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Por um ensino médio com menos conteúdos e mais conhecimentos


O ensino médio é, sem dúvida, a mais problemática das etapas da educação brasileira. Com índices de evasão e repetência mais altos que os registrados nos ensinos fundamental e superior, os três últimos anos da educação básica desafiam os especialistas, principalmente por não terem, ainda, uma identidade definida.

Outro problema do ensino médio é apontado quase que semanalmente pelo professor Paulo Sampaio, articulista de educação da FOLHA DIRIGIDA, desde que o jornal foi criado. Professor de ensino médio, formado pela Faculdade Nacional de Filosofia, antiga UFRJ, e ex-docente da instituição, ele sempre faz questão de destacar, nos textos que escreve, aquele que define como um de seus mantras: o excesso de conteúdos no currículo oficial. Para ele, falta àqueles que criam as leis, colocarem-se no lugar dos estudantes.

“Os legisladores altamente competentes com mestrado e doutorado não são professores da educação básica. Não sabem como os alunos estão reagindo”, diz Paulo Sampaio, que também foi presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Rio de Janeiro (Sinepe) por 15 anos e membro do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro (CEE-RJ) por 11 anos. Nesta entrevista, ele fala sobre temas como o que deveria ser revisto no currículo das escolas, ações para a melhoria da educação, papel que o Enem pode ter para aperfeiçoamento do ensino, necessidade de investimentos e descaso com o setor educacional, entre outros temas.

FOLHA DIRIGIDA — Em seus artigos, o senhor costuma defender a redução do currículo do ensino médio. Por quê?
Paulo Sampaio —
Inicialmente desejo dizer que após um período sabático (período para parar e refletir, pensar, descansar, curtir, olhar as coisas sob outra perspectiva e dimensão; avaliar o que sou e o que eu posso ser; criar uma nova condição para o equilíbrio mental, físico e espiritual; fazer uma revisão da alma, oxigenação, se comprometer melhor com a visão que Deus lhe deu; coragem para perceber o novo) voltei a tentar ajudar a melhorar a qualidade de ensino para o meu amado Brasil. O que me incomoda é que todos falam em “qualidade de ensino” e não sabem explicitá-la. Em meu retorno às atividades didáticas. Passei cinco anos lecionando para alunos carentes da Cidade de Petrópolis, de todas as origens, desde os egressos de escolas municipais públicas e de bom rendimento e grande conscientização quanto outros mergulhados em problemas típicos da idade e com dificuldades nas relações familiares; desde o ensino fundamental até o último ano do ensino médio, inclusive educação de Jovens e Adultos (EJA) ou supletivo, em terminologia antiga. Como sou um educador sonhador e polêmico, faço a minha primeira crítica: os legisladores altamente competentes com mestrado e doutorado não são professores da educação básica. Não sabem como os alunos estão reagindo, a não ser pelos justos lamentos das lideranças de sindicatos de professores.

O excesso de conteúdos curriculares, a seu ver, é o maior problema para a qualidade do ensino nas escolas? Por quê?
Se considerarmos uma escola que tenha carteiras utilizáveis, quadro negro ou verde ou branco, sem goteiras e com temperatura média suportável, o excesso de conteúdos programáticos nos currículos, sem a menor dúvida, é o maior problema e também razão de alto desperdício de recursos. Razão de reprovações injustas, seguidas de evasão.

Como poderia ocorrer este “enxugamento” do currículo? Que tipos de conteúdos poderiam ser retirados, sem prejuízo da qualidade na formação?
Seria demasiada pretensão de minha parte numa entrevista apontar os conteúdos a serem retirados. Mas tenho certeza que são muitos e provo. Inicialmente, consideremos o currículo mínimo do ensino médio, que é constituído das seguintes disciplinas oficiais e que constam do edital do Plano Nacional do Livro didático (PNLD) do MEC: Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia, Física, Química, Biologia, Língua Estrangeira Moderna Inglês, Língua Estrangeira Moderna Espanhol, Sociologia, Filosofia e Arte, destinadas aos alunos e professores do ensino médio. Também consta do edital que avalia, compra e distribui livros que os números de páginas máximos para cada uma das três séries do ensino médio: quatro mil e trinta e duas páginas. Descontando-se apenas deste total de 12.096 páginas para os três anos as 1.600 páginas de sociologia e Filosofia que devem ser em volume único, ainda devemos considerar outras disciplinas que são obrigatórias como Religião, Noções de Cidadania, Noções de Trânsito, Cultura Afro Brasileira e Indígena. Devo ainda estar esquecendo mais alguma, pois só no Congresso tramitam mais 39 diferentes projetos a serem aprovados. Tudo para um único cérebro de um jovem do século XXI.

Por outro lado: há conteúdos que deveriam fazer parte do currículo do ensino médio, em razão das transformações pelas quais passou o mundo, nas últimas décadas, mas não estão presentes (ou são abordados de maneira muito superficial)?
A resposta está na própria pergunta. Os conteúdos são os mesmos dos anos quarenta e cinquenta. Por tradição, tais conteúdos são repetidos décadas e décadas nas obras do PNLD. A sociedade como um todo deve entender como “atua” um professor correto, honesto e dedicado: - ele recebe um livro didático, ou seja, o manual do professor que contém todas as soluções dos exercícios e mais algumas sugestões de atividades didáticas. Se não existisse o Manual do professor, o livro nem estaria no Guia do PNLD que de três em três anos o MEC submete através de edital para que os professores “escolham o melhor”. Como bom profissional ele cumpre, ministra as aulas, ensina ou tenta ensinar a fazer os exercícios e “cobra” nas provas avaliações. Mas boa parte de alunos “antenados” sabe que tais conteúdos para sua vida quase para nada servem.

Além do aperfeiçoamento do currículo, o que mais poderia ser feito para reduzir o índice de evasão e repetência no ensino médio, etapa que tem o quadro mais problemático em relação a estes indicadores?
A modificação dos currículos e dos conteúdos programáticos é muito difícil de ser feita. Dou minhas razões: O Governo Federal, através do MEC e do PNLD, é o maior comprador das editoras brasileiras. Os valores são fantasticamente elevados e, os mesmos livros adotados e doados para as escolas públicas, são os que são oferecidos e adotados pelas escolas particulares brasileiras e, o número de páginas de cada livro é proporcional aos valores cobrados das famílias; daí são três volumes por série para cada disciplina e cerca de 400 páginas e cerca de 4.000 páginas por série. As compras até 2016 já estão sendo programadas. Daí... Somente se os mesmos jovens que saíram as ruas pelo preço da passagem, que é uma reivindicação justíssima, saírem pedindo “conteúdos para o Século XXI e não para a Idade Média, que é onde se encontram os conteúdos dos livros didáticos brasileiros”.

O senhor, com frequência, diz que o Enem vai ajudar a melhorar a qualidade do ensino médio. Por quê? O que ele tem de diferente dos vestibulares que eram realizados, de forma isolada, pelas universidades?
O Enem, desde 1998 e, principalmente a partir de 2009, apresenta questões em que as duas disciplinas básicas da Educação Básica são exigidas primordialmente: Língua Portuguesa e Matemática. As questões de Ciências Sociais são de atualidades primordialmente e os conteúdos mais atrasados são os de Ciências da Natureza, por pressão legítima dos professores desta área. A partir dessas questões um professor esteja em Porto Alegre ou em Rondônia sabe o que realmente deve ser ensinado e cobrado de seus alunos.

Além do currículo, quais outros problemas afetam a qualidade do ensino médio no país?
Já é tão difícil e utópico e sonhador alterar o currículo, os conteúdos programáticos dos livros didáticos, ou seja, quais os conhecimentos mínimos e básicos ou competências e habilidades mínimas necessárias para que um jovem ou não tão jovem possa frequentar um curso em nível superior, que confesso que ficaria pleno de felicidade se, pelo menos, concretamente, algumas medidas fossem tomadas. A valorização do professor, responsável por toda e qualquer mudança no ensino, seria, embora chavão da Idade Média também, outra solução a ser implementada. Quem legisla sobre novas disciplinas e conteúdos, apesar de competente, não ministra aulas na educação básica e não conhece o perfil do novo aluno do Século XXI.

Como o senhor avalia as políticas educacionais do MEC para o ensino médio? Estão sendo direcionadas da forma correta?
Como não existe um Plano Nacional da Educação, ou seja, uma política de Estado, mas uma política de governo, sempre que há mudança de ministro, muda a política e são implementados projetos ocasionais. Exemplificando: O Enem, transformado em vestibular nacional unificado desde 2009, foi o trampolim que elegeu Fernando Haddad para a prefeitura da cidade de São Paulo. No entanto, a nova versão da prova foi apenas uma modificação que adequou e melhorou uma política que vinha dos governos de FHC desde 1998 e que, por sinal, é uma política da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), realizada através das provas do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA). Na mesma linha, o Saerj e Saerjinho são para, a Seeduc/RJ, uma adequação da prova Brasil/Saeb e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que quantifica os valores a serem transferidos para os municípios pelo governo federal e integram os famosos Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e o Índice de Desenvolvimento Humano dos Municípios (IDHM).

Atualmente, universidades federais e muitas estaduais, como a Uerj, adotam políticas de cotas. Como avalia este tipo de ação, para fazer com que os mais pobres tenham acesso ao ensino?
Em todos os meus artigos que são publicados na Coluna Sem Censura, daqui da Folha Dirigida, tenho me expressado favoravelmente as políticas afirmativas que se iniciaram na Uerj e, aprovadas pela Alerj, criaram uma discussão que foi dirimida pelo STF, cujo plenário votou favoravelmente à constitucionalidade das políticas. E escrevi, na época, que o tão festejado Joaquim Barbosa tinha sido escolhido para o STF não só pelas suas excepcionais qualidades intelectuais, mas também porque no Século XXI foi o primeiro negro Ministro do Supremo Tribunal Federal. Desejo lembrar que as políticas afirmativas também são sociais, ou seja, também brancos provenientes de famílias carentes possuem direito de vagas pelo sistema de cotas.

Está em discussão, no Congresso Nacional, a destinação dos royalties do petróleo para a educação. Qual deveria ser a prioridade para a aplicação destes recursos, em sua opinião?
Evidentemente que a Educação sempre precisou de mais recursos para alcançar as metas previstas. O que me assusta e a toda a sociedade é o mal uso de tais valores, isto é, a sua gestão. A prioridade, que não custa tanto quanto estão exigindo, é a adequação da qualidade e da qualificação. O que os legisladores educacionais ainda não entenderam é que na profissionalização, o mais importante é investir em programas de estágios e empregos para os que a cumprem com um mínimo de corporativismo e mais realidade. Muitos jovens que completaram o Polo de Petrópolis do excepcional Curso da Escola Técnica Federal em Telecomunicações, por exemplo, tiveram e alguns ainda possuem para completar o estágio que os legaliza ao exercício da profissão em nível médio. Possuem formação excelente e de grife, mas se não procurarem por seus próprios meios, não conseguem se colocar.

Há cerca de três anos, está em tramitação, sem prazo para término, do Plano Nacional de Educação (PNE). Esta demora na aprovação de uma ação tão importante para a educação do país reflete o descaso com que esta área sofre, historicamente? Por quê?
Pois é! A resposta está na própria pergunta, aliás, algumas questões do Enem utilizam esta mesma técnica. A resposta está na pergunta, só tem que saber ler. Os meus colegas professores ficam furiosos quando eu assinalo esta característica nas questões mais fáceis da prova do Enem. Se a sociedade brasileira e seus dirigentes estivessem tão preocupados com Educação como estão com o futebol, sem dúvida, teríamos pelo menos um primeiro prêmio Nobel como os argentinos, que não são penta campeões, mas o Papa é argentino e só nos resta lembrar que Deus é brasileiro e carioca. O Projeto enviado pelo MEC para o Congresso data de dezembro de 2011. Como se trata da última pergunta desta matéria, desejo agradecer a FD ter se lembrado deste Mestre Escola que escreve todas as terças feiras no Sem Censura da Folha Dirigida e que, após o período sabático, continua utópico e sonhador, mas talvez mais soft do que na época da guerra das mensalidades escolares.

Por: Diego Da - [email protected]
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