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Paulo Alcantara: ‘A ABE deveria ser mais ouvida’


O professor Paulo Alcantara Gomes já ocupou vários cargos de destaque no campo educacional. Entre já foi, por exemplo, reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Castelo Branco; e já presidiu o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Conselho Estadual de Educação do Rio (CEE-RJ).

E este ano, ele passa a incluir em seu currículo a presidência de uma das mais prestigiadas entidades do país: a Associação Brasileira de Educação (ABE). “É uma responsabilidade muito grande, pois a ABE tem uma participação na história da educação brasileira que não pode nunca ser esquecida”, disse o educador, ao abri sua primeira entrevista como presidente da ABE.

Segundo o professor Paulo Alcantara, entre as prioridades de sua gestão, está a de tornar a Associação Brasileira de Educação uma entidade de destaque ainda maior no cenário educacional do país. Por isso, entre seus planos, está o de a entidade promover eventos para incentivar a discussão dos mais importantes temas da área.

“O mais importante é fazer com que a ABE continue a ser protagonista e cada vez mais forte dos movimentos de mudança”, destaca o professor Paulo Alcantara, que também é membro da Academia Brasileira de Educação (ABE) e presidente da Rede de Tecnologia do Estado do Rio de Janeiro (Redetec).

FOLHA DIRIGIDA - O senhor foi eleito, este ano, para a presidência da Associação Brasileira de Educação (ABE). Quais os principais planos e objetivos para sua gestão?
Paulo Alcantara Gomes -
É uma responsabilidade muito grande, pois a ABE tem uma participação na história da educação brasileira que não pode nunca ser esquecida. Ela foi criada em 1924, e em 1932, graças à liderança de vários grandes educadores, entre os quais Fernando de Azevedo era o mais importante, foi a responsável pela elaboração do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, que era um manifesto onde eles colocavam, em linhas gerais, o que deveria acontecer na educação brasileira a partir daquele momento. É claro que com o tempo, algumas das propostas precisaram ser atualizadas, mas aquele documento foi um ponto crítico e representou uma grande mudança para a educação do país.

O que representa, para o senhor, ser presidente da ABE?
O que considero mais importante é fazer com que a ABE continue a ser protagonista e cada vez mais forte dos movimentos de mudança. A educação brasileira precisa de grandes mudanças e algumas delas acabam não acontecendo por uma série de razões. Em primeiro lugar, pela resistência das pessoas. A segunda razão é a resistência e, muitas vezes, a incompetência dos governos. Esse é um dos problemas mais críticos. No Brasil de hoje há um obstáculo que muitas vezes é mais crítico do que a corrupção, que é a incompetência. A porta de entrada da corrupção está na incompetência, pois ela permite a desídia, a omissão, uma série de coisas e aí a corrupção começa a aparecer. E acontece em todas as áreas e não é diferente na educação. Por isso, acredito que a ABE tem um papel importante.

Em que sentido? O que é fundamental para que a ABE seja protagonista, como o senhor pretende fazer?
Ela tem de ser pró-ativa, tem de começar a produzir. Nesse ponto, preciso manter o trabalho que já foi desenvolvido pelo professor João Pessoa de Albuquerque e pelo professor Edgar Flexa Ribeiro, nos últimos tempos, sem esquecer da galeria de ex-presidentes, muitos deles extremamente importantes na história do Brasil. E há uma coisa muito importante, que é o fato de que vários dos membros da ABE foram, como eu, professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro, quando ela era chamada de Universidade do Brasil, e vários eram da Escola Nacional de Engenharia, onde me formei. É uma alegria muito grande participar desse processo. O que estou planejando fazer? Não posso fazer isso sozinho, nenhuma organização não funciona sem trabalho em equipe. Estou discutindo com meus pares a ideia de realizarmos quatro ou cinco vertentes diferentes de trabalho.

Como seriam essas vertentes? Pode nos detalhar?
Uma dessas vertentes é promover debates sobre os temas mais relevantes da educação. Entre esses temas, podemos citar a lei da inclusão. Todos sabem que entrou em vigor este ano uma lei da inclusão, válida para os sistemas público e privado, e que não é fácil de ser aplicada, por gerar grandes despesas e da infraestrutura das escolas. Precisamos saber como teremos condições de enfrentar isso e em que condições podemos chegar a resultados realistas, em função das possibilidades de cada instituição. O segundo ponto que acho importante é um aspecto que acho fundamental voltarmos a discutir no Brasil, que é o papel dos colégios de aplicação. Quando a primeira escola desse tipo foi criada, o objetivo era formar os professores a partir de aulas práticas. Isso, ao longo do tempo, foi mudando e gostaria de retomar essa discussão dos colégios de aplicação, trazendo os professores e diretores dessas instituições para traçar os caminhos que precisamos seguir para a formação dos professores. Esse tema remete a uma outra questão crucial da educação: a qualidade da formação de professores. Precisamos repensar a estrutura das licenciaturas no país.

De que forma? O que o senhor considera que é preciso mudar?

Precisamos ver como podemos melhorar as estruturas curriculares e tornar os professores habilitados a enfrentar os desafios do século XXI. Uma educadora, certa vez, em um seminário, disse que a educação brasileira tinha professores do século XX, ensinando currículos do século XIX para alunos do século XXI. Isso é uma verdade. Precisamos melhorar a situação do professor em sala de aula e também necessitamos ter uma nova forma de pensar. A ABE não pode fazer isso sozinha, mas pode contribuir para a levantar esse e ampliar esse debate. Outro ponto importante é a internacionalização. A educação está sendo internacionalizada em todos os níveis. Como podemos nos comportar? Devemos ser xenófobos? Não me parece razoável. Mas, devemos abrir completamente? Se não houver critérios, correremos um risco muito grande. Temos que mudar isto e criar procedimentos, critérios e estratégias para fazer com que a educação progrida adequadamente nesse cenário de internacionalização que estamos vivendo.

Um de seus objetivos, como o senhor já destacou, é tornar a ABE mais protagonista na área de Educação. E a ABE hoje tem educadores do mais alto gabarito, referências no cenário educacional. A Associação não deveria ser mais consultada, mais ouvida pelos órgãos públicos, principalmente pelo MEC? Ela é desprestigiada pelo setor público?
Não vou ser pessimista a ponto de dizer que ela é desprestigiada. Mas, a ABE deveria ser mais ouvida. E uma das coisas que temos de fazer é entender que, para sermos consultados, precisamos aparecer. Por que, todo dia, às 18h, o sino toca na igreja? É para nos lembrar que Jesus existe. Temos que lembrar que a ABE existe, que a educação existe. Por isso, temos de participar ativamente desse processo, divulgando, inclusive, proposições. Acho que a ABE tem um papel importante por conta de um vazio que existe na educação brasileira. Precisamos oferecer alternativas aos municípios, aos estados, à União, para que possamos construir uma educação que seja do melhor nível possível. Nessa linha, outro ponto importante que temos de discutir é a questão do ensino de línguas. Hoje em dia, já considera-se fundamental que todo mundo fale Inglês. Mas, o Mandarim chegou e a China já é o maior parceiro comercial de nosso país. E como vamos tratar a questão do ensino de Línguas em nossas escolas e universidades?

O senhor citou vários problemas e desafios. Há algum outro que o preocupa?
Outro aspecto que me preocupa é a questão da qualidade do ensino em todos os níveis, o que é um ponto dos mais críticos no atual cenário. No Estado de São Paulo, por exemplo, um exame realizado com médicos recém-formados constatou que metade foi reprovada. Esse médico que foi reprovado em um exame que trazia perguntas absolutamente básicas da Medicina é o mesmo que, amanhã ou depois, pode tratar do cidadão. Então, fica a pergunta: qual o efeito que nossa avaliação tem? O que ela está resultando em mudanças no ensino superior? Isso vale para a OAB. A Ordem anuncia, todos os anos, mais de 70% de reprovados nos Exames da Ordem. E vale também para os engenheiros e todos os outros profissionais. A questão da avaliação é crítica e temos de nos voltar para ela. Outras áreas relevantes, que, a meu ver, temos de considerar, são o ensino médio e o ensino técnico. É urgente encontrarmos uma forma de diálogo entre os dois. Eles não se falam uma consequência disso é problema da ‘geração nem nem’, que são os jovens que não estudam e não trabalham porque o ensino médio não tem uma estrutura adequada, uma vez que não forma para o trabalho e nem para a universidade. Então, precisamos criar mecanismos de conversa entre o ensino técnico e o ensino médio e mudar essa estrutura para dar resultado.

O mês de março começou com greves que atingem basicamente toda a rede pública mantida pelo governo do estado. Gostaria que o senhor avaliasse essa situação e esse momento que a educação estadual enfrenta diversas paralisações. É um sinal da crise da educação?
Acho que é uma crise do Rio de Janeiro. Em primeiro lugar, não há dúvida de que nossa arrecadação dos royalties caiu por conta da redução do preço do petróleo. Há dois anos era possível compra barril de petróleo por 120 dólares. Hoje em dia, o preço caiu para 30 dólares. Evidentemente, os royalties diminuíram brutalmetne e essa redução gerou também queda na arrecadação de estados e municípios. Uma das alternativas possíveis para a economia do Rio de Janeiro é tornar o estado uma referência mundial em Turismo, o que pode aumentar a geração de empregos e renda. A segunda alternativa que se coloca ao petróleo é o reconhecimento de que o Rio é um centro de referência na chamada indústria do conhecimento e da economia criativa. Afinal, o Rio de 19 universidades, 26 institutos de pesquisa. mais de 20 encubadoras de empresas e cinco parques tecnológicos. O estado tem uma quantidade enorme de pequenas e de micro empresas inovadoras que contribuem gerando competitividade para o estado. Essas duas linhas são importantes de serem estimuladas. E sempre devemos construir as linhas sem abrir mão de outras que podem existir.

Essas são saídas de médio prazo. Mas, o que fazer para resolver no curto prazo? O que deveria ser feito para acabar com as greves? Há algo que o governo poderia fazer para, na tentativa de negociar, acenar com alguma proposta?
O problema todo é que, na situação atual, é impossível conceder reajuste. Mas, é preciso sentar e definir claramente quais são as prioridades. O dinheiro é finito e é necessário resolver uma série de questões. Quando se dá aumento ao professor, é preciso também lembrar que há profissionais do Estado na área de Segurança Pública, no Corpo de Bombeiros, etc. Então, há também uma série de outras profissões que são determinantes para a qualidade de vida da sociedade. É preciso saber de onde vão ser tirados esses recursos, e isso não é fácil nesse momento.

E com relação à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)? O que o preocupa? Ela tem possibilidades adicionais, por exemplo, de obter recursos financeiros?
Depende. Se houver redução significativa nas verbas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), como está sendo proposto, a Uerj ficará em uma situação muito complicada. A proposta de Emenda à Constituição é reduzir os recursos destinados à Faperj de 2% para 1% do orçamento. Isso é muito dinheiro. E muitos professores da Uerj estão lá em tempo integral por conta do interesse em bolsas de pesquisa. E muitos projetos de pesquisa da Uerj são financiados pela Faperj. Então, vai depender de uma outra ação.

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Por: Diego Da - [email protected]
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