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Espanhol como um idioma cada vez mais estratégico


Com a ascensão do Brasil no cenário político e econômico internacional, cresce a necessidade de os brasileiros, sejam estudantes ou profissionais, terem uma perspectiva maior de inserção no mundo globalizado. A cada dia, surgem novas oportunidades de atuação com empresas ou instituições de outros países, nos mais variados segmentos, e, desta forma, o domínio de mais de uma língua estrangeira torna-se fundamental para o sucesso no ambiente corporativo e acadêmico.

Dominar o Inglês continua a ser essencial. Porém, a cada dia, ganha força o Espanhol, seja pelo relacionamento mais próximo do Brasil com seus vizinhos da América Latina, nas mais diferentes esfera, seja pela tendência de médio e longo prazo de redução da influência norte-americana sobre o restante do mundo. É o que sinaliza o professor João Ricardo Moderno, que, este ano, assumiu a presidência do Instituto Brasileiro de Cultura Hispânica (IBCH). Para ele, quem domina a língua espanhola terá cada vez mais oportunidades no mundo de hoje.

“O mercado despertou para o Espanhol, e isso é irreversível. Quem não se preparar imediatamente vai perder o bonde do mercado e da vida profissional. Em qualquer área”, destacou João Ricardo Moderno, que também é presidente da Academia Brasileira de Filosofia e, nesta entrevista, aborda temas como a importância do Espanhol no contexto atual, a força deste idioma no mercado de trabalho, suas perspectivas de avanço, os planos para o IBCH, entre outros temas. Para ele, o poder público deveria investir de maneira mais ampla para que o Espanhol estivesse mais presente na Educação Básica.

“Os nossos vizinhos não vão se mudar, ao contrário dos vizinhos do prédio. Estamos destinados a uma perene comunicação com eles, e quanto mais eles se negarem a aprender a Língua Portuguesa, mais vantagens competitivas para o povo brasileiro. Só ganhamos.”

FOLHA DIRIGIDA - Qual a importância de os brasileiros dominarem o Espanhol, nos dias de hoje?
João Ricardo Moderno — Em primeiro lugar pela vizinhança de língua espanhola, da ponta mais distante ao sul da América do Sul à América Central e América do Norte, com o México e EUA. Sendo a segunda língua universal, a segunda língua mundial mais falada no mundo, e com as vantagens geográficas e históricas já mencionadas, além das econômicas com o Mercosul, os brasileiros precisam adotar o Espanhol como a segunda língua quase como se fosse materna, pois isso oferece condições competitivas enormes à sociedade civil e aos governos. Com o Espanhol, é possível ter acesso a todas as riquezas da Ciência, do Direito, da Economia, da Arte, da Arquitetura, da religião, da Filosofia, da música, do esporte, etc. Praticamente tudo pode ser encontrado em Espanhol, de todos os continentes.

No mercado de trabalho, o conhecimento do Espanhol tem sido cada vez mais exigido? Por quê?
Pelas relações comerciais, industriais, jurídicas, turísticas, esportivas, artísticas e científicas onde o Espanhol é a língua de comunicação. Para os brasileiros, a língua latina facilita a comunicação com os chineses, coreanos e demais povos, caso estes falem o Espanhol. Veja o exemplo da língua inglesa: o estudante fica anos “estudando” e, além de não saber nada de gramática, não fala nada. Melhor um bom domínio do Espanhol que um Inglês invisível e inaudível. O mercado despertou para o Espanhol, e isso é irreversível. Quem não se preparar imediatamente vai perder o bonde do mercado e da vida profissional. Em qualquer área.

Muitos pensam que, pela semelhança de algumas palavras do idioma Espanhol com o Português, a língua espanhola é simples de ser aprendida e compreendida. Por que isto não é verdade?
Quem não quer aprender qualquer coisa, sempre afirma que é muito fácil, e que não precisa estudar nada. Certamente é mais fácil aprender o Espanhol do que o Inglês e o Francês. A cultura espanhola ou hispânica é altamente influente no Brasil todo. Assim, a língua espanhola já tem um terreno fértil e semeado por centenas de anos. Agora, é preciso estudar a pronúncia, a gramática, os verbos e a conversação pois, apesar das semelhanças, as diferenças também são notáveis mas contornáveis. É uma língua linda, que bem falada, é de uma magnífica sonoridade musical e poética. E é possível ganhar dinheiro com ela, sendo motorista, advogado, comerciante ou economista. A matriz do latim ibérico desembocada nas línguas neolatinas facilita essa identidade. Contudo, sem estudar e treinar ninguém chega a lugar algum.

Acredita que o Espanhol deveria estar mais presente nas escolas de educação básica? Por que?
Quanto mais cedo o ensino do Espanhol, melhor. Ela deveria ser ensinada desde a mais tenra infância para que, ao crescimento físico e psicológico da criança, correspondesse o crescimento de aquisição de linguagem nas duas línguas, simultaneamente. Os nossos vizinhos não vão se mudar, ao contrário dos vizinhos do prédio. Estamos destinados a uma perene comunicação com eles, e quanto mais eles se negarem a aprender a Língua Portuguesa, mais vantagens competitivas para o povo brasileiro. Só ganhamos. Novas e surpreendentes oportunidades de negócios surgirão com os países e pessoas hispanofalantes. Jovens serão beneficiados no Brasil de hoje e do futuro. Quem já se encontra no mercado de trabalho terá novas janelas e portas se abrindo ao dominar o Espanhol.

Acredita que, daqui a alguns anos, o Espanhol possa ser tão estratégico, no mundo globalizado, como o Inglês? Por que?
O espanhol cresceu muito mais com a decadência do Francês no mundo diplomático, comercial, político e científico, o que também é uma grande lástima, pois o Francês é uma língua de civilização. O Espanhol não parou de crescer e não vai parar. Os países hispânicos vão ocupar espaço crescente na economia mundial, e a capilaridade do Espanhol no mundo é impressionante. Quase um mistério. A língua inglesa sofrerá uma queda na mesma proporção do avanço multilateral no mundo globalizado, onde as relações internacionais verão o EUA jogar um peso forte mas não mais poder gigantesco solitário como no passado recente. Como o mundo mudou, o Espanhol se disseminou ainda com mais facilidade. O crescimento vertiginoso em quantidade e qualidade de livros e revistas em Espanhol demonstra a vitalidade da língua. Espanhol não é moda. Ele ficou, e não depende do humor das relações internacionais no plano político, militar ou da bolsa de valores.

As novas tecnologias educacionais têm permitido dinamizar e aperfeiçoar as metodologias de ensino do Espanhol? De que forma?
As novas metodologias são aplicadas em todas as metodologias de ensino de línguas, e são auxiliares importantes. Normalmente elas estão em conexão com os livros mais recentes e modernos. Isso dá mais leveza, graça e dinâmica no ensino e, principalmente, no aprendizado. Entretanto, a vontade pessoal de estudar, avançar e progredir é o mais importante e decisivo. O espírito de conhecimento, o amor ao estudo, a simpatia pelo ambiente educacional e outros fatores subjetivos e intransferíveis formam o núcleo do aprendizado. A soma dos métodos ortodoxos e heterodoxos é que dá resultado. Consultar o dicionário, no papel ou virtual, não muda. Dicionário é o pai dos inteligentes, e não dos burros. Burro é quem não consulta dicionário. Você não pode ensinar a quem não quer aprender.

Muitos fazem o Diploma Espanhol de Língua Estrangeira (D.E.L.E), da Universidade de Salamanca, na Espanha, com o objetivo de certificação no domínio da língua estrangeira. Qual a utilidade e a importância desta prova?
É um título reconhecido internacionalmente. Há vários níveis. O nível superior reconhece ao candidato o status de falante culto da língua, com domínio das quatro competências: compreensão auditiva e leitora, produção escrita e fluência na oralidade, e equivale ao nível C2 de referência do marco comum europeu. O IBCH vem preparando os candidatos para esse título, há décadas, com um resultado de 100 por cento de aprovação de seus alunos. A preparação é feita por nossos professores, todos portadores do título, na mesma sistemática e nível de exigência da prova aplicada pela Universidade de Salamanca. O material didático utilizado pelo curso é constituído de provas, temas para exposição oral e de textos anteriormente aplicados pela universidade.

O Espanhol certamente será falado por milhares de turistas que vierem ao Brasil, nos próximos anos, principalmente por conta da Copa do Mundo e das Olimpíadas do Rio de Janeiro. O poder público tem adotado as ações necessárias para difundir o Espanhol entre os brasileiros, até para recebermos estes turistas?
O Instituto Brasileiro de Cultura Hispânica (IBCH) está se propondo a atender aos governos Municipal, Estadual e Federal através de Curso de Espanhol Instrumental voltado para a realidade das ruas enfrentada pelos turistas do mundo todo. Propomo-nos a treinar a Guarda Municipal do Rio de Janeiro, Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro e a sociedade civil, como profissionais de taxi, ônibus, turismo, empregados do comércio, voluntários, clubes, empresas em geral, igrejas, etc. Podemos ensinar e treinar todos esses funcionários públicos e privados. Temos grandes professores de Espanhol, com larga experiência, e ancorados no mais tradicional curso do Rio de Janeiro. Ademais, o IBCH tem uma lei estadual de 1966 que o filia institucionalmente ao Governo do Estado do Rio de Janeiro. Estamos avançando nesse sentido e as autoridades estão gradativamente despertando. O Rio é cidade mundial.

E por falar no IBCH, do qual o senhor assumiu a presidência este ano, quais os principais projetos para a instituição?
Reestruturação administrativa, financeira, física e pedagógica. A seriedade do IBCH é um valioso tesouro do Rio de Janeiro. Não somos exclusivamente formadores em língua espanhola, mas também difusores da cultura hispânica e sua gigantesca força. Não há livro ou autor seja possível encontrar traduzido para o Espanhol, e mesmo com obras completas, o que é muito raro em outras línguas. Nossa ambição na presidência, com o inestimável trabalho de Aline do Amaral Pereira, vice-presidente, é estabelecer uma ampla estratégia para dotar a cidade do Rio de Janeiro de um centro cultural moderno, polivalente, de alto nível, que não só permaneça uma referência do passado mas também uma referência do presente e do futuro.

Que tipo de cursos são oferecidos pelo IBCH?
O IBCH oferece os seguintes cursos: a) cursos regulares de ensino da língua espanhola como língua estrangeira, que preparam o aluno até o nível C2 (falante culto) segundo o marco comum europeu. b) cursos para adolescentes e jovens que estejam terminando o ensino fundamental ou já cursando o ensino médio. c) cursos preparatórios para concursos públicos, de qualquer área. d) curso preparatório para o DELE (todos os níveis). e) curso de espanhol jurídico para advogados. f) outros cursos de objetivo específico, de acordo com a demanda. E nesse caso, governos federal, estaduais e municipais, autarquias, empresas privadas, profissionais liberais, grupos de interesse, grupos de trabalho e quaisquer demandas específicas.

Como funciona a metodologia de ensino adotada nos cursos do IBCH?
O IBCH trabalha com método comunicativo, interativo que explora as quatro competências da língua: compreensão leitora, compreensão auditiva, produção escrita e oralidade. Trata-se do mais recente método de ensino e aprendizagem de língua espanhola, criado pela Editora Santillana (líder no mercado de ensino da língua) em parceria com a Universidade de Salamanca, Espanha, que visa a preparar os alunos a alcançar até o nível C2 (falante culto) do marco comum europeu. É o que há de mais elevado e sofisticado em língua espanhola.

Hoje em dia, qual o perfil do aluno que procura algum tipo de formação para falar e escrever em Espanhol?
Estudantes de ensino universitário, profissionais liberais, funcionários de empresas privadas e públicas, público interessado em cultura geral, grupos que querem viajar para o exterior, enfim, uma diversidade muito interessante. Inclusive, os que almejam se tornar professores de Espanhol, associando o curso de Licenciatura em Letras a uma boa formação mais focada na prática do Espanhol. Há o aluno que precisa de uma língua universal e não tem vocação para o Inglês, Alemão ou Francês, muito menos para o Mandarim ou Japonês, mas se sente muito à vontade em Espanhol. Através do Espanhol a pessoa se internacionaliza direta e imediatamente. O mundo se abre.

Por: Diego Da - [email protected]
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