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Orientação educacional: uma visão do passado e do futuro


Mírian Paura, professora titular da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenadora do Núcleo de Pesquisa Juventude, Valores e Educação, saúda os orientadores educacionais — profissionais que têm em dezembro um mês especial. O Dia do Orientador Educacional é festejado em 4 de dezembro. No próximo dia 21, a categoria festejará os 45 anos de regulamentação da primeira profissão de educação no Brasil, com exceção do magistério.

Ex-aluna do Instituto de Educação do Estado do Rio de Janeiro — atualmente Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (Iserj) — e eleita Personalidade Educacional em 2011, a educadora analisa o exercício da orientação educacional nos nossos dias. Segundo a docente, mais do que nunca, o complexo contexto social do país demanda novas posturas dos orientadores educacionais — profissionais cuja atuação ultrapassa as quatro paredes do Serviço de Orientação Educacional (SOE).

Ao refletir sobre os rumos da educação no país, Mírian Paura lamenta a ausência de orientadores educacionais na rede pública e alerta para os prejuízos causados por esta situação. “As dez escolas consideradas as melhores do ranking do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) têm orientação educacional, o que não existe na rede pública, que amarga os piores lugares nessa mesma lista. O que temos hoje é uma orientação educacional que existe por causa da lei e está nas melhores instituições, que são privadas”, observou a professora da Uerj.

No seu depoimento, a educadora, que é presidente de honra da Associação Fluminense de Orientadores Educacionais, chama atenção para a luta da categoria pela criação de conselhos em âmbito federal e estadual. Aos governantes, a titular da Faculdade de Educação apresenta a sugestão de colocar em prática políticas públicas para o aprimoramento da qualidade do ensino.

“E unindo políticos, pesquisadores e aqueles que trabalham, na prática, com educação, gostaria de elaborar uma proposta de uma educação que vise à qualidade: os que produzem do ponto de vista político; os que pensam do ponto de vista acadêmico; e os que fazem, do ponto de vista da prática. Gostaria de trabalhar com esses três grupos para mergulhar nessa educação não apenas para compreendê-la, mas na busca de alternativas para modificá-la”, completou Mírian Paura.

 
FOLHA DIRIGIDA - Em dezembro, comemora-se o Dia do Orientador Educacional. Qual a importância desse profissional para o bom trabalho nas escolas?
Mírian Paura - Antigamente, eu trabalhava fechada em uma sala, chamada SOE, que era o Serviço de Orientação Educacional. Nessa sala, eu esperava que os alunos fossem me procurar ou recebia os “alunos-problema”. Acontece que essa figura não existe mais.

Como começou a orientação educacional no Brasil?
O início da orientação educacional foi em 1934, no Colégio Estadual Amaro Cavalcanti, no Largo do Machado. Ao longo da história da educação no Brasil, a orientação educacional se fez presente como um suporte para ajudar os “alunos-problema”. A orientação educacional foi a primeira profissão na área de educação em nosso país. Data de 21 de dezembro de 1968, por meio da lei 5.564/1968. A segunda profissão na área de educação aparece 30 anos mais tarde, que é a do professor de Educação Física, que regulamenta a atuação deste profissional em escolas, academias e clubes.

E quais são as características dessa profissão?
A orientação educacional sempre existiu nas escolas. Houve uma campanha para que essa profissão fosse profissionalizada. O dia do Orientador Educacional é comemorado no dia 4 de dezembro.

E como a senhora avalia, hoje, a atuação dos orientadores educacionais?

Nas últimas décadas, perdemos espaço nas escolas. Hoje, praticamente, encontramos essa área somente na rede privada. As dez escolas consideradas as melhores do ranking do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) têm orientação educacional, o que não existe na rede pública, que amarga os piores lugares nessa mesma lista. O que temos hoje é uma orientação educacional que existe por causa da lei e está nas melhores instituições, que são privadas. O Colégio de São Bento, considerado o melhor do Rio de Janeiro, tem de sete a oito orientadores educacionais.

Já houve épocas em que o poder público abria concursos específicos para orientação educacional?
Sim. Mas há algumas décadas não há mais esse tipo de seleção. Nossa luta é para voltarmos a ter orientadores educacionais em todas as escolas.

Qual é a relevância da orientação educacional, hoje, nas escolas?

Mais do que nunca necessitamos de orientação nas escolas.

Por quê?

Vivemos um tempo extremamente diferenciado, caracterizado por quatro grandes áreas. Uma delas é a globalização. Assistimos ao enterro de Nelson Mandela, como se fosse aqui. A globalização nos faz presente no entorno e no conjunto. Só que as pessoas agem somente nas localidades. O outro fato é que vivemos no tempo das novas tecnologias que se fazem presentes de um modo assustador. O que vai ser a escola daqui a alguns anos? Vai existir livros no futuro? As novas tecnologias trazem mudanças radicais nesses novos tempos. A terceira grande área chama-se sociedade pós-moderna. Tivemos a Idade Antiga, comandada pelos homens de ideias, como Sócrates, Platão, Aristóteles. Depois, tivemos a Idade Média, regida pela igreja. Passamos para a Idade Moderna, liderada pela ciência. E hoje vivemos em época chamada pós-modernidade, caracterizada pela incerteza. E o quarto bloco é o neoliberalismo, caracterizado por um Estado cada vez menor e um entorno cada vez maior. E é neste contexto que temos, hoje, a educação.

E quais são os desafios da educação, no dias de hoje?

Educar quer dizer conduzir, guiar, orientar. Educar também provém do termo latino “educere”, que significa tirar de dentro para fora as potencialidades do indivíduo. Quando essas potencialidades são visíveis — tal como Mozart, que aos cinco anos já tocava piano — fica fácil. Mas o que eu faço com um aluno comum? Como despertar a sua vocação? É nesse momento que surge o orientador educacional.

E quais são as principais funções desempenhadas pelo orientador educacional?

A orientação educacional é responsável pela mediação entre a escola e a sociedade; entre os professores e os alunos; entre os pais e a escola. Ela trabalha com o diálogo. Uma de suas características é a intencionalidade. Ela trabalha com a intenção dessa educação voltada para a formação do sujeito e não de uma educação voltada apenas para o conhecimento. Paulo Freire já dizia que “educar não é ensinar a ler, escrever e contar. Educar é formar o sujeito”. Acredito que a intenção mais importante é a busca de uma transformação por meio da educação. A orientação educacional é uma peça importantíssima para fazer com que alunos e professores revejam o seu “eu”, a sua maneira de ser; para trabalhar, promover e caminhar para um mundo melhor. A orientação educacional não tem uma receita pronta e acabada, mas os meios para fazer com que o aluno reflita e reveja a sua realidade.
 
De que forma a atuação do orientador educacional pode contribuir para o bom trabalho dos professores?

O orientador educacional trabalha com o projeto político-pedagógico da escola, fazendo a ponte entre alunos e professores, promovendo a integração entre os sujeitos. E orientador educacional participa da discussão do currículo. Hoje, o orientador não fica mais em uma sala de aula isolada. A sua atuação consiste em despertar nos alunos a visão para que eles trabalhem na construção de um mundo melhor, com menos violência. A orientação educacional faz a integração entre o hoje e o ontem; e entre o hoje e o amanhã. Traz as questões da atualidade para discussão na escola. Conversa com os alunos, promove debates, levando o aluno a refletir e pensar. O objetivo é gerar uma educação de qualidade, trabalhando a complexidade à luz de uma transformação.

O que a senhora sugere, em termos de política pública, para melhorar a qualidade da educação?

Eu tenho um sonho. Quero reunir três grandes áreas. A área dos políticos voltados para educação. Nosso país tem educadores brilhantes. Ano passado, comemoramos os 80 anos do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Ele ainda é atual. E por que ainda não conseguimos implementar as suas ideias? Porque a nossa política de educação é muito mais política de governo do que política de Estado. Não se pode, a cada novo governo, começar tudo de novo. E gostaria de juntar esse grupo de políticos ao grupo daqueles que pesquisam a educação. Nós, na Faculdade de Educação da Uerj, conseguimos conceito 7, o maior conceito possível. E onde está a pesquisa desses profissionais? Não podemos fazer pesquisas e estudos apenas para colocá-los em dissertações e teses. Eu gostaria de reunir o bloco dos políticos e o bloco dos acadêmicos com o bloco daqueles que trabalham, na prática, com a educação. Gostaria de investigar as práticas das melhores escolas do país, conversar com os seus profissionais. E unindo políticos, pesquisadores e aqueles que trabalham, na prática, com educação, gostaria de elaborar uma proposta de uma educação que vise à qualidade: os que produzem do ponto de vista político; os que pensam do ponto de vista acadêmico; e os que fazem, do ponto de vista da prática. Gostaria de trabalhar com esses três grupos para mergulhar nessa educação não apenas para compreendê-la, mas na busca de alternativas para modificá-la. Já falei com o prefeito Eduardo Paes, que gostou muito da ideia, mas ainda não me chamou. E também apresentei essa proposta ao secretário estadual de Educação, Wilson Risolia, mas ainda não tive retorno. Estou à disposição para colaborar.

Este mês, foi divulgado mais um resultado do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, o Pisa. E, mais uma vez, o Brasil saiu-se muito mal e nossos alunos ficaram com os piores desempenhos. Por que nossos alunos ainda têm tanta dificuldade em aprender o básico nas escolas?

Não basta ensinar os conhecimentos mais atuais ou buscar algo na internet. Precisamos fazer com que nossos alunos se envolvam. Não se trata de envolvê-los naquele conhecimento específico, mas fazer com que eles percebam o benefício que este saber vai trazer para as suas vidas, para a sociedade e para o mundo. Esse é o grande trabalho do orientador educacional. O orientador é aquele que estende as mãos para os alunos e caminha ao seu lado. A problemática nas escolas hoje é muito grande. Precisamos de alguém que ajude os alunos em seu processo de formação e não apenas no aspecto que diz respeito à informação, o que fica a cargo dos professores, a partir das orientações do currículo escolar. Todos devem agir com a máxima eficiência.

E de que modo essa eficiência pode ser alcançada?

Há duas atividades importantes na orientação educacional. A primeira é a construção da subjetividade. Nós somos sujeitos da nossa história. Cada um de nós tem uma história para contar. E a outra é o sentido. Nós temos de ter um sentido em nossa vida. E essa busca se faz presente em todas as áreas e em todas as esferas sociais.

Nos últimos anos, os governos criaram vários índices para aferir a qualidade da educação, como o Ideb, de âmbito federal; o Iderj, de âmbito estadual; e o IDE-Rio, de âmbito municipal. Essas medidas revelam a preocupação com o aprimoramento da qualidade de ensino?
Eu acredito que os governos estão mais preocupados com as questões quantitativas e do conhecimento do que com as questões qualitativas e com a construção desse conhecimento. No ranking do Enem, entre as 100 melhores escolas, não há nenhuma instituição pública. Com exceção das escolas “públicas/particulares”, que são os colégios de aplicação da Uerj e da UFRJ, o Colégio Pedro II e outras instituições federais. As escolas públicas da rede estadual do Rio, por exemplo, não figuram na lista das 100 melhores.

Muitos especialistas têm salientado a necessidade de investir em tecnologia nas escolas. Como tirar o melhor proveito dos recursos tecnológicos em sala de aula?

Hoje em dia, temos acompanhado vários casos de jovens que colocam imagens suas de cenas de sexo na internet, nas redes sociais, invadindo a privacidade de seus parceiros. Por isso, para além da utilização que as novas tecnologias trazem como recursos didáticos, precisamos ficar atentos àquilo que elas impactam na formação do sujeito de hoje. A orientação educacional trabalharia com essas questões no sentido de descobrir o quê está acontecendo, o seu porquê e como lidar com essa nova situação de modo a não ficarmos à mercê desta exposição. Na escola de hoje, além do currículo, temos uma série de acontecimentos no seu contexto. Porém, estamos ficando muito na contextualização dos fatos sem promover a devida reflexão profunda sobre aquilo que acontece.

A senhora é presidente de honra da Associação Fluminense de Orientadores Educacionais. Quais são as principais demandas da categoria?

Na Associação de Orientadores Educacionais lutamos, já há algum tempo, em termos de Brasil, para a criação de um Conselho Federal de Orientação Educacional e de um Conselho Estadual de Orientação Educacional. Só podem ter conselhos as profissões regulamentadas por lei. Nossa luta é pela criação desses conselhos. Temos também o sonho de abrir a Academia Brasileira de Orientação Educacional para dar aos orientadores educacionais, ao longo de sua história, um reconhecimento ao seu trabalho, que é árduo. Os alunos podem dizer “eu tive um grande professor de Matemática que me inspirou”. Mas dificilmente alguém lembra de agradecer ao orientador educacional de sua escola. Nosso trabalho se apaga ao longo de seu processo. Mas nós não o desenvolvemos esperando retorno. Tocamos o nosso trabalho para o bem do próprio aluno. 

Quais são os seus planos para 2014? Que trabalhos pretende desenvolver?

Quero trabalhar prioritariamente com os jovens pois eles são muito criativos. Desenvolvo pesquisas na área Juventude, Valores e Educação. Vou fazer um seminário com os jovens, divido em três partes. A primeira delas terá temas voltados para a juventude. Pedi ao professor Gaudêncio Frigotto para falar sobre “O jovem e o mundo do trabalho”; a professora Lia Faria para falar sobre “O jovem e o mundo da política”; e assim farei com outros especialistas. Em um segundo momento, vou trabalhar com os jovens. Eles vão dar os seus depoimentos e dizer o que estão fazendo. E haverá um terceiro bloco no seminário que será “Os jovens fazem”. Pretendo mostrar as coisas incríveis que eles fazem.

Neste mês dezembro, dedicado aos orientadores educacionais, que mensagem a senhora gostaria de deixar para os educadores?
Sou uma apaixonada pela orientação educacional. Plagiando a canção: “começaria tudo outra vez”... . Enfrentei momentos difíceis e vivenciei histórias dramáticas e drásticas. Uma vez, um garoto me pediu que o ajudasse a se livrar do vício das drogas. Outra vez, um aluno veio me procurar dizendo que estava fugindo de casa. Mas tenho na orientação educacional, muito mais do que uma profissão. Tenho uma missão a cumprir. Sou uma apaixonada pela educação. Não me preocupo somente com os resultados do Enem ou com a colocação no Pìsa. Tenho como meta a formação do sujeito que quer e pode ser útil ao seu município, ao seu estado, ao seu país, ao mundo.
 

Por: Tainara Silva - [email protected]
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