Folha Dirigida Entrar Assine

O papel do Inglês para formar o cidadão global


Em um mundo no qual a competitividade no mercado de trabalho é cada vez maior, é natural que a busca por diferenciais que possam abrir, mais facilmente, as portas do mundo corporativo. E um dos principais, até algum tempo, era o domínio do Inglês. Hoje, no entanto, comunicar-se bem neste idioma já deixou de fazer a diferença, segundo Maria Lucia Willemsens, porta-voz da Cultura Inglesa. Para a especialista, saber a língua mais falada no mundo já se tornou, praticamente, um pré-requisito básico no mundo de hoje.

“Atualmente, o que seria a diferenciação para este profissional? O que mais ele tem que irá favorecê-lo? Definitivamente acho que seria uma segunda língua, que eu colocaria, em primeiro lugar, o Espanhol, até por nossa posição geográfica”, destacou a especialista que, nesta entrevista, fala sobre os planos para a Cultura Inglesa, que completa 80 anos em 2014, analisa a importância do domínio da Língua Inglesa nos dias de hoje, aponta os benefícios trazidos pelo intercâmbio estudantil e fala sobre o ensino do idioma nas escolas. Para ela, como a maior parte das escolas segue os Parâmetros Curriculares Nacionais, que priorizam a habilidade de compreensão leitora, o ensino fica limitado.

“E é isso que é cobrado no vestibular. Claro que é uma diretriz muito útil, quando tratam-se de pessoas que vão ler artigos e outros textos em Inglês. Mas, até hoje, está restrito a esta habilidade, o que deixa uma lacuna muito grande”, salienta Maria Lucia Willemsens.


FOLHA DIRIGIDA — Hoje em dia, os Estados Unidos ainda possuem uma presença muito forte no cenário internacional, apesar do crescimento econômico de outros países. O Inglês, hoje, em dia, é mais fundamental do que nunca?

Maria Lucia Willemsens — Sim. Os adultos, hoje em dia, comunicam-se muito usando redes sociais, fóruns de debates, entre outros meios. Além disso, com a internet, há uma série de possibilidades de pesquisa. A língua inglesa é, muitas vezes, necessária, utilizada e aceita com muita tranquilidade como sendo o idioma da comunicação. No meio acadêmico, por exemplo, quem faz mestrado ou doutorado muitas vezes estabelece networking, pois as pessoas, hoje em dia, trabalham muito em colaboração. É muito difícil vermos um cientista, um acadêmico, que trabalhe de forma totalmente solitária. Sempre está trabalhando em uma rede de cientistas ou de pesquisadores. E o Inglês é uma língua que facilita esta comunicação. Isto para falar nos meios acadêmicos. Nos ambientes de negócios, não existe a menor dúvida de que boa parte das negociações é feita em Inglês. É interessante ver o grande esforço feito pelos povos orientais. A barreira do idioma, para eles, é muito maior do que para nós, que somos anglo-saxões ou latinos. É muito mais fácil para nós dominarmos o Inglês do que para um chinês ou um japonês. Mas, ainda assim, há um enorme esforço sendo feito no mundo inteiro.

Só o Inglês basta? Ou, hoje em dia, é necessário ter, pelo menos, um segundo ou terceiro idioma?
Antes, o Inglês era um algo mais, que favorecia quando a pessoa enfrentava uma entrevista de trabalho ou disputava uma promoção, por exemplo. Hoje em dia, é um pré-requisito. Então, atualmente, o que seria a diferenciação para este profissional? O que mais ele tem que irá favorecê-lo? Definitivamente acho que seria uma segunda língua, que eu colocaria, em primeiro lugar, o Espanhol, até por nossa posição geográfica. Estamos na América Latina, fazemos parte do Mercosul, temos um intenso comércio acontecendo com a Argentina e outros países da América do Sul e, nitidamente, este é um idioma importante. Destaco também o Mandarim, em razão da importância que a China está tomando cada vez mais, inclusive no comércio com o Brasil.

Há algum outro idioma, além do Mandarim, que a senhora acabou de citar, que tende a ganhar espaço no curto e médio prazo, no mercado de trabalho?
Vejo um pouco o alemão, uma vez que a Alemanha é uma potência no mercado comum europeu. Mas, diria que se eu tivesse de fazer um ranking, indo até o quarto lugar, eu colocaria este. O Francês é bom para o Turismo, pois a França, definitivamente, não é um país bilíngue. Há muitas pessoas na França que não sabem Inglês.

No Espanhol, boa parte das palavras têm proximidade com o Português. Por isso, muitos acreditam que é suficiente saber apenas o básico do idioma Espanhol, mesmo do ponto de vista profissional. Como a senhora vê esta questão? O mercado profissional tem uma certa rejeição a pessoas que não dominam o uso do idioma de maneira mais formal?
Hoje em dia, nos comunicamos muito por email. Há algum tempo, as pessoas diziam que, sobretudo, o mais importante é falar. Mas, hoje em dia, a escrita tomou uma importância maior do que tinha há alguns anos, por causa da internet. São emails trocados e, realmente, pode-se até dar um jeitinho na hora de falar, para se fazer entender, mas na hora de escrever, é necessário realmente dominar esta habilidade. Se a pessoa tiver perspectiva de trabalhar em um ambiente de negócios, principalmente de comércio, na América do Sul, é fundamental estudar Espanhol de uma forma mais aprofundada.

Com relação ao ensino da Língua Estrangeira nas escolas: como a senhora vê a qualidade deste ensino?
Houve um momento em que o governo brasileiro olhou com cuidado para a educação. Estou falando da gestão de Fernando Henrique Cardoso, que tinha o Paulo Renato Souza como ministro da Educação. Neste momento, ele definiu os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), pois, até então, cada escola ensinava mais ou menos o que queira. Quando o currículo foi estabelecido, todas as escolas públicas e particulares passaram a saber que, em cada série e disciplina, tinha de ser ensinado um determinado grupo de conteúdos. Neste momento, foi definido que, para o Inglês, a única habilidade ou competência a ser ensinada seria a de compreensão de leitura. Pois, naquele momento, e estamos falando de mais de 20 anos atrás, foi considerado que as condições não seriam favoráveis a que se tentasse definir como PCN uma habilidade oral, por exemplo. Decidiu-se que o que seria obrigatório ensinar obrigatoriamente, no Inglês, nas escolas públicas e privadas era compreensão leitora. E é isso que é cobrado no vestibular. Claro que é uma diretriz muito útil, quando tratam-se de pessoas que vão ler artigos e outros textos em Inglês. Mas, até hoje, está restrito a esta habilidade, o que deixa uma lacuna muito grande.

Por que?
A pessoa tem de ter competência oral, seja para atender um telefone, participar de uma negociação, assistir a uma conferência ou apresentação, entre outras atividades. E essa lacuna passou a ser preenchida pelos cursos de idiomas, que passaram a ter o papel de ensinar o aluno as quatro habilidades fundamentais: falar, ler, escrever e interpretar. O que tem acontecido nos últimos anos é o cuidado maior, que muitas escolas particulares, em tentar introduzir a habilidade oral no ensino do Inglês. Até porque elas veem isso como uma possibilidade de diferenciação em um mercado que está ficando cada vez mais competitivo. Então, existe um movimento das escolas particulares de melhorar o ensino de Inglês, quase sempre buscando esta fluência maior na parte oral. Na escola pública, também já se notam alguns movimentos. Assim que a cidade do Rio foi escolhida como sede da Olimpíada de 2016, o prefeito baixou um decreto chamado Rio Cidade Global, em que foi estabelecido que as crianças, a partir de seis anos, começariam a ter aulas de Inglês com foco em oralidade. Isto é feito hoje em todo o ensino fundamental do Rio. As crianças têm aulas com materiais em que trabalham não só a parte da competência leitora, mas também as quatro habilidades, com foco na oralidade. O objetivo era preparar uma geração de adolescentes que chegasse a 2016 com uma competência para fazer trabalhos junto aos turistas e interagir com todo esse público que chegará à cidade.

Tem crescido muito a procura por intercâmbio estudantil. Qual a importância disto? O que o intercâmbio pode agregar para o estudante?
Vou falar, primeiro, do ponto de vista do aprendizado da língua. O intercâmbio ele é muito benéfico, mesmo que por um período curto. Não precisa ser um semestre, ou um ano. Se a pessoa ficar fora do país por duas semanas, ela, que já vem aprendendo Inglês há uns três anos, se tiver a oportunidade de morar naquele país de língua inglesa, usar o inglês que aprendeu durante aquele período, é muito bom no sentido de motivar a pessoa a continuar estudando. O aluno pode verificar o quanto aprendeu o quanto quer aprender ou melhorar. Agora, há um outro aprendizado que é o lado do cidadão global. Quando a pessoa vai morar em outro país, nem que seja por pouco tempo, descobre que existem valores, costumes, maneiras de se vestir, hábitos, concepções políticas, ou seja, um modo de ver o mundo diferente. Isto é muito importante, pois abre a cabeça do aluno. E uma das habilidades mais importantes do século XXI, que recebe vários nomes, é o que se chama de mente aberta. Para se educar uma criança para ela transitar bem no nosso século, ela tem de ter uma mente aberta.

Que cuidados uma pessoa que pretende fazer um intercâmbio estudantil pode tomar para não ter problemas?
É importante procurar uma agência cuidadosa, que a prepare. Em primeiro lugar, uma agência que envie o estudante para os endereços adequados. Até porque existe todo tipo de destino. Há escola boa e escola fraca em todo lugar. Há famílias adequadas para receber os alunos e famílias que não são adequadas. Então, é importante viajar por meio de um agente de intercâmbio confiável. E o que esta agência deve fazer? Nós, na Cultura Inglesa, fazemos uma preparação cuidadosa sobre aspectos como quanto dinheiro a mãe dará para o filho, o comportamento dele lá fora, entre outros. Às vezes, a pessoa acha que pode agir, em outro país, da mesma forma que no Brasil. Por exemplo, aqui existe a figura da mãe ou da empregada que faz tudo pela criança. Quando ela é colocada em uma situação em que não tem a mãe para fazer a comida dele ou não tem empregada que vai arrumar a cama ou lavar as roupas, é um choque. Então, a criança tem de ser preparada para isto. Outro aspecto importante a ser orientado é sobre o comportamento em público. Na Inglaterra, por exemplo, as pessoas falam baixo. Não se trata de a pessoa deixar de ser ela mesma. Mas, é importante ter uma consciência das diferenças culturais que existem.

Do ponto das metodologias de ensino, o que mudou nos últimos anos? De que forma as tecnologias disponíveis têm sido incorporadas?
Mudou muito, justamente em função do uso da tecnologia dentro e fora da sala de aula. Hoje, o aluno chega em sala de aula provavelmente trazendo seu celular ou seu tablet. Então, uma aula que não utilizar esta tecnologia seria como uma viagem no tempo. Quadro e giz para uma pessoa que está sempre conectada e habituada a digitar em um teclado é algo complicado. A Cultura Inglesa, desde 2007, usa os quadros interativos, que hoje são adotados em todas as salas de aula. O quadro interativo abre a internet e possibilita, por exemplo, acessar o youtube, mostrar um vídeo de um filme para debate, trazer uma notícia sobre um fato relevante, realizar pesquisas, entre outras atividades. Percebemos que quadro interativo, na frente do aluno, tem um grande efeito motivador. Estamos introduzindo, aos poucos, também, o uso do tablet, ou o que chamamos de BYOD (bring your onw device), que significa traga seu próprio aparelho. Então, existem as duas maneiras: todo mundo usando o mesmo tablet e outra em que cada um traz seu celular ou o que quiser. Isto tem um enorme impacto na dinâmica das aulas. O professor vai circular e direcionar as atividades para o aprendizado. Mas o que fazer com o tablet, sobretudo no nosso caso, em que queremos que o aluno adquira uma competência no Inglês? Em uma aula de Geografia ou História, ele pode até ficar mudo, assistindo a um filme, observando imagens. Mas, no aprendizado do idioma, é interessante que, quase o tempo todo, ele esteja produzindo, entendendo, respondendo. Então, o uso da tecnologia tem de ser muito bem trabalhado. Ela tem de ser um estímulo para uma interação.

No próximo ano, a Cultura Inglesa irá comemorar 80 anos. Quais os planos de curto e médio prazo para a instituição?
Falo pela Cultura Inglesa Rio de Janeiro, que atua no Rio, Espirito Santo, Distrito Federal, em Goiás, no Rio Grande do Sul e em Tocantins. Nestes seis estados, começamos a abrir unidades franqueadas em 2013, o que é uma novidade. Abrimos três unidades. No ano que vem, a meta é abrir 15, nestes seis estados, em municípios onde não existe uma unidade da Cultura Inglesa. Temos 52 unidades próprias. Este ano, pela primeira vez, abrimos uma franquia em Volta Redonda, Resende e Petrópolis. Sempre com o cuidado muito grande, pois elas vão levar a bandeira Cultura Inglesa. O que também pretendemos fazer do segundo semestre do ano que vem é ter um estreitamento de laço com escolas particulares e algumas prefeituras, oferecendo materiais, serviços que acompanhem estes recursos, que permitam propiciar um nível de ensino de Inglês melhor para estas escolas. Esta é uma novidade. E há outra grande novidade também. Estamos introduzindo, no ano que vem, na nossa metodologia, na nossa sala de aula, em todas as unidades da Cultura Inglesa, a quinta habilidade. Normalmente, o ensino de Língua trabalha quatro habilidades: falar, entender, escrever e ler. Estamos introduzindo uma quinta, que é a de se expressar em Inglês com confiança. Trabalharemos isso em todas as nossas aulas. O objetivo é treinar o aluno para uma negociação, uma apresentação, uma performance, ou seja, para que tenha uma assertividade no uso da língua. Consideramos esta habilidade muito importante para a formação completa da criança e do adolescente para o mercado de trabalho, sobretudo em uma era em que a comunicação é muito necessária. Um cidadão do mundo de hoje, muito provavelmente, vai viajar, pedir informações, trabalhar. Então, há necessidade de não só aprender a língua mas usar o idioma com confiança.

Por: Larica Santos - [email protected]
Assine e tenha acesso completo ao conteúdo do Folha Dirigida
OU

Comentários

NEWSLETTER
Cadastre-se para receber notícias e Informações