Folha Dirigida Entrar Assine

Educação corporativa e a busca por novos paradigmas de formação


A qualidade da formação na maior parte das escolas de educação básica no país tem levado várias empresas a investirem para complementar a formação educacional de seus funcionários. Com isto, tem crescido cada vez mais no Brasil, a chamada Educação Corporativa, pela qual as companhias além de tentar corrigir deficiências do processo de formação acadêmica de seus profissionais, buscam desenvolver neles habilidades e competências alinhados com os objetivos estratégicos da gestão.

De acordo com Eleonora Jorge Ricardo, presidenta da Associação Nacional de Inovação, Trabalho e Educação Corporativa (Anitec), há aproximadamente 200 universidades corporativas no país. Segundo ela, as empresas começam a perceber que é preciso sair do antigo paradigma do treinamento. Ela afirma, por exemplo, que os currículos oferecem flexibilidade bem maior, na educação corporativa.

“Na Educação Corporativa, os cursos e programas atendem às necessidades estratégicas das organizações; o formato é menos burocrático, pois são desenhados no formato de trilhas e alinhados com as demandas da organização e de formação de seus colaboradores”, destacou Eleonora Jorge Ricardo que, nesta entrevista, fala também sobre a tendência de as empresas investirem cada vez mais em educação corporativa, as diferenças com relação ao ensino tradicional, os desafios do segmento, entre outros aspectos.

FOLHA DIRIGIDA — Por que várias empresas de grande porte investem na educação corporativa?
Eleonora Jorge Ricardo - Os investimentos das grandes empresas ocorrem em função de várias razões, dentre as quais podemos destacar algumas com características mais exponenciais do que outras. No entanto, o investimento maciço na educação corporativa ocorre principalmente em função dos negócios onde as empresas estão inseridas. As universidades não preparam os alunos para as especificidades de cada segmento empresarial, os alunos saem com uma formação generalista, o que é compreensível, e isso obriga as empresas a investir na continuidade da formação de seus funcionários alinhados com os planos estratégicos dessas empresas.
 
Há uma estimativa de quantas empresas no Brasil têm instituições que oferecem educação corporativa? Há dados sobre quantos alunos estudam em instituições como estas e como tem sido o crescimento do setor nos últimos anos?
Há pesquisas que apontam a existência de aproximadamente 200 universidades corporativas no Brasil. A Anitec tem recebido continuamente das empresas a solicitação de orientação como implementar uma universidade corporativa, contudo percebemos que algumas delas encaram como estratégia de marketing. No ano de 2011, a pesquisa das 1000 Maiores e Melhores empresas mostrou um crescimento de investimentos em educação corporativa, mas isso não significa a instalação de uma universidade corporativa. Ainda não há um senso em torno das universidades corporativas, mas as grandes estatais, por exemplo,  algumas com um contingente de mais de 100 mil funcionários, estão levando aos seus funcionários processos de educação continuada. A Unise, do Sistema Eletrobras, é um dos grandes cases de investimentos em educação de seus trabalhadores, assim como os Correios, Banco do Brasil, Serpro e Casa da Moeda do Brasil, entre outras. Estamos falando de educação de trabalhadores em um país de dimensão continental. O importante é destacar que hoje a empresa está começando a entender que é preciso sair do antigo paradigma do treinamento para o investimento em universidades corporativas. Infelizmente, muitos pensam que a Universidade Corporativa é atrelada ao RH e isso pode não ser a verdade.  Isso depende da visão estratégica da empresa, do nível de importância que se dá a essa Unidade de Educação dentro da empresa que pode estar alinhada com a presidência da empresa, por exemplo.

Em linhas gerais, quais as principais diferenças da formação em uma instituição que atua com educação corporativa em comparação a uma instituição de ensino no formato tradicional?
Primeiramente, pontuar que a educação corporativa alinhada como uma ação de uma universidade corporativa é uma educação estratégica, direcionada para gerar produtividade, aumentar a competitividade da empresa. Ela hoje é entendida como um dos fatores de retenção de talentos nas empresas. O antigo treinamento usado dentro das empresas está sendo revisto para atender as demandas das empresas em um mundo em ebulição.  A educação agora assume um caráter local e planetário. Em relação à educação formal, há muitos desafios. Precisamos ainda amadurecer e entender que a educação realizada no espaço formal precisa ser mais flexível e conectada com o mundo do trabalho. Contudo, sem negociar valores éticos que não podem entrar em jogo.

E quanto ao currículo: há diferenças?
Uma diferença importante, e que vale ressaltar, é o tratamento dado ao currículo. Na Educação Corporativa, os cursos e programas atendem às necessidades estratégicas das organizações; o formato é menos burocrático, pois são desenhados no formato de trilhas e alinhados com as demandas da organização e de formação de seus colaboradores, assim o currículo é “sob medida”. Na educação tradicional, o currículo é verticalizado, engessado, segue as diretrizes curriculares nacionais. Enfim, a mudança de um currículo depende de tanta burocracia, que acaba por ser aplicado durante anos e anos sem fim...

A educação corporativa tem uma pedagogia própria? O que pode nos dizer sobre os principais avanços nas práticas pedagógicas em instituições de educação corporativa?
Diria que a educação corporativa busca unir teoria e prática. Grande parte das ações são baseadas no construtivismo ou sociointeracionismo. Estas são práticas comuns, mas que hoje precisam ser revistas, pois na verdade há uma necessidade de unir o que há de melhor de diferentes correntes. Hoje, com a neurociência, estamos descobrindo como o cérebro aprende e isso precisa ser estudado para que possamos aprender com essas descobertas e criar novas formas de aprender.
 
De que forma o ensino a distância se insere no contexto da educação corporativa?
O ensino a distância se insere no âmbito corporativo como um facilitador de difusão do conhecimento, pois utiliza suportes tecnológicos que visam proporcionar a superação do espaço geográfico e tempo por meio de diversos recursos, tais como: videoconferência, ambientes virtuais de aprendizagem, tablets, entre outras tecnologias emergentes. Com isso as organizações realizam de forma dinâmica todo o processo ensino/aprendizagem, uma vez que disponibilizada a informação em consonância com o ambiente profissional e o aluno torna-se gestor de sua autoaprendizagem.

Possui informações sobre o quadro da educação corporativa no exterior? Nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, este tipo de formação educacional tem alcance maior que o Brasil?
Nos Estados Unidos, a Jeanne Meister aponta com mais de 2000 universidades corporativas. Já se compararmos o Brasil e a Europa, diria que, para a dimensão de nosso país, temos mais universidades corporativas que a Europa e que os demais países componentes do Mercosul.

Quais as principais dificuldades que as instituições que trabalham com educação corporativa enfrentam, atualmente?
A princípio diríamos que tudo que é novo causa uma certa “sensação” de desconhecimento. Uma empresa que se empenha na educação corporativa por si só tende a ser uma empresa inovadora. A credibilidade que depositarmos neste tipo de educação e a observação de seus efeitos positivos vão ampliar e dar mais sustentabilidade a este campo, contaminando outras empresas com seus efeitos. Por outro lado, as próprias dificuldades já existentes no mundo educacional e de capacitação constante fazem com que novas ideias tenham necessidade de surgir. A educação corporativa é um caminho, e um caminho amplo, que deixa aberto um espaço para constantes e inovadoras ideias.

Qual o papel da gestão do conhecimento para o sucesso de uma universidade ou instituição que atua com educação corporativa?
Na verdade a ideia da gestão de conhecimento não surgiu na atualidade. Desde os primórdios, quando o homem gerou os primeiros traços da escrita, sua intenção era a de deixar registrado o conhecimento apreendido até então. Com o passar do tempo, novos processos de armazenamento e divulgação do conhecimento foram surgindo e o que se deseja com a educação corporativa e uma adequação do conhecimento com a necessidade vigente. A educação corporativa faz então um papel de facilitador da passagem deste acúmulo de conhecimentos aos novos personagens do atual contexto. O conhecimento na verdade sempre existe, de uma forma ou de outra, registrado em POP’s, em regimentos internos, em patrimônios vivos empresariais, na cabeça das pessoas e muitas vezes no coração delas. No entanto, esta transmissão do conhecimento não ganha efetividade, por diversos motivos, no caminho entre o órgão transmissor, veicular e receptor do conhecimento. A educação corporativa, com metodologias, didáticas e visão ampliada, consegue ser um processo facilitador desta transmissão.

Qual a tendência, no curto e médio prazo, para o setor de educação corporativa? Ele tende a ganhar cada vez mais espaço? Por que?
A tendência é de crescimento e busca por novas soluções educacionais que ofereçam maior e melhor formação e adequação às demandas da empresa e de seus trabalhadores. Cada vez mais as empresas buscam soluções inovadoras. Isso é causado pela competitividade e exige grande investimento em educação. Somado a isso, o crescimento dos mais diversificados setores da economia proporciona demandas a serem supridas em decorrência de uma crescente exigência de formação. Investir em educação se tornou uma necessidade das organizações no mundo globalizado. O trabalhador do conhecimento é um trabalhador planetário e precisa estar alinhado com tudo o que acontece no mundo e saber que seu trabalho faz parte de um contexto maior.

Do que as empresas geralmente sentem mais falta, na formação dos profissionais pelas instituições tradicionais, nos dias de hoje?
De tudo um pouco. Sentem falta de experiência, sagacidade, atitudes relacionais, conhecimentos em informática e idiomas - apenas o inglês, não é mais suficiente -, no entanto, tudo isto vem sendo alimentado por problemas que persistem há séculos na nossa educação, atrelado a questões como classe social e má distribuição de renda que são determinantes quando falamos em educação escolar, ou seja, poucos com uma ótima formação e a maior parte desta parcela com deficiências que a universidade não conseguirá suprir. Algumas empresas sentem falta de profissionais com múltiplas competências. Profissionais que reúnam uma gama de saberes e que sejam bons nesses saberes além de sua formação, certamente. Precisam saber resolver conflitos, gerenciar equipes, desenvolver projetos, ter noções administrativas, financeiras, de meio ambiente e até de marketing. Outras empresas não conseguem encontrar profissionais no mercado e nem em centros onde deveriam existir. Existem! Mas em número extremamente reduzido, como é o caso das áreas de TI, que, segundo previsões do Ministério de Ciência e Tecnologia e Inovação, apresentará carência de cerca de 3 milhões de profissionais nos próximos anos. Algumas das áreas que já apresentam déficit estão presentes em quatro cursos: gestão de TI, análise e desenvolvimento de sistemas, sistemas de informação e ciências da computação que, segundo a Assespro representam 46% de carência neste setor. Em outros setores, como a engenharia ferroviária, após a extinção dos cursos de graduação, retomam atualmente as negociações para reativação dos cursos em função de atuais necessidades, uma demanda estacionada por décadas neste setor da economia nacional.  

A Anitec também tem uma vertente focada no incentivo à inovação. Este é um aspecto que faz falta na formação dos profissionais hoje em dia, em especial, nas universidades?
Quando dizemos inovação, logo muitos pensam em desenvolvimento tecnológico. Também o é, no entanto, inovação parte de pessoas, ideias, conversas, necessidades ou problemas que demandam uma solução. Não estamos querendo dizer que nossas universidades e instituições técnicas não realizam seu papel, que é o de proporcionar uma educação baseadas no tripé (ensino, pesquisa e extensão). Contudo, para que a inovação ocorra é necessário investimento em pesquisas e a continuidade delas, integrando grupos de pessoas com ideais voltados em prol de um resultado único: inovar. Não fomos educados para a criatividade, para inovar, fomos educados em estruturas de repetição, reprodução é isso marca e muito o desempenho do aluno no campo profissional, mudar isso vai demandar anos de investimento em processos educacionais inovadores que promovam a autonomia do aluno e desperte a sua capacidade de criar e inovar.

Quais as principais ações e projetos desenvolvidos pela Anitec, no tocante à educação corporativa?
Nossas ações e projetos estão centrados em estimular iniciativas de desenvolvimento, implementação e gestão de projetos de inovação nas organizações em todo território nacional apoiando a produção, o desenvolvimento e disseminação de conhecimento em torno dos constructos inovação, trabalho e educação corporativa por meio de pesquisas, publicações, congressos e eventos científicos, como o último Conitec, onde pudemos possibilitar troca de experiências e mostrar ações desenvolvidas pelas organizações. Realizamos encontros de grupos corporativos para estudos de casos e das práticas adotadas por diferentes organizações e segmentos gerando uma troca de conhecimentos, sucessos e até mesmo os insucessos e suas causas a fim de repará-las. Claro que todos gostam de mostrar o sucesso, mas para se chegar a ele, os “erros” ou “insucessos” de implementação de determinada ação educacional representam um indicador positivo para a necessidade de um aporte na organização do modelo pedagógico adotado e na própria organização ou implementação do modelo de gestão do conhecimento em questão.
   
Este ano, a Anitec realizou mais uma edição do Congresso Nacional de Inovação, Trabalho e Educação (Conitec). Qual o balanço do evento e que desdobramentos ele terá no curto e médio prazo?
O Congresso realmente foi um sucesso. A Anitec realizou e tem realizado o Conitec de forma diferenciada. Ouvindo as empresas e investindo principalmente na realização do congresso com temáticas emergentes e com preletores de primeira linha. A contribuição de universidades corporativas reconhecidas nacionalmente e internacionalmente e outros segmentos como o de representantes governamentais e de personalidades de destaque, tem feito do Conitec um momento de reflexão e de revisão de práticas de educação corporativa e de inovação. A presença de Pierre Lévy foi fantástica e certamente, Domenico de Masi foi uma contribuição ímpar e que levou todo o auditório a ovacioná-lo de pé. Esse ano apostamos na discussão da formação de redes de educação corporativa e de inovação. Ninguém mais pode pensar que pode existir sozinho, precisamos formar uma corrente pró educação do trabalhador, e a Anitec tem investido na formação da Rede Solidária de Educação do Trabalhador. Viajamos por todo o Brasil falando de nossa empreitada e estamos conseguindo conquistar aqueles que de fato querem um país melhor.

Por: Larica Santos - [email protected]
Assine e tenha acesso completo ao conteúdo do Folha Dirigida
OU

Comentários

NEWSLETTER
Cadastre-se para receber notícias e Informações