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Quadro trágico para os professores brasileiros


Um dos temas da área de Educação mais discutidos em 2012 foi a situação salarial do professor no país. A resistência de estados e municípios em pagar o piso nacional do magistério, de R$1.450, para 40 horas semanais, e as reclamações quanto à fórmula de reajuste anual mostraram a dificuldade que ainda existe criar condições mais atrativas para a carreira, em especial, na rede pública.

No entanto, não são poucos os educadores que defendem que o piso nacional não é suficiente para atingir esse objetivo. É o caso, por exemplo, do pedagogo, palestrante e autor de vários livros que têm o professor como foco, Hamilton Werneck. “O salário é desmotivador, as condições de trabalho também e falta reconhecimento, por parte da sociedade brasileira, do valor do professor para proporcionar uma qualidade de vida melhor e um desenvolvimento econômico maior”, destacou.

Nesta entrevista, além da situação salarial, Hamilton Werneck analisa as condições de trabalho, as razões falta de profissionais para atuar em sala de aula, as justificativas que os governos usam para não pagar salários dignos a seus professores e salienta que também é preciso cobrar dos profissionais.

“A melhoria virá quando houver uma efetiva avaliação dos trabalhos docentes dentro de uma escola, maior contemplação do mérito profissional e afastamento da política eleitoreira através de diretores nomeados por lideranças partidárias.

FOLHA DIRIGIDA - Como o senhor avalia a situação do professor brasileiro, do ponto de vista salarial?
Hamilton Werneck - Os salários dos professores brasileiros são muito baixos, inclusive para os que possuem formação além da licenciatura. Há, no país, algumas “ilhas de excelência”. Mesmo se considerarmos o piso nacional proposto de R$1.451 em valores brutos, para quarenta horas semanais, considerando-se o descanso remunerado, cada aula ultrapassa muito pouco o valor de R$7,00.  É um salário desestimulante para quem completou o curso de licenciatura. A visão do professor quando atinge este nível é muito mais ampla e seus afazeres acadêmicos demandam uma formação continuada dependente de mais leitura e mais cursos complementares. Além disso, é importante compreender que o bom professor é aquele que produz mais trabalho para si mesmo.

Atualmente faltam professores de várias disciplinas no mercado. O que tem desmotivado esta baixa procura pela carreira?
O salário é desmotivador, as condições de trabalho também e falta reconhecimento, por parte da sociedade brasileira, do valor do professor para proporcionar uma qualidade de vida melhor e um desenvolvimento econômico maior. Calcula-se que haja uma falta global em torno de trezentos mil professores. Para cada dez professores de física, por exemplo, somente três são licenciados. Por causa disso, muitos profissionais que atuam em sala de aula não são professores. O profissional trabalha como engenheiro agrônomo, porém, é professor de Matemática. Pode este profissional, saber Matemática, no entanto, desconhece a linguagem Matemática e os caminhos mais adequados ao ensinar, para um aluno aprender. Assim, sucateada a educação, em seu elemento mais importante, toda a sociedade perde.

Alguns estados ainda têm resistência em cumprir o Piso Nacional do Magistério. Como o senhor vê essa postura?
Isto significa que o gestor não prioriza a educação. Além disso, quanto mais as verbas da educação destinam-se aos salários, menor a margem para desvios. A educação leva a um município uma verba invejável, capaz de fazer brilhar os olhos de um gestor não comprometido com a educação da população. Então, muitos esquemas são usados para estes desvios, impedindo que se aplique o que é de lei, na formação do povo brasileiro. A questão de nossa educação não é falta de verba é falta de gestão. O município de Itinga do Maranhão, na divisa deste estado com o Pará, paga um pouco mais de R$2.400,00 para os professores com quarenta horas de contrato. Isto equivale a um contrato de quarenta horas semanais, no estado do Rio de Janeiro para quem lecionasse por trinta e dois tempos-aula e acrescentasse mais oito em reuniões de planejamento e formação. Note-se que Itinga do Maranhão vive de repasses e de extrativismo vegetal.

Vários governos, inclusive municipais, alegam falta de verba para pagar o piso do magistério. O senhor, que acompanha essa questão da valorização do magistério há vários anos, concorda com essa tese? Realmente faltam recursos ou, na maioria dos casos, o que falta mesmo é vontade política? Por que?
Infelizmente alguns gestores enfrentam dificuldades, inclusive de formação em seu corpo docente. Há um círculo vicioso quando o gestor público tem uma atitude anticonstitucional de protelar concursos públicos ou aplicá-los com grau de dificuldade muito elevado gerando poucos aprovados e permitindo a permanência por mais algum tempo de profissionais com graves deficiências acadêmicas. O Ministério Público em muitos estados está diminuindo os espaços para esses políticos. A solução só seria definitiva, quanto aos concursos, se houvesse uma prova nacional para contratação de professores, formando um banco de “reserva” onde, obrigatoriamente, o gestor deveria recorrer para preencher os seus quadros. Quando há falta de vontade política na base, só uma ação vigorosa do Ministério da Educação poderia equilibrar essa questão. Mas, em suma, qual a razão dessa postura? Simples para se entender: quanto pior a educação da população, mais fácil a sua manipulação.

O piso nacional, se cumprido, ainda assim resolveria o problema da baixa remuneração dos profissionais do magistério?
Nas cidades de interior, onde o custo de vida é mais baixo e a média dos salários é muito próxima do mínimo nacional, um professor pode sentir-se mais confortável com o piso nacional do magistério. Nas cidades de porte médio, seja econômico, seja social, este salário não atende às necessidades, sobretudo para os profissionais que trabalham em várias escolas para cumprir a carga horária. O bom professor trabalha três vezes e ganha uma vez. A preparação das aulas e as correções dos exercícios dos alunos não são computadas para pagamento de salário. A remuneração é correspondente às aulas efetivamente lecionadas.

Além da questão salarial, quais as outras demandas mais urgentes em relação ao magistério?
Sem dúvida a formação continuada deste profissional. Não há empresa séria, hoje, sem uma preocupação efetiva com a melhoria de seu capital humano. As condições de trabalho e a preparação dos professores para lidar com tecnologias mais avançadas é outro fator, dado que já constatamos em muitas cidades, um alunado mais familiarizado com tecnologias de comunicação que os seus professores. Para esses alunos a escola vai se transformando num museu pouco atrativo, enquanto ele vive num verdadeiro parque de diversão. A grande lacuna será estabelecida quando os alunos tiverem mais informação que os professores, sem saber discernir entre o verdadeiro e o falso, o bom e ruim. Teremos, então, uma potente ferramenta nas mãos de adolescentes despreparados e sem receber, através das escolas, orientação para o uso dessas tecnologias. A carência de informação e seu respectivo discernimento poderão ser piores que a falta de alimento.

Vários governos têm priorizado “investir” no professor por meio da compra de computadores, notebooks e, mais recentemente, com o MEC, por meio da aquisição de tablets. Isso realmente representa valorização do magistério?
Disponibilizar tecnologias para os professores é um modo de reconhecer que eles precisam ter acesso a elas. De um lado, não devem substituir salários, nem representar a oferta de uma espécie de “brinquedo”; de outro, essas ferramentas sendo bem usadas, facilitarão a vida profissional do educador, permitirão sua formação continuada e diminuirão o seu tempo efetivo de trabalho. O que precisa vir junto com as novas tecnologias é a política de informática para o sistema educacional e a preparação dos professores para o uso desses recursos. Há tristes histórias, não comprovadas, de venda desses instrumentos ou o empréstimo deles para que outros familiares, geralmente mais jovens, façam uso para jogos e comunicação pelas redes sociais.

Onde a situação do professor, de maneira geral, é mais precária: nas redes estaduais ou nas redes municipais de ensino? Por que?
A situação é mais precária onde os gestores não têm vontade política em relação à educação. Conheço escolas muito boas com os gestores distantes ou próximos, porém, com uma direção escolar competente, não oriunda de indicação política, mas escolhida por mérito. Conheço escolas com direção próxima e as caixas dos computadores do MEC ainda fechadas porque há pressões dos docentes para que não sejam usadas porque terão de aprender alguma coisa nova. Enquanto o gestor, na ponta do sistema educacional tiver uma nomeação política e, não, por mérito, o quadro será precário.

Os professores da rede privada têm os mesmos problemas de maneira geral que os da rede pública? Ou as dificuldades são muito distintas?
As dificuldades são muito distintas porque as famílias são mais presentes nas escolas particulares. Os professores da rede particular são mais compromissados até porque não são efetivos. As escolas particulares fazem de modo formal ou informal uma avaliação institucional contínua. A escola particular sabe que não pode enviar um aluno para a série seguinte se ele não souber. Na escola pública muita gente é empurrada para outras séries por falta de compromisso, por falta de ética.  As coordenações nas escolas particulares funcionam para melhorar o ensino, muitas vezes na escola pública ela ocupa uma função meramente burocrática e disciplinar. Na maioria das escolas particulares os salários são melhores que nas escolas públicas.
 
Muito se fala em um crescimento da ocorrência da casos de violência nas escolas. De que forma isto tem afetado os professores?
Há casos de violência nas escolas, há desrespeito aos professores como resultado do descaso que a sociedade pratica em relação a esses profissionais. As causas são conhecidas: desestruturação das famílias, agressividade no entorno da residência da criança ou dentro de sua própria casa e falta de explicitação, por parte da escola e de toda a comunidade escolar, de normas de conduta, constantemente repetidas e analisadas com os alunos, professores e famílias. Em consequência várias síndromes afetam o corpo docente que, quanto mais estressado, menos produzirá. A oferta de segurança militar a algumas escolas pode diminuir a incidência dessa violência, embora casos ocorram no Brasil e outros países onde, mesmo com a presença de guardas, a violência existe. É um triste resultado: quando a escola perde a sua missão de desenvolver o sonho, a educação e o respeito acabam tornando-se um caso de polícia!

O senhor vê perspectivas de melhoria da qualidade da educação, sem que os professores sejam efetivamente valorizados pelo poder público? Por que?
A melhoria da qualidade somente virá quando o professor recobrar a sua autoridade, manifestar a sua competência, buscar a formação continuada, perceber-se reconhecido pela sociedade com quem ele, por sua vez, é comprometido. A melhoria virá quando houver uma efetiva avaliação dos trabalhos docentes dentro de uma escola, maior contemplação do mérito profissional e afastamento da política eleitoreira através de diretores nomeados por lideranças partidárias.

O que é fundamental para ser um bom professor, nos dias de hoje?
Além de tudo o que foi explicitado nesta entrevista, um bom professor precisa saber dar aula. É simples, porém, importante. Quando há muitos anos uma normalista completava seus estudos, ela sabia duas coisas: alfabetizar uma criança e dar aulas. Hoje, depois das resoluções do Conselho Nacional de Educação que acabaram com o curso Normal Superior e, praticamente o redefiniram como licenciatura em Pedagogia que pode ser concluído em três anos, os acadêmicos licenciados têm pouca prática e, geralmente, não sabem alfabetizar e dar aulas. Estudam excessos de teorias de vários “fósseis pedagógicos” espalhados pelo mundo e se esquecem dos grandes valores nacionais como um Anísio Teixeira e um Paulo Freire.
 

Por: Diego Da - [email protected]
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