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Os fatores que levam ao desinteresse pelo magistério


Um estudo da pesquisadora Luciana Leme, da Universidade de São Paulo (USP), chamou a atenção para o estágio atual da desvalorização do magistério no país. Segundo a pesquisa, cerca de metade dos alunos de Licenciatura nas áreas de Física e Matemática da instituição não pretende ou tem dúvidas quanto a seguir a carreira de professor da educação básica.

Apesar de a pesquisa não fazer referência ao que acontece com os estudantes de Licenciatura de outras disciplinas, não é difícil chegar à conclusão de que falta todo tipo de estímulo para um jovem exercer a docência no Brasil, em especial, na educação básica.

Para a professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Isabel Lelis, uma série de mudanças têm tornado a carreira do magistério menos atraente para os jovens e piorado as condições de trabalho em sala de aula. Entre estes fatores, estão as novas configurações familiares, os problemas que surgem para os professores a partir das inovações tecnológicas, a dispersão e indisciplina dos alunos e a falta de interesse dos pais pela educação dos filhos.

“Se antes, o papel do docente era o de transmitir conhecimentos e valores, hoje, ele precisa desenvolver papéis muito diferentes como de assistente social, psicólogo, animador cultural”, salienta Isabel Lelis, coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre o Professor e o Ensino (Geppe), mantido pelo Programa de Pós-Graduação da PUC-Rio, e que, nesta entrevista, faz uma análise dos problemas que atingem os professores brasileiros.

FOLHA DIRIGIDA — Na sua opinião, quais são as razões para a falta de interesse dos graduandos em seguir a carreira do magistério?
Isabel Lelis — Em primeiro lugar, há que se ter clareza que a falta de atratividade pelo magistério não é um problema dos nossos graduandos, estudantes brasileiros. Segundo Oldemária Maués, que realizou uma pesquisa sobre a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2002, esse organismo deu início a um estudo junto a 25 países da Comunidade Europeia voltadas para os principais fatores que estão em jogo quando se trata de atrair e reter os profissionais de ensino. Esse trabalho foi concluído em 2005 e resultou em documento com 270 páginas. Uma das motivações do interesse da OCDE está no fato de que nos próximos anos, um número significativo de docentes irá se aposentar e a substituição de novos docentes deverá ser feita a partir de um perfil diferente daqueles colegas que estão hoje chegando à idade da aposentadoria. Um quadro apresentado no documento revelava que 25% dos professores dos anos iniciais e 30% do ensino médio tinham mais de 50 anos, chegando a 40% do corpo docente em alguns países. Para a autora, algumas preocupações deveriam ser consideradas no delineamento das políticas.

Quais seriam estas preocupações?

A primeira delas diz respeito à perda de status do professor, ao sentimento de desvalorização social. Uma das preocupações é a de que as novas gerações de docentes não sejam tão competentes quanto aquela que está se aposentando. Uma outra inquietação refere-se à falta de apoio aos professores iniciantes no sentido de se integrarem à cultura escolar, contribuindo assim de forma efetiva com os processos de ensino.  Uma terceira ordem de preocupação está voltada para o recrutamento, seleção e emprego dos professores. Entre uma série de desafios, o documento de 2005 da OCDE fala da sobrecarga de trabalho e do stress, que acaba por comprometer a qualidade do trabalho do professor, tornando pouco atraente a profissão docente.

Como este quadro se configura no Brasil?
No caso específico do Brasil, a falta de atratividade está nas precárias condições de trabalho como baixos salários, falta de coordenação pedagógica efetiva nas escolas, sobrecarga de trabalho (as atividades se prolongam para além da carga horária), excesso de alunos em sala de aula, dificuldades de desenvolvimento professional. O trabalho do professor envolve grande complexidade pois implica na relação humana, entre professor e aluno. Exige ouvir e fazer o aluno se envolver no processo de aprendizagem, isto é, hoje o professor deve possuir uma série de competências emocionais, para além da competência técnica, Diante dos baixos salários, uma parcela do magistério possui dupla, tripla jornada de trabalho o que provoca doenças como stress, síndrome de burnout, enfim um mal estar professional. Em estudo realizado por José Marcelino, o magistério das séries iniciais ocupa o vigésimo sétimo lugar em termos de patamar de salario entre um conjunto de profissões, igualado por exemplo, à remuneração de um porteiro. Em pesquisa recentemente concluída no Grupo de Estudos e Pesquisas sobre o Professor e o Ensino (Geppe), coordenado por mim no Programa de Pós-Graduação da PUC-Rio, o que verificamos entre professores de escolas de setores populares foi o sentimento de grande isolamento e, porque não dizer, solidão diante da ausência de setores como coordenação pedagógica e orientação educacional. Imersos nas salas de aula, inexistia relação entre pares, trabalho coletivo, fundamental para o desenvolvimento professional e consequentemente para a aprendizagem efetiva dos alunos.        

O que precisa ser feito para tornar o magistério mais atrativo?
Em primeiro lugar o desenvolvimento de duas políticas públicas que devem se entrecruzar: uma política de profissionalização docente e políticas de melhoria da qualidade da escola. Com relação à política de profissionalização, há urgência em repensar a formação dos professores seja do ponto de vista teórico, seja do ponto de vista da prática. O que nossos professores precisam saber e fazer para transformar conhecimento em ensino? Estão as Faculdades de Educação aptas a qualificar os docentes? Tenho sérias preocupações com os cursos de graduação à distância, por não apresentarem condições básicas de oferecer uma formação em contexto de trabalho, sob a supervisão dos formadores, professores das Faculdades. Ainda com relação à profissionalização docente, a elevação do patamar de salários, com inclusão das atividades realizadas fora da sala de aula (planejamento didático, avaliação do desempenho, reunião com pais, formação continuada etc) é prioridade máxima. E, também, socializar experiências bem sucedidas, com foco nos fatores intraescolares que estão impactando o trabalho competente e compromissado do professor. É preciso acabar com a imagem de miserabilidade que cerca o magistério no Brasil.

E com relação à formação dos professores?
Do ponto de vista da formação, é necessário fazer com que os conhecimentos, habilidades, estratégias didáticas presentes nos cursos de Pedagogia e Licenciatura estejam impregnados pelo contexto do trabalho, sob pena de se banalizarem do ponto de vista das suas finalidades. Como diz Antonio Nóvoa, pesquisador português, é urgente trazer o trabalho para dentro da formação. As universidades têm um papel importante com relação à formação continuada. É preciso devolver às escolas e aos professores todo o saber acumulado das pesquisas do campo da Educação. Cursos, oficinas, seminários devem e podem ser oferecidos aos professores das escolas próximas à universidade. Entretanto, cabe também às Secretarias de Educação o incentivo à realização de cursos de especialização, de Mestrado e Doutorado com vistas ao aperfeiçoamento profissional e construção de uma carreira.

A senhora também mencionou a necessidade de melhoria das escolas. Em que aspectos?
Quanto às políticas de melhoria das escolas, o desafio está em garantir salas de aula arejadas, limpas, dotadas de material pedagógico apropriado, mobiliário adequado à faixa etária dos alunos; A existência de biblioteca, sala de informática, sala de professores, pátio, laboratórios permitirá ao professor o desenvolvimento de uma série de práticas pedagógicas com impacto na aprendizagem efetiva dos estudantes. O fato da escola ser gerida por uma liderança pedagógica, possuir setores de coordenação, orientação educacional certamente marcará o trabalho docente pois são fatores que sabidamente estão presentes nas escolas eficazes. Pedagogicamente, a escola é um locus privilegiado de socialização e formação de professores. Na organização e gestão dos estabelecimentos de ensino, tempos e espaços devem ser destinados ao desenvolvimento profissional do corpo docente.   
 
A questão salarial é o que mais pesa? Além dela, quais são os outros fatores mais relevantes?
A baixa remuneração dos professores, aliada às precárias condições de trabalho, sem dúvida pesam cada vez mais para a pouca atratividade da profissão docente. As pesquisas têm mostrado que os alunos de Pedagogia e Licenciatura provém hoje, na sua maioria, de famílias de setores populares, oriundos de escolas públicas. Com isso, quero dizer que o recrutamento e seleção de professores para as redes públicas de ensino é um processo complexo pois se faz sobre um grupo social que nem sempre apresenta os conhecimentos e habilidades de leitura e escrita, necessárias a um bom professor. Mas há outros fatores relevantes que precisam ser considerados.

Poderia nos citar quais seriam eles?
Entre esses fatores eu, diria que as novas configurações familiares, as transformações da sociedade via presença crescente das mídias, tecnologias das comunicação colocam para o professor problemas novos, diversos  dos desafios de décadas passadas. A dispersão dos alunos, a indisciplina, a ausência das famílias no monitoramento da escolarização dos filhos são expressões do declínio da escola e da necessidade dessa instituição se renovar, se reinventar. Todas essas questões levam à diversificação das funções do professor. Se antes, o papel do docente era o de transmitir conhecimentos e valores, hoje, ele precisa desenvolver papéis muito diferentes como de assistente social, psicólogo, animador cultural. Há trabalhos que vêm mostrando cada vez mais a dificuldade da gestão da classe uma vez que os estudantes não vêm  sentido na experiência escolar. Essa diversificação torna o ofício do professor complexo e pesado porque implica conhecimentos e habilidades que não foram trabalhados nos processos de formação inicial.

Pode nos citar um exemplo?
Em territórios marcados pela tráfico de drogas, escolas são invadidas, fechadas e os professores trabalham sob forte pressão, com impactos na atividade de ensinar e consequentemente na aprendizagem dos alunos. São muitos os casos de violências físicas, agressões verbais de alunos sobre professores, problemas que ultrapassam os muros da escola e que exigem o desenvolvimento de políticas sociais que ajudem o professorado. Intensificação, complexificação e precarização marcam hoje o magistério nas redes de ensino. Há por último um problema que passou a impactar o trabalho do professor e que advém das políticas de avaliação como Prova Brasil, Enem, Saeb, Ideb. A existência desse tipo de regulação e a responsabilização sobre os docentes contribui para a perda da autonomia professoral com impactos sobre o bem estar profissional.

Atualmente, existem políticas públicas voltadas para estimular a formação de futuros professores? Como a senhora avalia tais medidas?
A proposta do MEC de conceder uma bolsa de estudo aos licenciandos pode ser um estímulo interessante. Esse aluno passa algumas horas de seu curso na escola, junto ao professor da turma, sob a supervisão dos professores formadores. Trata-se de uma política que valoriza a formação em contexto de trabalho, tão afirmada nas pesquisas sobre profissão docente. Por estar em fase inicial, precisa ser avaliada enquanto estímulo à formação de futuros professores. Outra medida interessante é a criação da Residência para professores iniciantes em escolas públicas de qualidade como o colégio Pedro II. Esse projeto, desenvolvido pelo MEC, tem o objetivo de apoiar pedagogicamente os docentes (via tutores, professores da instituição) em início de carreira durante um período de tempo, evitando o choque de realidade tão forte entre os professores recém formados. Pessoalmente tenho reservas quanto à formação inicial de professores a distância. Há necessidade de uma estrutura organizacional (postos, tutores, bibliotecas, sistemas de regulação) nem sempre presente na realidade brasileira. Se a formação presencial já é um desafio entre nós, o que dizer da formação a distância? Há urgência de uma avaliação diagnóstica sobre esses cursos que se expandiram por todo o Brasil em centros e faculdades privadas de Educação.

A proposta do MEC de conceder uma bolsa de estudos durante a formação é suficiente?
Não é suficiente. Para Bernadete Gatti, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, há necessidade de maior parceria entre escola e universidade e outras instituições formadoras de professores no sentido de afirmar que as práticas profissionais sejam o foco privilegiado da formação. E indica também a necessidade de um trabalho intra-universidades com vistas à maior valorização dos cursos de Pedagogia e Licenciatura, ao papel do ensino e da educação básica para o país; Políticas que definam mais claramente o conhecimento específico do professor, de modo que se combata a ideia de que qualquer pessoa pode ser professor ou de que é preciso apenas, do dom, da aptidão para ensinar

Na sua opinião, o brasileiro vê a profissão de professor com uma importância menor do que deveria ter na realidade?
Não. No senso comum, há um discurso sobre a importância da educação e do professor. Mas, não há ainda a percepção dessa questão ser prioritária. Cabe aos administradores do poder público o desenvolvimento de estratégias de valorização do magistério (via formação, salários dignos  e boas condições de trabalho) tendo em vista evitar a evasão e o abandono da profissão docente.

Por: Renata - [email protected]
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