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‘É necessário resgatar o prazer de lecionar e estudar’


No próximo dia 25, será realizado o 5º Encontro Nacional de Educadores, que está com inscrições abertas, pela internet. A partir do tema centra “O prazer poético no ensino”, especialistas de diferentes áreas como inteligência emocional, neurociência aplicada à educação, Ludicidade e Música, Aplicação de tecnologias no ensino, entre outras, debaterão questões e apresentarão ideias para aquele que talvez seja um dos maiores desafios da educação atual: resgatar o prazer pela escola, por parte do aluno, e por ensinar, no da parte dos professores.

Para a idealizadora do evento, a educadora e escritora Paty Fonte, despertar o interesse dos principais envolvidos no processo educacional é possível, mas exige diretrizes de atuação pedagógica muito diferentes das praticadas em boa parte das escolas. Para ela, a nova geração não aceita mais a decoreba, o autorismo e a leitura sem significado.

“A escola precisa enfatizar a curiosidade, a criatividade, a inovação, a pesquisa e a imaginação. Incentivar a autonomia individual e a solidariedade, prevenir insucessos e lutar contra as desigualdades, favorecer o ensino experimental e o espírito científico, abrir novos horizontes”, destacou Paty Fonte, que é autora do livro “Projetos Pedagógicos Dinâmicos: a Paixão de Educar e o Desafio...”, especialista em pedagogia de projetos, tutora de cursos presenciais e online de educação continuada a docentes, coach, palestrante.

Nesta entrevista, ela fala sobre os desafios do ensino atual, da importância do investimento em formação continuada dos professores para a melhoria da qualidade do ensino, apresenta aspectos que serão discutidos no 5º Encontro Nacional de Educadores e salienta que vivemos, atualmente, uma crise educacional. “É inconcebível que nossos alunos continuem escrevendo, lendo e falando sobre o que os autores dizem e pensam ou sobre o que os outros fizeram e disseram, sem transformar, modificar e participar.”

FOLHA DIRIGIDA - A senhora defende uma educação inovadora, prazerosa e baseada na construção do conhecimento. O que deve mudar no ensino de hoje para que seja possível alcançar estes objetivos?
Paty Fonte - O ensino tradicional baseado na transmissão e acúmulo de informações não condiz com a sociedade que hoje exige uma educação dinâmica, interativa e voltada para a formação integral do indivíduo. Cada ser é único, com suas peculiaridades, desejos, sonhos, receios, dúvidas... Respeitar as diferenças e possibilitar atividades variadas que desenvolvam todas as competências e habilidades é o grande desafio. A educação, além de transmitir informações, tem que formar um cidadão que saiba transformar essas informações em conhecimento, em ação, e desenvolver habilidades e competências que o capacitem a lidar com as rápidas transformações realizando um projeto de vida e de sociedade.
 
- A senhora ministra cursos diversos de capacitação e educação continuada para professores em serviço. Quais as principais deficiências que os docentes apresentam?
É ainda bastante comum nas escolas a mera transmissão de conteúdos, prontos e acabados, desvinculados à vida real dos alunos, sem espaço para crítica e reflexão. Há uma preocupação excessiva em preencher livros e cadernos com temas estanques, sem análise, sem debate, sem espaço para a fala do aluno, para a pesquisa, para a prática da descoberta. Preocupa-me o fato de muitos profissionais acreditarem que essa é a melhor maneira de ensinar. E aqui não me refiro apenas à rede pública de ensino, mas também e, principalmente, à rede privada. Tantas vezes as escolas com muitos recursos financeiros esquecem-se do seu papel social. Vejo claramente escolas com poucos recursos realizando trabalhos grandiosos, com profissionais engajados e preocupados. Não podemos generalizar alegando que todos os professores são mal formados e realizam o trabalho de forma precária. Isso não! Existe um grupo lutando pelas mudanças e finalmente as questões educacionais estão na mídia. Talvez o avanço tecnológico esteja ajudando, pois através da internet todos se expressam: professores, pais, alunos...

- Como avalia as políticas relacionadas à educação continuada de profissionais do magistério no país? É um investimento bem feito ou há problemas?
Eu creio que é necessário ampliar as possibilidades e variar ao máximo os cursos, oficinas e palestras. Trabalhei pouco com rede pública, pois parece que existem preferências e uma lista de profissionais que sempre são chamados. Não é tão simples apresentar novas propostas para as secretarias de educação.

- O país precisaria investir mais nesta área de formação continuada do magistério? De que forma?
Para ter um ensino qualificado é fundamental tempo e espaço para refletir, trocar experiências, aprofundar conhecimentos, sanar dúvidas. Somente assim, o professor sentirá segurança para desenvolver seu trabalho. Infelizmente, isso não acontece. Deve-se partir do princípio de que em educação, como em qualquer outro setor profissional, a valorização do ser deve vir antes de qualquer coisa, pois antes de ser professor, ele é indivíduo, uma pessoa dotada de raciocínio, de sentimentos, de desejos e expectativas de ver no outro a confirmação do bem e do carinho natural que deve existir entre os seres. Há necessidade de uma formação continuada, para que os professores possam, onde estejam inseridos, exercer a reflexão sobre sua práxis, num movimento de pesquisa constante que revele elaboração e reelaboração do conhecimento, garantindo assim a eficácia de sua atividade. É possível atestar que a formação continuada do profissional docente é um dos elos fundamentais na reformulação do processo educacional no país.

- É comum ouvir que, nos dias de hoje, muitos alunos não têm interesse em estudar. Como resgatar este prazer pela escola?
Acredito que o processo ensino-aprendizagem só é eficaz se for realizado com paixão e entusiasmo, tanto pelo professor que ensina como pelo aluno que aprende. É necessário resgatar o prazer de lecionar e estudar. Para tanto, a escola precisa enfatizar a curiosidade, a criatividade, a inovação, a pesquisa e a imaginação. Incentivar a autonomia individual e a solidariedade, prevenir insucessos e lutar contra as desigualdades, favorecer o ensino experimental e o espírito científico, abrir novos horizontes, aliando a compreensão das origens e raízes à identidade da inovação científica e tecnológica. São muitas as reclamações, as dúvidas dos docentes em relação ao comportamento de uma nova geração que não aceita o autoritarismo, a decoreba, a leitura sem significado. Tudo isso gera ansiedade de ambas as partes e traduz a urgência de mudança de postura.

- Muitos afirmam que vivemos uma grande crise educacional, que não há uma formação reflexiva e que as escolas, em geral, não formam seres pensantes, homens completos. Quais as causas desta crise?
O grande desafio é o desenvolvimento de um intelecto habituado ao pensamento crítico, à aprendizagem autônoma, ao processamento, elaboração e estruturação da informação para a geração do conhecimento. O conhecimento não é constituído de verdades absolutas e estáticas, mas um processo dinâmico, que acompanha a vida humana e não constitui em mera cópia do mundo exterior, sendo um guia para a ação. É inconcebível que nossos alunos continuem escrevendo, lendo e falando sobre o que os autores dizem e pensam ou sobre o que os outros fizeram e disseram, sem transformar, modificar e participar. Temos que mudar a realidade do baixo rendimento escolar, da evasão, da indisciplina e desmotivação por meio de uma prática refletida e ativa onde pensamento e ação estejam interligados. Nosso grande desafio é que a escola seja um espaço onde os alunos falem e debatam com coerência, ajuntem matérias, escrevam suas ideias, pesquisem em diferentes fontes, construam protótipos, pintem, exercitem seus corpos, trabalhem em equipe, formulem problemas, tomem atitudes diante dos fatos, investigando, construindo novos conceitos e informações e escolhendo os procedimentos quando se veem diante da necessidade de resolver questões, realizando assim atividades significativas e inovadoras. Todavia, para desenvolver um trabalho desse porte, a escola e o professor precisam estar abertos às discussões, às trocas de experiências e envolver-se com o trabalho interdisciplinar. Sem esse tripé fica difícil qualquer tentativa de mudança.

- O que é fundamental para solucionar esta grande crise educacional?
É fundamental resgatar a autoestima e a autoconfiança nos educadores, construindo um ambiente saudável na comunidade escolar. Assim como muitos de seus alunos e alunas, os educadores e educadoras também estão carentes de atenção, de afeto e de valorização. Há uma inquietação geral por parte dos educadores frente aos desafios da atualidade, o que só resolveremos com otimismo, determinação, sentimento e, principalmente humildade - disponibilidade para aprender tanto quanto para ensinar. Aprender novas técnicas, aprender a se colocar no lugar do aluno, aprender a ver o mundo com os olhos do novo tempo, usufruindo das inúmeras possibilidades que ele oferece. Há de se ter coragem, ousadia, mas, sobretudo ideal. A certeza que podemos viver num mundo melhor, transformando-o através de uma educação eficaz.

- A senhora está organizando o 5º Encontro Nacional de Educadores, que ocorre no próximo dia 25 e está com inscrições abertas. O que o público pode esperar das discussões neste evento?
O prazer poético no ensino é o tema central do evento. Todas as questões aqui lançadas serão discutidas e levadas à reflexão. Existe esse prazer poético? Como resgatá-lo? Seis mediadores - profissionais renomados da área de educação - apresentarão propostas possíveis de se colocar em prática nas diversas instituições de ensino. Os temas em pauta são: Inteligência emocional e afetividade; Psicomotricidade; Neurociência aplicada à educação; Ludicidade e Música; Filosofia na sala de aula e Tecnologias na escola. Todos interligados ao tema central e a Pedagogia de Projetos - que é a base do nosso trabalho.

- Em sua palestra, você abordará o tema central: “O que significa prazer poético no ensino? Lançando reflexões sobre inteligência emocional e afetividade.” O que seria este prazer poético no ensino a que a senhora se referiu e qual a relação dele com a inteligência emocional?
A sociedade escolar, em sua maioria, se apresenta de forma irredutível, rígida e reducionalista e assim não se prepara para interacionar com a criança do século XXI. A maneira enlatada de conjugar conteúdos, métodos e disciplinas nas escolas engessa as mentes dos indivíduos que repetem e copiam, mas não são estimulados a criar, questionar e imaginar. Não são autores de sua própria história. Preocupo-me em alertar os docentes para que não transformem seus alunos em meros espectadores numa plateia que concorda com tudo sem argumentar e criar. Para perceber a capacidade de a criança viver poeticamente o conhecimento e o mundo é necessário que os professores resgatem a afetividade e trabalhem a inteligência emocional. Espera-se que o educador seja uma figura transformadora e acolhedora. Um amigo carinhoso que não impõe sua opinião, que respeita e valoriza cada história de vida. A tarefa não é fácil, bem sabemos, mas extremamente gratificante e estimulante àqueles que elegeram o magistério como profissão. Discursos pessimistas, egoístas, ambiciosos e invejosos devem ser abolidos dentro das escolas que buscam educar sem perder o foco do verdadeiro sentido da palavra. Porém, para que o professor possa exercer sua função de forma positiva é preciso acreditar na sua capacidade, sentir-se seguro e valorizado.

- Poderia nos explicar o que é inteligência emocional e como ela se relaciona com o processo educativo de uma criança, adolescente ou jovem? Como esta forma de inteligência pode ser explorada no universo educacional?
Procura-se atualmente resgatar a dimensão humana do trabalho pedagógico evidenciando o relacionamento do professor com aluno. Mas ao lado do papel técnico de ensinar, ou seja, o “como se relacionar com o aluno” está incluído o papel político desse relacionamento e de mobilizar, de acionar a participação efetiva no processo de mudança da realidade. Educar para as emoções não significa abandonar os conteúdos do currículo escolar convencional, mas integrá-las de forma que sejam trabalhadas constantemente, destacando sempre seu caráter transdisciplinar. Uma pessoa educada, emocionalmente, é um ser equilibrado, que sabe lidar com uma variedade de situações do cotidiano e com as pluralidades de ideias, pessoas e sentimentos. Independente da metodologia, filosofia ou técnica de ensino, vivemos na era da informação, do bombardeio dela inclusive. Vivemos na era do imediatismo, do consumismo, dos vícios, das famílias desestruturadas, da falta de valores, da correria, do stress. Paralelo a isso, hoje, para se conseguir um bom emprego não basta ter cultura e conhecimento técnico, é preciso saber relacionar-se, respeitar as diferenças, argumentar na hora certa, saber ouvir e contra-argumentar, criar, inovar e sensibilizar.

- O objetivo do 5º Encontro Nacional de Educadores é questionar como uma sociedade escolar - irredutível, rígida e reducionalista pode se preparar para interacionar com a criança do século XXI. Como trabalhar isto no ambiente educacional?
Ao promover situações em que se reflita sobre as regras e contrarregras, ordens e contraordens, conflitos, oposições, valores a escola estará preparando o aluno para lidar com  a diversidade, para aceitar o outro e sua opinião, experienciando o erro, o fracasso, as perdas, desenvolvendo a sua maturidade emocional, contribuindo, pois, para a formação da sua identidade. Ao realizar seus planejamentos, o professor que atua com uma postura de educador, antes de organizá-los, considera as vivências, os conhecimentos e as informações que o aluno carrega e a sua forma de ver e de viver no mundo moderno, para optar por uma forma metodológica que auxilie a transpor os conteúdos sistematizados, científicos e promover uma aprendizagem significativa.

- Qual o perfil desta criança do século XXI?
As crianças parecem já nascer “plugadas”, conectadas, com múltiplos olhares e sentidos aguçadíssimos. Chegam às escolas ávidas por novidades, por interação, desejam explorar tudo e todos. Essa nova geração não aceita o autoritarismo, a decoreba, a leitura sem significado.

- Em quais aspectos o perfil desta criança do século XXI desafia os professores?
Desafia a partir do momento que é visível a urgência de mudança de postura. Em contrapartida, mudar não é tão fácil e deve ser uma decisão conjunta. Todos os membros da comunidade escolar precisam estar envolvidos em prol dos mesmos objetivos. Precisamos aprender a lidar com essa nova geração, com o mundo atual e avançar. Isso implica em mudança de paradigmas, sobretudo implica em humildade. Por sermos professores, não sabemos tudo, não temos receitas, não somos os donos da verdade. É preciso estar disposto a aprender tanto quanto a ensinar. É preciso a pesquisa, a observação, a reflexão. É fundamental o desejo de que a escola seja o verdadeiro espaço de aprendizagem. Aprendizagem em conjunto. Juntos podemos buscar novos caminhos, vislumbrar possibilidades que atendam aos reais interesses da vida que temos a encarar. Tudo isso implica em inteligência emocional. Não creio que seja fácil, mas creio que estamos no caminho e precisamos nos unir para reunir forças.

Por: Diego Da - [email protected]
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