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Um olho na teoria, outro na prática


No ano passado, 189.035 estudantes concluíram cursos superiores de tecnolo gia no país. A expansão de matrículas nessa modalidade de graduação tem puxado o crescimento do ensino superior nos últimos anos, de acordo com os dados informados pelo Censo do Ensino Superior 2012, divulgado em outubro do ano passado: o aumento foi de 51% nos últimos quatro anos. Em 2009, 486.730 estudantes estavam matriculados em cursos dessa modalidade. Em 2012, o número subiu para 944.904.

Entre 2011 e 2012, a expansão de matrículas nesses cursos foi menor do que no período anterior (de 2010 a 2011, elas cresceram 11,4% e, de 2011 a 2012, 7,9%). Porém, o aumento de vagas em cursos tecnológicos ainda é maior do que nos de bacharelado e de licenciatura, que entre 2011 e 2012, cresceram 4,4% e 0,7%, respectivamente. Ainda segundo o Censo de 2012, há 5.969 cursos superiores de tecnologia no Brasil, sendo 1.117 em instituições públicas e 4.852 em instituições privadas. A área ganha cada vez mais a adesão dos brasileiros porque, diferentemente da graduação tradicional, seus cursos costumam ter duração reduzida e currículo mais prático, voltado para a preparação ao mercado de trabalho.

Até o ano de 2012 responsável pela área operacional do Senai Rio, abordando aspectos administrativos educacionais, o engenheiro com formação original em Arquitetura e Urbanismo Mauro Pina é o atual diretor da Faculdade Senai Rio. Nesta entrevista, Mauro faz uma análise do setor e fala especificamente da proposta de atuação da instituição, que tem a credibilidade da marca Senai, formadora de  profissionais qualificados para a indústria há mais de 70 anos. “A nossa proposta é fazer a integração, de fato, da indústria com o setor que forma esses profissionais. A indústria e a faculdade não se falam, e é esse o espaço que queremos ocupar”, disse Mauro Pina.

FOLHA DIRIGIDA - Que retrato você faz do cenário atual da oferta e da procura dos cursos tecnológicos de formação superior?
Mauro Pina
- Pelas pesquisas que temos feito, tudo nos indica que é um crescente. O nosso mercado de educação vem formando a área de bacharelado que, fazendo um paralelo com o nível de técnico, são pessoas do nível gerencial, que têm uma formação mais generalista. O tecnólogo é mais específico. É isso o que a indústria tem demonstrado e demandado: trabalhos e profissionais com maior foco no seu trabalho final.
 
Quais seriam as vantagens, na prática, para quem opta por um curso de formação tecnológica?
Tem algumas que podemos identificar bem facimente, uma delas é que você mais rapidamente se prepara para o mercado. No nosso caso específico, quando um curso de graduação tecnológica é elaborado, é a partir de uma pesquisa de mercado que identifica a demanda. A partir dessa identificação, vamos no mercado e chamamos profissionais e as empresas que demandam esse profissional específico e montamos o que chamamos de comitê técnico setorial. A partir disso, começa a estruturação do curso. A empresa indica as competência profissionais que ela precisa e daí saem as diretrizes do curso que dará essas competências aos futuros profissionais. Estamos sempre alinhando a demanda do mercado com a formação do aluno.
 
Como tem sido essa dinâmica? É criação de curso novo, vocês fazem adaptações e adequações a profissões já existentes?
Em relação a curso técnico, o MEC definiu um caderno de cursos específicos. No nosso caso, são cursos do ex-tecnológico da área industrial. O MEC dá uma série de determinações, como nome do curso, carga horária mínima, por exemplo, mas deixa uma margem, que é essa margem de atualização e de identificação do mercado. Muitas vezes uma empresa do Rio de Janeiro tem necessidades diferentes de uma empresa do Nordeste ou do Sul, e até mesmo de São Paulo, que é na mesma região. Então, o MEC nos possibilita dar essa adequação para o mercado. Não quer dizer que o profissional vá atender somente o Rio de Janeiro, mas o comitê técnico setorial nos auxilia nisso: qual a tendência de mercado, em quais áreas as empresas estão investindo mais. Assim, temos tempo de adequar isso para o mercado.
 
E qual é a tendência do mercado? O que está surgindo agora e o que você acha que poderá ser uma boa profissão no futuro?
Vamos voltar ao exemplo do Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro tem vocação na área de petróleo e gás, e a Petrobras é a grande alavancadora. Por isso, estamos começando com a área de automação e processos metalúrgicos. Em processos metalúrgicos a ênfase é na área de soldagem. Quando se pensa na área de petróleo e gás, temos a metalurgia, siderurgia, a indústria automobilística entrando no estado, a indústria naval. Tudo nessa área é para atender a esse mercado de processos metalúrgicos. Para o lado da automação, é bem mais amplo, porque vai desde a indústria automotiva e novamente a siderúrgica, a metalúrgica. Nós unimos essas necessidades locais, que são o que é a vocação que o estado tem. Várias empresas da indústria automotiva estão se instalando no sul do estado, Land Rover, Nissan, a ampliação da Volkswagen, da Renault. É um mercado que está crescendo, e essas indústrias estão procurando profissionais mais apropriados e mais prontos para o seu negócio. São empresas que tendem a investir muito na formação do seu profissional. Do período que ele entra até de fato ficar dentro da fábrica tem um  tempo enorme que a indústria fica em treinamento. Nós somos uma casa para atender à indústria. Nós olhamos para eles, vemos o que precisam, buscamos as referências educacionais junto aos perfis estabelecidos pelo MEC e elaboramos os cursos.
 
Você mencionou que algumas dessas grandes empresas investem pesado na formação e atualização de seus profissionais. Há casos até de algumas que criam universidades corporativas com essa finalidade. Mas o que é mais eficiente: essas instituições criadas pelas empresas ou essa proposta de diálogo com a indústria que vocês mantém? Como se ganha mais tempo? São propostas muito diferentes?
É, sim, completamente diferente. Por uma deficiência da educação do país as indústrias não conseguiram ficar esperando atualização do segmento de educação. Elas começaram a identificar “as faculdades, as áreas que oferecem cursos, não me oferecem o profissional que preciso, então vou investir nisso”. A nossa proposta é fazer a integração, de fato, da indústria com o setor que forma esses profissionais. Em vez de a Petrobras, cuja finalidade é produção de petróleo, voltar no seu tempo e investir em educação, seria muito mais interessante se ela tivesse um centro de educação próximo às suas necessidades, porque tem uma dificuldade de linguagem, por algum vício, por algum equívoco do passado, que a academia não fala a linguagem da indústria. Tem uma distorção, tem uma separação.

É essa interseção que vocês pretendem ocupar com a expertise da formação técnica e da pós-graduação?
A indústria e a faculdade não se falam, e é isso que temos buscado a fazer. Com o nosso formato, pelo comitê que identifica as necessidades do mercado, pelo menos uma vez por ano nós trazemos as empresas aqui para discutir como o profissional chega ao mercado. O que nós queremos, sem pretensão, é corrigir essa distorção existente. Por que a indústria, que recebe os profissionais, não fala com as universidades e os centros de ensino? Tem um abismo aí entre a indústria que precisa do profissional e os centros universitários querendo desenvolver um bom aluno. Só que muitas vezes esse bom aluno não atende ao mercado. Tem uma distorção no mercado. Por demanda da indústria, que cobra diretamente da gente, nós vimos que está chegando ao mercado um profissional que não atende. Por isso queremos estimular esse processo de integração entre universidade e indústria.
 
Como foi esse processo e o que os futuros alunos podem esperar da instituição?
Nós entramos na área de educação superior em 2004, apenas com cursos de pós-graduação. Em Automação Industrial, por exemplo, que foi o nosso primeiro curso, estamos na décima sétima turma; em Engenharia de Soldagem, estamos na oitava turma; e alguns outros cursos, que já temos há tempos. Com a mudança de diretriz do MEC, que todo curso de pós-graduação tem que estar associado a uma faculdade, isso acelerou nosso processo, porque já vínhamos buscando isso, mas a partir dessa portaria, tivemos que fazer tudo mais rápido. Em novembro de 2013 fomos credenciados como faculdade e autorizados a iniciar com dois cursos: processo metalúrgico e automação industrial. Somos uma faculdade multi-campi. Vamos funcionar em parte no campus Tijuca, parte no Centro de Tecnologia de Solda e uma parte no Centro de Tecnologia de Automação e Simulação. Esses dois centros já são consolidados na formação em cursos técnicos e pós-técnicos, e por isso tivemos que fazer pequenas atualizações da nossa infraestrutura para atender à nossa graduação. É isso que queremos trazer para o mercado: essa formação técnica com embasamento teórico. Nossos alunos terão cálculo, física, química, todas as disciplinas que forem necessárias para dar um embasamento teórico para que o aluno possa entrar no laboratório com maior estruturação. Ele não é um profissional que sabe desenvolver tecnicamente; ele precisa saber analisar, identificar o problema e a partir daí propor a solução.
 
Você falou em dois cursos inicialmente. Quais são os planos para os próximos anos? Já existem novos cursos esperando apenas autorização para iniciar?
Quando se encaminha um pedido de credenciamento de instituição de nível superior para o MEC, é preciso que se tenha um planejamento de cinco anos. A partir do segundo ano de funcionamento desses dois cursos, entraremos com um curso por ano. Foi o que pedimos ao MEC. Quando terminar nossa primeira turma de graduação, daremos início ao nosso curso de mestrado profissionalizante, ou seja, a partir do terceiro ano do funcionamento. Também fizemos uma identificação preliminar mas, infelizmente, o tempo para receber o credenciamento foi de dois anos e meio e, portanto, pode haver alguma defasagem já. Já temos outra pesquisa de campo que será feita no segundo semestre para reforçar se é o curso que nós tínhamos programado ou se há necessidade de alterar. Então, a partir do segundo ano teremos um novo curso por ano, mas ainda não sei te dizer qual será a atualização; isso é a pesquisa que vai direcionar. Mas teremos mais três cursos, além do mestrado profissional, até o fim desses primeiros cinco anos. A partir daí, teremos novos planejamentos com o MEC, a cada cinco anos.
 
Os planos de expansão, então, já são uma realidade?
Sim, temos planos de expansão para os próximos anos, em todas as áreas. Mas de uma coisa que não abrimos mão é a parte prática. Nossos cursos de pós-graduação também têm uma parcela prática, porque os alunos já vêm de suas graduações com a teoria, e quando eles vêm fazer uma pós-graduação, querem “se aprontar” para o mercado de trabalho. E como fica isso se eles não tiverem prática? Nós usamos nossos laboratórios para dar essa prática a eles.
 
Uma larga experiência profissional, então, será um dos requisitos para montar o quadro docente...
Um dos requisitos para nossos docentes, além dos normais, de mestrado e doutorado, é a experiência prática. Inclusive nossos professores da graduação têm esse mesmo perfil. Não são profissionais que têm apenas teoria, conceito; precisa ter prática. Eles vão para os laboratórios e aplicam isso com os alunos. Temos alguns depoimentos de alunos que são muito gratificantes, dizendo que, em muitos anos de estudos no segmento, no caso, de mecânica, só agora estavam vendo, na prática, como funciona uma planta industrial, que foi uma planta nossa do CTS de Automação e Simulação. A teoria é fundamental, mas não finda aí, tem que ter a parte prática.
 

Por: Andr Ferreira - [email protected]
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