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Informação para combater o preconceito


Em 2009, foi sancionada uma lei que torna obrigatório o estudo de história da África, dos africanos, dos negros e indígenas brasileiros nas escolas. No entanto, até agora, em boa parte das instituições de ensino, a nova legislação não saiu do papel. Para a escritora e especialista em projetos pedagógicos Paty Fonte, até houve alguns avanços, em parte das instituições, com o maior incentivo à reflexão sobre o papel do negro e do indígena na sociedade.

No entanto, para ela, ainda predomina a prática de um ensino baseado em livros didáticos e apostilas que dão maior espaço à História do ponto de vista mais tradicional. “Há necessidade de conscientizar acerca das práticas e representações que configuram o racismo, apresentando aos alunos a verdadeira história e tradição do povo negro e indígena no Brasil, de maneira íntegra, sem estereótipos, sem mensagens subliminares que consolidam uma sociedade racista e excludente”, comentou a educadora, que também é coach, palestrante, tutora de cursos presenciais e on-line de educação continuada para docentes e autora do livro Projetos Pedagógicos Dinâmicos (Editora WAK).

Nesta entrevista, Paty Fonte fala do impacto que a lei que determina inclusão de conteúdos sobre a história dos africanos e indígenas poderia trazer para os estudantes e o combate ao preconceito, comenta as dificuldades que as instituições enfrentam para colocar a lei em prática, analisa a presença de práticas de racismo e bullying no ambiente escolar, entre outros temas.

FOLHA DIRIGIDA — Há alguns anos, está em vigor uma lei que torna obrigatório o estudo de história da África, dos africanos, dos negros e indígenas brasileiros nas escolas. Como está a aplicação desta lei, na sua opinião?
Paty Fonte —
Com a lei algumas escolas ampliaram a reflexão e discussão sobre o papel e a posição do negro e indígena em nossa sociedade, porém a grande maioria permanece realizando o mesmo tipo de trabalho baseado em livros didáticos e apostilas. Percebo que a mídia auxilia no sentido de inquietar um público maior, o que é bastante positivo.
 
O que fazer para que esta lei seja efetivamente aplicada nas escolas?
Há necessidade de conscientizar acerca das práticas e representações que configuram o racismo, apresentando aos alunos a verdadeira história e  tradição do povo negro e indígena no Brasil, de maneira íntegra, sem estereótipos, sem mensagens subliminares que consolidam uma sociedade racista e excludente. Sou adepta da pedagogia de projetos e acredito que ao elaborar um projeto sobre cultura negra e/ou indígena deve-se pensar em atividades que possibilitem aproximar nossos alunos da riqueza cultural, aprofundando o estudo das fortes raízes culturais africanas e indígenas, visando elevar a autoestima das crianças negras e descendentes de índios e sua percepção e atuação sobre si mesma e seu lugar no mundo. Desde a mais tenra idade deve-se trabalhar o assunto, privilegiando a questão da identidade, do respeito à diversidade e da autoaceitação.

Que impacto acredita que o estudo da história da África e da influência que ela tem sobre nós pode trazer para a formação dos estudantes?
O estudo deve contribuir para a construção do senso de uma sociedade mais justa e igualitária, em que pessoas de etnias diferentes não sejam discriminadas. Assim, no futuro, não será necessário fazer campanhas e criar datas para conscientizar a população de que não há raça superior à outra, existe apenas a raça humana. Além dos alunos apropriarem-se de diversos saberes e conscientizarem-se sobre temas relevantes como legislação, tolerância, direitos e deveres.

A presença deste tema no currículo das escolas poderia contribuir, de que forma, para conscientizar os estudantes em torno da rejeição a toda forma de preconceito étnico?
Conhecer as variadas culturas é essencial, despertando na criança o respeito pelas outras pessoas independentemente da raça. Para tal, é fundamental divulgar o lado positivo da história negra e indígena, não apenas as questões de escravidão, miséria e sofrimento, proporcionando situações didáticas centradas em dinâmicas, vivências, ações e reflexões, no estímulo à criticidade e na resolução de problemas que possibilitem aos alunos a pensarem na questão de forma ética. O status de igualdade será conseguido quando o professor estiver atento para contemplar alunos negros e brancos, democraticamente, nas pequenas atividades do dia a dia, através do que chamamos instrumentos ou ferramentas pedagógicas. Contar histórias em que apareçam crianças negras como protagonistas vivendo situações cotidianas, buscar epopeias de povos africanos com seus heróis e suas sagas, procurar imagens de famílias negras, profissionais negros, políticos, escritores, cientistas negros para estar lado a lado dos brancos já colocados nos murais e estudos escolares - eis alguns procedimentos que podem ser adotados.

Acredita que as escolas podem estar com algum tipo de dificuldade para se adequarem ao que determina a lei de inclusão de conteúdos relacionados à cultura africana no currículo? Faltaria, por exemplo, algum suporte dos governos, de maneira geral?
Os professores sentem dificuldade em desenvolver um trabalho original e efetivo em relação a todos os temas transversais, pois, infelizmente, a maioria das escolas ainda realiza um trabalho mecânico, tradicional, massificado e engessado, priorizando preencher livros e apostilas. Em minha opinião é urgente uma mudança de postura, tendo em vista que o este tipo de ensino não condiz com a sociedade atual e não tem se mostrado eficiente.

Na sua opinião, o preconceito racial é uma prática presente nas escolas? Que medidas são necessárias para combatê-lo?
Não só o preconceito racial como outras várias formas de preconceito são nítidas em instituições de ensino, tanto que são corriqueiros episódios de violência e bullying. Para combater isso é imprescindível encarar como grande preocupação da escola transformar comportamentos e formar para cidadania, o que só é possível resgatando valores éticos e morais. O enfoque não pode ser apenas o cognitivo, mas o emocional, social e cultural.

As instituições de ensino, de maneira geral, sabem lidar da forma adequada quando ocorrem casos de preconceito em suas dependências? Por quê?
Depende muito da instituição, mas em sua maioria são falhas no trabalho com relações humanas já que enfocam o lado cognitivo, valorizam o conteudismo esquecendo de ouvir seus alunos e oportunizar para que expressem seus sentimentos e opiniões. É urgente um trabalho afetivo, pautado em desenvolver emoções e criticidade. Procura-se atualmente resgatar a dimensão humana do trabalho pedagógico evidenciando o relacionamento do professor com aluno, mas ao lado do papel técnico de ensinar, ou seja, o “como se relacionar com o aluno” está incluindo o papel político desse relacionamento e de mobilizar, de acionar a participação efetiva no processo de mudança da realidade.

Na sua opinião, falta espaço, em nosso currículo escolar, para trabalhar questões mais relacionadas ao exercício da cidadania, como o combate ao preconceito e o respeito às diferenças? Por que?
Acredito que é urgente a mudança de postura. Os professores não são mais meros transmissores de informação, até porque hoje em dia, com o avanço tecnológico, somos bombardeados com informações por todos os lados. O papel do professor é mediar tais informações, levar à reflexão, à interpretação, motivar para que os alunos tenham vontade de buscar novas informações e assim possam aplicá-las em suas vidas de modo a transformar comportamentos inadequados, mudar posturas, atuar conscientemente em seu grupo social. Tais questões devem permear todas as atividades escolares, o ideal é que estejam presente sempre e que dentro das escolas seja constante a prática de exercitar a cidadania, combater preconceitos e respeitar as diferenças. Aprendemos de modos diferentes e os alunos precisam de caminhos e ritmos customizados para aprender, por que as escolas padronizam a maneira de lecionar e os testes a que os alunos são submetidos. Aprender e ensinar exigem hoje muito mais flexibilidade espaço-temporal, pessoal  e de grupo, menos conteúdos fixos e processos mais abertos de pesquisa e de comunicação. Uma das dificuldades atuais é conciliar a extensão da informação, a variedade das fontes de acesso, com o aprofundamento da sua compreensão, em espaços menos rígidos, menos engessados. Temos informações demais e dificuldade em escolher quais são significativas para nós e conseguir integrá-las dentro da nossa mente e da nossa vida.

A questão das diversas formas de preconceito está diretamente ligada ao bullying, um dos problemas que mais preocupa educadores hoje. Como enfrentar este mal que assola as escolas?
Repito que enquanto a prioridade dentro das escolas for um conteúdo sem significado, enquanto a educação acontecer de forma tradicional, autoritária e massificada não evoluiremos neste sentido.  É fundamental conhecer nossos alunos e refletir sempre sobre as relações interpessoais que ocorrem na classe. A tendência do sistema educacional vigente é excluir aqueles que não estão adequados às expectativas da escola, todavia, podemos romper com esse modelo de educação. O ideal é o professor funcionar como mediador, ensinando os alunos a pensar, colher dados e construir o seu próprio conhecimento. Nesse papel, o professor deve se permitir a liberdade de criar e experimentar várias estratégias, de acordo com cada criança, independentemente das teorias ou normas que lhe tenham sido impostas.

Por que, na sua opinião, casos de bullying têm sido tão frequentes nos dias de hoje?
Porque as pessoas estão cada vez mais egoístas, imediatistas e materialistas. Na correria do cotidiano as atividades se tornam cada vez mais mecânicas. Nossa vida emocional tem sido negligenciada por nossa cultura. Nossa educação, baseada em princípios cartesianos, coloca ênfase nos processos intelectuais e cognitivos. No entanto, a facilidade e bem estar, tão almejadas por todos, depende muito mais de nossos processos emocionais que dos intelectuais. Já ouvi de professores que interpretar textos em sala de aula é perda de tempo, que é preciso dar conta de completar os livros. Nessa onda egocentrista a violência ganha espaço, principalmente quando alguém se destaca por alguma diferença. Isso é muito triste e preocupante.

Muitos dizem que, para fortalecer uma cultura de paz nas escolas, é fundamental uma aproximação maior com os pais. O que as instituições de ensino podem fazer nesse sentido?
Sim, os resultados vão além das expectativas quando as famílias trabalham em conjunto com as escolas. Cada instituição precisa analisar sua realidade a fim de planejar estratégias e atividades que aproximem as famílias e toda comunidade na qual está inserida. Por isso gosto tanto da pedagogia de projetos que propicia esta união. Não existe receita, cada escola, quando comprometida, encontra seu caminho, algumas com mais facilidade que outras, o importante é não desistir e manter o foco e a formação constante.

Os pais, de maneira geral, estão mesmo mais afastados da escola e da educação de seus filhos? Por quê?
Estão sim. Creio que a luta por uma vida mais estável economicamente ou até pela própria sobrevivência financeira é a principal causa deste afastamento. Todavia, hoje existem diversas organizações familiares e cada uma delas assume seu papel de acordo com o que considera relevante. Ao meu ver é hora de se resgatar valores e afetos em todos os âmbitos sociais.

Por: Diego Da - [email protected]
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