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Tradição aliada à modernidade


Há 23 anos como diretora do Liceu Franco-Brasileiro, Celuta Reissmann se orgulha de sua trajetória à frente da instituição, que comemorou 100 anos em 2015. Em entrevista à FOLHA DIRIGIDA, a gestora destaca o trabalho realizado não só no período em que está no comando da escola, mas desde o início da história da escola.

A instituição foi criada para integrar laços entre Brasil e França. De acordo com a professora Celuta Reissmann, a escola ainda preserva muito de sua história porém, com o passar dos tempos, tornou-se importante unir tradição e modernidade. Hoje, atividades educacionais mais dinâmicas e tecnológicas fazem parte rotina dos estudantes.

O canal de diálogo com as famílias é um dos destaques da escola que defende a participação dos responsáveis na vida escolar do aluno. O principal objetivo é ensinar o estudante a valorizar a escola para que outras gerações reflitam sobre o mesmo procedimento já que muitos pais de alunos estudaram na instituição.

Outra prioridade do Liceu Franco-Brasileiro é a questão dos valores humanos. Na visão da professora Celuta Reissmann, o trabalho com essa vertente na proposta pedagógica é de fundamental importância na atualidade. "O jovem de hoje precisa ter muitas atividades na escola e sempre no sentido de passar os valores humanos. Procuramos passar aos alunos que na vida não é só 'ter', é preciso 'ser'", disse a diretora.

FOLHA DIRIGIDA - O Liceu Franco-Brasileiro completou 100 anos em 2015. Pode nos falar um pouco sobre os princípios didático-pedagógicos fundamentais da escola?


Celuta Reissmann - Temos várias atividades que enriquecem o currículo do aluno. O Liceu Franco-Brasileiro é um colégio muito tradicional e com o decorrer dos tempos, nós fomos trabalhando mais o lado humano do aluno, sem perder de vista o conteúdo, devido à necessidade que eles têm para seguir em frente e ter sucesso na vida. O conteúdo é muito importante, mas também é importante que o aluno saiba o que está acontecendo ao seu redor. Trabalhamos para que o estudante construa o conhecimento logo na educação básica. O trabalho com a leitura é uma de nossas prioridades e isso desperta o desejo nele buscar mais conhecimento, pois isso vem de dentro para fora. Nós estimulamos a criança despertando o desejo por essa prática. Com essa descoberta da leitura, o aluno vai aprendendo a ter mais facilidade para compreender o mundo.

A formação com base nos valores humanos é vista por especialistas como fundamental nos dias de hoje. De que forma o Liceu Franco Brasileiro busca prestigiar esse aspecto em sua proposta pedagógica?

Para alcançar o sucesso, o jovem precisa ter muitas atividades na escola e nós do Liceu prezamos isso e aliamos sempre com o sentido de trabalhar os valores humanos junto aos alunos. Um exemplo é o fato realizarmos trabalhos sociais voluntários com orfanatos desde o início da educação infantil. Procuramos passar aos alunos que na vida não é só "ter", é preciso "ser". Esse convívio com pessoas diferentes faz com que eles cresçam e se tornem pessoas melhores, adultos capazes de entender as diferenças sociais. Trabalhamos o tempo todo para que o aluno entenda as diferenças para que ele não cresça prepotente achando que é melhor que o outro. Realizamos também parcerias com escolas públicas, sessões de cine debates, em épocas eleições apresentamos as alternativas de partidos políticos existentes, entre outros. Nós procuramos levar o aluno a ter uma reflexão sobre tudo que acontece. Procuramos trabalhar com os alunos desde a infância para que eles estejam antenados com o mundo e com tudo que acontece em relação às dificuldades do outro, para que eles sempre busquem entender o próximo.

O anseio das famílias, hoje em dia, de que a escola prepare bem o estudante para ter sucesso no Enem e no mercado de trabalho, de alguma forma dificulta o trabalho com outras dimensões educacionais, como a formação dos valores humanos?

Não acreditamos ser correto uma escola preparar o aluno somente para enfrentar o Enem. O aluno pode até se dar bem na prova, porém na vida, ele pode enfrentar várias dificuldades. No caso Liceu, por exemplo, nós temos aqui a "Empresa Júnior", um programa do ensino médio em que temos uma assessoria da Ipiranga. Pela iniciativa, profissionais da empresa vêm aqui para orientar os alunos organizarem uma empresa. Eles dão nome a ela e começam a distribuir as funções para cada estudante envolvido: presidente, diretores, responsável pelo marketing, entre outros. De certa forma esse tipo de atividade está capacitando não somente para o Enem, mas para a vida deles. Não podemos ter somente aquela a diretriz voltada para oferecer ao aluno conteúdo e mais conteúdo e selecionar os 50 melhores da escola para fazer a prova. Esse não é o caminho. Nossos alunos se deram muito bem na redação do Enem este ano porque nos filmes debatidos em nossas atividades já vinhamos abordando temas sobre a mulher. Então tudo foi discutido plenamente com eles e além da aula de redação é preciso oferecer a possibilidade do enriquecimento intelectual. Se o aluno ficar só focado em fazer o Enem, acaba tendo uma visão restrita do mundo. Devido à preocupação dos pais temos a preparação para o Enem também, mas oferecemos isso de uma forma mais ampla.

Uma instituição centenária, como o Liceu Franco-Brasileiro, tem o desafio permanente de conciliar tradição e modernidade. Como a instituição busca contemplar essas duas dimensões?

Nós procuramos unir as duas pontas. Há momentos em que o tradicional é importante para a escola, também, inclusive, para eles que fazem parte dessa história. Por isso fizemos uma festa voltada para a idade deles e também para os ex-alunos que já são mais velhos. Quem estudou aqui ainda é muito ligado à escola. Mas, não deixamos a tecnologia de lado. Para se ter uma ideia, nós temos atividades envolvendo robótica. Nossos alunos já foram até campeões em vários campeonatos de robótica. Vários alunos daqui da escola até viajam para competir. Isso faz parte desse mundo moderno. Realizamos concurso de redações e chamamos os pais para os dias de premiações. E os alunos gostam muito quando são homenageados, quando têm seu esforço e seu talento reconhecidos. Essa é uma prática que já adotamos há tempos e que continuamos alimentando porque é muito importante para eles.

Atualmente, vemos que muitas escolas não conseguem se manter por muito tempo no mercado. O Liceu Franco Brasileiro, contrariando essa tendência, está chegando a 100 anos. Qual a maior dificuldade que uma escola enfrenta para se manter, nos dias de hoje?

As maiores dificuldades que nós temos é de estarmos antenados com mundo, ter uma relação boa com as famílias, ter uma escuta para os responsáveis e para o aluno. Consideramos esse aspecto muito importante. Nós passamos por vezes por situações complicadas, pois as famílias hoje em dia estão diferentes. Nós aceitamos qualquer tipo de família, eles se acostumam e aprendem que as famílias são diferentes. Eu acredito que o fato de termos uma escuta para a família, mesmo os pais tendo dificuldades para manter os filhos, faz a diferença. Tanto que muitos pais foram ex-alunos daqui da escola e têm seus filhos matriculados no Liceu.  Eles valorizam muito o fato de o aluno estar feliz na escola, não ficar preso somente à sala de aula, ter aulas de música, teatro, entre outras no pátio, ao ar livre. Isso tudo aproxima o estudante da escola, e quando a aluno está ligado à instituição de ensino, a família faz um esforço para mantê-lo. Existe a dificuldade do momento que nós estamos vivendo no país. Esse momento está sendo muito difícil para as famílias e para as escolas porque realmente é pesado manter um jovem na escola, especialmente quando eles são adolescentes, porque eles têm outros interesses.

A senhora é diretora do Liceu há duas décadas. Pela sua percepção, ao longo desse período, o que mudou no perfil do alunado? A mudança facilita ou torna mais difícil o trabalho das escolas, de maneira geral?

Os ex-alunos amam a diretora antiga. De fato, ela foi uma pessoa muito importante para a história da escola. Quando fui escolhida para substituí-la fiquei muito surpresa, mas acredito que talvez ela quisesse alguém diferente mesmo e por isso me escolheu. Acredito que hoje os alunos estejam menos violentos, até porque procuramos estimular muito o amor. Acredito que hoje eles preservam mais a infraestrutura da escola.

O gestor educacional, nos dias de hoje, precisa saber lidar com a necessidade da disciplina para manter a ordem, mas com humanização de atendimento e relacionamento com alunos, profissionais e familiares. Como atingir esse equilíbrio?

Quando cheguei aqui enfrentei muitas dificuldades, pois a escola tem uma série de regras a serem cumpridas pelos alunos e essas determinações continuam até hoje. Os alunos, na época, acharam que eu ia amolecer porque a antiga diretora tinha uma linha mais dura de lidar com as regras. Hoje, nós trabalhamos sempre no sentido de fazer todos pensarem sobre os acontecimentos. Entendemos algumas reações das pessoas, mas é preciso entender o lado do outro também.

Quais os planos de curto e médio prazo para o Liceu Franco-Brasileiro?

Pretendemos melhorar cada vez mais, sempre nos avaliando. Os pais, quando renovam a matrícula, escrevem o que na escola está incomodando seus filhos ou até mesmo coisas que os desagradam. A partir daí, procuramos melhorar ainda mais esse processo de escuta. Os responsáveis ficam até surpresos e se assustam quando têm suas solicitações atendidas. Nosso objetivo é investir nesse canal com os familiares. A intenção é estarmos sempre buscando melhorar.

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