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Professores carentes de valorização


Tem sido cada vez mais comum a realização, por secretarias de educação, palestras para grupos de professores, como forma de contribuir para que os profissionais tenham acesso a novas concepções educacionais. Com isto, alguns especialistas têm a oportunidade de percorrer várias cidades e ter contato com docentes de realidades e perfis os mais diferenciados.

É o que acontece, por exemplo, com o educador João Beauclair, que é palestrante e conferencista Internacional sobre temas motivacionais, organizacionais, educacionais e psicopedagógicos, e professor de cursos de pós-graduação, capacitação e formação continuada de educadores. Ao ser perguntado sobre do que percebe que sentem mais falta os professores com os quais tem contato, ele foi categórico: valorização por parte do poder público, não só em relação a salários, mas em termos de
qualificação.

“O desafio, no que concerne à elaboração de políticas públicas efetivas, é criar novos modelos de formação em serviço, validando as histórias de vida dos educadores e reforçando sua importante tarefa de formar pessoas”, destaca o educador.

Autor do livro Do Fracasso Escolar ao Sucesso na Aprendizagem: proposições psicopedagógicas (Ed. WAK), João Beauclair aborda, nesta entrevista, os obstáculos que os estudantes enfrentam para alcançarem o aprendizado, analisa as relações entre famílias e escolas e estudantes, e destaca a importância dos limites no processo educacional. “Sem limites, não há possibilidades de construção de bons hábitos, boas maneiras, boas atitudes. Transferir este responsabilidade somente para os professores é injusto”, destacou o especialista.

— O senhor é autor do livro Do Fracasso Escolar ao Sucesso na Aprendizagem: proposições psicopedagógicas. Na escola, o que pode fazer a diferença para que o aluno realmente consiga aprender?
João Beauclair —
Acredito que na escola e na prática educativa, sejam elas em qualquer nível e modalidade, o que pode fazer a diferença para que o aluno efetivamente aprenda é a construção de vínculos saudáveis com a informação, com o conhecimento e com a sabedoria. Vivemos em um tempo onde há excesso de informação, algum conhecimento e uma grande escassez de sabedoria. Desafios para as instituições que educam e para os educadores é fazer a mediação desta tríade de modo vincular e significativo.

— A seu ver, que aspectos são determinantes para o chamado fracasso escolar?
A expressão “fracasso escolar” possui sentidos múltiplos, pois são aspectos muito diversos que, intervindo em nossos processos cotidianos de seguir na magia da aprendizagem humana, referem-se ao tema. Questões relacionadas aos transtornos específicos na aprendizagem escolar, aspectos vinculados disfunções neuropsicológicas e imaturidade, além de demandas oriundas da própria vida emocional dos aprendentes e de uma série de outros fatores presentes na dinâmica relação entre corpo, organismo, desejo e inteligência. A Psicopedagogia que defendo é vital para nutrir os espaços do aprendere do ensinar,com uma Didática do Assombro, onde sejamos capazes de perceber que aquilo que não conhecemos pode ser uma boa oportunidade de aprendermos juntos, uns com outros, quando desejamos colaborar para o sucesso de nossos empreendimentos e ações como educadores.

— Em sua obra, o senhor se propõe a mudar o foco das discussões e apontar novas possibilidades de percepção sobre o fracasso escolar. Que mudança de perspectiva em relação ao problema seria essa?
Tenho trabalhado com afinco, faz alguns anos, com estudos e pesquisas sobre este complexo tema em nossa Educação. O livro Do Fracasso Escolar ao Sucesso na Aprendizagem: proposições psicopedagógicasé fruto deste movimento, pois como educador sempre me incomodou ver as visões distorcidas a este respeito. um modo geral, coloca-se a culpa do fracasso dos aprendentes tão somente no sujeito que se deseja educar e acaba-se por esquecer que todo processo de aprendizagem é dinâmico, sistêmico e interdependente. No entanto, família, sociedade, sujeito aprendente e instituições educacionais se integram neste processo e devemos cuidar, de mediações educativas que todos se sintam envolvidos: afinal, educação deve compromisso de todos nós.

— O papel do professor, naturalmente, deve ser fundamental para motivar o aluno. Mas, e quando esse professor não está devidamente motivado, até por não receber o reconhecimento que merece? O que um gestor escolar pode fazer para, mesmo em um quadro como esse, motivar seu professor?
Tenho defendido a seguinte ideia: se assumo frente a mim mesmo que desejo continuar atuando em Educação, devo me posicionar frente a isso com integralidade, em minha inteireza, propondo fazer da melhor maneira possível aquilo que esta presente em tal assunção. O reconhecimento do trabalho nosso em Educação será fruto de movimentações nossas para que seja possível o resgate da dignidade do exercer a docência. Docentes são gestores de suas salas de aula e gestores de escola devem saber-se motivadores e convencer, a todos os envolvidos, que só com parcerias e buscas por soluções coletivas poderão gerar melhores resultados.

— Um dos problemas apontados por muitos educadores atualmente é o distanciamento entre alunos e professores. Como aproximá-los, incentivar o respeito mútuo entre eles, como existia em outras épocas? O que é fundamental para isso?
Há, nesta questão, um belo desafio a ser vivido. Hoje, crianças e jovens vivem em um tempo novo, afinal estamos num novo século e, o que é melhor, um novo milênio se inaugurou. As vivências em sala de aula serão significativas para todos a partir do momento que pais, filhos, educadores e gestores criarem espaços de dialogicidade. É o resgate do diálogo que fará com que valores humanos sejam ressignificados e projetos de construção do novo ganhem visibilidade e efetividade. O fundamental para isso é formação permanente para todos os envolvidos no belo ato humano de educar

— E com relação ao bulliyng: qual a estratégia mais adequada para as escolas enfrentarem esse problema?
da ação judicial pedindo a prorrogação do prazo de inscrições, o  em atenção e disponibilidade para aprender a lidar com este fenômeno, não recente na história das relações humanas e nas interações dentro das instituições. A grande questão é buscarmos criar novas estratégias no que diz respeito ao dinamismo social que é a vida em grupo.  No campo psicopedagógico, - principalmente com a Psicopedagogia Preventiva -, tenho atuado com uma oficina psicossocioeducativa chamada “O bullying
nosso de cada dia”, onde vivenciamos de modo dinâmico os conceitos de igualdade e diferença. A pergunta principal nesta intervenção é: -”Somos Iguais e Diferentes: em quê?”

— Outros pólos fundamentais da educação que se encontram distantes são a família e a escola. Os pais, por exemplo, reclamam frequentemente de falta de interesse e excesso de exigências da parte dos educadores. Os responsáveis têm razão nessa queixa?
A Educação é tarefa principal dos pais. Hoje, com todas as modificações sociais que a nós se apresentam cotidianamente, a família e a escola precisam revisitar suas práticas e rever conceitos antigos e modos de ser e estar no mundo, infelizmente definitivamente ultrapassados. Os pais, em suas queixas, podem ter muita razão, mas as exigências aos educadores, em muitas situações, beiram o absurdo.  Sem sombra de dúvida, o novo assusta. Resta-nos apenas uma alternativa: a busca de soluções compartilhadas, “coopetentes” e cooperativas, que são possíveis quando existe, de fato, comprometimento com a formação do sujeito aprendente, que somos todos nós ao longo da vida.

De outro lado, os professores também reclamam da falta de limites, por parte dos pais, em relação a seus filhos. E argumentam que essa postura excessivamente permissiva prejudica o trabalho dos professores, na medida em que o estudante tende a achar que pode fazer tudo o que quiser na escola, assim como faz em casa. Os educadores têm razão em sua queixa?
Questão polêmica e de extrema relevância hoje: a construção dos limites. Sem eles, os limites, a tendência do humano é achar que tudo pode e que tudo lhe será permitido. Houve, historicamente, um retrocesso. Depois de anos vivendo uma história social repleta de autoritarismo, a tendência foi a de criar um tanto de justificativas para deixar de lado a voz que deve comandar e o papel do sujeito que educa. Sem limites, não há possibilidades de construção de bons hábitos, boas maneiras, boas atitudes. Transferir este responsabilidade somente para os professores é injusto, pois sistemicamente existem bases onde o caráter de cada um de nós se constrói e reconstrói.

— Por que é tão difícil aproximar família e escola nos tempos atuais?
Aproximar família e escola nos tempos atuais é imenso desafio, visto que hoje vivemos a emergência do agora, do hoje e somos, em muitos casos, ocupados demasiadamente com múltiplas tarefas que exigem muitas horas de nosso cotidiano. Na verdade, o nosso movimento hoje deve ser o de dialogar, falar com essência, verdade e profundidade sobre o que, de fato, estamos sendo: sujeitos que só consomem ou pessoas que se preocupam com nosso destino humano comum?

— O que as escolas poderiam fazer para aproximar os pais e responsáveis do cotidiano escolar dos alunos?
Seduzir pessoas e criar momentos de integrar pessoas. Em nosso país, um movimento bonito é o das Escolas de Pais, um modelo de formação de pessoas que lida com o desafio e a missão de apoiar pais, futuros pais e agentes educadores a formar, com criticidade, cidadãos conscientes de suas ações e interações.

— O senhor realiza palestras para professores em todo o país. Em seus contatos com os professores, de que o senhor percebe que eles sentem mais falta?
É interessante perceber que de norte a sul do país, o que eu percebo com maior falta e, portanto, desejo, reside na formação continuada relevante e acesso aos estudos de aperfeiçoamento e especialização adequados a cada realidade. O desafio, no que concerne a elaboração de políticas públicas efetivas, é criar novos modelos de formação em serviço, validando as histórias de vida dos educadores e reforçando sua importante tarefa de formar pessoas e colaborar para a construção de uma sociedade mais justa, fraterna e equânime. É vital nos nutrir com campanhas governamentais que sigam valorizando os profissionais de Educação.

— Muitos falam na desvalorização e no desprestígio com os quais vem sofrendo a carreira do magistério. No seu contato com os professores, o que o senhor percebe, neles, a frustração e a insatisfação por não serem valorizados como deveriam?
Tal percepção é bem real e, em minha própria história pessoal e biografia profissional, em muitos momentos, percebo esta desvalorização e desprestígio. No entanto, é uma opção que devemos fazer. Ficar esperando o grande dia de sermos reconhecidos é caminhar sem enxergar possibilidades de luz. Ser e estar atuando em Educação, em sua possibilidade de evolução pessoal e autoconhecimento, é nossa maior validação, como sujeitos que desejam construir uma cultura de paz, de não-violência, de valores e direitos humanos, a partir do espaço mágico da escola.

— O que, a seu ver, seria fundamental para valorizar o professor no país?
A meu ver, o fundamental para a valorização nossa, enquanto profissionais da Educação, está na elaboração de políticas públicas que sejam eficazes na aplicação de verbas destinadas às escolas, aos planos de cargos, salários e funções, além da formação continuada. Continuar movimentos sociais efetivos que humanizem a própria escola é outra importante tarefa a ser realizada. Lembrando e parafraseando Edmund Spenser (1552 – 1599), poeta inglês do Renascimento, acredito que os verdadeiros educadores “lutam por nós, (...) velam por nós e nos guardam devidamente. Tudo por amor, sem exigir recompensas”. O momento é este: recompensar os esforços de todos nós, educadores e educadoras deste país, com a construção de uma Pedagogia da Amorosidade, que seja
elaborada ocupando-se e preocupando-se com a Vida e a Educação no Novo Milênio, dignificando,  com salários justos e condições de trabalho adequadas, nossas intervenções e atuações. Atuemos com Amor, mas sejamos recompensados por isso.

Por: Diego Da - [email protected]
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