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Na EAD, um crescimento acelerado e descontrolado


Nos últimos 10 anos, a Educação a Distância experimentou um acelerado processo de expansão, ao passar de aproximadamente 5 mil matrículas para quase 1 milhão. Um  crescimento tão rápido tem chamado a atenção dos especialistas para a necessidade de um acompanhamento mais próximo das instituições por parte do poder público. É o que defende, por exemplo, Adriano Vargas Freitas, que é doutorando em Educação Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e mestre em Educação pela Universidade Católica de Petrópolis. Segundo ele, a preocupação com a qualidade, em muitos casos, não tem crescido na mesma proporção.

“Os investimentos de melhoria da qualidade dos ambientes virtuais, remuneração dos professores, aquisição de livros, etc, não têm crescido na mesma proporção que a quantidade de cursos e os lucros de algumas instituições. Daí a grande necessidade de que seja implementada uma avaliação sobre essas instituições de ensino”, comentou o especialista, que é autor, ao lado da educadora Lígia Silva Leite, do livro Com giz e laptop - da concepção à integração de políticas públicas de Informática (editora WAK).

Nesta entrevista, o educador analisa a expansão da Educação a Distância, o potencial de inclusão social que ela tem, a relação entre professores e alunos neste formato de ensino, entre outros temas. Para ele, os ambientes virtuais têm gerado mudanças importantes no processo de aquisição do conhecimento. “Estamos entrando em um modelo de aprendizagem ao longo da vida, o que significa mudanças de importantes paradigmas educacionais, tais como a substituição de horários rígidos e frequência obrigatória, pela possibilidade de escolha de local e hora de acordo com a conveniência do aluno.”

FOLHA DIRIGIDA — A Educação a Distância cada vez mais cresce no país. O que ela tem mudado e, principalmente, o que pode mudar, no curto e médio prazos, na forma de os alunos aprenderem?
Adriano Vargas Freitas — É verdade que o modelo de Educação do tipo a Distância é o que mais cresce em nosso país atualmente, mas é importante lembrar que ele não é novo. Aqui no Brasil, os primeiros registros dessa modalidade de ensino foram encontrados em jornais do Rio de Janeiro datados de pouco antes de 1900 oferecendo cursos de datilografia por correspondência. Em seguida vieram os cursos ministrados pelo rádio, e a partir da década de 60 a televisão também passou a apresentar algumas contribuições à educação, com programas especialmente elaborados para este fim. Mas, o acelerado avanço da EAD em nossos dias deve-se especialmente à melhoria de qualidade da informática e ao acesso à internet. São essas ferramentas que consolidam a propagação dessa modalidade de ensino para todo o sistema educativo brasileiro (e mundial), a ponto de influenciar diretamente a forma como professor e aluno irão se relacionar com o conhecimento, exigindo deles maior autonomia e análise crítica entre outras características. Estamos entrando em um modelo de aprendizagem ao longo da vida, o que significa mudanças de importantes paradigmas educacionais, tais como a substituição de horários rígidos e frequência obrigatória, pela possibilidade de escolha de local e hora de acordo com a conveniência do aluno.

E na mentalidade e postura dos professores ao ensinar: o que mudará se a EAD confirmar a tendência de expansão que vem registrando nos últimos anos?
Acredito que a grande mudança seja a percepção por parte do professorado da necessidade de um trabalho pedagógico cada vez mais voltado para o desenvolvimento da habilidade de seus alunos de aprender a aprender, e isso de uma forma multi ou transdisciplinar, pois a EAD, e a gama de conhecimentos disponíveis no ciberespaço, podem propiciar a quebra de barreiras existentes entre as áreas de conhecimento. É claro que todas essas mudanças podem gerar um desconforto no professor que teve sua formação calcada na máquina de escrever e mimeógrafo, mas ele acabará por perceber que também ele deve buscar uma atualização contínua, aberta e flexível.

— A utilização de mecanismos e recursos característicos do ensino a distância, naturalmente, reduz o tempo de convívio e de relacionamento interpessoal entre os alunos e entre estes e seus professores. Em que aspectos este afastamento auxilia e em que ele prejudica o processo de aprendizado?
A EAD proporciona, de uma forma geral, relacionamentos sociais em formatos diferenciados dos que estamos acostumados a acompanhar no modelo presencial de ensino, mas isso não necessariamente significa uma perda da qualidade desse relacionamento, pelo contrário, pois dependendo dos espaços que forem criados pelos cursos, podemos ter excelentes possibilidades de aprendizagem coletiva, de cooperação, de debates e socialização de descobertas e dúvidas. Para que sejam eficazes, diversos autores defendem que os cursos oferecidos na modalidade a distância devem ser baseados em um diálogo constante entre os alunos da turma e o professor, para que possam juntos, construir um ambiente acolhedor e propício à difusão do conhecimento.

— A seu ver, quais os erros mais comuns cometidos pelas instituições de ensino que atuam na área de EAD?
Considerando que um curso em EAD envolve a necessária relação entre inúmeros componentes: professores, alunos, ambiente virtual, seleção de conteúdos, atividades de aprendizagem, entre outros, é de se esperar que as instituições de ensino que se lançam nessa modalidade estejam atentas para as variações desses componentes, e do quanto merecem atenção (e investimentos). O descuido sobre qualquer um desses componentes poderá significar baixa qualidade na formação do aluno. Atualmente temos acompanhado algumas instituições que parecem estar colocando suas pretensões de retorno financeiro rápido à frente das preocupações educacionais, oferecendo cursos precários de formação ligeira e superficial, o que só contribui para o preconceito por parte do público em relação à EAD.

— Nos últimos 10 anos, o número de alunos na EAD saltou de aproximadamente 5 mil para quase 1 milhão de estudantes. Esse crescimento tem ocorrido com a qualidade necessária?
Essa dúvida tem aparecido em diversos debates promovidos em congressos da área de Educação, e as respostas que temos obtido por meio de pesquisas indicam que os investimentos de melhoria da qualidade dos ambientes virtuais, remuneração dos professores, aquisição de livros, etc, não têm crescido na mesma proporção que a quantidade de cursos e os lucros de algumas instituições. Daí a grande necessidade de que seja implementada uma avaliação sobre essas instituições de ensino (que seja ao mesmo tempo diagnóstica e formativa) por parte do MEC. A avaliação sob esses aspectos podem nortear caminhos que direcionem para a qualidade de ensino, aperfeiçoando o trabalho como um todo.

— Ao longo desse período, nota-se que a oferta de EAD ainda está concentrada na região Sudeste. Ou seja, não foi concretizada uma de suas principais vantagens, que é a de oferecer a oportunidade do acesso ao ensino em regiões onde não há instituições educacionais, principalmente no ensino superior. Por que, a seu ver, a EAD não chega a regiões mais distantes do país, em larga escala?
Alguns analistas da área de Educação chamam a atenção para o fato de que as experiências envolvendo a EAD no Brasil ainda estão atrasadas, quando comparamos com outros países, pois ainda existe aqui uma grande carência com relação ao acesso a novas, e por vezes também às antigas tecnologias, em especial no interior do país. Essa carência gera imensas dificuldades de acesso à educação e à cultura, e têm merecido a atenção de autoridades que traçam planos de melhoria da qualidade do cidadão brasileiro, independente de sua região geográfica. Mas, há também muita esperança que os diversos investimentos públicos direcionados à educação resultem na melhoria da qualidade e na ampliação da oferta de cursos como forma de inclusão social.
 
— Qual a dimensão do impacto que a EAD pode trazer, do ponto de vista da inclusão social e educacional?
Uma das funções esperadas da EAD é que ela proporcione uma maior democratização do acesso a uma educação de qualidade, nos seus diversos níveis, e em todas as regiões do país. Cumprida essa parte, o impacto proporcionado seria a esperada inclusão de milhares de brasileiros que atualmente, por motivos diversos, encontram-se distantes dos bancos escolares. Este poderia representar parte do resgate de antigas dívidas sociais acumuladas ao longo de nossa história.

— Estudar pelo método da EAD é bem mais difícil do que pelo método presencial? Por que?
Algumas pesquisas realizadas sobre cursos ministrados na modalidade à distância relatam que, de uma forma geral, os altos índices de evasão e repetência nestes cursos estão relacionados à dificuldade que muitos estudantes têm de organizar seu tempo e dar conta de forma autônoma de todas as atividades envolvidas no curso. Mas são essas mesmas pesquisas que nos tem servido para tentar argumentar a importância do constante suporte ao aprendiz. Na modalidade EAD, a troca dialógica de experiências entre o professor e seu aluno é essencial para o fortalecimento do relacionamento pautado na confiança, o que gera um ambiente facilitador do domínio por parte desse aluno de uma forma muito mais flexível de estudo.

— Qual é o maior desafio, hoje, para uma instituição que queira atuar na área de Educação a Distância?
A essa pergunta cabem diferentes respostas, dependendo da forma de EAD que a instituição decida adotar, podendo ser, por exemplo, por correspondência, por videoconferência, pela internet, ou ainda uma mesclagem destas e de outras formas. Mas, para citar um desafio que seja comum a todas as formas, diria que é o desenvolvimento de um projeto educacional em que, em todas as suas fases (concepção, planejamento, execução, controle e avaliação), seja constante o objetivo de proporcionar ao aluno um ambiente em que o contato com conhecimento científico seja prazeroso, sem abrir mão do rigor acadêmico.

— Nos últimos anos, o MEC tem intensificado a fiscalização e o monitoramento em torno das instituições de ensino superior que oferecem EAD. O ministério age corretamente ou deveria dar maior liberdade ao mercado? Em que aspectos uma fiscalização do setor deveria se concentrar?
Essa avaliação é muito importante para que o mercado, que ainda é bastante amplo e promissor no Brasil, tenha sua expansão ligada diretamente à prestação de um serviço de qualidade e competência. Acredito que por meio desse acompanhamento, poderemos ter em breve inclusive cursos de mestrado e doutorado em EAD, reconhecidos e bem aceitos pela sociedade. Não encaro essa fiscalização, concentrada no diagnóstico e elaboração de diretrizes para os cursos, como tolhimento de liberdade administrativa, mas sim como uma possibilidade real de melhoria de serviços, afinal estamos falando de educação!

— No segmento de EAD, um dos cursos que registrou maior ampliação da oferta de vagas é o de formação de professores. Como o senhor vê esse crescimento? Investir na EAD para ampliar a oferta de vagas na formação de professores é mesmo o caminho adequado? Por que?
Há algum tempo as autoridades perceberam que para darem conta de todas as metas traçadas para a área da educação, e proporcionar uma educação de qualidade a todos os brasileiros, seria fundamental aumentar a quantidade e qualidade dos cursos de graduação e proporcionar formas de requalificação aos professores em serviço. Atualmente temos uma grande carência de professores em algumas áreas, tais como a de Física e Química, que podem prejudicar de forma significativa o andamento de projetos importantes que visam melhorar alguns índices na área da educação. Tais projetos são importantes para a manutenção da atual onda desenvolvimentista por que passa o país, e a opção da formação em EAD têm sido uma boa escolha para atingir as diferentes regiões, em especial àquelas em que há maior carência de profissionais ou que seja de difícil acesso.

— Que cuidados um estudante deve ter na hora de escolher um curso a distância para se formar professor?
Eu sugiro que verifique primeiramente se ele atende aos requisitos exigidos pelo curso (inclusive as financeiras) e se a área de estudo é a que de fato lhe atrai. Em seguida, que busque informações e referências sobre a instituição de ensino, em especial junto ao MEC. Avalie a estrutura do curso, as atividades envolvidas, as avaliações, as formas de interação com o professor e colegas de turmas, e se possível conheça o ambiente virtual de aprendizagem em que essas interações acontecerão. E por fim, que tenha sempre em mente que estará abraçando uma formação que ainda lida com muitos problemas, mas que possui um poder de transformar e melhorar condições sociais de nosso país.

Por: Diego Da - [email protected]
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