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Tensão e contradições no ensino superior


A expansão do ensino superior brasileiro tem sido marcada pelo surgimento e consolidação de grandes grupos, que controlam diversas instituições de ensino e concentram parte significativa das matrículas. São conglomerados que adotam estratégias de gestão com foco na redução de custos e busca por receita crescente, que, por isso, dividem opiniões entre especialistas.

Para o reitor da Universidade Católica de Petrópolis, padre Pedro Paulo de Carvalho Rosa, o país vive um quadro de forte tensão. Para ele, enquanto, de um lado, ações do MEC têm contribuído para ampliar o acesso ao ensino superior entre os mais pobres, de outro, o acesso a ele tem se tornado, cada vez mais, capitalizado, pois foi transformado, na sua opinião, em um produto de consumo.

“Algumas instituições de ensino superior ficam sufocadas pelas leis do MEC que, para cumpri-las, se endividam ao ponto de sucumbirem. Nesse momento, muitas ‘empresas de ensino’ surgem como solução para o problema financeiro dessas instituições de ensino superior, que não veem outra saída senão a venda. Infelizmente, ainda que de forma indireta, o MEC tem favorecido essa prática”, destacou o reitor, que, nesta entrevista, fala sobre temas como avaliação do ensino superior, indicadores de qualidade do segmento, pontos positivos e negativos da política educacional do Ministério da Educação, papel da educação a distância para o país e sobre as seis décadas de existência da Universidade Católica de Petrópolis. Ele destacou, entre os diferenciais da instituição, o fato de ter 78% de mestres e doutores. Ele também falou sobre os planos da instituição para o curto e médio prazo.

“Pretendemos aumentar e intensificar a presença dos professores doutores nos cursos de graduação, e, em médio prazo, criação de mais um curso de doutorado; consolidar o intercâmbio acadêmico com universidades estrangeiras; em curto prazo obter o credenciamento para oferta de cursos na modalidade a distância; iluminar 100% dos dois Campi da UCP com rádios para acesso à internet por todos os alunos universitários e do Colégio de Aplicação”, destacou o padre Pedro Paulo de Carvalho Rosa.

FOLHA DIRIGIDA - A Universidade Católica de Petrópolis (UCP) chega a seis décadas de existência. Qual o papel da instituição não só para a Região Serrana, como para o Estado?
Padre Pedro Paulo de Carvalho Rosa - O papel da Universidade Católica de Petrópolis continua sendo o mesmo que inspirou D. Manoel Pedro da Cunha Cintra, primeiro bispo de Petrópolis, que a fundou com o objetivo de oferecer aos jovens uma formação sólida das ciências enriquecida à luz da mensagem cristã, hoje com ofertas de diversos cursos que totalizam 31 graduações, quatro mestrados e um doutorado: “uma verdadeira matriz do desenvolvimento cultural de Petrópolis” e região. E recebendo uma formação profissional de excelência, os estudantes, aqui formados, estejam em grau de vantagens na competitividade de vagas no mercado de trabalho, e sejam promotores da cultura da vida, de uma cultura verdadeiramente humana - por ser cristã.
 
A UCP de Petrópolis têm obtido bons resultados em avaliações nacionais de graduação e pós? Quais aspectos têm sido fundamentais para o bom trabalho acadêmico na instituição?
Sem dúvida o fundamental é a maturidade acadêmica da Universidade Católica de Petrópolis que, além dos cursos já mencionados, conta de diversos cursos de extensão, vasta pesquisa, participação em diversos conselhos em nosso município, e diversos núcleos de ação. A UCP conta com um corpo docente de 78% de mestres e doutores, mais que o dobro do que exige a lei nacional, uma verdadeira nata para atividade acadêmica. Há inserção dos professores doutores dos Programas de pós-graduação stricto sensu nos cursos de graduação - o que enriquece e eleva o nível de ensino e desperta para pesquisa. Temos os melhores laboratórios da Região Serrana e do interior do Estado que atendem perfeitamente aos seus devidos cursos.
 
Quais os planos de curto e médio prazo para a Universidade Católica de Petrópolis? Há perspectivas de expansão?
Em curto prazo, pretendemos aumentar e intensificar a presença dos professores doutores nos cursos de graduação, e, em médio prazo, criação de mais um curso de doutorado; consolidar o intercâmbio acadêmico com universidades estrangeiras; em curto prazo obter o credenciamento para oferta de cursos na modalidade a distância; iluminar 100% dos dois Campi da UCP com rádios para acesso à internet por todos os alunos universitários e do Colégio de Aplicação; Em médio prazo estender a experiência dos convênios com a Prefeitura de Petrópolis e Governo do Estado às prefeituras vizinhas, e, em médio prazo, fundar Campi avançados.

São seis décadas de existência. Quais os principais desafios enfrentados ao longo desta história?
As universidades em geral tiveram que se distanciar de sua identidade original, devido às exigências do mercado de trabalho, reduzindo-se, em muitos casos, em um espaço limitado à formação profissional. Para a UCP o grande desafio foi e é responder à demanda da sociedade pragmática e imediatista e, concomitantemente, manter a identidade original da universidade, que exige a formação integral da pessoa humana. Outro grande desafio é promover a excelência acadêmico/administrativa para atender às exigências do governo federal que impõe às Instituições de Ensino Superior leis que sufocam financeiramente as instituições particulares/privadas de ensino.

Falando um pouco de política educacional, como o senhor vê o sistema de avaliação do ensino superior no país? Ele apresenta falhas? Quais?
A avaliação do ensino superior é regulada pela lei nº 10.861, de 14 de abril de 2004, que estabelece que o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) deverá garantir avaliação institucional interna e externa, respeitando a identidade e a diversidade de instituições e cursos. No entanto, a avaliação do ensino superior é realizada com base em um elenco de indicadores absolutamente iguais para qualquer instituição de ensino superior. Assim, faculdades, centros universitários e universidades são avaliados sob os mesmos parâmetros, não se respeitando a diversidade das instituições.

Muitos afirmam que o alto índice de instituições de ensino superior reprovadas poderia ser um sinal de que, inclusive, a própria avaliação do MEC pode ter problemas. O senhor concorda?
Em princípio, sim. No entanto, é preciso ressaltar, aqui, que as notas que são amplamente divulgadas são apuradas com base nos resultados do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). Esta nota passou a ser, para o Ministério da Educação e para a sociedade, a tradução da qualidade das instituições. Quando a instituição passa por uma avaliação de recredenciamento, o resultado pode ser outro: melhor ou pior do que o apresentado, calculado com base no Enade. Tais resultados, da avaliação institucional externa, não chegam à sociedade.

Se o senhor pudesse fazer uma ou mais sugestões ao ministro da educação, para mudar o sistema de avaliação das universidades, quais faria?
A lei que cria o SINAES é a mesma que estabelece os princípios sob os quais a avaliação institucional deve ser realizada, mas o MEC vem introduzindo normas e publicando resoluções que estão alterando sua essência. Voltar à essência de lei 10.861 seria minha sugestão.

Quais os aspectos mais positivos que identifica na política do MEC para o ensino superior?
Estou convencido de que a política do MEC tem buscado elevar a qualidade do ensino superior, que é positivo, e tentado democratizá-lo, no sentido de promover o acesso ao mesmo, e, ainda que apresente problemas, a avaliação também é um aspecto muito positivo. Não apenas a avaliação realizada pelo MEC, mas a institucionalização da autoavaliação das instituições de ensino superior, desde que todos os atores enumerados na lei 10.861 - corpos docente, discente e técnico-administrativo, bem como representantes da sociedade civil - participem, verdadeiramente, do processo autoavaliativo.

Ainda com relação às ações do Ministério da Educação: em que aspectos o órgão ainda falha, na sua opinião? Como corrigir estas falhas?
Com um sistema tão grande e tão diverso quanto o do ensino superior brasileiro, não é possível enumerar onde o MEC falha. São instituições públicas, privadas, comunitárias e confessionais que têm princípios diferentes, mas, principalmente, são os tipos de instituições de ensino superior - faculdades, centros universitários e universidades -, que têm objetivos que se diferenciam e são avaliadas da mesma forma e com os mesmos parâmetros. Essa me parece ser uma das questões a ser corrigida. O como? Demandaria estudo aprofundado para corrigi-la.

O Censo do Ensino Superior mostrou um crescimento expressivo, nos últimos 10 anos, nas matrículas da educação a distância. Como reitor, de que forma vê este processo? A EAD tem avançado com a qualidade necessária?
Para mim, o ensino na modalidade a distância vem atender a uma série de necessidades criadas pela pessoa humana no mundo contemporâneo, tais como: a velocidade com que se processam informações, a dificuldade de se locomover nos centros de cidades de grande e pequeno porte, às novas exigências dos diversos setores geradores de emprego, o fácil manuseio de ferramentas com acesso à internet etc. A meu ver essa modalidade de ensino é mais exigente que a presencial, pois apesar das ferramentas estarem bastante difundidas a qualidade disponível ainda é muito limitada, além de serem cursos que exigem uma grande capacidade autodidata da parte do aluno.

Uma das tendências do cenário atual do ensino superior é a aquisição de instituições de menor porte por grandes grupos, alguns com capital aberto. A seu ver, isso é um perigo para o país, como alguns educadores chegam a defender?
No que diz respeito à educação formal, nós estamos vivendo uma forte tensão. De um lado, o conhecimento tem sido democratizado a cada dia. Do outro, o acesso a ele tem se tornado, cada vez mais, capitalizado, pois foi transformado num produto de consumo. Há quem o trata como um bem precioso, há quem o vê somente como fonte de enriquecimento. Como já afirmei, algumas instituições de ensino superior ficam sufocadas pelas leis do MEC que, para cumpri-las, se endividam ao ponto de sucumbirem. Nesse momento, muitas “empresas de ensino” surgem como solução para o problema financeiro dessas instituições de ensino superior, que não veem outra saída senão a venda. Infelizmente, ainda que de forma indireta, o MEC tem favorecido essa prática.

Por: Diego Da - [email protected]
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