UFRJ e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Essa iniciativa é voltada para a tecnologia. Queremos juntar projetos de várias áreas como clima, energia; e coordená-las, dando-lhes um caráter internacional. Participamos do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change ou Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). Temos uma relação muito forte com a China, com a Universidade de Tsinghua e com a Universidade do Petróleo da China. Realizamos um projeto de biodiesel com os chineses e outro de etanol de segunda geração, com os japoneses. Isso tudo será coordenado pelo GIGTech.

O Centro Rio+ vai propor políticas públicas no Brasil?
Sim. Contribuirá para proposição de políticas públicas, não apenas no Brasil, pois é um órgão internacional. Ele terá representantes do Pnud e de outros países.

O senhor acredita que com a criação do Centro Rio+ a cidade do Rio de Janeiro se firma como a capital mundial da sustentabilidade?
O Rio de Janeiro já o centro de discussão das questões de sustentabilidade. A cidade sediou a Rio 92, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano, da qual saíram as principais iniciativas na área ambiental, como a Convenção de Quioto, por exemplo. O Centro Rio+ poderá garantir uma certa continuidade para essas questões. Isso será vantajoso para todos.

Durante a realização da Rio+20, aconteceram mais de três mil eventos paralelos, muitos deles, relacionados à divulgação científica. Porém, projetos dessa natureza parecem estar distantes do cotidiano de estudantes brasileiros, especialmente os da rede pública. Por que o universo da Ciência está tão afastado do ambiente escolar?
Em São Paulo, há mais iniciativas de divulgação científica do que aqui no Rio de Janeiro. Mas temos algumas. No Rio, Ildeu de Castro, professor do Instituto de Física e do Programa de Pós-graduação em História da Ciência e das Técnicas e Epistemologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diretor do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação (Mcti) e membro do Conselho Nacional de Política Cultural e do Conselho Técnico-Científico da Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), promove uma série de atividades, como debates e exposições. Aqui na Coppe/UFRJ temos um corredor com exposições. Esse é um projeto que pretendemos incrementar. Os estudantes de ensino médio da rede estadual vêm aqui toda semana e visitam o Espaço Coppe Miguel de Simoni de Tecnologia e Desenvolvimento. Este projeto já tem mais de dez anos. Os alunos têm uma pequena reunião com estudantes de Engenharia, que ganham uma bolsa para fazer a orientação.

O ensino de Ciências no Brasil agoniza: há uma elevada carência de professores de Química, Física, Matemática, Geografia. Que medidas podem ser tomadas para reverter esse quadro?
Quando eu coordenava o Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ fizemos um grande projeto com a Secretaria Estadual de Educação que era ocupada, à época, por Maria Yeda Linhares, professora de História da UFRJ. Fizemos um projeto em que os professores de ensino médio da rede estadual vinham até nós ou nós e professores de outras universidades íamos até eles, nos núcleos de docentes da rede estadual, para fazer uma reciclagem. Fizemos isso com milhares de professores. Essa iniciativa tinha muito apoio do Darcy Ribeiro, que era vice-governador do estado. Infelizmente, a professora Maria Yeda Linhares se afastou da Secretaria de Educação e o programa foi interrompido. Penso que é preciso melhorar o nível científico e técnico da população como um todo. Nós somos uma população de ignorantes científicos. É muito pouca a informação científica que nos chega. E quando chega, chega muito deturpada, tratada como algo fantástico. Em geral, o brasileiro desconhece o lado concreto e racional da Ciência. A nossa cultura geral é a cultura dos advogados.

Existe um apagão de engenheiros e de mão-de-obra especializada na área tecnológica?

Existe um apagão de engenheiros sim, mas acredito que o nossos problemas vão muito além disso.

Por quê?
Vivemos um momento de expansão da energia eólica. O preço da energia eólica está praticamente empatando com o do gás natural. Ela é um pouco mais cara do que a energia de hidroelétricas, mas, hoje em dia, há grandes dificuldades e entraves com relação à construção de hidroelétricas. E, muitas vezes, o país recorre às usinas termoelétricas. Nesse cenário, o preço da energia eólica no Brasil ficou muito favorável. Participei de uma reunião no BNDES onde mostrei exemplos de empresas estrangeiras que vieram para o Brasil explorar a energia eólica. Há 11 empresas vindo para cá, inclusive empresas da Argentina. E não há nenhuma empresa brasileira trabalhando neste setor de energia eólica. Com a energia solar acontece quase a mesma coisa: a maior parte da exploração está em mãos estrangeiras.

Na sua avaliação, por que não há um interesse do empresariado brasileiro neste setor?

Ao longo das últimas décadas, não se deu a devida atenção ao setor de tecnologia. O que vejo no Brasil é falta de empresários, de empreendedores. Existe uma mentalidade preguiçosa. É preciso assumir riscos ao lidar com a tecnologia porque nessa área o que vai dar certo é aquilo que ainda não é utilizado. É preciso ganhar o mercado. No Brasil, o empresariado quer fazer coisas como papel higiênico, sabonete, chinelo de dedo. É uma pobreza. O Brasil precisa de uma escola de empresários; não se trata de MBA, mas de uma escola de empreendimentos no sentido de criar inovações. Cito o exemplo de John Rockefeller e Henry Ford. O Rockefeller era um bandoleiro. Ele fazia contratos horrorosos. Os americanos criaram a lei anti-truste para dividir as empresas dele. Ele criou as empresas multinacionais. Ele era um homem apaixonado pelo petróleo e queria ganhar muito dinheiro, mas com petróleo. Queria que o mundo inteiro usasse gasolina, óleo diesel. E o Ford fez algo parecido com o automóvel. Ele tem a famosa frase: “Eu quero que meus operários comprem o meu carro”. Era um carro para todo mundo ter: o famoso modelo T. E assim ele ganhava mais dinheiro. Naquela época, os europeus faziam carruagens com motor. Eram carros enormes, para pessoas nobres, que andavam com motoristas. E o Ford fez um carro pequeno, barato, e que todo mundo podia comprar. Ele foi um pioneiro no mundo do automóvel. Ele tinha essa paixão. E faltam pessoas com esse perfil no Brasil. Há alguns exemplos isolados, como o José Mindlin, dono de uma grande fábrica de componentes de automóveis, que a vendeu para os americanos. De certo modo, o Eike Batista representa uma certa mentalidade nesse sentido, como também o Antônio Hermínio de Moraes, dono do Grupo Votorantim.

E quais são as consequências desse quadro no empresariado do país?

No auge do Neoliberalismo, o Brasil era um grande plantador de laranjas. E isso era um orgulho nacional. Depois veio a soja. E no Governo Lula, tivemos o minério de ferro. É importante que o Brasil ganhe dinheiro com isso: ninguém deve negar a importância da  agroindústria e da mineração. Mas se esgotar nessas possibilidades é de uma pobreza de espírito... Quando eu era jovem, a Coreia era um país divido ao meio, vivia em guerra. Hoje, a Coreia exporta automóveis, geladeiras, televisores, computadores. E China virou a líder no mercado de energia solar. A nossa universidade não consegue estabelecer a ponte com a indústria na medida necessária, embora a Coppe/UFRJ faça muitas ações nesse sentido. E além disso, a burocracia atrapalha as ações das universidades.

 

Por: Tainara Silva - [email protected]
Assine e tenha acesso completo ao conteúdo do Folha Dirigida
OU

Comentários

NEWSLETTER
Cadastre-se para receber notícias e Informações