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Educação ambiental pelo exemplo


Em junho, o Rio de Janeiro irá sediar a Conferência Rio+20, na qual líderes mundiais e pesquisadores de diversos países deverão discutir que ações adotar para reverter o quadro atual de degradação e fazer com que o planeta caminhe na direção do desenvolvimento sustentável.

Mas, esse certamente não é um debate que deve ficar restrito aos especialistas e autoridades. Todos, em especial os jovens e crianças, que terão a responsabilidade de colocar em prática os princípios delineados na conferência, não só podem, como devem ser envolvidos nesse debate sobre o futuro do planeta.

E a forma mais adequada de fazer isso é pela via da Educação. Daí a importância de as escolas levarem a Rio+20 e, consequentemente, a discussão em torno da sustentabilidade, para as aulas. E uma boa forma de fomentar esse debate é a partir de uma pesquisa e análise crítica sobre os desdobramentos da ECO 92, da qual a conferência deste ano é um desdobramento.

A sugestão é do professor Nelson Pascarelli Filho, autor do livro Educando Para Preservação da Vida (Editora WAK), fruto de 20 anos de experiência em educação ambiental. Para ele, a ação das escolas deve ir além do trabalho em sala. “Educa-se pelo exemplo e a escola deve ter ações sustentáveis. Sem isso é  falácia e o aluno rapidamente apontará esse erro e poderá ficar desmotivado.”

Nesta entrevista, ele apresenta sugestões sobre como as instituições de ensino podem abordar temas como sustentabilidade, avalia a forma como as escolas trabalham a educação ambiental, comenta sobre as dificuldades do professor em levar esse tema para suas aulas e ressalta a importância de maior articulação entre as esferas do poder público para colocar em prática, no meio educacional, ações que conscientizem a geração atual e as próximas sobre a preservação do planeta.

“É importante enviar palestrantes nas escolas, desenvolver grupos de estudos e iniciação científica com os alunos, projetos que mostrem a importância da reutilização de embalagens e, principalmente abordar os desafios no reaproveitamento, reciclagem e reutilização do lixo eletrônico que está no cotidiano dos alunos”, destacou Nelson Pascarelli Filho, que é graduado em Biologia, Psicologia, Filosofia e Pedagogia; pós-graduado, entre outras áreas, em Pedagogia Hospitalar e Gestão Educacional.

FOLHA DIRIGIDA - Neste ano, será realizada a Conferência Rio+20, que abordará as principais questões relativas à sustentabilidade. A seu ver, de que forma as escolas poderão aproveitar esse momento para reforçar a conscientização dos estudantes em relação a este tema?
Nelson Pascarelli Filho — As escolas deverão  abordar com os alunos a avaliação dos resultados práticos dos importantes documentos gestados a partir da ECO 92, como a Agenda 21, as Convenções sobre Mudança do Clima e a Diversidade Biológica, a Declaração de Princípios sobre as Florestas, de Combate à Desertificação e também a Carta da Terra, em 2000. O contexto é também inerente à História da educação ambiental que deve promover a consciência ecológica capaz de mudar atitudes inadequadas em relação à Natureza. O ponto de partida para os educadores trabalharem o tema com os alunos é a ECO 92 e deve-se avaliar criticamente como a ação política contribuiu ou criou obstáculos nesses vinte anos para as resoluções tomadas naquele momento.

- De que forma as escolas podem trabalhar esta questão da preservação ambiental e da sustentabilidade junto aos seus alunos? Que atividades poderiam ser desenvolvidas nessa linha?
O problema ambiental mais grave é o consumismo. É fundamental uma revisão dos padrões de consumo da população, que geram montanhas de lixo. A questão do lixo e o uso da água potável estão mais próximas dos alunos. Diante de um objeto que está à venda, é preciso perguntar: - Eu preciso disto agora? Se eu preciso, quanto dele devo comprar? O fabricante do objeto que quero comprar possui responsabilidade socioambiental? Tenho opções de comprar este objeto de outro fabricante que está mais comprometido com a preservação do meio ambiente? A questão da água é gravíssima! Porque a quantidade de água disponível no nosso planeta é a mesma desde a sua formação e uso dela cada vez mais intenso e irresponsável. É preciso conscientizar o aluno quanto se desperdiça de água potável ao ignorar uma torneira pingando. Uma torneira pingando uma gota a cada 5 segundos representa mais de 20 litros de água desperdiçados em apenas 1 dia! Peço aos alunos para brincarem de detetive e localizar as torneiras pingando em casa e na escola e depois conscientizarem seus familiares que o reparo é rápido, barato, preserva o meio ambiente e reduz a conta de água. Todos ganham com essa ação!

- Acredita que a questão da educação ambiental e da sustentabilidade têm sido trabalhadas de forma adequada nas escolas?
Com certeza! As escolas, tanto da rede privada como pública, estão trabalhando seriamente o tema sustentabilidade, com o envolvimento de toda a comunidade escolar e em várias disciplinas. E essa ação torna-se mais eficaz quando ocorrem parcerias entre escolas, universidades e as empresas.

- Para as escolas trabalharem a questão do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável com seus alunos, basta realizar atividades de incentivo à preservação do meio ambiente? O que mais envolve a sustentabilidade?
O tema sustentabilidade é complexo e amplo. Na Conferência Rio +20 o centro das discussões é o tema “Economia Verde, no contexto do desenvolvimento sustentável e da extrema pobreza”. Se temos tecnologia para investigar outros planetas, certamente temos tecnologia para acabar com a fome na Humanidade. Falta boa vontade entre os políticos. A ação ambientalista fere os interesses de grandes corporações que geraram montanhas de dinheiro devastando o planeta, causando pobreza e regulando as ações políticas. Essas corporações seculares ainda fazem um hipócrita “marketing verde” e, contraditoriamente, financiam agricultores e pecuaristas que estão devastando imensas áreas das florestas tropicais. Trabalhar o tema Sustentabilidade com os alunos implica em estudar profundamente temas como a “História da Riqueza do Homem” (Leo Huberman), a “Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” (Engels) e “A Microfísica do Poder” (Foucault). Portanto, não se pode abordar sustentabilidade sem falar da ação política e dos mapas do poder. Não basta somente incentivar a preservação ambiental, é preciso ensinar aos alunos a votar em políticos comprometidos com o saneamento básico, a educação e valorização dos docentes, o combate à corrupção, a distribuição justa de renda, a reciclagem do lixo e o descaso com o lixo hospitalar, cuidar das florestas e, principalmente cobrar as promessas feitas em campanha.

- A quantidade de temas que fazem parte do currículo oficial é um obstáculo para que as escolas possam realizar atividades voltadas para formação de alunos mais conscientes em relação à questão ambiental? Falta tempo para colocar isso em prática?
Não, não é um obstáculo. Lugar de crianças e jovens é na escola em tempo integral. Temos tempo suficiente para ensinar educação ambiental, música, enxadrismo e ainda dar a formação técnica em nível de excelência para que o educando entre rapidamente no mercado de trabalho e possa viver com dignidade e também custear a mensalidade da universidade.

- É muito comum ver escolas realizando gincanas para recolhimento de latinhas de alumínio, coleta de lixo em praias, cultivo de áreas verdes por parte dos alunos, etc. No entanto, é possível que boa parte destas escolas não dê o exemplo na utilização de material didático reciclável, separação correta do lixo, gasto consciente de água, etc. Adiantam atividades pedagógicas sem o devido exemplo? Por quê?
Educa-se pelo exemplo e a escola deve ter ações sustentáveis. Sem isso é  falácia e o aluno rapidamente apontará esse erro e poderá ficar desmotivado. Meu livro “Educando para Preservação da Vida”, editado pela WAK Editora/RJ, foi impresso em papel reciclado, condição sine qua non para o projeto nascer e cumprir sua ação educativa. Nas minhas aulas de Ciências, ensino higiene corporal e dos alimentos, e antes de começar as aulas, a sala deve estar limpa. Como posso abordar temas assim, se não cuido do meu ambiente de trabalho?! Ressalto: Educa-se pelo exemplo e isto vale muito para educação ambiental!

- Como fazer o jovem de hoje, cada vez mais individualista, ter uma atitude compatível com um mundo mais sustentável para todos?
Não podemos generalizar. Alguns jovens são individualistas e suas vidas só encontram sentido no consumismo. Eles são o que podem comprar, isto é muito triste e vazio! Porém, muitos jovens estão engajados em ONGs que realizam eficaz ação educativa e transformadora. Não deve o educador ter uma postura pessimista diante do desafio ambiental e assim roubar a esperança dos jovens em ter um futuro com mais sustentabilidade e baixo impacto ambiental. Quem se diz educador e não tem esperança num mundo melhor, está trabalhando no lugar errado. Na minha experiência educacional, com mais de 30 anos, sempre que proponho um projeto ambiental, tenho imensa adesão e dedicação dos jovens. Ressalto que estamos lutando por uma ética maior que visa proteger não somente a vida, mas o valor vida, pois todos os seres vivos interagem entre si nas imensas teias de energia que regem a biodiversidade no nosso Planeta.

- O senhor percebe articulação entre as secretarias voltadas para questões ambientais e as de Educação, para o trabalho com foco na questão ambiental nas escolas? Como elas poderiam atuar de forma articulada?
Esta articulação existe, mas poderia ser mais intensa superando com rapidez questões burocráticas que emperram esta articulação, digo isto num sentido amplo, em nível nacional. É importante enviar palestrantes nas escolas, desenvolver grupos de estudos e iniciação científica com os alunos, projetos que mostrem a importância da reutilização de embalagens e, principalmente abordar os desafios no reaproveitamento, reciclagem e  reutilização do lixo eletrônico que está no cotidiano dos alunos.
 
- Qual a maior dificuldade para o professor trabalhar a questão da sustentabilidade junto a seus alunos?
A educação ambiental tem que ser significativa e partir do aluno. É preciso conhecer a história social dele, seus valores e expectativas, os referenciais culturais e morais que ele tem em sua casa. A escola matricula famílias! Eu sempre inicio a educação ambiental propondo aos alunos que pesquisem como eles poluem o próprio corpo e encontrem soluções para essa minimizar essa “poluição” e isto implica em rever hábitos alimentares. Depois eu proponho aos alunos que analisem como eles poluem suas casas, a escola, o bairro e assim, em ampliações sucessivas, até analisar o lixo espacial, e assim se faz uma educação ambiental significativa.

- Que tipo de estudante é mais difícil de conscientizar para a proposta do desenvolvimento sustentável: o universitário ou o estudante da Educação Básica? Por quê?
Não se trata de dificuldades, mas de se conhecer profundamente a Psicologia do Desenvolvimento Humano e a Psicologia Educacional, e adequar o vocabulário e as estratégias de ensino a cada faixa etária, motivando os alunos e exigindo responsabilidade e comprometimento em preservar o meio ambiente através de atitudes sustentáveis. Entre elas, urge rever os padrões de consumo e colocar em xeque-mate as manipulações da mídia televisiva que condicionam as crianças e jovens para o consumo desenfreado contribuindo para o agravamento da epidemia de obesos infantis e as montanhas de lixo doméstico. Tanto no caso dos universitários, como dos alunos do ensino fundamental, se adotadas as estratégias de ensino adequadas ao desenvolvimento cognitivo de cada faixa etária, obteremos a conscientização ecológica capaz de mudar atitudes destrutivas com o meio ambiente.

- Voltando a falar das escolas, o senhor acha que a abordagem desses temas relacionados à questão ambiental deve ser feita através de uma disciplina específica para isto, ou seja, uma disciplina de educação ambiental? Por quê?
A disciplina educação ambiental deve existir na grade curricular. Ela possui metodologia própria e bem consistente, porém se relaciona com as demais disciplinas ressaltando Ciências, Artes, Geografia e História.

- A educação ambiental deveria fazer parte do currículo de formação dos professores, para que qualquer docente possa trabalhar com essa questão junto a seus alunos?
É fundamental, nos cursos de graduação que oferecem aos alunos a possibilidade de obter a Licenciatura, constar em seu currículo a educação ambiental e a História Social da Criança e do Adolescente no Brasil. Por muitos anos, a formação dos professores foi realizada tendo como referencial um aluno-modelo idealizado e não-real, reprimido, que não questionava, nos moldes infelizes de uma educação depositária e bancária. Nos últimos 20 anos, ocorreram profundas mudanças socioeconômicas na família brasileira. Vivemos a Era da Velocidade, quem tem grande velocidade em obter informações confiáveis, tem maior poder de decidir com êxito. A comunicação instantânea causou profundas mudanças em todas as áreas do conhecimento e a sala de aula não pode mais caminhar na contramão da História. A educação ambiental envolve profunda reflexão sobre a condição humana e isto requer diálogo, análise crítica da ação antrópica. Os futuros professores precisam ser capacitados para lidar com o aluno debatedor que fica online 24 horas.

Por: Diego Da - [email protected]
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