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Orientação educacional: o ingrediente de uma educação para além do conhecimento


Professora titular da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Mírian Paura Sabrosa Zippin Grinspun segue firme na defesa da orientação educacional nas escolas. Presidente honorária da Associação Fluminense de Orientadores Educacionais (Asfoe), a educadora salienta a importância desta atividade para a qualidade das instituições de ensino.

Segundo a docente, dez entre as dez melhores escolas do Rio de Janeiro no ranking do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) têm uma equipe de orientadores educacionais em seus quadros. Autora de diversos livros neste segmento de ensino, como “A orientação educacional — conflito de paradigmas e alternativas para a escola” (Editora Cortez/2011), Mírian Paura informa que a profissão de orientador educacional é regulamentada e precisa ser exercida por profissionais com a devida qualificação. No entanto, reconhece a falta de cursos de formação nesta área da educação.

“... Hoje nós temos apenas cursos de formação em instituições privadas. Na rede pública, nós não temos. A formação pode ser feita por meio de graduação ou pós-graduação. Na Uerj, vamos voltar a ter nosso curso de pós-graduação lato sensu, onde conseguiremos um número extremamente significativo de orientadores educacionais”, revelou a educadora, que coordena o Núcleo de Pesquisa Juventude, Valores e Educação (Nupejovem), situado no Programa de Pós-graduação em Educação da Uerj (Proped) desde 2001.

Com mais de 50 anos de experiência no magistério, a professora, que atua como vice-presidente da Associação Brasileira de Tecnologia (ABT) e ocupa a cadeira 24 da Academia Internacional de Educação (AIE), argumenta que a estruturação de uma política nacional de orientação educacional pode ser o ingrediente que falta às recentes políticas públicas desenvolvidas pelo Ministério da Educação (MEC) a fim de aprimorar a qualidade de ensino nas redes públicas.


Folha Dirigida - Como a senhora define o trabalho de orientação educacional?
Mírian Paura - A orientação educacional é uma área da educação; trata-se de uma atividade que orienta os alunos no seu processo educacional, na sua formação como sujeito, na construção da sua cidadania. Orientação educacional não é psicologia, no sentido de resolver os problemas dos alunos ou fazer com que eles superem as suas necessidades. Isto pode até acontecer, mas não é a condição maior e melhor da orientação educacional. Orientação educacional é um eixo da educação que procura promover, por diferentes meios, condições facilitadoras para a formação do aluno.

E qual é a importância desse trabalho na qualidade do ensino?

Quando o aluno vai à escola, ele não vai apenas para aprender a ler, escrever e contar. Ele vai à escola, principalmente, para se formar cidadão, para construir a sua subjetividade. Paralelamente à questão do currículo e do conhecimento, há outros fatores na escola que inserem nesse aluno diferentes atuações. A orientação não apenas promove o despertar dessa formação, como ajuda os estudantes na construção de sua subjetividade.

Em quais momentos da formação acadêmica a orientação escolar ajuda os alunos?

A orientação educacional atua quando os estudantes estão com dificuldades; no momento em que os jovens começam a pensar em que carreira irão seguir — a orientação vocacional é uma função da orientação educacional. Há também a ajuda prestada à escola no desenvolvimento de projetos pedagógicos que facilitem a formação. A orientação educacional ajuda o aluno a construir valores que o transformam em um cidadão.

Que profissionais exercem esta função?
Até a Lei 5.540/68, o curso de Pedagogia formava profissionais em cinco áreas: a formação de professores para o ensino Normal e especialistas para as atividades de orientação, administração, supervisão e inspeção escolar. Com a Lei 9.394/96, o curso de Pedagogia mudou. Hoje em dia, o curso de Pedagogia habilita o magistério nas séries iniciais, educação nas empresas, educação inclusiva, educação de jovens e adultos. No artigo 14 das Diretrizes Curriculares Nacionais de Pedagogia (2006) consta que os orientadores educacionais poderão ser formados em cursos de graduação e pós-graduação. Aqui na Uerj, tivemos alguns cursos de pós-graduação lato sensu em orientação educacional. Espero que a orientação volte em nível de pós-graduação, no curso de especialização na Uerj.

O Serviço de Orientação Educacional (SOE) ainda é visto, por muitos, como um espaço para mediação de conflitos. Por que esta imagem se instaurou no imaginário das pessoas?
Ocorre que nós não éramos psicólogos e a problemática foi somente aumentando. Não tínhamos a formação necessária para este tipo de atendimento e nem o número suficiente de profissionais de educação para realizar essa tarefa. Hoje, a complexidade da escola é imensa: são as agressões, o “bullying”, os conflitos entre escola e família, são questões de várias ordens. Esse sentido de ter um “espaço” que iria resolver os problemas do aluno não se sustenta mais. 

Por que o orientador educacional é uma figura constante nas escolas consideradas de ponta (as melhores colocadas no ranking do Enem) e nas redes públicas, há décadas, esses profissionais não são mais admitidos?
As dez escolas consideradas as melhores do Rio de Janeiro, a partir do ranking de aprovação no Enem e no vestibular — incluindo as duas públicas, o Colégio de Aplicação da Uerj e da UFRJ —, todas têm orientação educacional. E não é apenas um orientador, são vários orientadores. Na rede pública não se dá a devida importância à orientação educacional. Agora mesmo, soube que a Secretaria Estadual de Educação vai colocar orientação vocacional nas escolas, por meio de profissionais terceirizados. Então, por que não abrem concurso para orientadores educacionais? Em 1990, eu coordenei a orientação educacional no estado do Rio de Janeiro. Já naquela época, eu lutava com grande dificuldade para ter orientadores suficientes. Muitas vezes, as pessoas pensam que basta ter jeito para conversar com os alunos para que o professor atue como orientador educacional. E não é assim. A orientação educacional é uma profissão regulamentada. Não é porque um professor tem jeito para falar com alunos que ele está apto a desempenhar essa função.

E de que forma o trabalho do orientador se articula com o trabalho dos demais profissionais da escola, como o diretor, os professores ou o mesmo o supervisor escolar?
O trabalho da supervisão escolar é mais objetivo e fica mais evidente pois lida com o currículo, com o material didático. A orientação educacional pode trabalhar com os professores procurando saber como estão os alunos em sala de aula e quais deles apresentam dificuldades; pode promover projetos, como a semana de incentivo à leitura, atividades de grafite nas escolas e outras que despertem a aptidão dos alunos pelas Artes. O orientador educacional não dá aulas aos alunos. Portanto, os conhece a partir do relato feito pelos professores ou por alguma atividade de maior projeção. Com os diretores, o principal trabalho da orientação educacional é o projeto político-pedagógico das escolas.
 
E quais são os prejuízos decorrentes da carência destes profissionais?
Os alunos se formam ao “Deus dará”. O professor dificilmente vai ter tempo para, além de dar toda a matéria do seu programa, conversar com os alunos. Eventualmente, ele até pergunta por que o aluno não fez o trabalho, mas isso se perde, ninguém conversa sobre isso e quem acaba educando é a novela das seis, a novela das sete e a novela das nove. O que passa na televisão, para os alunos, dá de dez a zero naquilo que eles aprendem na escola. A televisão tem um fascínio muito maior. A orientação tem esse compromisso de estar presente nessas diferentes situações, mas com o objetivo de ajudar, de trabalhar os alunos, os professores e a escola em prol de sua melhoria e da qualidade da educação. Trata-se de uma visão de articulação.

Especialmente na última década, o Ministério da Educação (MEC) tem desenvolvido uma série de políticas voltadas para a melhoria da qualidade de ensino, como o Programa Nacional de Formação de Professores e o Programa Nacional do Livro Didático. Há também ações para transporte e merenda escolar. O MEC deveria instituir uma política nacional voltada para a orientação educacional?
Sim. E não temos políticas públicas nessa área porque não temos um número de profissionais suficiente que demande esse espaço. Poucos estados, como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso, há uma orientação educacional na rede pública significativa. Precisamos de uma parceria maior.

Qual é a formação necessária para exercer a função de orientador educacional?
Essa é uma profissão regulamentada e data de 21 de dezembro de 1968, através da Lei 5.564. Infelizmente, somente depois de tantos anos é que estamos lutando pela criação do Conselho de Orientação Educacional, já que se trata de uma profissão regulamentada. Além da burocracia inerente ao processo, faltam profissionais para engrossar o coro de reivindicações. As boas escolas têm orientadores. Eu e a Associação Fluminense de Orientadores Educacionais (Asfoe) estamos mais do que disponíveis para trocar ideias com as secretarias municipais e estaduais de Educação. Fico mobilizada ao saber que um serviço será terceirizado (a orientação vocacional nas escolas) quando o mesmo poderia ser realizado por orientadores educacionais. Gostaria de lembrar que a Câmara dos Deputados aprovou a regulamentação da profissão de pedagogo em 3 de setembro de 2009. O texto prevê que apenas quem tiver graduação em Pedagogia poderá exercer a profissão. Diz também que quem tiver pós-graduação na área, porém, sem o curso de graduação, poderá exercer funções de administração, planejamento, inspeção, supervisão e orientação educacional na educação básica. Lembro, entretanto, mais uma vez, que a área da orientação educacional já tem o seu profissional reconhecido desde a Lei 5.564 de 1968, portanto, a nova lei não poderá desconhecer ou instituir “nova formação” para o orientador educacional.

E faltam cursos para a formação de orientadores educacionais?

Sim. Hoje nós temos apenas cursos de formação em instituições privadas. Na rede pública, nós não temos. A formação pode ser feita por meio de graduação ou pós-graduação. Na Uerj, vamos voltar a ter nosso curso de pós-graduação lato sensu, onde conseguiremos um número extremamente significativo de orientadores educacionais. A rede particular ainda oferece muitas condições de trabalho para o orientador educacional.

E que mensagem a senhora gostaria de deixar aos nossos leitores?
Para as escolas, peço que pensem seriamente na qualidade de ensino que querem oferecer e, tenham certeza, essa qualidade passa por uma parceira chamada orientação educacional, que faz vibrar um eco diferente na escola. Peço aos novos orientadores: continuem firmes e fortes na carreira que escolheram. A missão é árdua e dificilmente talvez sejamos lembrados. Vamos dar as mãos e promover junto com as secretarias de Estado e com o MEC, condições para que haja seminários, congressos. Vamos correr atrás das escolas bem sucedidas e verificar o que elas têm de diferente. Reforço meu entusiasmo, interesse e dedicação pela área. Como diz a canção — eu “começaria tudo outra vez”, na área de orientação educacional.

 

Por: Tainara Silva - [email protected]
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