Folha Dirigida Entrar Assine

Música e educação: uma parceria que dá certo


Desde 2008, a lei federal 11.764 determina a obrigatoriedade da inserção da disciplina Música nos programas educacionais em todas as escolas brasileiras. Uma das justificativas desta norma é o fato de que educação e música, juntas, possibilitam o desenvolvimentio de experiências no âmbito social e individual de jovens em formação. Esta união, porém, já é colocada em prática muito antes de se tornar obrigação no papel. Grupos autônomos de pessoas que acreditam que a música pode sim mudar a realidade já fazem esse trabalho há muito tempo. É o caso do advogado e empresário Sérgio da Costa e Silva, criador e coordenador do programa Música no Museu, realizado há quase 16 anos. Promovendo o encontro entre jovens talentos e artistas renomados, o projeto leva música clássica brasileira para os quatro cantos do mundo, pelas mãos e vozes dos próprios brasileiros.
 
Com 400 mil expectadores ao longo da história, o diretor da Associação Comercial do Rio de Janeiro defende o projeto como uma oportunidade de o público, em geral, conhecer a música clássica e derrubar barreiras de preconceito e falta de patrocínio. Apesar das adversidades, o Programa cresce a cada ano enchendo salas e batendo recordes de espectadores e participações de artistas estrangeiros. Um exemplo é a 8ª edição RioHarpFestival, que ocorre até o dia 4 de junho no Rio de Janeiro. Por meio deste festival, o Música no Museu leva apresentações do instrumento mais antigo da História para vários museus, clubes e centros culturais da cidade. Todas as apresentações tem entrada franca, o que possibilita a diversidade de público.

FOLHA DIRIGIDA - Qual é a origem e a história do RioHarpFestival, que está em cartaz até o dia 4 de junho, e como ele se insere no Programa Música no Museu?
Sérgio da Costa e Silva - A origem do Festival de Harpa é o projeto Música no Museu, que nós realizamos há quase 16 anos. Ele é dividido em cinco temporadas: concertos de verão, outono, inverno, primavera e Natal. A cada mês, previlegiamos um tema ou um naipe. Essa ideia de fazer o projeto surgiu há 10 anos. Porque inicialmente o projeto estava em um só museu. Agora ele está presente em 80 museus de todo o Brasil. Nós organizamos os temas e os naipes de acordo com o contexto. Por exemplo, 200 anos da chegada da Família Real, um tema. Nós colocamos as músicas da época. 50 anos da morte de Vila Lobos, nós fizemos um programa só com as músicas do artista, isso é outro tema. Os naipes são: cordas, pianos, sopro, harpa, percussão e voz. Com cada instrumento de cada naipe fazemos um programa mensal. Resolvemos dedicar o mês de maio ao mês das harpas. O mês tem tudo a ver. É a época das mães e das noivas. A harpa é muito sensível e romântica, celestial e amorosa.

Como foi o processo de inserção de artistas estrangeiros no
RioHarpFestival?
Iniciamos a primeira edição só com músicos brasileiros. No segundo ano, resolvemos inovar convidando artistas estrangeiros, sete harpistas de quatro países. Foi um sucesso. Em 2013, estamos fazendo o 8º RioHarpFestival com 42 artistas, de 26 países. Crescemos muito. Nós nos programamos para fazer 131 concertos, uma média de quatro por dia, para responder a demanda de interesse dos músicos em participar. Temos artistas da Sérvia, da Croácia, da Rússia, do Japão, da Austrália, de Taiwan, Tailândia. Temos uma aceitação internacional! O festival extrapolou a ideia inicial e hoje é mundial. E o mais importante disso é que a iniciativa RioHarpFestival inseriu o Brasil no circuito mundial de harpa. Até então, o circuito era dominado por cidades da Austrália, Canadá, Estados Unidos, Holanda, Alemanha e Inglaterra. Agora é diferente, cidades brasileiras também estão nesta lista. Além disso, nosso Festival é diferenciado, dura de 30 a 40 dias, enquanto os estarangeiros normalmente duram em média 15 dias. O sucesso para mim está comprovado na medida em que nós recebemos convites para dois congressos de harpa, um em Amsterdã, na Holanda e outro em Vancouver, no Canadá. Tivemos a oportunidade de mostrar nosso trabalho para centenas de harpistas. Isso foi uma comprovação de que o Rio de Janeiro recebe de braços abertos um evento internacional, ainda por cima com o instrumento mais antigo do Mundo, a harpa.

Como é realizada a seleção dos artistas e dos temas?
Em relação ao Música no Museu, nós previlegiamos músicos jovens. Porém sempre convidamos artistas de nome especializados em cada instrumento para se apresentarem ao lado dos novos talentos. Dos concertos, 30% são feitos por jovens que recrutamos através de informações de professores, escolas, universidades e sugestões de um grupo de curadores informais, uma espécie de caça-taletos. É um grande trabalho de pesquisa. Já os nomes consagrados são escolhidos conforme seus históricos, que estão inseridos no panorama da música clássica. Nós os convidamos e a maioria aceita participar. Esses músicos organizam no mínimo 32 concertos por mês. Essa quantidade de apresentações mantêm uma constante e dinâmica interação e participação entre harpistas e plateia.

São muitos anos de apresetações em diferentes países. Pode nos falar um pouco sobre os números do Programa Música no Museu?
O Música no Museu tem em torno de 400 mil expectadores. O nosso site tem registrados 300 mil acessos e temos milhões de citações no Google. O Programa se tornou gigante. Sobre as fronteiras, primeiro derrubamos entre os Estados. Expandimos para todas as regiões do país. Fazemos temporadas Norte-Nordeste, a cada dois meses; no Sul, uma vez por semana; no Centro-Oeste, uma vez por ano. A única diferença é que, no Rio de Janeiro, as apresentações são diárias. Nas outras regiões varia. Nós nos inspiramos nos museus de outros países, percebemos que existia espaço para música nesses espaços. E hoje, nós fazemos o caminho inverso, nossa música é exportada para outros países. Nos apresentamos em países como França, Marrocos, Estados Unidos, República Checa, Espanha, entre outros. O projeto hoje tem uma grande crescimento anual. Nós agregamos a cada ano, cerca de 50 mil espectadores.

A música clássica não está entre as prefêrencias dos brasileiros, principalmente dos jovens. Como é possível atrair as pessoas? Quais são os principais desafios nessa busca por um público fiel?
Nós temos uma fórmula. As pessoas assistem aos concertos mas depois passeiam nesses lugares que nos recebem, como igrejas, centros culturais, museus e bibliotecas. Então, nunca é uma ida ao concerto, que pode parecer chato à primeira vista, e sim, um passeio em que a música está inserida. Nós também contamos com resultados de pesquisas de público. Um dos resultados empolgantes foi sobre as crianças. Nós percebemos que os alunos voltam com seus pais para mostrar a eles o que viram com a escola. Isso mostra que música clássica toca também os mais novos.

Como acontece o convite às escolas? As escolas particulares e públicas são convidadas?

Nós temos uma coordenação de escolas que é responsável por entrar em contato com as direções das instituições de ensino. A nossa maior dificuldade é em relação ao transporte. Geralmente as escolas mais próximas aos locais das apresetações normalmente levam suas turmas para assistirem. As esoclas públicas têm uma frequência menor, devido à falta de recursos. As escolas particulares costumam estar mais presentes.

O que tem sido fundamental para manter o sucesso durante tantos anos de existência do Programa?
É o interesse das pessoas, a aceitação, a ajuda da mídia e, além disso, a crítica nos é favorável. Isso faz com que o Programa se mantenha vivo. Além disso, o Programa me traz muita satisfação, então eu faço o trabalho com muita dedicação. Volta e meia recebo convites para participar de debates que são fruto de nossos prêmios: Golfinho de Ouro, Ordem do Mérito Cultural, Música Viva, da Unesco, Latin American Quality Awards, Mérito Judiciário, além das medalhas Pedro Ernesto e Belmiro Siqueira.

Como o programa se mantém financeiramente?
O financiamento é a nossa maior dificuldade. A música clássica não é prioridade entre as empresas. Sem dúvidas, as prioridades são esportes, Música Popular Brasileira e grandes shows. A música clássica culturalmente atrai um público menor. Hoje um espetáculo de música popular consegue atrair 500 mil pessoas em um só dia na praia. O Música no Museu alcança esse números ao longo de toda a sua história. A luta por patrocínio é constante. Apesar de todo esse sacrifício por falta de apoio, colecionamos orgulhos como nunca ter parado de se apresentar mesmo com greves em museus, o fato de realizarmos concertos em todos os continentes e de conseguirmos manter a pontualidade, característica importantíssima para conquistar público.

Como e onde surgiu a ideia da fundação do Música no Museu?
Eu sempre viajei muito por compromissos de trabalho. Visitava museus em todo o mundo. Eu percebia que esses centros de cultura também ofereciam espaço para a música. Quando retornei ao Brasil, sugeri a então diretora Museu de Belas Artes do Rio, Heloísa Lustosa, que desse uma oportunidade para a música. Rapidamente o porgrama deu certo e logo depois fomos para o Museu da República, também por interesse da então direção. Hoje, nós nos apresentamos não só em museus, mas também, em sinagogas, igrejas, centros culturais, bibliotecas e clubes.

Qual é a importância da Música de maneira geral na formação de jovens?
A música proporciona cultura. Se uma pessoa estuda música, conhece a história do seu país, adquire sensibilidade. A música deve estar presente na Educação. Eu sempre gostei de música. Mesmo sendo um músico frustrado, já que acredito não ter talento para tocar nenhum instrumento,  ouço desde novo. Isso foi muito importante para minha formação. O Música no Museu faz parte dessa luta na inserção de jovens talentos no cenário musical mundial. Graças a nossa repercussão, recebemos todos os anos uma bolsa de mestrado ou doutorado na James Madison University. O primeiro estudante, selecionado através de um concurso que nós organizamos, Ednaldo Borba, é pianista profissional de sucesso. Em 2013, faremos a 6ª edição do concurso público que seleciona o bolsista do ano.

Em relação ao público que assiste os concertos do Música no Museu, qual o perfil desses espectadores?
Nós recebemos pessoas de todas as idades e classes sociais. Temos terceira idade, adutos, crianças e jovens. Os concertos são bastante didáticos o que facilita o entendimento de todos. É engraçado, pois percebemos uma variação de público dependendo de onde nos apresetamos e do horário. Nos Centros, muitas pessoas escapam, na hora do almoço, para assistirem às apresentações. Nos bairros já é diferente.

Que ações o poder público poderia adotar para levar a música para pessoas que ainda não têm acesso?
Expandir o modelo do Música no Museu para todos os espaços, não só em museus, por exemplo. Ainda não temos parcerias com o setor público mas isso pode vir a ser uma possibilidade. Estamos abertos a sugestões. Muitos jovens músicos bons estão esperando oportunidades. Nós absorvermos uma boa quantidade, mas sabemos que muitos ficam de fora. Eles precisam ser inseridos.

Assine e tenha acesso completo ao conteúdo do Folha Dirigida
OU

Comentários

NEWSLETTER
Cadastre-se para receber notícias e Informações