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Uma educação voltada para os valores católicos e sociais


Com mais de 50 anos de existência, o Colégio Teresiano, que é o Colégio de Aplicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), vem colocando em prática uma educação baseada nos direitos e deveres da cidadania. Além disso, a instituição promove o conhecimento de acordo com os valores do Evangelho. Sua direção está a cargo da Instituição Teresiana, fundada em 1911 por Pedro Poveda (1874-1936), sacerdote e educador católico espanhol, que procurou articular os esforços de educadores preocupados em promover estes valores.

Preocupado com o desenvolvimento da cidadania, o Colégio de Aplicação também procura difundir entre seus alunos a importância do envolvimento com ações sociais. Sendo assim, uma série de trabalhos voluntários, que despertam, em primeiro lugar a solidariedade, são realizados pela escola. Segundo a diretora do Colégio, a professora Glória Fátima Nascimento, a linha pedagógica da escola é focada não só nos aspectos intelectuais, mas também na aposta da Educação como espaço de transformação, com esperança e alegria, buscando um mundo melhor para todos.

"Eu acredito que a escola católica tem muito o que falar à Educação de hoje. A nossa Pedagogia dialoga com as várias áreas do conhecimento e está antenada com o mundo de hoje, porque senão fica difícil educar. A didática, que é a aplicação da Pedagogia, também precisa acompanhar a atualidade, como a internet, as redes sociais e o pensamento do jovem de hoje", salienta Glória.

Em entrevista, a professora, que assumiu este ano a direção do colégio, conta quais são os principais desafios de educar e como o ensino pode ser prazeroso e eficaz.

FOLHA DIRIGIDA - Quais os seus planos para a instituição?

Glória Fátima Nascimento - Nós trabalhamos dentro de uma pedagogia crítica e situada, baseada na construção do conhecimento. Pretendemos continuar aprofundando esta metodologia. Por isso estamos fazendo vários estudos com os professores, pois a formação de professores é um dado fundamental, no qual já começamos a investir. O Colégio Teresiano pertence a uma grande associação internacional. Temos um carisma que se chama fé, justiça e culturas. Somos uma escola confessional católica. Então, para nós, estar dentro do âmbito daquilo que se chama cultura hoje e permitir que o nosso professor tenha tempo de estudar e se informar para poder dialogar com as culturas de hoje, esse é um dado fundamental. No momento, estamos estudando o mapa conceitual, que foi uma discussão dos anos 90, mas que vem ao encontro da pedagogia que a gente acredita, que é a da construção, da colaboração e do conhecimento que soma. Temos também um trabalho no campo da justiça social. Nossos alunos fazem visitas solidárias, nas quais eles vão a casas de idosos e também a uma casa que abriga moradores de rua. No ensino médio, eles participam do Projeto Amanhecer, no qual eles atuam como educadores em Direitos Humanos em uma escola pública. Essas vertentes do conhecimento e do aprofundamento das culturas de hoje, das novas pedagogias, dos conceitos que a gente tem que aprofundar, é fundamental para a nossa escola. Trata-se de educar para a cidadania e ter professores que saibam lidar com alunos da era globalizada e digital, que necessita de uma ética para todos. Nós acreditamos que através da nossa fé cristã nós podemos construir um mundo melhor. Investimos na figura do educador como um grande agente da escola.

A senhora atua há 18 anos na escola. Como se deu a sua trajetória profissional?

Antes de chegar aqui, havia sido professora de escola pública. Fui professora de Literatura Brasileira durante muitos anos e também dou aula na PUC, no departamento de Teologia. A Educação é uma paixão. Ou a gente ama ou desiste, principalmente em um país onde ela não é levada a sério. Essa carreira é vocação e eu estou neste caminho na certeza de que através dele eu posso ajudar a formar pessoas que vão construir um mundo melhor. Eu acredito que a escola católica tem muito o que falar à Educação de hoje. A nossa pedagogia dialoga com as várias áreas do conhecimento e está antenada com o mundo de hoje, porque senão fica difícil educar. A didática, que é a aplicação da pedagogia também precisa acompanhar a atualidade, como a internet, as redes sociais e o pensamento do jovem de hoje. A escola está entre a tradição e o novo, que é necessário apresentar. No Brasil existe o vestibular, no qual os jovens precisam dominar uma série de conteúdos, mas ao mesmo tempo temos que dar possibilidades do novo chegar à escola. Este é um grande desafio. Se alguém quiser ter uma
vida de grandes aventuras, precisa ser professor.

O Colégio Teresiano é dirigido pela instituição Teresiana, fundada em 2011, na Espanha. De que forma os ideais desta instituição se refletem na prática pedagógica da escola?

O fundador da instituição Teresiana se chama Pedro Poveda. Ele cria uma instituição no momento da quase Guerra Civil espanhola, e é assassinado no conflito. O grande problema que divide a Espanha é que havia um grupo que achava que a fé estava acima de qualquer coisa. E existia o grupo dos liberais, que achava o contrário, que a Igreja atrapalhava o avanço da Ciência. Pedro Poveda vai propor então um diálogo entre as duas, em 1911, bem antes do período da igreja chamada Vaticano II, no qual a igreja vai chegar a essa realidade de que nenhuma deve mandar na outra, mas sim que deve haver uma interação. E nós seguimos essa linha. Consideramos fundamental o diálogo entre a fé na crença de um Deus presente na história e as novidades que a mente humana pode produzir. Tentamos aplicar isso na escola. Procuramos educar os alunos para a solidariedade porque acreditamos, por meio da perspectiva cristã, que se somos todos irmãos, não podemos deixar o outro passar por necessidades. Ao mesmo tempo quando fazemos uma opção metodológica por aquilo que se chama de interdisciplinaridade, é baseado na ideia de que assim o saber fica muito mais atraente e concreto na vida de cada um. Os estudantes precisam entender o porquê das coisas e, por isso, precisamos mostrar a eles que há uma relação com a qualidade de vida sempre. Como é a questão da sustentabilidade. A instituição Teresiana está presente em 30 países, e todas as nossas escolas têm essa característica de dialogar com o mundo presente e de ter uma inserção histórica.

Há ações de articulação do trabalho da escola com a Faculdade de Educação da PUC-Rio? Como esta interação é feita?

Sim. Nós somos o Colégio de Aplicação da PUC. Os colégios de aplicação vão surgir porque foi criada uma Lei em que as universidades deviam oferecer os estágios a alunos que cursavam licenciatura. Assim, foram desenvolvidos os colégios de aplicação. Nós procuramos oferecer mini cursos dentro da nossa perspectivas para esses estagiários também. Nós temos um laboratório de informática com mais de 40 máquinas, onde oferecemos mini cursos a alunos da PUC sobre como aplicar a informática à Educação.  Nós procuramos ter uma troca de mútua aprendizagem com os estagiários. Aqui, os alunos da PUC aprendem frequentando as aulas como é que se dá essa profissão. É a chance deles aprenderem na prática. Ao mesmo tempo, este estagiário pode trazer aos nossos professores suas dúvidas. Isso enriquece muito tanto o colégio, quanto o aluno.

Uma das diretrizes do colégio é o trabalho com projetos sociais. Qual a importância dessa vertente e de que forma ela contribui com a formação dos alunos?

A experiência é uma modalidade de conhecimento, porque vemos o objeto, o apreendemos, e ele passa a fazer parte de nós. Ensinamos para nossos alunos dados da realidade, ao mesmo tempo em que oferecemos um saber que, infelizmente, ele não teria na escola pública. Os alunos do Teresiano fazem trabalho voluntário em uma escola pública que fica aqui em frente. Quando eles têm um contato de perto, como é o caso, eles mudam a sua percepção. Eles sempre têm noção da realidade da educação pública, mas só quando criam este vínculo é que isso fica amadurecido. Outro espaço que também resulta em uma grande experiência é a abertura de bolsas de estudo para crianças da rede pública. Este ano, 13 crianças da Rocinha conquistaram a bolsa. São crianças que passaram por uma prova e que muitas vezes têm as melhores notas da sala. O pobre deixa de ser um pobre, para ser alguém da convivência deles e que possui os mesmos sonhos.

Acredita que as escolas, de maneira geral, estão preocupadas com uma formação voltada para valores humanos? Ou a preocupação com os índices de aprovação no vestibular acaba prevalecendo?

O educador e as grandes escolas do Rio de Janeiro se preocupam com uma educação para a cidadania e para um ser que seja verdadeiramente humano. Por outro lado, há uma pressão social. Nós temos esse exame chamado vestibular, e os alunos têm o direito a estarem aptos a participar. O Colégio Teresiano participa de um movimento do Rio de Janeiro chamado Escolas Rio. Frequentemente, 20 diretores de escolas se reúnem para discutir o vestibular e outros temas, buscando o bem comum. A educação voltada para os valores humanos ainda prevalece, mesmo com a educação bancária, praticada por algumas instituições nos dias de hoje.

Que contribuições pode trazer uma formação escolar que também priorize a questão dos valores humanos?

Hoje nós temos vários ex-alunos que se destacaram no mercado de trabalho justamente por terem tido uma educação voltada para os direitos humanos. A educação dentro da perspectiva dos valores é muito importante. O desafio da escola é conciliar a aquisição de conhecimento, tradição, o novo e os valores humanos, pois assim, independente da profissão que os alunos vão seguir, eles serão sempre éticos. É quando o ser humano entra no campo de trabalho que estes valores se manifestam, pois é quando ele tem o desafio de responder as perguntas que o mundo lhes faz cotidianamente.

A seu ver, porque, na maior parte das escolas brasileiras, os alunos ainda enfrentam muitas dificuldades na hora de aprender? Quais os maiores problemas nessa linha?

O aprender deveria ser prazeroso sempre. E, até determinada idade, até conseguimos fazer com que aprender seja divertido. Isso acontece porque vamos exigindo uma rigorosidade que não tem que ser sofrida. O adquirir conhecimento precisa ter um encanto, mas sabemos que isso envolve esforço também. Em alguns momentos do processo educativo que é necessário cobrar. Quando conseguimos dar a finalidade de determinado aprendizado, o ensino é bem mais fácil. Cabe à escola perceber por quais caminhos ela pode facilitar essa aprendizagem.

Como os pais podem contribuir  para a educação dos filhos junto da escola?

A convivência com as famílias é fundamental. Este ano, queremos aprofundar de uma maneira visceral a presença das famílias, colaborando com a escola. As famílias, em geral, são participativas. Não é à toa que em nossa comunidade temos ex-alunos. Mas acreditamos que ainda podemos melhorar o diálogo entre a família e a escola. Hoje, vivemos uma crise paradigmática, por isso não há mais modelos a seguir. O que acontece é que existem vários modelos, inclusive de família. Já estamos com uma série de atividades marcadas com as famílias dos colégios, pois elas são as grandes mobilizadoras da escola. Isto interfere positivamente no desempenho dos estudantes e até na própria compreensão do que é a escola. Quando mostramos para a família que essa tomada de conhecimento é muito mais complexa do que se pode imaginar, ocorre um aprendizado mútuo.

A partir de sua experiência como educadora, o que a senhora acredita que mais mudou na relação entre professores e alunos? Ela, hoje, é mais difícil que há algumas décadas?

Cada época tem o seu desafio. O aluno hoje tem mais acesso à informação, por isso o diálogo entre os estudantes e os professores é mais intenso. A relação não é mais fácil, nem mais difícil, e sim, diferente. É fundamental, portanto, educar para o respeito e para a ética.

Por: Juliana - [email protected]
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