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‘O mercado de educação está bastante aquecido’


A última década foi marcada por um crescimento expressivo do número de estudantes em universidades, faculdades e centros universitários em todo o país. No Censo da Educação Superior do MEC divulgado em 2012, foram registrados cerca de 6 milhões de matrículas.

Segundo especialistas e representantes do próprio Ministério da Educação, boa parte do crescimento no número de universitários no Brasil deve-se à expansão da classe média aliada a projetos como o Programa Universidade para Todos (ProUni) e o Sistema de Financiamento Estudantil (Fies), que facilitam o ingresso de estudantes pobres no mundo acadêmico.

Mas, para que o Brasil possa alcançar patamares mais avançados de acesso ao ensino superior, semelhantes aos de países ricos, é fundamental investir na educação básica. É o que defende o professor Alexandre Mathias, diretor-executivo do Centro Universitário Celso Lisboa. Para ele, a melhoria da qualidade nos ensinos fundamental e médio levará à existência de um número maior de estudantes que podem ingressar em uma graduação, como também permitirá que os alunos cheguem com uma base mais sólida ao ambiente universitário.

“Temos um gap enorme. As pessoas que chegam aqui, muitas vezes, vêm despreparadas. E temos de suprir essas carências, realizando programas de reforço entre outras ações”, disse o diretor-executivo, que, nesta entrevista, também comenta pontos da política educacional do governo federal para o ensino superior, avalia programas de acesso à universidade, analisa o mercado da educação superior no país, apresenta algumas das dificuldades enfrentadas pelas instituições e fala sobre os planos para o Centro Universitário Celso Lisboa que, só em 2013, pretende investir de R$700 mil a R$ 1 milhão.

FOLHA DIRIGIDA - Como o senhor vê o cenário da educação superior no país? Está favorável para as instituições de ensino crescerem? Ou ainda há muitas restrições e barreiras burocráticas?
Alexandre Mathias - Minha visão, com relação ao cenário, é muito otimista. Acho que as mudanças implantadas pelo Ministério da Educação (MEC), por meio do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anysio Teixeira (Inep), que é um de seus principais órgãos, elas só trazem benefícios para quem deseja jogar o jogo da qualidade, que é o caso do Centro Universitário Celso Lisboa. Estamos buscando reforçar nosso quadro de professores e de funcionários técnicos, para que possamos realmente ter a qualidade perseguida e exigida pelo MEC como instituição reguladora do mercado de educação no Brasil. Não dá para fugir disso. Se uma instituição não quiser jogar este jogo, tem de mudar de setor. Acho que o que é dado tem de ser perseguido. Vejo que o mercado de educação está bastante aquecido. Trabalhamos muito com a classe C, ou seja, a classe média emergente. E é importante uma instituição entregar qualidade em seus serviços, com boas opções de curso e com uma proposta de trabalho que tenha foco na empregabilidade. Isto é fundamental para que a instituição possa evoluir. É um segmento que cresce, em todas as áreas. Essa classe média é formada por pessoas que têm a consciência de que o investimento em educação é fundamental para a melhoria da qualidade de vida; então, estamos no melhor dos mundos. As classes A e B, ou seja, os setores de educação que estão no topo da pirâmide, representam um mercado mais difícil de crescer e mais competitivo. Não se trata de dizer que o trabalho junto público da classe média não seja competitivo. Mas, sem dúvida, o espaço que existe para crescer junto a este segmento é muito maior.

A seu ver, a classe média é o grande público para o qual as instituições de ensino superior vão direcionar seus esforços, a partir de agora?
Não diria a partir de agora, pois, se analisarmos o cenário, diria que as instituições já estão mirando este público. Já temos grandes instituições e grandes grupos de ensino do ponto de vista de volume, hoje, no Brasil, que estão absolutamente centrados neste segmento. É claro que há instituições que têm cursos para o segmento das classes A e B, mas, não vejo outro lugar para crescer. Não temos nenhuma pretensão de mudar o posicionamento e o foco do Centro Universitário Celso Lisboa. Queremos nos consolidar como o Centro Universitário da Zona Norte e como instituição especializada e referência na formação acadêmica e profissional na área de saúde e bem estar. E acho que temos um espaço muito bom para crescer. O mercado de educação superior muito promissor. Não vejo crise nesse segmento. E também não vejo que a regulação seja um problema. A meu ver, a regulação é a regra do jogo. É um dado. Ou a instituição joga dentro desse conjunto de regras ou fica fora.

Voltando à questão do mercado de ensino superior: o setor tem sido marcado pela tendência de expansão, de formação de grandes grupos, aquisição de instituições, etc. Como o senhor vê este movimento? Será positivo para a evolução do ensino superior no Brasil ou tende a trazer problemas para a qualidade da formação nesse segmento?
Acho que instituições como a Celso Lisboa, e muitas outras parecidas com a nossa, têm uma história muito relevante com o entorno, com a comunidade. Acho que, diferentemente de outros mercados, onde houve uma redução muito grande do número de participantes, no mercado de educação, isso não vai acontecer. Haverá sim, grandes grupos, como já existem hoje os grupos da Estácio, da Anhanguera, da Kroton, etc. Mas, creio que a relação da instituição de ensino com seu entorno é importante. Então, a existência e a continuidade dessas instituições ou da abordagem delas será fundamental. No entorno de onde estamos, o Grande Méier, se pensarmos, muitas famílias que estão aqui formaram-se em nossa instituição. Isso é um ativo, um patrimônio que não pode ser jogado fora. Agora, isso não quer dizer que nós, ou outros jogadores desse mercado, não precisem de capital ou não possam ter outro tipo de participação. Então, não acredito na consolidação de poucos grupos. Mas, creio que é produtivo, é importante. Acho que precisamos de capital; sempre precisamos. Um investidor é um capital que tem um custo menor do que se capitalizar em bancos. Às vezes, é preciso acelerar o processo de crescimento e, sem capital, isso não é possível. Só o crescimento orgânico não acelera. Então, acho positivo. Não vejo com maus olhos. E nem considero que isso seja mercantilização do ensino ou algo do gênero.

Duas das principais ações do governo federal na área de educação superior são o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e o Programa Universidade para Todos (ProUni). Cada um, a sua forma, busca facilitar o ingresso de estudantes pobres no ensino superior. Como o senhor vê estas iniciativas? Elas precisam de ajustes ou estão orientadas da forma mais adequada?

Programas como estes representam uma grande oportunidade para os brasileiros. Nós, por exemplo, estamos colocando muita energia no Fies. Creio, inclusive, que este programa é a grande força motriz para o crescimento do setor. Se o Estado não demonstrar que acredita que existe a possibilidade de crescimento com financiamento, as instituições privadas, os bancos e fornecedores não vão colocar sua energia nisso. E o ensino é assim no mundo inteiro. Na Europa é assim; nos Estados Unidos é assim; Todo mundo estuda financiado. Só que, aqui, não temos essa cultura. No Brasil, financiamos tudo: carro, casa, viagens, mas, serviço, e educação especificamente, estamos começando a fazer isso agora. Então, acho que a grande força de crescimento para os próximos anos vai ser o Fies. Conheço há bastante tempo esse programa e posso dizer que ele nunca teve condições tão facilitadas como atualmente. Nunca foi tão fácil e rápido ter acesso a crédito estudantil no país como hoje em dia. A meu ver, o governo tem muitos acertos.

Apesar de todos os incentivos que existem hoje, a taxa de participação dos jovens no ensino superior no país ainda é pequena, segundo especialistas. O que seria necessário fazer, além das ações e programas já adotados pelo MEC, para ampliar esse acesso à educação superior de forma mais acelerada?
Creio que o fundamental, a partir de agora, é investir mais no ensino básico. Temos um gap enorme. As pessoas que chegam aqui, muitas vezes, vêm despreparadas. E temos de suprir essas carências, realizando programas de reforço, entre outras ações. E isso é uma constatação. Se queremos ter um aluno aqui dentro, motivado, precisamos ajudá-lo a aprender melhor. Então, temos de fazer o acolhimento. Agora, não adianta reclamar. É um dado da realidade e temos que nos ajustar a isto.

E como vocês, aqui na Celso Lisboa, têm buscado se adaptar a esta realidade que o senhor comentou?
Nossas ações de acolhimento começam no exame de entrada. Não temos mais o vestibular tradicional. O aluno pode usar o Enem, que uma das formas de ingresso. Outra forma é uma prova em que medimos o grau de dificuldade que o aluno tem em Matemática e Português. Estas são as duas grandes áreas do conhecimento que atrapalham o desenvolvimento de qualquer pessoa. Se o aluno não domina os cálculos, tem dificuldade com as disciplinas da área de Exatas. Se não desenvolveu bem a habilidade de leitura, tem dificuldade de entender o mundo. Temos que reforçar estas duas áreas. Esta prova ajuda a identificar o nível de dificuldade que alunos têm e contribui para fazer com que eles, logo no início, antes de começar as aulas, possam participar das oficinas de Português e Lógica.

Há outras ações para fazer com que os estudantes, em especial aqueles que vêm com uma formação ruim na educação básica, enfrentem menos dificuldades, principalmente na fase inicial dos cursos?
Temos também programas específicos para cada uma das disciplinas. No caso das matérias mais difíceis, ou das que mais reprovam, nós temos ações ligadas à tutoria e monitoria. E temos também uma coordenação de primeiros períodos, em que profissionais de nossa instituição cuidam especificamente daqueles alunos que estão chegando na Celso Lisboa. Cuidam no sentido de ouvir, de saber quais são as dificuldades que têm, vão às salas conversar com os representantes dos alunos e com os próprios calouros, entre outras atividades. Além da proximidade que os coordenadores têm de ter com os alunos de cada curso, temos uma pessoa que cuida de trazer, para a área de gestão, quais são as demandas, os anseios e as dificuldades deste grupo. Então, vamos corrigindo. É sintonia fina. Não tem certo e errado. Pode ser que algo que funcione bem hoje amanhã não funcione bem, pois uma das carências esteja sendo resolvida fora daqui. Agora, a energia que colocamos nisso é enorme. A grande oportunidade que podemos dar a alguém é trabalhar para que esta pessoa entre aqui e saia melhor do que entrou e empregada. Essa é a primeira grande resposta a ser dada às pessoas. Apesar das críticas e das posições teóricas sobre o papel da universidade, no fundo, no fundo, é isso que as pessoas esperam: passar quatro anos aqui e, quando sair, ter condições de alcançar um padrão de vida melhor. Esse é o nosso papel. Se uma instituição de ensino superior não estiver atenta a isto, não estará fazendo o que tem de fazer.

A Celso Lisboa passou a utilizar, no final do ano passado, um laboratório de simulação para o curso de Enfermagem. Como ele se adequa ao ensino da instituição?
É um laboratório de simulação, que permite o uso das tecnologias mais modernas na área  de saúde, para os cursos de enfermagem, de educação física, entre outros. Sem ele, os alunos teriam de estudar utilizando cadáveres, por exemplo. Então, estamos começamos a usar essa tecnologia. Podemos fazer simulações importantes para o treinamento técnico e de atividades práticas deste curso. O ensino da área de saúde está indo para este caminho, que é sem volta. Este laboratório é uma parceria com o Centro de Estudos Médicos. Fizemos um investimento de 35 mil dólares.

O que está previsto em termos de investimento para o Centro Universitário?
Temos proposta de investimento de R$700 a R$1 milhão, para melhoria da infraestrutura, de bibliotecas e laboratórios, entre outras ações. Não temos pretensão de fazer uma expansão física. Até porque estamos em um campus único e isso é uma vantagem. Ter toda gestão, equipe técnica e acadêmica em um local é, inclusive, uma vantagem competitiva. Não há dispersão de energia. Temos área de 14 mil metros quadrados. Hoje, nossa capacidade capacidade é de 7 mil alunos. Ou seja, temos uma capacidade instalada a ser perseguida. Temos 4,5 mil alunos e a intenção é chegar ao final de 2013 com 5,3 mil estudantes. Então, temos plano de crescimento para a unidade em que atuamos hoje. Nossa intenção é consolidar nossa posição na região em que nos situamos. Vamos investir muito na renovação de nossas bibliotecas, de nossos laboratórios, em infraestrutura, nas nossas instalações e na compra de equipamentos para a melhoria da infraestrutura de sala de aula. O ano de 2012 foi, para nós, muito bom. Foi um ano de consolidação e de manutenção de nossa capacidade de investimento. Estamos preparados para termos, em 2013, um ano de crescimento.

Por: Diego Da - [email protected]
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