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No país da Copa e da próxima Olimpíada, Educação Física é jogada pra escanteio


Promoção da saúde, aprimoramento da capacidade cognitiva e desenvolvimento de relações interpessoais. Esses são alguns dos benefícios que a educação física traz aos estudantes, especialmente durante a educação básica, período adequado para formação dos cidadãos. No entanto, nem sempre o poder público, a direção das escolas e até mesmo as famílias dão o devido valor à disciplina — obrigatória nos currículos da educação básica.

Quem defende essas ideias é Carlos Alberto Figueiredo da Silva, vice-reitor acadêmico das áreas de Engenharias e Licenciaturas do Centro Universitário Augusto Motta (UniSuam). Licenciado em Educação Física pela Universidade Gama Filho (UGF) e bacharel em Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), o professor analisa, nesta entrevista, o tratamento dado à educação física nas escolas.

Profissional com pós-doutorado na Universidade do Porto (Gabinete de Gestão Desportiva), Carlos Alberto Figueiredo da Silva salienta que, hoje em dia, os professores de educação física trabalham com o conceito de cultura do movimento. Por isso, a oferta adequada de esporte é obrigação do Estado brasileiro.

“Hoje, as pessoas que têm recursos financeiros pagam escolas de judô, de futebol. Mas as pessoas mais pobres não conseguem colocar seus filhos em escolinhas. Portanto, o direito ao esporte, previsto na Constituição Federal, não é efetivamente atingido. Esse direito poderia e deveria ser preservado e desenvolvido na escola”, observa.

Professor convidado da Universidade do Porto, Portugal, desde de 2012, o especialista argumenta que a educação física sequer integra o quadro de disciplinas avaliadas pelo poder público e por órgãos internacionais, revelando o baixo valor dada a essa disciplina, nem sempre respeitada nos currículos brasileiros.

Com experiência na área de gestão educacional, gestão esportiva, pesquisa e educação física, o vice-reitor acadêmico da UniSuam escreveu, em parceria com colegas, livros como “Favelasport: Estudos sobre o fenômeno esportivo em comunidades do Rio de Janeiro” e “Racismo no Futebol”. Envolvido com projetos de extensão, Carlos Alberto Figueiredo da Silva ressalta a importância do incentivo da prática de esportes em comunidades carentes. “A percepção de todos os que participam — pais, alunos e professores — é de que o incentivo a esses projetos é fundamental. Com a prática de esporte, as crianças mudam a sua visão de vida”, completa o docente.


Folha Dirigida - Na sua opinião, quais os principais problemas que ainda existem no trabalho da educação física nas escolas?

Carlos Alberto Figueiredo da Silva - O primeiro problema que precisamos enfrentar é a infraestrutura. Hoje, mesmo as escolas que dispõem de quadras não têm os espaços adequados para prática de educação física. Muitas vezes, as quadras não são cobertas e os alunos precisam realizar exercícios de baixo de sol forte. Desse modo, os professores acabam adaptando suas atividades. Não se dá a devida atenção a esses espaços no Brasil. Na Europa, nos EUA e na Ásia não é assim. Na China, por exemplo, há parques esportivos fantásticos onde é possível desenvolver atividades de educação física, seja a prática desportiva ou o lazer, com segurança e qualidade. Não temos nem escolas e nem praças adequadas à prática de educação física.

Como a educação física é encarada nas escolas, hoje em dia?

Existe uma questão epistemológica. A área discute muito como a educação física deve ser trabalhada nas escolas, quais são os seus conteúdos. Existe o embate entre o que é educação física e o que é o esporte. Há correntes na educação física brasileira que, durante muito tempo, foram contrárias à atividade de esporte. Existe a discussão sobre “o esporte na escola” e o “esporte da escola”. Em uma visão mais crítica da educação física, defende-se que deve haver o “esporte da escola”. Para esse grupo, o “esporte na escola” seria uma mera reprodução do esporte de alto rendimento. Avançamos muito nessas discussões em termos acadêmicos, nos cursos de mestrado e doutorado, mas o profissional que trabalha na ponta ainda tem muitas dúvidas e precisa de diretrizes mais claras para que esse trabalho possa ser melhor entendido.

De acordo com a atual legislação, a educação física é obrigatória para quais níveis de ensino?

Hoje, não há nenhuma obrigatoriedade da prática de educação física na educação superior. Na educação básica, nos ensinos fundamental e médio, a educação física é obrigatória; e ela também deve constar nos currículos da educação infantil. Mas percebemos, principalmente no ensino médio, um afastamento de algumas escolas em relação à importância que se dá à educação física dentro do contexto educacional. Escolas com o viés de preparação para o vestibular, muitas vezes, deixam essa disciplina de lado. O que é uma bobagem. A partir da educação física, é possível trabalhar todos os conteúdos. É possível realizar um trabalho transdisciplinar que envolva a educação física. Algumas escolas mais tradicionais não entendem a educação física como parte do currículo.

No ensino fundamental, que espaço a educação física ocupa atualmente?

O que vemos, na prática, é uma certa reprodução, às vezes, dos modelos mais antigos de educação física. São modelos que reproduzem o treinamento do futebol, do basquetebol, em uma dimensão não crítica do desporto.

O que seria uma “visão crítica” da educação física?
Trabalhamos com o conceito de cultura corporal. No futebol, por exemplo, existe uma cultura corporal construída ao longo dos anos, histórica e socialmente. O futebol não é apenas o chutar uma bola; envolve uma série de questões presentes em seu contexto. Por exemplo, as relações étnico-raciais — os negros no futebol brasileiro. Há também as questões de gênero — no Brasil, as mulheres são discriminadas por jogarem futebol. Não se trata apenas de ensinar a chutar uma bola, mas mostrar o que esse chute, esse passe, implica em uma dimensão coletiva. Hoje, as pessoas que têm recursos financeiros pagam escolas de judô, de futebol. Mas as pessoas mais pobres não conseguem colocar seus filhos em escolinhas. Portanto, o direito ao esporte, previsto na Constituição Federal, não é efetivamente atingido. Esse direito poderia e deveria ser preservado e desenvolvido na escola. Todos têm direito à cultura do movimento, das lutas, do karatê, do futebol, do atletismo. O direito ao esporte não deve ficar restrito aos mais favorecidos economicamente.

Estudos indicam que exercícios colaboram para a aprendizagem dos alunos. Ao mesmo tempo, o incentivo à prática esportiva na infância gera adultos saudáveis, habituados à atividade física. No Brasil, essas perspectivas são privilégios de estudantes mais favorecidos?

Além da promoção da saúde, a educação física atinge dimensões mais profundas: equilíbrio, ritmo e habilidades perceptivas que ajudam na comunicação, na fala, na expressão. Muitas pessoas com dificuldades na fala buscam a psicomotricidade. Hoje, o que temos nas escolas são cadeiras enfileiradas. Os alunos olham para nuca do colega da frente. E na aula de educação física é diferente: não há carteiras, nem mesas, nem um professor centralizador. A educação física é um espaço aberto de aprendizagem. É uma dimensão que precisa ser construída em conjunto com os alunos. Na aula de educação física acontecem uma série de problemas: eu pego essa bola como? Eu passo essa bola para quem? Para onde eu corro? Essas situações colocam não apenas a mente, mas todo o corpo em conjunto resolvendo um problema. Há também os companheiros nos time, o oponente nas lutas. Então, na realidade, o que se constrói nessa aula são relações humanas. Eu poderia dizer que há vários algoritmos que as crianças precisam resolver enquanto jogam.

Hoje, boa parte das crianças não realiza atividades físicas, dando preferência a brincar com jogos em tablets e computadores. Esse sedentarismo repercute nas aulas de educação física?

Sim. Aparecem dificuldades motoras e de relacionamento também. Esse processo é recente na história da humanidade. Estudos já começam a discutir essa relação com os computadores e os jogos eletrônicos. E ainda é cedo para definirmos qual será o impacto desse processo. Mas, certamente, se a criança fica três, quatro horas sem se movimentar, ela perde várias dimensões da aprendizagem. A pessoa aprende com o corpo inteiro e não apenas com a mente. O aluno deve aprender, também, a solucionar problemas em situação de movimento, o que é fundamental na vida humana e na aprendizagem. Mas existe uma associação entre o movimento e o trabalho braçal. No século XIX, e até hoje isso está em nosso imaginário, os indivíduos musculosos eram tidos como trabalhadores braçais, sendo associados ao trabalho escravo. Existe um preconceito, até hoje, com relação a quem faz o movimento. As pessoas encaram de forma diferente o corpo que se movimenta do corpo que pensa, do corpo exerce um atividade intelectual. E, na verdade, essa divisão não pode existir. O corpo é algo único. Ele precisa ser entendido como um todo. Mas essa divisão persiste no imaginário das pessoas. E as direções de escolas e, até mesmo os programas de avaliação, entendem a educação física como algo menor. Os exames internacionais avaliam a Língua Portuguesa, avaliam a Matemática. Mas não avaliam a educação física, não avaliam a arte, a dimensão estética do movimento humano.

Os professores de educação física formados atualmente já chegam às escolas com esses novos conceitos em mente?
Sim. Os cursos de licenciatura de educação física já trabalham nessa perspectiva da cultura corporal do movimento. A área de bacharelado também absorve essa discussão. Há duas correntes fortes nessa área: uma que vem da Escola de Frankfurt, da ação comunicativa. Esse grupo se apoia muito nos escritos de Habermas. E há um outra corrente, que se apoia mais nos escritos do materialismo histórico dialético, com influência do Marxismo. Hoje, na academia, há discussões muito fortes no campo epistemológico. Mas, na prática, ainda temos docentes formados em uma época mais tecnicista da educação física e, por vezes, ainda encontramos modelos que reproduzem o que acontece na dimensão de alto rendimento do esporte e que não devem ser trazidos para o universo da educação física.

Por quê?
A disciplina como um campo de conhecimento é diferente do desporto. O desporto tem um campo de conhecimento próprio. E a educação física como disciplina de conhecimento deve ser encarada da mesma forma que a matemática, que as ciências, que a língua portuguesa. Na prática, isso ainda não ocorre; ou ocorre em poucos unidades. A educação física não é cobrada em programas como o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), por exemplo. O conhecimento, hoje, é transdisciplinar. Não devemos nos concentrar apenas em língua portuguesa e matemática. Todas as demais disciplinas, história, geografia, ciências, educação física e todas as outras devem ter a mesma importância por parte das políticas públicas, dos diretores e das famílias. Às vezes, a discriminação começa em casa.

De que forma a educação física contribui para o aprendizado dos estudantes?
O Ginásio Experimental Olímpico Juan Antonio Samaranch, que é uma escola da Secretaria Municipal de Educação, em Santa Teresa, é uma escola vocacionada para o esporte. Ela funciona em horário integral. As crianças têm esporte todos os dias. Essa unidade está em seu segundo ano de funcionamento e já está entre as quatro melhores da rede, em termos de desempenho acadêmico. Fizemos estudos nessa escola. As mães contam que os filhos pedem para ir para escola. O interesse que as crianças têm pelo esporte foi canalizado, trabalhado e desenvolvido. Elas praticam todos os esportes. E o rendimento acadêmico foi exponencial.

Daqui a dois anos, o Rio de Janeiro vai sediar uma Olimpíada. O Brasil tem aproveitado esse grande evento para incentivar a prática esportes e apresentar as diversas modalidades para os estudantes?
Eu respondo essa pergunta a partir do termo utilizado na escola Juan Antonio Samaranch: Ginásio Experimental Olímpico. Se é experimental, mostra que há pouquíssimos como este no Brasil. Os alunos dessa escola são privilegiados. A instituição não tem esse foco de formar atletas. Ela aproveita a vocação dos alunos. Se vai surgir um atleta é outra coisa. Os alunos têm o direito a uma formação completa. Ela funciona em tempo integral. As crianças e pais participam da gestão da escola. Isso é algo que a Secretaria Municipal do Rio está experimentando. Mas esse projeto deveria ser padrão nas escolas do Brasil inteiro. Aí sim teremos atletas olímpicos. O termo experimental mostra que se trata de algo que funciona em poucos campos.

O senhor é um dos autores do livro “Favelasport: Estudos sobre o fenômeno esportivo em comunidades do Rio de Janeiro”. Qual o impacto do trabalho com os esportes nas comunidades do Rio?
Esse livro foi feito com os alunos. Estudamos alguns projetos sociais. Um deles foi o Projeto Grael, em Jurujuba. Esse é projeto visa a formação de equipes para competições náuticas. E, ao mesmo tempo, as crianças aprendem a trabalhar com motores, com a construção de barcos. As ações envolvem moradores de Jurujuba, que recebem conhecimentos para atuar em uma profissão dentro desse campo. Outro trabalho analisado foi o do Morro do Alemão. Lá, entrevistamos as mães que estavam esperando os filhos fazerem treinamentos em diversas modalidades esportivas. O projeto se chama “Mulheres que Esperam”. Coletamos essas percepções que se transformaram em um projeto, desenvolvido pela UniSuam, para efetivamente atender às demandas dessas mulheres. Hoje, a UniSuam oferece vários cursos para essas senhoras que ficavam sem fazer nada enquanto seus filhos iam para a natação, para a aula de basquete. Percebemos a necessidade dessas mulheres estudarem e se aprimorarem. Também estudamos várias manifestações de atividades esportivas na Cidade de Deus e em Santa Teresa. Observamos vilas olímpicas e também atividades independentes, como o projeto Box Vidigal, no Morro do Vidigal. Analisamos o impacto desses projetos nas comunidades.

E quais são os resultados efetivos nas comunidades?

As repercussões são fantásticas. Lideranças surgem nas comunidades de modo independente ou através de projetos organizados, por meio de políticas públicas. A percepção de todos os que participam — pais, alunos e professores — é de que o incentivo a esses projetos é fundamental. Com a prática de esporte, as crianças mudam a sua visão de vida. O direito ao esporte deve ser encarado como dever do Estado. E, muitas vezes, isso está transferido para ONGs. Mas essa política deve ser fomentada em escolas, em vilas olímpicas. Sem esse direito garantido, a criança passa dez anos sem fazer atividade esportiva. Ela pode entrar no esporte já adulta. Mas esse período representa uma perda fundamental, não apenas no plano corporal, físico, mas também em termos de relações humanas. As relações humanas que se estabelecem na prática desportiva influenciam toda a vida profissional futura dos estudantes e também a vida familiar e no campo cognitivo. Por isso, deixar de garantir o esporte para as crianças é uma perda irreparável.
 

Por: Tainara Silva - [email protected]
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