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Sustentabilidade é questão de educação


Cada vez mais, o tema da sustentabilidade está presente na educação básica e nos currículos do ensino superior. No entanto, além de analisar de forma crítica esse conceito, que já passou por algumas transformações pouco mais de duas décadas, educadores e gestores de ensino devem ficar atentos à disseminação de práticas sustentáveis no ambiente escolar.

Quem defende a ideia é André Luiz Esteves, professor da Universidade Estácio de Sá que ministra palestras sobre o tema. Segundo o especialista, um dos coordenadores da Pastoral da Comunicação do Vicariato Norte, da Arquidiocese da cidade do Rio de Janeiro, a incorporação da sustentabilidade é fundamental para formar os cidadãos atualmente.

Nesta quinta, dia 5, quando é festejado o “Dia Mundial do Meio Ambiente”, André Luiz Esteves sugere que a sustentabilidade deva ser intrínseca à aprendizagem de crianças e jovens, e também deva integrar os cursos de formação de professores.

“A sustentabilidade não é algo que tem início, meio e fim; ela é todo o processo. Por isso, é fundamental que se compreenda que ela deve permear toda a aprendizagem do professor e, consequentemente, sua prática. Para melhor ensinar sobre sustentabilidade é preciso viver a sustentabilidade”, explicou.

Por outro lado, observou o especialista, cada vez mais consumidores e empresas estão atentos à cobrança de práticas sustentáveis, o que confere aos profissionais que se aprofundarem nesse campo de conhecimento largas perspectivas no mercado de trabalho.

Formado em Direito, André Luiz lamenta que a Copa do Mundo, prestes a começar, não deixará um expressivo legado de práticas sustentáveis para sociedade brasileira. “O Maracanã, por exemplo, teve como parte de seu projeto a captação de água da chuva para o seu reaproveitamento nos gramados, entre outras iniciativas. O potencial que o Brasil precisava atingir para fazer um excelente trabalho, que deixasse um legado para toda a população, não foi alcançado”, ponderou.


Como o senhor define o conceito de sustentabilidade?
André Luiz Esteves - A sustentabilidade é um conceito que envolve o “ser” e não o “ter”. Esse conceito gera a capacidade consciente do indivíduo e uma gestão otimizada dos recursos disponíveis, onde a preocupação com os detalhes possam garantir o equilíbrio ambiental, social e econômico para as gerações atuais e futuras.

Há alguns anos, as pessoas entendiam que a sustentabilidade se referia apenas às questões do meio ambiente. Quando e por que esse conceito mudou?

No relatório de Brundtland para as Nações Unidas, de 1987, foi onde surgiu o conceito de desenvolvimento sustentável. Este conceito estava estritamente vinculado à utilização dos recursos naturais. Mas após a ECO 92 e ao longo dos anos o conceito começou a entrar em diversas áreas. Hoje, o conceito de sustentabilidade não envolve somente a área ambiental, mas sim a social, econômica, política, cultural e estética. Hoje a sustentabilidade é fundamental no desenvolvimento de prática nas mais diferenciadas áreas, no sentido de transformar a ação do indivíduo em um projeto a longo prazo, como um ciclo orgânico.

Esse tema é tratado de forma adequada nas escolas de educação básica? Por quê?

As escolas do ciclo básico trabalham esse tema com seus alunos em períodos pré determinados pelo calendário escolar, o que é pouco. A sustentabilidade deve ser trabalhada em toda a etapa da aprendizagem: o tema deve ser intrínseco à aprendizagem da criança e do jovem. A formação escolar, hoje, não pode se preocupar apenas com a eficiência de um aluno em determinada prova ou vestibular, mas deve garantir um ensino múltiplo, que contribua para a formação da identidade do aluno-cidadão, atento às mudanças do mundo e do seu país, que busque explorar sua criatividade e ação para o melhor desenvolvimento da sociedade em que ele vive.

E no ensino superior, a sustentabilidade é efetivamente um tema transversal, tratado nos mais diversos cursos, ou ainda está longe do universo dos estudantes brasileiros?
No ensino superior há uma transformação gradativa em direção a levar a sustentabilidade para as salas de aula. Hoje, vários cursos, de diversas áreas, já oferecem matérias, efetivas ou eletivas, sobre sustentabilidade. Além disso, há uma crescente demanda para palestras sobre o tema, com diferentes abordagens, que aperfeiçoam o aprendizado do universitário. Umas das questões fundamentais abordadas é como a sustentabilidade requer um novo comportamento, uma nova maneira de ser e de agir, seja na vida privada ou no trabalho.

E nos cursos de pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado), o senhor acredita que esse tema é abordado de forma adequada?
Os cursos de pós-graduação têm suas peculiaridades que os diferenciam das graduações, que vai além do enfoque especializado. Há uma tendência crescente no mercado para áreas que atuem diretamente na transformação dos processos empresariais, levando-os a adotarem a sustentabilidade como essência. Com isso, cresce a oferta de cursos de pós-graduação que formem profissionais capazes de atender a essa demanda. Porém, essa é uma tendência que ainda se mostra em grande parte restrita aos profissionais que já atuam nas empresas, onde a especialização é necessária para o crescimento profissional do funcionário. Por outro lado, com a constante exigência pelo consumidor por empresas que implementam a sustentabilidade com sucesso em suas produções, a possibilidade de crescimento para os profissionais que procuram trabalhar com sustentabilidade é enorme.

Os conceitos relativos à sustentabilidade estão presentes nos cursos de formação de professores? Qual é a relevância desse tipo de abordagem nas licenciaturas?
Ainda é muito tímida a abordagem da sustentabilidade na formação dos professores. Assim como na formação das crianças e jovens, a sustentabilidade deve ser intrínseca à aprendizagem, na formação dos professores não poderia ser diferente. A sustentabilidade não é algo que tem início, meio e fim, ela é todo o processo. Por isso, é fundamental que se compreenda que ela deve permear toda a aprendizagem do professor e, consequentemente, sua prática. Para melhor ensinar sobre sustentabilidade é preciso viver a sustentabilidade.

Gestores educacionais estão atentos às questões de sustentabilidade, seja no currículo dos alunos, seja na infraestrutura das unidades de ensino?
Ainda há muito a avançar nesse sentido. Muitos gestores de universidades e escolas têm buscado inserir a sustentabilidade no currículo de seus alunos. Porém, essas iniciativas se resumem a datas específicas no calendário escolar ou disciplinas eletivas. O alcance dessas atividades é restrito a poucas pessoas em um universo de milhares. Se o ensino da sustentabilidade é algo intrínseco à formação geral, toda disciplina terá algo a acrescentar nesse caminho e, assim, gerará consciências e transformará as práticas.

E nas empresas, a sustentabilidade está na ordem do dia ou, diante da complicação do cenário econômico, esse tema fica em segundo plano?
As empresas se mantém a partir de seus consumidores, é estes quem orientam suas práticas. Com o aumento crescente de informação sobre os problemas ambientais acarretados por empresas insustentáveis, e o aumento da pressão dos governos sobre os impactos provocados por elas, a única opção para a sua sobrevivência é a transformação de sua produção e práticas. Hoje, custa muito caro para uma empresa não aderir ao conceito da sustentabilidade em todas as suas práticas comerciais, e o que se espera é que o consumidor ficará cada vez mais exigente e atento às empresas que fornecem seus produtos. Com a crise econômica, alguns países já aproveitaram a oportunidade e iniciaram um movimento para a transformação das formas de produção das empresas, visando garantir que sejam mais sustentáveis. Um exemplo disso são os Estados Unidos da América, que condicionaram ajuda financeira a algumas montadoras à construção de carros elétricos.

Que avaliação o senhor faz da conferência Rio+20, realizada em 2012? Que legado ficou para o país?
A conferência Rio+20 foi um palco novo para um debate antigo. Muito difícil a busca de consenso para a solução de problemas relacionados com o desenvolvimento sustentável. Em números globais, foi o maior encontro para renovar compromissos políticos e fomentar arranjos institucionais globais adequados para a transformação da economia com vistas à superação da pobreza. A avaliação do legado é complexa, pois envolve diversos aspectos, que vão além do documento oficial produzido pelos países. A Rio+20 trouxe o debate da sustentabilidade para a vida das pessoas comuns, que cada vez mais se interessam por isso. Nesse sentido foi um enorme ganho real.

O senhor acredita que o impacto da Rio+20 foi menor do que o da ECO 92? Por quê?
Em 1992 o mundo era outro. Existia computador, mas não com as facilidades de hoje. Em 2012, o contexto foi bastante diferenciado. Antes nem sequer se usava e praticava o conceito de sustentabilidade. A urgência de diálogo e direcionamento é mais do que claro. Trata-se de comparar forma e conteúdo. A Eco 92 foi o ponto de partida, por isso teve uma repercussão institucional mais acentuada. Já a Rio+20 enfrentou a temática de forma mais contundente; cada qual com sua contribuição relevante para a sociedade.

Como o senhor analisa as políticas públicas de sustentabilidade no setor educacional, sejam elas coordenadas pelo Ministério da Educação (MEC) ou pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA)?
As políticas públicas têm sido no sentido de promover maior integração dos currículos tradicionais com o tema da sustentabilidade. Isso é bom. Mas, por outro lado, ainda há um longo caminho a percorrer para que as disciplinas obrigatórias incorporem em seus conteúdos o viés da sustentabilidade. Esse é um desafio, já que a sustentabilidade é um conceito que tem como uma das áreas fundamentais a cultura. É preciso que o projeto educacional respeite e saiba interagir com a cultura em seus mais diversos aspectos e representações. E nisso o MEC tem estado atento.

O dia 5 de junho é o Dia Internacional do Meio Ambiente. O que o país e, especificamente o Rio de Janeiro, podem comemorar nesse dia?
Muito pouco. No dia do meio ambiente os índices de desmatamento na Amazônia continuam subindo, as tribos indígenas continuam a serem afligidas em seus direitos ancestrais sobre a terra e o índice de veneno na comida do brasileiro ainda é um dos maiores do mundo. No Rio de Janeiro não é muito diferente, com os parques ecológicos sem manutenção, rios e lagoas a beira da morte e a Baía da Guanabara, que é palco das corridas a vela na Olimpíadas de 2016, totalmente poluída e sem perspectiva de recuperação a curto prazo. Nos últimos anos, o Brasil e o Rio de Janeiro têm deixado a desejar em relação à preservação do nosso patrimônio ambiental. Este patrimônio que, em uma visão estratégica e sustentável de país, poderia elevar o Brasil a ser uma potência econômica, ambiental e social.

Que lições sobre sustentabilidade a Copa do Mundo pode deixar para o Brasil?

Infelizmente, a Copa no Brasil deixará pouco legado em várias áreas; e na perspectiva da sustentabilidade, deixará algumas iniciativas interessantes, mas de pouco alcance prático. Quando o Brasil se propôs a sediar a Copa do Mundo de 2014 se comprometeu a investir em diversas áreas, entre elas, infraestrutura e a construção dos estádios. Só a construção dos estádios prevaleceu. O restante ficou, em grande parte, em obras incompletas ou outras que não saíram do papel. Porém, nos estádios foram adotadas algumas iniciativas que vão de encontro a uma proposta sustentável. O Maracanã, por exemplo, teve como parte de seu projeto a captação de água da chuva para o seu reaproveitamento nos gramados, entre outras iniciativas. O potencial que o Brasil precisava atingir para fazer um excelente trabalho, que deixasse um legado para toda a população, não foi alcançado. Disso, tiraremos grandes lições, que com certeza, serão fundamentais para o futuro do planejamento e da gestão sustentável dos recursos públicos.

Serviço
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Por: Tainara Silva - [email protected]
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