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Museu Nacional: tradição na divulgação científica


Primeira instituição científica do Brasil, o Museu Nacional completa 195 anos desenvolvendo uma série de ações para dividir com o público seu precioso acervo, que reúne 20 milhões de itens. As atividades vão desde oficinas voltadas para docentes à apresentação de peças inéditas, como as da exposição de paleobotânica — “A (r)evolução das plantas” — inaugurada no último dia 5.

Criada em 1818 por Dom João VI com o objetivo promover o progresso cultural e econômico no país, a instituição era denominada Museu Real, com sede no Campo de Sant’Anna, no Centro do Rio. Após a Proclamação da República, foi transferida para o Paço de São Cristóvão — que serviu de residência para as famílias real e imperial, além de abrigar a primeira Assembleia Constituinte Republicana, de 1889 a 1891.

Sem interrupções na pesquisa científica, a instituição demonstrou, desde muito cedo, o interesse em aproximar o universo científico da realidade escolar. Ainda em 1927, o então diretor do Museu Nacional, Roquette Pinto, inaugurou a Seção de Assistência ao Ensino. O setor realizou ações para aproximar estudantes e professores criando, ainda na primeira metade do século XX, os primeiros kits escolares com material de divulgação científica.

Em 1946, a instituição centenária passou a integrar os quadros da Universidade do Brasil, que mais tarde seria denominada Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, como unidade da UFRJ, oferece mestrado e doutorado em Antropologia Social, Arqueologia, Botânica e Zoologia; e também cursos de especialização em Geologia do Quaternário, Gramática Gerativa e Cognição e Línguas Indígenas Brasileiras.

No auge das comemorações dos 195 anos daquele que é considerado o maior museu em história natural e antropológica da América Latina, sua atual diretora, a arqueóloga Claudia Rodrigues Carvalho convida estudantes, professores, pesquisadores e o público em geral para conhecerem o farto material da instituição sobre geologia, zoologia, arqueologia, etnologia, paleontologia, botânica e várias outras áreas ligadas às ciências naturais e à antropologia.

Dinossauros, múmias, plantas pré-históricas, peças do Egito Antigo, gravações de línguas tupi-guarani, o meteorito de Bendengó — maior meteorito brasileiro e um dos maiores do mundo, encontrado em 1784 no sertão da Bahia — são apenas alguns dos itens que podem despertar estudantes e professores para o fascinante mundo da ciência.
“Temos equipamentos remanescentes do século XIX, que mostram como se fazia ciência à época. Desenvolvemos uma série de pesquisas na direção de proteger e difundir toda a área de conhecimentos sobre história da ciência, aqui no museu. Somos procurados por pesquisadores de todo o Brasil e também do exterior”, disse a diretora do Museu Nacional, ao apresentar planos para as festividades de 2018, quando a instituição completará 200 anos.



FOLHA DIRIGIDA - O Museu Nacional completa 195 anos em 2013. Qual o papel da instituição para a preservação da cultura e da história do país?
Claudia Rodrigues Carvalho - A importância do Museu Nacional começa pela sua fundação. Ele foi o primeiro museu, a primeira instituição de pesquisa criada no Brasil. Embora seja um museu de história natural e ciências antropológicas, temos em nosso acervo uma série de elementos relevantes para pensarmos a educação, a interação do homem com o meio ambiente, o nosso passado, o modo como as sociedades se desenvolvem e como os diferentes grupos humanos conviveram. Não somos um museu histórico, apesar de a sede se localizar em um ponto de grande relevância para a história brasileira — o Paço de São Cristóvão. Aqui viveram a família imperial e a família real; aqui foi feita a primeira Constituinte da república. Tentamos incluir cada vez mais a parte da história deste espaço nas nossas exposições. Começamos nossa trajetória como um órgão de investigação das ciências naturais e antropológicas. No século XIX, o museu e os cientistas que aqui estavam estudaram o potencial econômico do solo brasileiro, das plantas, da vegetação, dando uma contribuição ao país que perpassa as áreas da ciência, da economia e da cultura. Já na segunda metade do século XIX, começaram a ocorrer as conferências, abertas ao público — algumas delas contavam, inclusive, com a presença do imperador Dom Pedro II — inaugurando essa ideia de popularização da pesquisa e da ciência.

Então, o trabalho de divulgação científica é antigo no Museu Nacional?

Sim. Já na primeira metade do século XX, Roquette Pinto, então diretor da instituição, estabeleceu no Museu Nacional uma área de ações voltadas para a educação, especificamente direcionadas às escolas. O museu passou a preparar kits escolares. São ações que buscamos manter até hoje. 

E de que forma o Museu Nacional se relaciona com as atividades de ensino e pesquisa?

O museu, hoje, tem a sua inserção no ensino formal por meio da pós-graduação. Temos quatro pós-graduações: Antropologia Social, Arqueologia, Zoologia e Botânica e algumas especializações. Apesar disso, toda atividade com os outros segmentos da educação formal também é mantida e valorizada. Temos uma parceria, desde 2000, com o Colégio Pedro II.

Como funciona essa parceria?

É um programa de estágio que se uniu recentemente à reativação do Programa de Iniciação Científica Júnior (Pibic Jr.) da UFRJ. Recebemos estagiários do ensino médio do Colégio Pedro II e de outros colégios que fazem parte do Pibic Jr. da UFRJ. Recebemos também alunos de graduação dos mais variados níveis. Eles estão no museu para aprender e acompanhar as pesquisas aqui desenvolvidas. Os alunos desses colégios convivem com os pesquisadores, com os laboratórios e com o dia a dia da pesquisa.

E quando o Museu Nacional passou a ser uma unidade acadêmica da UFRJ?

O museu passa a ser parte da UFRJ em 1946, que, à época, ainda era Universidade do Brasil. Isso traz benefícios e dificuldades. Essa é uma questão complexa, pois somos um instituição de grande porte inserida em outra instituição de grande porte, que é a UFRJ. Elas têm missões historicamente similares, mas que não são totalmente iguais. A grande vantagem é que pudemos ampliar as áreas de pesquisa e pós-graduação. Somos um museu de ciência e, como tal, não podemos estar alijados da pesquisa, especialmente da pesquisa de ponta na área de ciências da vida e da ciência antropológica. A partir de ciclos de convênio, temos também a possibilidade de interação com outros meios da educação formal. Há, claro, as dificuldades de orçamento. Somos servidores da UFRJ; estamos vinculados ao Ministério da Educação (MEC). Não questiono exatamente essa vinculação. Entendo que, em alguns momentos, ela acaba se tornando complexa para um museu desse porte, por conta do tipo de investimentos de que precisamos, especialmente nas áreas expositivas. E esses investimentos são um pouco mais difíceis de se conseguir na estrutura de uma grande universidade.

Como a senhora avalia a visitação do museu? Qual é a média de público?

Recebemos, em média, 300 mil visitantes por ano, sendo que praticamente a metade deles são de escolas. Essa outra face da participação do público escolar se reflete exatamente na visita às nossas exposições. Temos uma preocupação acentuada em reformular nossas exposições de longa duração para que o público possa ter contato com as informações mais atualizadas e também com as linguagens mais modernas.

Há algum trabalho especial voltado para o público escolar, tanto para alunos quanto para os professores?
A visitação das escolas é agendada, e é feita com acompanhamento. Temos uma  Seção de Assistência ao Ensino fundada em 15 de outubro de 1927, por Roquette Pinto. Recentemente, elaboramos, a partir de uma verba da Secretaria Estadual de Cultura, o “Guia de visitação ao Museu Nacional”, feito para professores. Esse é um guia geral, com alguns elementos da exposição. Foi elaborado para ajudar o professor a planejar a sua visita. Esse projeto compreende não apenas o guia, mas também CDs. E todo esse material está disponível na nossa página eletrônica. E foi possível trazer, com esse patrocínio do Governo Estadual, alguns professores para encontros realizados aqui no museu. Os docentes conhecem melhor a nossa instituição e multiplicam, junto aos seus colegas, as informações sobre a forma de como elaborar, de fato, uma visita interessante para os seus alunos.

A conexão com a história e com as ciências são as mais imediatas, por conta da natureza da instituição. Mas as visitas ao Museu Nacional, a seu ver, podem ajudar o aluno em outras matérias
?
A ideia do guia e de outras ações nossas é ampliar exatamente essa perspectiva, em conjunto com o professor. É claro que ciências e história, pelo material que temos em nosso acervo, são as disciplinas que mais vêm aqui. Mas o que pode ser feito com relação à língua portuguesa, por exemplo? No momento, temos uma exposição sobre a África sendo reformulada. Ela deve abrir em 2014. Em nosso acervo, temos materiais da África e dos indígenas  que mostram a diversidade de línguas. Em nossa exposição de etnologia temos, ainda, alguns pequenos rolos de gravação com vocábulos indígenas. Esse aspecto pode ser explorado de diversas formas. As questões da matemática podem ser, eventualmente, trazidas. Ainda não temos um programa claro preparado sobre isso. Porém, estamos pensando em como atrair o interesse das outras disciplinas para o nosso trabalho. Tudo o que fazemos envolve linguagens, matemática, às vezes, física. Uma das questões trabalhadas nas festividades do aniversário do museu foi, justamente, despertar o professor para esse trabalho interdisciplinar.

Um dos temas mais conhecidos do acervo do Museu Nacional é a coleção egípcia dos imperadores Dom Pedro I e Dom Pedro II, que compreende quase 700 objetos. Qual é a importância deste patrimônio para a instituição?

Esse é um acervo curioso, e o devemos a nossos imperadores. Dom Pedro I comprou parte desse material em um leilão. Aparentemente, as peças iriam para Argentina, mas houve um impedimento e o material acabou aqui. Dom Pedro I adquiriu as peças e, depois, esse material foi incorporado ao Museu Nacional. Havia, de fato, uma vontade de transformá-lo em uma instituição que nada devesse aos museus semelhantes que se formam na Europa, naquela época. Essa universalidade de temas é uma das características deste museu. Algumas peças foram presentadas a Dom Pedro II, que tinha um perfil de pesquisador, de cientista. E esse material ficava no Palácio mesmo, onde ele morava. Temos um esquife pintado da “Cantora de Amon”, que ficava em seu gabinete. Ela passou a integrar o nosso acervo com a Proclamação da República. Essa é uma coleção extremamente rica e uma das maiores da América Latina.

O Museu Nacional também abriga uma vasta coleção de múmias. Qual é a reação do público a essas peças?

Temos uma quantidade de múmias e fragmentos de múmias muito importante, especialmente por estarmos em clima tropical — o que representa um desafio. Esse material vem sendo trabalhado ao longo dos anos; ele sempre foi objeto de bastante admiração do público e dos pesquisadores. Há alguns anos, tivemos a grata possibilidade de trazer um egiptólogo para trabalhar conosco, o professor Antonio Brancaglion, o que nos garante certa continuidade das pesquisas e trabalhos nessa área. Sua atuação tem rendido frutos e, de 6 a 9 de agosto, faremos um “Congresso Mundial de Múmias”, que será o primeiro do gênero, no Brasil. Esse evento é destinado a profissionais, mas o público pode acompanhar, se inscrever. Vamos falar sobre múmias de todos os lugares, e não apenas as do Egito.

Qual é a dimensão do acervo do Museu Nacional?
Nosso acervo, incluindo documentos, peças, instrumentos e bibliotecas, é estimado em mais de 15 milhões de peças e aproximadamente de 20 milhões de itens. A biblioteca central do museu é aberta ao público, no Horto da Quinta da Boa Vista. Funciona das 8 às 16h. Lá guardamos obras raras, como a “Viagem filosófica de Alexandre Rodrigues Figueira” que, junto com a Biblioteca Nacional, ganhou o prêmio “Memória do Mundo”, concedido pela Unesco. Temos algumas obras do século XIX, cujo acesso é mais restrito. Mas, em geral, a maior parte do acervo é aberta a estudantes, professores e pesquisadores. Mas, de fato, é uma biblioteca temática, voltada para os estudos da vida, da terra, da ciência e da antropologia.

Como o trabalho desenvolvido museu, que tem boa parte de seu acervo ligada às ciências, pode contribuir para despertar o interesse dos jovens por essa área do conhecimento, onde faltam, inclusive, docentes?
Penso que precisamos nos aproximar do professor. Estamos dando esse passo com o guia de visitação. A ideia é, eventualmente, tentar estreitar esse contato, não apenas nos docentes de história e ciências, mas também de outras disciplinas, mostrando as diversas possibilidades que oferecemos em nossa instituição. Esse é um processo de diálogo. Existem diferentes tipos de ações. As atividades do aniversário do museu, as oficinas, também têm esse objetivo de mostrar nossas ações. O trabalho realizado em nossos laboratórios mostra como incorporamos as diferentes disciplinas no nosso dia a dia. Esse ponto é mais claro para aqueles que lidam com a ciência. Mas é um aspecto de conhecimento fundamental para qualquer cidadão. Essa perspectiva deve, inclusive, se trabalhada de modo mais eficaz também nos livros didáticos. Precisamos pensar em formas de transformar o livro didático em uma obra mais interessante, que incorpore, por exemplo, exercícios de física que tenham a ver com a nossa realidade brasileira, com a realidade regional. Outro passo importante é incentivar esse tipo de conversa entre instituições que podem se adaptar para fazer isso. Essas ações beneficiariam, sobretudo, os alunos. Quando se aprende gostando, tudo fica mais fácil.

Quais são as principais ações desencadeadas pelas comemorações dos 195 anos do Museu Nacional?
Inauguramos a exposição de paleobotânica, a primeira nos 195 anos do Museu Nacional. Ela se chama “A (r)evolução das plantas”. Ficará aberta até 27 de dezembro. Nessa mostra, apresentaremos a evolução das plantas ao longo do tempo e a sua importância na construção de todos os nossos sistemas. Pensamos, inclusive, em incorporar parte desse material ao nosso circuito expositivo de longa duração.

Quais são os planos de curto e médio prazo para o Museu Nacional?
Nosso circuito expositivo está parcialmente fechado. Estamos reformulando algumas exposições. Acredito que em aproximadamente um ano todo o segundo andar esteja aberto novamente ao público, totalmente reformulado. Nosso prédio é tombado. Temos um grande projeto de construção de prédios adjacentes, aqui na área do Horto, próximo ao local onde existe a biblioteca. Queremos liberar todo o palácio das atividades de ensino, pesquisa e guarda de acervo. Pretendemos reestruturar as mostras nos três andares do prédio, que ficaria dedicado apenas a exposições e atividades com o público: oficinas, recepção e treinamento de professores, salas de leitura. Estamos buscando recursos, pois esse projeto envolve a construção de três prédios e todo o restauro do palácio, além da montagem de uma exposição moderna, com o nosso acervo, mas alinhada com as novas possibilidades tecnológicas de mídia, de audiovisual, bastante interessantes para tornar essa relação com o público mais dinâmica.  Queremos restaurar o nosso Horto para visitação de forma mais frequente. Por conta disso, já estabelecemos uma pré-comissão que começa a preparar as comemorações para os 200 anos do museu, que serão completados em 2018.

O que está previsto para acontecer em 2018?

A ideia é que, até lá, todo esse projeto já esteja em andamento. Nós funcionamos em um complexo na Quinta da Boa Vista, que envolve o palácio, um prédio anexo e a área Horto da Quinta da Boa Vista, que inclui a biblioteca e o prédio do Departamento de Botânica, do Departamento de Vertebrados, o prédio de ensino e mais algumas pequenas estruturas. Além disso, também possuímos, em parceria com outras instituições, uma estação biológica chamada “Estação Biológica de Santa Lúcia”, no Espírito Santo, onde uma série de pesquisas são desenvolvidas. Essa não é uma instituição de propriedade única do museu: outras instituições também colaboram. Na verdade, buscamos financiamentos maiores. Um de nossos interesses é buscar parcerias com a iniciativa privada, pois os custos são muito elevados. Claro que temos recursos federais, mas a iniciativa privada também poderia colaborar. Todo esse nosso projeto está orçado em R$145 milhões. Com isso, teremos o maior e mais moderno museu expositivo em história natural e em antropologia, sem deixar nada a dever aos grandes museus do exterior. Assim, concretizaremos o seu projeto inicial, idealizado por Dom João VI.

Por: Tainara Silva - [email protected]
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