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Formação humana para combater o bullying


Um dos problemas que mais preocupam educadores é a questão do bullying, ou seja, prática recorrente de atos de violência física ou verbal sofrida por estudantes, em geral, no ambiente escolar. O receio das instituições de ensino chegou a tal ponto que algumas, inclusive, já têm seguros específicos para cobrir indenizações referentes a casos de agressão sistemática dentro do espaço escolar.

Porém, a medida está longe de ser a saída mais adequada para resolver o problema, de acordo com o professor Teuler Reis, que é educador, psicólogo, psicanalista e autor do livro Bullying... tô fora (WAK Editora). Para ele, uma solução efetiva exige um esforço das instituições de ensino para desenvolver atividades capazes de aproximar os pais do cotidiano escolar e despertar neles o interesse em acompanhar de perto a educação dos filhos. O educador também considera essencial conscientizar os pais da necessidade de o colégio ter sua autonomia e sua autoridade preservadas.

“É impressionante a quantidade de pais que se sentem professores, pedagogos, psicólogos, enfim, se existe um lugar em que todos se sentem autorizados para falar é na escola. Isso não acontece com o médico, com o mecânico do seu carro, mas na escola tem sido assim”, ressaltou o professor Teuler Reis.

Em sua obra, ele ressalta que não há mais como prorrogar a discussão sobre bullying nas escolas. Para ele, o processo educacional deve ter como foco a ética, os valores humanos e a cidadania. “Nossa sociedade é hedonista, não pode esperar por nada; É imprudente e intolerante. Vemos isso o tempo todo, no transito caótico, nas filas, por toda parte impera um individualismo de doer a alma. Se existe um erro, não é da escola, é da sociedade de maneira geral.”

O livro possibilita ao professor refletir e discutir com os alunos, em todas as suas idades, as atitudes envolvendo o bullying. Torna-se assim um grande aliado no trabalho do professor, propondo caminhos para o crescimento humano. Os relatos, que compõem o Blog do Rafa, trazem para sala de aula as várias facetas da dura realidade das vítimas de bullying.

O senhor defende que não há mais como prorrogar a discussão sobre bullying nas escolas. Este é um dos mais graves problemas que as instituições de ensino enfrentam hoje? Por quê?
Teuler Reis - Certamente, é um dos problemas graves enfrentados pela escola, um dos, vale ressaltar. O bullying é um pedido de socorro, o sintoma do fracasso de uma sociedade ocupada demais para educar suas crianças, para formar valores e virtudes que deveriam ser a base da formação humana. Se a escola enfrenta dificuldade diante dessa situação, é porque não encontra respaldo da família. Infelizmente os pais estão alienados da educação dos filhos, há exceções? Sim, mas a grande maioria não compartilha com a escola a tarefa de educar e muitas vezes, não a deixa fazer.  A ausência paterna tem sido compensada com a conivência. Os pais são coniventes com seus filhos, e essa postura fragiliza a atuação da escola.

O senhor também defende que a formação humana é, por excelência, o dever maior do processo educativo? De maneira geral, falta formação humana em nossas escolas?
Defendo sim, com certeza! Mas, vale ressaltar que a formação para cidadania está na nossa constituição, nos parâmetros curriculares nacionais e nas leis de diretrizes e bases. As questões referentes à cidadania têm sido relegadas a segundo plano no processo educacional. Não deveria, mas é assim que acontece. A sociedade precisa acordar e perceber que não nascemos humanos; tornamo-nos seres humanos, e é nosso dever participar dessa formação, ainda que seja, muitas vezes, dolorida. Nos parâmetros curriculares tem uma frase que deixa muito claro o papel da escola: “as disciplinas devem funcionar como ferramentas para se atingir a cidadania”. Percebem? Aprender matemática, português, geografia, é meio, não é o fim do processo educativo. O objetivo maior, o fim a ser alcançado é a formação de cidadãos.

Acredita que a preocupação com a formação para o mercado de trabalho e o sucesso no vestibular, por exemplo, limitam uma formação de caráter mais humano nas escolas? Por quê?
Certamente. Fico assustado com a quantidade de escolas que fazem do vestibular, do ENEM , uma obsessão. A criança é “bombardeada”  o tempo todo com essa cobrança. Aprendi nesses anos, observando o mundo, que não importa ser o primeiro da classe, tirar dez em tudo. O sucesso é outra questão, vai além, muito além, de ser o primeiro da classe. A escola e a sociedade precisam parar e se perguntar o que elas querem. Entrar para uma faculdade, se colocar no mercado de trabalho é importante? Sim, porém, é mais importante que o sujeito tenha valores, seja digno, humano. De nada vale ter PHD e ser um bruto, mal educado e viver infeliz por não saber se relacionar com as pessoas.  

Por que casos de bulliyng são tão frequentes? O que há de errado com nossas escolas?
Uma consequência dos nossos atos. Virtude vem de virtus, significa excelência. Se queremos ser excelentes, temos que buscar as virtudes. Tolerância, prudência, justiça, humor, e todas as outras virtudes são aprendidas, não surgem do nada. O que esperar de nossas crianças? Basta olhar a sua volta para perceber o descaso com as virtudes nos dias de hoje. Nossa sociedade é hedonista, não pode esperar por nada; É imprudente e intolerante. Vemos isso o tempo todo, no transito caótico, nas filas, por toda parte impera um individualismo de doer a alma. Se existe um erro, não é da escola, é da sociedade de maneira geral.

Em linhas gerais, como as escolas podem enfrentar o problema do bullying?
O primeiro passo é o entendimento com os pais. A escola precisa resgatar sua autonomia. É impressionante a quantidade de pais que se sentem professores, pedagogos, psicólogos, enfim, se existe um lugar em que todos se sentem autorizados para falar é na escola. Isso não acontece com o médico, com o mecânico do seu carro, mas na escola tem sido assim. Em seguida, é fazer valer a proposta dos parâmetros curriculares nacionais. A escola deve ter como objetivo principal a formação para cidadania. Isso implica investir na formação dos seus professores. É engraçado pensar que cidadão é aquele que vive sobre deveres e direitos de uma sociedade, e que esses deveres e direitos estão elencados na nossa constituição, porém, pouquíssimos professores têm conhecimento dela.
 
Poderia nos dar exemplos práticos de projetos que poderiam ser eficazes para combater o bullying nas escolas?
Trabalhei como coordenador de educação para paz durante sete anos em uma escola de Belo Horizonte. Durante esse tempo promovia ações que despertavam os alunos para importância dos valores humanos. Declaração dos Direitos Humanos estava na pauta do dia, assim como trechos da constituição, ECA, Estatuto do Idoso. O importante é que a escola dê o exemplo. A criança aprende muito mais com nossas atitudes. A incoerência é a maior inimiga da educação.

O bullying tem assustado tanto as escolas que há casos de instituições de ensino que, até mesmo, têm investido em seguros, para não terem riscos com indenizações. Como vê essa forma de lidar com o problema?
Sua pergunta mostra a distância que a escola está das famílias. Quando iríamos imaginar uma situação dessas? Essa é uma guerra sem vencedores. Perdem todos. Se não tivermos uma mudança de consciência bem rápida, o papel da escola na vida da sociedade estará fadado ao insucesso. A escola tem se tornado um peso na vida das crianças, não deveria, mas é assim que acontece. A descrença é reforçada pelos pais que muitas vezes, sem perceberem, fazem da escola um castigo para os filhos. Premiam-nos, com a possibilidade de faltarem à escola.

O que deveria mudar na forma como a escola trata a questão do bullying?
Se olharmos para o passado, iremos perceber que o bullying sempre existiu. O que muda hoje é a possibilidade de as escolas intervirem na situação. Como disse, é uma instituição solitária, sem apoio dos pais. Se a família está omissa na formação de valores humanos, a escola precisa fazer algo, precisa investir no lado humano. Eu, particularmente, penso ser essa a tarefa da educação. Há uma frase de um filosofo,cujo nome não recordo agora, que diz o seguinte: “o homem instruído que se aparta das virtudes é como joia de ouro em focinho de porco”. Se não mudarmos o foco da escola, e claro, os pais precisam participar dessa mudança, vamos caminhar para essa triste realidade dita na frase.

Casos de bullying, em geral, são noticiados quando ocorrem entre alunos. Mas, o professor também sofre com este mal? De que forma?
Sim, eu diria que a própria sociedade comete bullying com os professores. Já viu quantas piadinhas existem acerca da profissão? Outra situação é a sala de aula. Existem alunos que humilham professores, e, certamente, estão aprendendo isso em alguma parte. Também é muito difícil para o professor, em certas condições, intervir numa situação de bullying em sala de aula. A escola hoje não tem alunos e sim clientes. A filosofia empresarial foi parar nas escolas com força total.

Que problemas pode apresentar um aluno que é vítima de bullying?
Inúmeros. No meu livro “Bullying...tô fora” cito muitas situações sofridas pela vítima do bullying. Vai desde a apatia diante da escola e da vida, até casos extremos de suicídio. E precisamos lembrar também que o agressor é muitas vezes também vítima. Aliás, acredito que todo agressor foi vítima, ainda que da ausência de um adulto capaz de lhe mostrar o caminho do bem.
 
Com a popularização do uso da internet, veio à tona o chamado cyberbullying. Esta forma é ainda mais perigosa que o “bullying tradicional”? Por quê?
Não gosto de estabelecer graus para o bullying. Para mim é tudo igual, qualquer que seja a forma devemos fazer o possível para evitar. De fato, a internet fica mais acessível para a atuação do agressor. Quase sempre ele age na surdina, quando não há ninguém por perto.

É mais difícil combater o cyberbullying do que o bullying tradicional? Por quê?
Todas as situações demandam muito trabalho. Trata-se de restituir ou formar valores fundamentais ao convívio com o outro. Costumo lembrar aos pais, em palestras, que a ética é um apelo emocional e não racional. Se não tocamos a alma do outro, ele não vai estar pronto para agir com ética. Bullying é falta de educação; quem tem valores e princípios não trata mal o outro.

O senhor fez alguma pesquisa para embasar suas colocações no livro? Falou com professores? O que pôde perceber?
Fui professor muitos anos, e, sempre com um olhar atento, percebia se um aluno não estava bem em apenas olhar para ele. Na medida do possível chamava-o para conversar. Também trabalho na clínica de adolescentes e crianças. Muitas vezes, a dor e o sofrimento da criança passa despercebido aos adultos. Faço um exercício de resgatar a criança que fui o tempo todo para melhor compreender meus pacientes. Subestimamos a capacidade das crianças ao conferir respostas simples para suas queixas. Na verdade, as questões existenciais estão tão presentes na vida de um criança como na vida do adulto. Nossa tarefa não é fácil mas é possível. O resgate das virtudes e dos valores humanos deve ser o ponto principal na educação, tanto em casa como na escola. Somente assim teremos uma sociedade digna, e saudável. Uma sociedade da qual possamos nos orgulhar de fazer parte.
 

Por: Diego Da - [email protected]
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