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Qualificação profissional para fomentar o crescimento econômico


A ampliação da educação profissional, com o aumento do número de ofertas em cursos técnicos, tem sido uma das políticas centrais do governo federal. Por possibilitar a formação de mão de obra qualificada em tempo relativamente curto, essa modalidade de ensino é vista como um dos caminhos para suprir a demanda de trabalhadores para o Brasil, que, além de se preparar para sediar grandes eventos, como a Copa do Mundo de futebol, em 2014, e a Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016, vive, nos últimos anos, um forte processo de desenvolvimento e já ocupa posição de destaque entre as principais economias do mundo.

Apesar do sonho da maior parte dos estudantes ainda ser cursar uma universidade de ponta, muitos já enxergam no ensino técnico e profissionalizante um atalho para iniciar sua trajetória no mercado de trabalho, obter maiores salários e, até mesmo, como alternativa para o ensino superior. "Hoje, vemos gente da classe média dizendo que quer ver o filho em escola técnica. Isso mostra que estão descobrindo que é possível conseguir bons empregos. É uma ótima opção ser um técnico em áreas como Segurança do Trabalho, Química e Biologia, por exemplo. Além de pagar bons salários, o mercado é certo, pois existem muitas vagas", afirmou Celso Pansera, presidente da Fundação de Apoio à Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro (Faetec).

Em entrevista à FOLHA DIRIGIDA, Pansera falou sobre a estrutura da instituição e sobre o crescimento da oferta. De acordo com ele, a meta é consolidar 300 mil vagas de qualificação profissional por ano, no Estado do Rio de Janeiro. A previsão é que esse número seja atingido já no ano que vem. "Temos uma economia que, de repente, se descobriu complexa e em desenvolvimento. Então, não há profissionais para operar essa quantidade de máquinas, suprir tanto comércio e tantas obras. Portanto, precisamos resolver esse gargalo e a Faetec trabalha para isso", garantiu.

FOLHA DIRIGIDA - De que forma a política de criação de vagas na Educação Profissional no Estado se articula com as demandas dos grandes eventos esportivos que ocorrerão no país?
Celso Pansera - Nós trabalhamos em dois eixos. O primeiro, e principal, é o das oportunidades de geração de empregos que esses eventos trazem para o país e, mais especificamente, para o Rio de Janeiro. Nesse momento o foco está mais voltado para a infraestrutura, particularmente construção civil e logística. Durante os eventos, os setores mais requisitados serão aqueles que envolvem hospitalidade, lazer e turismo. A Faetec tem essa vertente de trabalhar dentro do eixo de oportunidades.
A segunda forma, que é um pouco menos importante, mas também atuamos, é a capitação de talentos para os jogos olímpicos, através dos nossos polos esportivos. São cerca de 15 mil vagas por ano só na área de prática esportiva para a comunidade. Poucos projetos esportivos no Rio de Janeiro oferecem tantas oportunidades em modalidades como natação, judô, futebol, vôlei, basquete e, até mesmo, dança. É um conjunto de possibilidades dentro da estrutura da Faetec para a comunidade em seu entorno. Portanto, entramos nos dois contextos.

Qual é a expectativa para a criação de vagas na Faetec durante os próximos anos? Em quais áreas e cursos haverá maior aumento na oferta?
Queremos abrir 300 mil vagas de qualificação profissional por ano, em todo o Estado. Estamos chegando perto disso. Hoje, temos em torno de 280 mil oportunidades. Acredito que a meta desejada será atingida no ano que vem. Além disso, ofertamos 12 mil vagas no ensino técnico e pretendemos chegar em 16 mil, até 2014. No tecnólogo, que já é no nível de graduação, mas voltado para o chão de fábrica, como logística, gerenciamento de produção, entre outras, precisamos chegar em torno de 2.500 por ano. O número atual é de 800 por ano. Em meados de 2015, devemos alcançar o objetivo. Esse é o mundo do trabalho que a Faetec precisa atender para que o Rio tenha, daqui a alguns anos, capacidade plena de oferecer os profissionais que o mercado precisa e não tem hoje.

A demanda por esse tipo de profissional é tão alta assim? As empresas, de fato, absorvem rapidamente essa mão de obra?
O crescimento econômico dos últimos anos fez com que o Brasil descobrisse que não tem mão de obra. A Uerj tem aproximadamente 40 novos laboratórios de alta complexidade para os cursos de graduação e pós-graduação, porém não possui técnicos para trabalhar como auxiliares. Abriram um concurso para contratar 12 deles nas áreas de Física e Química, mas só 10 se inscreveram e apenas dois passaram na prova. Então, veja como a tarefa é complicada. Isso não será resolvido de um ano para outro, porque as gerações já estão aí no mercado. Precisamos ensiná-las a trabalhar com instrumentos de um grau de complexidade nunca visto. Costumo dizer que a Faetec está trocando pneu com o carro andando. Temos uma economia que, de repente, se descobriu complexa e em desenvolvimento. Então, não há profissionais para operar essa quantidade de máquinas, suprir tanto comércio e tantas obras. Portanto, precisamos resolver esse gargalo e a Faetec trabalha para isso. Não conseguimos, por exemplo, colocar um número suficiente de garçons no mercado. O mesmo acontece em funções como auxiliar de cozinha, cozinheiro, soldador, profissionais na área de tubulações e construção civil. A demanda é tão forte que, aqueles que pegam o diploma, conseguem emprego imediatamente. Isso vale para qualquer área.

Mesmo assim, uma parcela pequena dos estudantes do ensino médio pensa na educação profissional. A maioria ainda prefere ingressar em cursos de graduação.

É um problema de cultura. Quando a criança nasce, o pai já diz que ele vai ser médico, engenheiro, administrador. No entanto, o jovem descobre suas vocações e oportunidades de trabalho quando vai para a escola. Até então, ele não sabe. Temos explicado para as famílias que o jovem pode ter 18 ou 19 anos, entrar no mercado de trabalho com uma remuneração razoável e depois ir para o ensino superior, mesmo que seja para satisfazer sua autoestima. Ou seja, continuaria trabalhando como técnico, mas com graduação de ensino superior. Vi uma reportagem sobre as categorias que mais pagam. Há muitos profissionais com ensino superior trabalhando em atividades que exigem nível médio e ganhando salários de nível médio. Então, é o mercado de trabalho. É questão de cultura. Se todos quiserem ingressar no ensino superior, não haverá vagas. Não há como absorver.

Como estimular os jovens a cursarem o ensino técnico? Podemos esperar mudanças nesse panorama durante os próximos anos?

O desafio é fazer os jovens e as famílias compreenderem que é possível ter uma boa remuneração atuando em uma atividade que exija ensino técnico. Segundo a reportagem, um médico ganha, em média, R$8.500. Depois, vêm algumas áreas de Engenharia, entre R$5.500 e R$7.500. Um arquiteto está na faixa de R$4.500, R$5 mil. Um professor do ensino médio, no Rio de Janeiro, tem média salarial é de R$2.700. E existem algumas categorias do ensino superior com remuneração de R$1.900. Um soldador recebe entre R$2.500 e R$3 mil. Um técnico em eletrotécnica pode perfeitamente ganhar o mesmo. O técnico sabe operacionalizar, calibrar e regular instrumentos. É um profissional que traz segurança para uma fábrica funcionar. O técnico em edificações garante que o que
está no cálculo estrutural do engenheiro seja feito corretamente pelo pedreiro em uma obra. Então, ficam nesse meio de campo onde um bom profissional de nível técnico pode ganhar melhor do que algumas carreiras de nível superior. Atualmente, já vemos, na classe média, um interesse maior pela escola técnica. Isso mostra que estão descobrindo que é possível, com esta formação, conseguir bons empregos. É uma ótima opção ser um técnico em áreas como Segurança do Trabalho, Química e Biologia, por exemplo. Além de pagar bons salários, o mercado é certo, pois existem muitas vagas. Portanto, a classe média já entendeu que o ensino técnico pode ser um bom caminho. Além disso, com apenas 19 anos, o jovem já está no mercado de trabalho. Se ele optar por fazer o ensino médio e depois um curso de nível superior, se formará, mais ou menos, com 22 anos. No ensino superior, geralmente, a remuneração é maior, mas não existe mercado para todos. Vejo estudantes cursando Administração em faculdades privadas e pagando, mais ou menos, R$500 de mensalidade. Se ele fizesse um tecnólogo de Gerente de Processos Produtivos, seria um administrador formado na área de produção de chão de fábrica. Se fizesse técnico em Segurança do Trabalho, teria mais mercado e um salário melhor que aquele formado em Administração. Essa batalha de conscientização é muito importante.

Na sua opinião, são esses fatores que têm levado ao aumento de matrículas nos cursos superiores de tecnologia, uma das modalidades que mais cresce atualmente?
É, porque dá continuidade ao ensino técnico. Geralmente, são jovens que fizeram o médio e técnico, percebem que estão bem na profissão e decidem ter o superior também. Um técnico em Informática, por exemplo, pode fazer um curso superior de Tecnologia em Sistemas de Informações. Se é técnico em Segurança do Trabalho, pode tornar-se tecnólogo na mesma área. É nesse nicho que a Faetec atua e acredita que tem como garantir boa empregabilidade e bons salários.

O governo federal lançou, no início do ano, o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico ao Emprego (Pronatec), cujo objetivo é expandir o número de matrículas no segmento. Como o senhor avalia os primeiros meses do programa? Qual impacto teve na Faetec?

Precisamos avaliá-lo por diferentes ângulos. O primeiro ponto positivo é que o MEC acordou para um problema. O governo federal precisa atuar em qualificação profissional. Durante 10 ou 15 anos, não foi aberta nenhuma escola técnica. Com o crescimento econômico, começaram a criar Institutos Federais Tecnológicos, que são muito complexos. Hoje, os Cefets são faculdades querendo se tornar universidades. Então, o MEC perdeu-se no caminho para o ensino técnico e qualificação profissional. Assim, criou um programa que não só incentiva, mas também conceitua o que é isso. É algo muito importante deixar de chamar qualificação profissional de curso livre. O Pronatec tem esse primeiro aspecto positivo, que organiza e cria uma legislação para a qualificação profissional, o que não existia no Brasil. O Pronatec busca incentivar a criação de novas vagas, mas surgiu com um problema: voltado apenas para o sistema S, desprezando as redes estaduais que já existiam, como as da Bahia, Ceará, Minas Gerais e São Paulo, por exemplo. São estados que apostaram firmemente nisso. Como foi feito para o sistema S, uma estrutura importante foi ignorada. Passamos a pressionar o MEC para mudar o programa e aceitar também as redes estaduais. Isso foi resolvido recentemente. Já estamos acertando com o Ministério da Educação nosso ingresso no Pronatec.

Quais são os principais projetos em desenvolvimento na Faetec atualmente e o que já está programado para os próximos anos?

Teremos uma atuação ainda mais marcante em 2012. Entregamos a ampliação do CVT de Polímeros de Saracuruna, voltado para o polo gás-químico. No dia 31 de maio, entregamos o CVT de Nilópolis para atuar na área de Construção Civil, Costura e Gastronomia. Em 1º de junho, entregamos o de Três Rios, que é muito grande e voltado para Construção Civil, Informática e Logística. As aulas já começarão a partir de agosto. Além disso, estamos em obra para entregar, no segundo semestre, uma série de unidades: Magé, na área de Construção Civil; São Gonçalo, focado no polo do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj); Macaé, voltado para o Offshore; Barra Mansa e Nova Iguaçu, na área de Serviços; Silva Jardim, onde não existe escola técnica; Valença, com aposta na área de Metalurgia. Pretendemos entregar todas essas unidades até o final do ano para que as aulas já possam começar em em 2013. Em Volta Redonda, temos uma pequena unidade. Queremos ampliá-la e colocar como escola técnica e de ensino superior.

Como a Faetec define onde as unidades serão instaladas e para qual setor ela será voltada?
Alguns órgãos têm estudos de mercado, de vocação econômica de cada região. A Faetec, na nossa gestão, passou a trabalhar com vocação. Por isso, criamos os Centros Vocacionais Tecnológicos. Antes de determinar onde a unidade vai entrar, vemos onde há demanda de mão de obra e qual é essa demanda. A partir daí, montamos escolas focadas na economia daquela região, bairro ou cidade. Cruzamos diversos mapas de vocação econômica e demanda de trabalhadores e, depois, determinamos quais unidades vamos implantar, de acordo com as características do local.

Por: Larica Santos - [email protected]
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