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Leitura para ampliar os horizontes


Nos últimos dez anos, o índice de leitura dos brasileiros até avançou: de menos de 2 livros por ano para quatro obras. Porém, o indicador ainda está muito aquém do desejável, o que mostra que o Brasil está longe de ser um país de leitores. Mas, o que fazer para que os livros sejam parte da vida dos nossos jovens e crianças?

Um dos caminhos para que esse objetivo seja atingido é incentivar a prática da leitura ainda nos primeiros anos de vida, como destaca a pedagoga, professora e escritora de livros infantis, Edilde da Conceição Candido. Segundo ela, quando o gosto pelo livro é trabalhado nos primeiros anos, ele tende a se manter ao longo da vida. Mas, para isso, é fundamental o envolvimento da família.  “A criança só manterá este hábito se houver incentivo e participação por parte das pessoas próximas a ela, trabalhando o hábito de ler e procurando mostrar à criança novos horizontes na leitura”, destaca.

Autora, entre outras obras, do livro “Brincando e Rimando com os Animais”, a professora Edilde da Conceição Candido, nesta entrevista, fala da importância do acesso à leitura por parte das crianças, apresenta ações que os pais podem colocar em prática para despertar o gosto pelo ato de ler, ressalta de que forma os meios eletrônicos podem contribuir para aproximar jovens e crianças dos livros e analisa por que o interesse pela leitura é ainda tão baixo.

“Incentivar a leitura em um país de poucos leitores é tarefa difícil, apesar de termos grandes escritores. Os livros geralmente são caros e existem poucas e pobres bibliotecas para atender à população menos favorecida”, destacou a escritora.

FOLHA DIRIGIDA - Qual o maior desafio para incentivar uma criança a ler nos dias de hoje?
Edilde da Conceição Candido - O maior desafio em minha opinião parte dos próprios pais, que por vezes não possuem o hábito de ler, muito menos de ter uma biblioteca vasta dentro de casa, como existiam antigamente, aonde as crianças, por não possuírem qualquer outro tipo de informação, acabavam consultando livros e adquirindo o hábito de ler.

Nesse contexto, o que os pais poderiam fazer para incentivar seus filhos, além de adquirir livros? O que a senhora aconselharia para um pai ou mãe colocar em prática, em casa, junto a seus filhos, para despertar nas crianças o gosto pela leitura?
Ler para eles porque se os pais não leem a criança provavelmente não terá este referencial. A professora fica apenas quatro horas com a criança, não havendo tempo para fazer um bom trabalho. Aconselharia  os pais a, por exemplo, levar seus filhos para Centros Culturais, peças de teatros, exposições,  rodas de leituras, cinemas e sessões de historias.

Não são poucos os pais que, para incentivar os filhos a ler, passam em livrarias e compram livros que eles acham que seus filhos gostarão. É um erro? Por quê?
Não, mas nós estamos trabalhando com alunos pensantes e levá-los para escolher seus livros também é de grande valia para que ele se torne um estudante transformador de conhecimentos. Já que os pais levam seus filhos para escolherem roupas e brinquedos, por que não levá-los para escolher seus próprios livros? As livrarias hoje em dia são dinâmicas e atraentes.
 
Muitos educadores veem nas mídias eletrônicas um adversário para a prática da leitura, pelo fato de elas serem mais atrativas para as crianças. Você concorda com essa visão? Ou considera que há meios de associar recursos tecnológicos e o gosto pelo livro?
Acredito que os recursos eletrônicos são grandes aliados no intuito de incentivar a criança à leitura, desde de que ela não perca o costume com o manuseio do livro, a fim de que desperte nela o carinho e o respeito por obras passadas, utilizando também a mídia eletrônica para atrair a criança para o mundo da leitura.

Vale a pena introduzir a criança no universo da leitura pela via dos meios digitais (tablets, computadores, etc) antes de utilizar o tradicional livro impresso? Por quê?
Dependendo da faixa etária, os meios digitais serão validos. Porém o mais importante é o contato com o livro, pois a leitura é o meio mais prático para a criança desenvolver a sua imaginação e criatividade. A leitura leva a criança a imaginar e criar situações que o livro descreve. Já a mídia eletrônica praticamente nos traz tudo pronto com a criatividade e a imaginação de quem editou o que limita os horizontes dos leitores.

A senhora disse que os recursos eletrônicos são grandes aliados no incentivo à leitura. Mas, de que forma eles podem gerar esse incentivo? Pode nos dar alguns exemplos?
Hoje em dia diversos sites disponibilizam o download de livros por meio de arquivo digital. Cabe aos pais procurarem com muita calma, pesquisar e introduzir, orientando sempre seus filhos a terem acesso a este tipo de mídia. Quanto às demais, acho até valido mas não dispõem o exercício da leitura, que, em minha opinião, é o mais importante pelos fatores que já exemplifiquei. Outro exemplo é o dos blogs. Através deles, podemos fazer pesquisas e dar oportunidade para o aluno interagir tecendo comentários  sobre os artigos  ali postados. Existem também os vídeos ou áudios onde podemos conhecer grandes obras com Machado de Assis, Vinicius de Moraes etc. Para as crianças da educação infantil, sugiro atividades com fantoches, teatro de marionetes, jogos de quebra cabeça que se encaixam para a formação de histórias.

A senhora tem um projeto recentemente aprovado pelo Ministério da Cultura, do qual faz parte o livro “Brincando e Rimando com os Animais”. Pode nos falar um pouco sobre esse projeto?
O objetivo deste projeto é fazer com que a leitura ganhe mais cumplicidade junto à poesia. Isto é: a poesia fará com que a criança tenha mais conhecimento não só da Língua Portuguesa, mas, também, da função de cada animal no meio ambiente, despertando assim, o interesse por mais esse gênero literário que é a poesia. O público-alvo deste projeto é a criança da educação infantil, na faixa etária de até 9 anos de idade, pois o vocabulário é bem diversificado, atingindo assim, o objetivo proposto. O professor tem um leque muito grande na utilização dessa obra, seja na Língua Portuguesa, seja em outras disciplinas, por meio da interdisciplinaridade.

O que a senhora recomendaria aos pais para incentivar seus filhos a lerem, em especial, nos primeiros anos de vida?
Que os pais leiam sempre para seus filhos contos narrativos, fantasiosos e, quando tiverem oportunidade, visitem feiras de livros, livrarias e bibliotecas, além de inserir no seu dia a dia alguns programas educativos, inclusive os televisivos, criando hábitos e regras específicas para que a criança só tenha acesso ou assista a programas com o conteúdo infantil ou com mensagens educativas.

É possível trabalhar a leitura com crianças que têm menos de um ano de idade? Como?
Sim. Nesta faixa etária o ideal seria que os pais usassem um pouco da sua criatividade. Uma alternativa é fazer dramatizações, ou seja, criar situações onde a criança possa despertar, interagir e começar a pensar sobre o que ela está vendo ou ouvindo.

Quando uma criança, antes dos cinco anos, desperta para o prazer da leitura, é mais fácil ela manter esse hábito? Por quê?
Sim. A criança só manterá este hábito se houver incentivo e participação por parte das pessoas próximas a ela, trabalhando o hábito de ler e procurando mostrar à criança novos horizontes na leitura.

Não são poucos os casos em que a criança desenvolve o gosto pela leitura na infância, mas, com o passar dos anos, deixa de ter o hábito. Por que isso acontece?
Porque muitas vezes  a criança  não tem incentivo nem da família nem das pessoas próximas a ela. Mesmo a escola cumprindo seu papel no que diz respeito a educação, não tem a responsabilidade total para essa função.

Apesar de a escola não ter essa responsabilidade, como a senhora destacou, ela pode reverter esse quadro se fizer um trabalho interessante em torno da leitura?
Qualquer trabalho que desperte no aluno o interesse pela leitura, seja de que tipo for, desde de que tenha conteúdo didático ou que enriqueça o conhecimento do aluno, será sempre bem vindo, quer por parte da escola, dos pais, das pessoas que as cercam. Tudo é importante dentro do universo da leitura.

A literatura infantil brasileira é considerada uma das melhores do mundo. Nossas escolas aproveitam-se bem desse patrimônio que temos? Ou nossas crianças não têm acesso à produção desses escritores?
Não. Na maioria das escolas, professores não despertam nem orientam o aluno a exercitar a leitura como forma de enriquecimento de vocabulário, ampliando sua forma de expressão e linguagem para o desenvolvimento de suas habilidades e competências, pois não é necessário que o aluno compre livros. Basta apenas orientá-los a procurar bibliotecas e, por que não, a mídia eletrônica. O acesso aos bons escritores é simples, basta apenas que sejam orientados para isto.

Que práticas podem ser adotadas nas escolas, para tornar a leitura mais prazerosa para as crianças, principalmente na Educação Infantil?
As histórias infantis, através da contadora de histórias e o teatro de fantoches dramatizações e narrativas são práticas que, se adotadas, despertarão o interesse da criança pela leitura.

As creches e pré-escolas, de forma geral, trabalham o incentivo à leitura com seus estudantes? Os profissionais têm a capacitação necessária?
Algumas creches e pré-escolas fazem um trabalho focado para o incentivo à leitura. Porém, em sua grande maioria, são mantenedores de crianças em suas creches apenas para aliviar os pais. Nesse segmento ainda faltam pessoas capacitadas e imbuídas de boa vontade para que esse projeto dê certo. Hoje, as creches e pré-escolas só sobreviverão se estiverem inseridas num contexto dinâmico, que atraia não somente a atenção dos pais, mas, principalmente, das crianças, que precisam ver na creche um lugar atrativo em que ela sinta-se bem.

São poucas as escolas que, hoje, têm em seus quadros a contadora de histórias, para as crianças. Que falta elas fazem?
A presença das contadoras de historias é indispensável porque elas sabem narrar às histórias de maneira lúdica, despertando o interesse das crianças e criando um link entre a fantasia e a realidade, onde as mensagens podem ser de cunho educativo, contribuindo assim, com o universo infantil.

A senhora vê, da parte do poder público, uma preocupação em colocar em prática políticas eficazes para incentivar a leitura?
Sim. Atualmente o Ministério da Cultura disponibiliza a Lei Rouanet para qualquer segmento da Cultura, faltando apenas que o empresariado entenda que, patrocinando projetos culturais, estará ajudando a elevar o nível cultural de nosso país e divulgando as obras de nossos escritores. Acredito que uma maior divulgação dos benefícios da referida lei criará um elo maior entre Cultura e Empresariado.

Por que, a seu ver, o Brasil ainda é um país de poucos leitores? O que falta ser feito em termos de ações governamentais?
Tudo isto esta dentro de um mesmo contexto, escola, pais, ações governamentais e o mais importante a todos, a conscientização de que a leitura e o caminho mais fácil para se adquirir conhecimento. O desafio é grande. Incentivar a leitura em um país de poucos leitores é tarefa difícil, apesar de termos grandes escritores. Os livros geralmente são caros e existem poucas e pobres bibliotecas para atender à população menos favorecida. Além disso, nosso país é marcado pela desigualdade social e por um ensino que ainda não pode ser considerado de excelente qualidade. Pensar em ações governamentais é pensar mais além. É tornar o livro um artigo acessível a todos, é criar acervos públicos.

Qual o maior obstáculo para popularizar o acesso à leitura no país: o preço do livro? a falta de incentivo em casa? O trabalho inadequado da escola? Por quê?
Tudo isto esta dentro de um mesmo universo. O preço dos livros, dependendo da  faixa social, é um dos fatores mas não é este o motivo, pois, como já assinalei, existem arquivos digitais em site que disponibilizam livros a um custo baixíssimo. Portanto, não é esta a questão mas sim o que exaustivamente venho falando: é fundamental o trabalho em casa e nas escolas. Este é o grande X do problema. As editoras deveriam apostar em livros mais baratos, de modo a alcançar os consumidores de baixa renda e aumentar o número de Bibliotecas Públicas. Porém o problema não para por aí. A falta de escolaridade dificulta o acesso à leitura. Todos esses fatores resultam no grande número de brasileiros sem interesse.

Por: Diego Da - [email protected]
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