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Educação corporativa para impulsionar o desenvolvimento


Presidente da Associação Nacional de Inovação, Trabalho e Educação Corporativa (Anitec), Eleonora Jorge Ricardo segue focada nos últimos dias de preparação para a terceira edição do Congresso Nacional de Inovação, Trabalho e Educação Corporativa (Conitec).
 
Programado para os dias 30 e 31 de julho no Centro de Convenções da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, o Congresso traz para o espaço de discussão questões relacionadas à preparação das empresas e seus colaboradores para gerarem novos negócios e inovação após a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, tudo através de palestras, oficinas e apresentação de trabalhos científicos.
 
A presidente da Anitec e organizadora do Congresso, é doutoranda em Educação pela Universidade Estácio de Sá. Para a FOLHA DIRIGIDA, Eleonora falou sobre o Congresso, sobre universidades corporativas e, principalmente, sobre educação. De acordo com a presidente da Anitec, toda boa empresa possui pessoas criativas capazes de criar soluções e que precisam ser descobertas.
 
"Estamos na era do conhecimento e conhecimento implica inovação. Para isso precisamos incentivar a educação nas empresas. A Associação investe e estimula as empresas a investirem em educação para terem trabalhadores do conhecimento e trabalhadores inovadores."

FOLHA DIRIGIDA — Nos dias 30 e 31 deste mês, será realizado o Congresso Nacional de Inovação, Trabalho e Educação Corporativa (Conitec). O que aqueles que assistirem às conferências podem esperar da terceira edição do Conitec?
Eleonora Jorge Ricardo  —
A Anitec procura fazer um congresso bastante diferenciado, com o desafio de despertar nas empresas o interesse pela temática da inovação e auxiliá-las na instalação desses processos de inovação, com ações, criação de departamentos/setores de inovação, e investimento, principalmente, em educação corporativa focando em inovação. Temos um tripé que faz parte do nosso estatuto: inovação, trabalho e educação corporativa. Portanto, a educação corporativa é como uma base para que consigamos promover a inovação dentro da empresa. É educando o trabalhador que vamos conseguir promover essa inovação. Dando a ele instrumentos ferramentais para que ele possa estar em processo de aprendizagem contínuo e que, de fato, possa criar, recriar processos, ter um espírito inventivo. Pensando na educação tecnológica mesmo, vemos que ainda há muito o que ser criado e desenvolvido. Quantas pessoas criativas, capazes de criar soluções, estão dentro das empresas e precisam ser descobertas. Estamos na era do conhecimento e conhecimento implica inovação. Para isso precisamos incentivar a educação nas empresas. A Associação investe e estimula as empresas a investirem em educação para terem trabalhadores do conhecimento e trabalhadores inovadores. É importante pontuar, também, que esse ano a Anitec optou em fazer uma ação coletiva, chamada Conitec Social. Isso significa que cada inscrito deverá doar um quilo de alimento não perecível. Todo o material arrecadado será recolhido durante o Congresso para ser doado a instituições de assistência a crianças e idosos carentes. Acho que o Conitec desse ano tem vários desafios, e esse é mais um.

Quais os principais temas que serão abordados no Conitec e qual a importância deles no contexto da educação corporativa?
Anualmente, o Conitec levanta discussões pertinentes dentro do estado de inovação no país. Onde vamos? Onde queremos chegar? Como a educação corporativa pode promover e ajudar na inovação das empresas? Esse ano, no Congresso, iremos pensar a questão do Brasil 2020. Quando terminarem os grandes eventos como ficará o Brasil? Quais os legados e o que teremos de enriquecimentos ou oportunidades de novos negócios após Copa do Mundo e Jogos Olímpicos? E investidores? Estamos preparados para crescer com todos esses investimentos? Estamos colocando em pauta os melhores modelos de educação corporativa, as melhores práticas. Essa temática será pautada em oficinas, apresentações de trabalhos científicos e palestras, como da Caixa Econômica Federal, por exemplo, que foi recentemente premiada lá fora como uma das melhores universidades corporativas. Isso para nós é muito importante, pois mostra que as empresas precisam investir em educação. Quem não puder participar do Conitec, no entanto, pode aproveitar uma outra oportunidade que estamos oferecendo. Haverá, dia 29 de julho, a Pré-Conitec, também com oficinas e apresentação de trabalhos acadêmicos, porém, com um preço mais acessível. Esse evento será na sede da Anitec. A iniciativa da Associação é para garantir que todas as pessoas participem do nosso evento sobre educação corporativa.
 
Para a Associação Nacional de Inovação, Trabalho e Educação Corporativa, organizar o Conitec pelo terceiro ano consecutivo ajuda a fomentar a educação corporativa no Brasil?
Sem dúvida! Nós somos a única associação no Brasil inteiro a promover um evento que traz, não só preletores internacionais de destaque e referências em suas temáticas, mas também investimos em trazer para o Congresso trabalhos de professores, de estudantes de pós-graduação. Queremos saber quem está estudando sobre educação corporativa. Quem está estudando sobre inovação? Essas pessoas não tem congresso específico da área onde possam apresentar um resultado de pesquisa. Geralmente a Academia tem um certo preconceito quando se fala em educação na empresa; ainda existe um tabu em tratar empresa como espaço de aprendizagem. Por isso o Conitec é peça fundamental para desenvolver a educação corporativa no Brasil.

Como avalia o cenário atual da educação corporativa no Brasil? Está bastante desenvolvido ou ainda é um mercado incipiente?
O que acontece é o seguinte: temos empresas sérias que querem fazer investimentos reais e significativos em educação corporativa e que estão realmente desenvolvendo projetos pedagógicos. Temos aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, um grupo de shoppings que será o primeiro grupo com universidade corporativa. Quando um shopping começa a investir em educação é fantástico. Empresas de grande porte estão investindo, mas, infelizmente, percebemos que ainda há mais uma vontade de fazer do a concretização por parte das empresas. Temos o crescimento da educação corporativa por parte de empresas que estão investindo? Temos. Mas ainda existem as empresas que acham que a sociedade, quando souber que ela tem uma universidade corporativa, que ela tem uma ação de educação corporativa, dará a ela status. Logo, essa empresa não está investindo em educação corporativa, mas em marketing. As ações dessas empresas precisam ser reconhecidas como ações educacionais para que, de fato, o cenário da educação corporativa se desenvolva no Brasil.

Ainda há algum obstáculo para que as empresas consigam implantar e crescer em universidades corporativas?
O problema não é implantar, mas como fazê-lo. O modelo antigo de treinamento já está ultrapassado. Antes tínhamos aquela grade de cursinhos de 20 ou 30 horas, para atender apenas uma demanda de um setor, desvinculados às vezes, ou quase sempre, das estratégias de negócios da empresa. Acho que empresas que ainda empregam esse modelo estão estagnadas e obstruem o avanço da educação corporativa. Hoje o trabalhador não é mais o trabalhador do filme "Tempos Modernos", do Chaplin, que vai lá, trabalha, ajusta a máquina, bate cartão e sai. O filme mostra bem esse momento da industrialização, da mecanização da sociedade onde o trabalhador acaba perdendo a questão humana. Acho que é preciso educação para trazer de volta essa humanidade para dentro do espaço do trabalho. É esse o pensamento que as empresas precisam ter, o de investir em seus funcionários. Ainda há uma distorção nesse sentido. As empresas optam em fazer treinamento quando a educação corporativa é muito mais, ela pensa no seu entorno. Isso melhora a performance da empresa? Sim. A empresa tem melhores resultados e obtém maiores lucros? Sim, mas pensa, sobretudo, no seu funcionário e garante crescimento ao profissional, não limitando-se apenas ao reparo do mau funcionamento de um setor.

Quais as principais estratégias que as empresas podem utilizar, portanto, para investir na formação de seus empregados e dar o pontapé inicial em um projeto de universidade corporativa dentro do ambiente empresarial?

Em muitos casos, a empresa pensa que ter educação a distância significa que ela tem educação corporativa. O investimento em tecnologia, apenas, não é o suficiente para caracterizar que a empresa tenha uma ação de universidade corporativa. Eu conheço algumas instituições que têm portais de educação a distância, mas não têm a ação educacional, ações continuadas, propriamente implementadas. Elas têm uma gama de cursos de prateleira e um portal onde garantem que aquilo é universidade corporativa, mas não é isso. É necessária toda uma estrutura que a empresa precisa engendrar para ter uma universidade corporativa, um instituto ou mesmo uma unidade de educação corporativa dentro da empresa. Ela precisa alinhar o desenvolvimento de pessoas ao processo educacional. Para aderir à educação corporativa, portanto, a empresa deve pensar a área de desenvolvimento de pessoas; repensar a questão de carreira. Porque a partir do momento que ela traça um percurso de aprendizagem para esse trabalhador percorrer - Que cursos ele vai fazer? Que palestras ele vai assistir? De quais seminários participar? - ela está investindo no seu profissional. Quando a empresa oferece esse leque de ações educacionais ao seu trabalhador, isso vai significar mais do que apenas o lucro, pode significar que aquele trabalhador cresça dentro da empr sa ou até consiga um cargo melhor em outra. A empresa que tem uma ação de educação corporativa tem de ter uma ação responsável. Ela não pode só pensar a educação para dentro da empresa.

Podemos dizer então que o incentivo a educação corporativa é para formar profissionais para o mercado de trabalho, e não apenas para a empresa em que trabalha?

Sim, claro! A empresa que investe em ações de educação corporativa precisa ter em mente que está investindo para o mercado. Quando uma empresa recebe um estudante de uma universidade, bem preparado, ela também tem grandes vantagens nisso, pois ela irá acelerar processos, terá funcionários com performances melhores. Então por que não ajudá-los a crescer ainda mais? O Paulo Freire, que foi um grande pensador, fala sobre isso quando diz que nós devemos despertar a criatividade e o empoderamento do indivíduo sobre seu caminho. Isso tudo tem a ver com investimento em educação.

Quais são os principais benefícios e vantagens para a empresa que investe em seu profissional?
Acho que o retorno que empresa tem nesse tipo de investimento é a melhoria em seus processos e em seus serviços, mas, principalmente, o fato de ter funcionários mais preparados e felizes. No Congresso do ano passado tivemos um palestra sobre essa questão do bem-estar, do ócio criativo e da valorização do funcionário. Profissional é felicidade, feliz o empregado trabalha melhor e, consequentemente, dá melhores resultados ao empregador.

De que forma a educação corporativa pode incentivar a maior competitividade e geração de emprego nas empresas?

O que eu tenho observado é que a geração de hoje, essa geração digital que manipula muito bem as tecnologias e as redes sociais, procura, não só a empresa que melhor remunera, mas aquela que dá as melhores oportunidades para ele crescer. Ter a oportunidade de cursar idiomas, de fazer uma viagem, um curso fora do país, isso tudo conta muito para que o trabalhador continue dentro da empresa. Não existe mais o pensamento daquela geração que ficava 20, 30, 40 anos dentro da empresa. Hoje o trabalhador quer o melhor salário, a melhor posição que puder alcançar dentro da empresa, quer reconhecimento a curto prazo. Acredito que esse pensamento do trabalhador seja um diferencial porque a empresa hoje precisa estar antenada às necessidades e às ansiedades dessa nova geração. Só a educação pode reter esses talentos e fazê-los crescer.

Você também lançará, no Conitec, o livro "Educação a Distância: professores autores em tempos de cibercultura". Pode nos falar um pouco sobre as principais questões que aborda na obra?
O livro é resultado da minha tese de doutorado. Tem muito a ver com educação corporativa porque pauto sobre a questão da formação e capacitação de professores, principalmente em tecnologia digital. A tese mostra que apesar de estarmos na era da cibercultura os materiais didáticos ainda são desenvolvidos em um tempo analógico, essa foi a minha primeira descoberta. A segunda mostra que muitos dos professores possuem dificuldades de escrita, eles não conseguem se perceber enquanto autores de sua própria prática pedagógica. Quando ele consegue escrever um texto didático, para educação a distância, por exemplo, ele está exercitando a prática dele enquanto docente. Essa é uma forma de organizar o pensamento dele, pensar sua ação educacional, em vez dele receber um livro que foi planejado, pensado totalmente por outra pessoa, o professor começa a pensar como ele vai preparar aquela aula, como será aquele encontro. Acho que o desenvolvimento do texto didático para a educação a distância, hoje, com todo o aparato de Facebook, das redes sociais, das tecnologias interativas, abre portas para que o professor seja autor da sua produção. Além de torná-lo autor da sua prática, autor do seu texto, vai ajudar o aluno a ser um autor também. Há uma troca porque o professor deixa de ser dono de toda a informação, o aluno também traz para a sala de aula o enriquecimento. A sala de aula deixa de ser estática para ser uma sala de aula virtual interativa.

Qual o papel do professor, no processo de ensino, em tempos de cibercultura?

Infelizmente os professores ainda encaram os aparatos tecnológicos como inimigos. Alunos que usam celulares em aula são, muitas vezes, expulsos de sala ou têm seu aparelho confiscado. O docente precisa pensar como pegar esse celular e aproveitá-lo como mais uma interface de aprendizagem. O celular de hoje navega no Google, tira foto, dentre diversos outras possibilidades. Em suma, em vez de demonizar a tecnologia, devemos aproveitá-la como um auxílio em sala de aula e humanizar essa tecnologia. O professor tem de encarar os aparelhos tecnológicos como seus ajudantes.
 

Por: GISELLE BRITO - [email protected]
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