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Uma escola tradicional, mas sem tradicionalismo


Desde 2012 à frente de uma das mais tradicionais instituições de ensino do Rio, o Colégio Sagrado Coração de Maria (Sacré-Coeur de Marie), o professor pernambucano Amaro França, de 43 anos, possui dois objetivos principais. Ele busca, por um lado, promover um fortalecimento da identidade institucional da escola, que completará 103 anos de existência em junho deste ano. Em outra frente, atua no sentido de aliar a tradição centenária do colégio às demandas da educação moderna. Para isso, tem investido em capacitação de professores e utilização de recursos tecnológicos para incrementar as atividades nas salas de aula e nos laboratórios.

Formado em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e também em Ciências Religiosas pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-PR), o diretor fez também especialização em Psicopedagogia pela UFRN e em Gestão Acadêmica e Universitária pela Fundação Pedro Leopoldo (FPL-MG). Hoje, faz mestrado em Educação pela Universidade da Madeira de Portugal.
Mas, suas referências não são só acadêmicas ou de gestão. Durante sua trajetória profissional, Amaro França atuou como professor, coordenador pedagógico, vice-diretor e diretor-geral, cargos ocupados tanto em instituições de educação básica quanto de ensino superior.

Ele também é o primeiro homem a comandar uma escola da Rede Sagrado Coração de Maria em todo o mundo. Ao falar sobre sua busca por unir o respeito à história da instituição e a necessidade de inseri-la na vanguarda educacional, ele salientou que o caminho é ser tradicional, sem ficar preso ao tradicionalismo.

“Somos uma escola de tradição, com seus princípios e valores dos quais não abrimos mão, mas que dialoga com a realidade em que estamos inseridos. E aí está o grande desafio para ma escola que tem princípios e valores: manter-se fiel a sua identidade e corresponder às necessidades deste mundo que são tão desafiadoras”, destacou o diretor, que também faz palestras sobre temas como gestão, formação humana e práticas educacionais e é autor de dois livros: “Interlocuções – reflexões sobre a vida” e “Composições do caminho”.

FOLHA DIRIGIDA — O senhor está há quase dois anos e meio na direção do Colégio Sagrado Coração de Maria. Que ações colocou em prática ao longo deste período?
Amaro França —
Vim de Recife para este desafio. É um novo mercado, uma nova praça, uma nova realidade, sem falar no atrativo que representa o nome e da história da instituição. Esta foi uma das grandes motivações para eu estar aqui. Alguns desafios maiores tento resumir, pois sempre gestão é algo desafiador, seja qual for a realidade. Mas, um elemento que tem sido prioritário é o resgate da identidade institucional. Essa é uma escola de referência, de história significativa para a cidade, o estado e o país. Essa escola tem uma identidade muito forte, um papel social importantíssimo. E, nesse sentido, uma de nossas prioridades e esta, que se desdobra em alguns aspectos no sentido da inovação pedagógica, de projetos que correspondam com um diálogo maior com a realidade que vivemos e investimentos em âmbito de tecnologia e espaços pedagógicos que possam melhorar o processo de ensino-aprendizagem. Estas são algumas diretrizes que estabelecemos.

Poderia nos falasse sobre esta identidade a escola, a que se referiu. Qual a proposta pedagógica do Sagrado Coração de Maria?
A escola pertence à Rede Sagrado, que tem cinco unidades no Brasil, e que possui toda uma metodologia e unidade pedagógica muito bem definidas. Ela parte de pressupostos de cunho filosófico de identidade, princípios e valores, além de um ou outro eixo pedagógico que está ligado mais a uma dimensão mais metodológica. Há pressupostos pedagógicos mais globais, fundamentais e com aspectos mais sociointeracionistas, mas também existem outras vertentes pedagógicas que nos guiam. Por exemplo, acreditamos que somos uma escola com princípios tradicionais, com relação à identidade, mas de princípios muitos inovadores para responder à realidade à qual vivenciamos.

O Sagrado Coração de Maria tem mais de um século de existência. Como a instituição lida com o desafio de manter a tradição e, ao mesmo tempo, estar alinhada com os novos tempos?
É bom diferenciar o que é tradição, que para nós está relacionado com a nossa identidade institucional, da história que ela tem em si, do que é tradicionalismo. Nesse aspecto, não somos tradicionalistas. Somos uma escola de tradição, com seus princípios e valores dos quais não abrimos mão, mas que dialoga com a realidade em que estamos inseridos. E aí está o grande desafio para ma escola que tem princípios e valores: manter-se fiel a sua identidade e corresponder às necessidades deste mundo que são tão desafiadoras. Um exemplo disso é como enfatizamos a formação continuada. Este é um princípio para nós. Estar sintonizado é estar sempre estudando, buscando qualificação de nosso corpo docente, técnico e administrativo. Esta é uma forma importante de dialogar com realidades desafiadoras. Existem escolas de modismo, que se orientam apenas pelo que a sociedade cobra e, com isso, se perdem ao longo do tempo.

Nos últimos anos, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tornou-se o substituto dos vestibulares para a maior parte das instituições federais em todo o país. Com isso, tem crescido a pressão dos pais para que as escolas tenham um bom desempenho na prova. De que forma a escola lida com essa pressão decorrente do Enem?
O Enem nasceu com um propósito e, de repente, ele passou a ser o grande vestibular do país. E tornou-se uma espécie de ranking nacional, até muito indevido, para todas as escolas. Se tomarmos como referência, por exemplo, o ensino superior, temos o Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (Sinaes), que possui várias vertentes para avaliar a instituição de ensino superior. E, na educação básica, é praticamente o Enem que dita esta norma. E isto, infelizmente, limita muito o papel educacional da escola. No nosso caso específico, trabalhamos esse aspecto com muita seriedade, pois acreditamos que o Colégio Sagrado Coração de Maria tem o papel fundamental de formar o sujeito enquanto cidadão, mas também o sujeito academicamente bom, que possa competir com outros alunos de quaisquer instituições. E quanto aos resultados, inclusive, temos sido até prejudicados.

Por que?
por dois anos consecutivos, o Inep não divulgou nossos resultados. Para que se tenha uma ideia, foram 25 mil escolas cadastradas na última edição do Enem e, destas, 14.575 ficaram sem resultado. E, entre elas, está a nossa. Estamos em uma briga judicial para que este resultado seja divulgado. No entanto, apesar disso, tivermos um crescimento importante no ensino médio. Isto acontece por conta do bom resultado dos nossos alunos, pois sabemos as notas individuais; elas só não foram divulgadas oficialmente. E temos também nossos alunos sendo aprovados tanto em instituições públicas como em particulares muito sérias. Para nós, a educação vai muito além do Enem. Encaramos isso com muita seriedade. Em uma análise de experiência educacional e de gestão, o Enem, nesse momento, tem a sua relevância e terá durante um certo tempo, como aconteceu com os vestibulares específicos das universidades públicas. A sociedade vai tomar novas consciências e novos rumos políticos para redefinir este aspecto. Para nós, o Enem é um processo que está sempre em foco, mas não nos angustia.

Houve alguma justificativa do MEC para a não-divulgação da nota dos alunos do Sagrado Coração de Maria?
Nenhuma. Não só para a nossa como também para mais de 14 mil escolas. Temos buscado esclarecimento e, nesse sentido, vai uma crítica ao Inep, é o fato de que fizemos todo um pedido formal, preenchemos um protocolo via site da instituição, entramos com representação judicial e, até o momento, não temos uma justificativa plausível para nós e para as outras escolas.

Acredita que isto prejudica a escola? De que forma?
Realmente, é lamentável em um processo tão significativo como este, não ter o resultado. É óbvio que no primeiro momento vem o problema da imagem das escolas que não têm o resultado divulgado. Mas, nosso trabalho é tão sério que nesse aspecto temos toda uma compreensão dos pais, dos alunos em relação a nossa formação. Mas, é óbvio que queremos uma explicação do Inep sobre o que aconteceu.

Na condição de educador, como vê as mudanças que o Enem sofreu, para se transformar em vestibular nacional? foram positivas? Espera que traga bons resultados para a educação brasileira?
Considero as avaliações de larga escala importantes, desde que tenham um norte. Na realidade original do Enem, este norte era a busca pela melhoria da educação. Seus resultados deveriam ser verificados e, a partir daí, políticas deveriam ser adotadas para que as melhorias acontecerem. Mas, de repente, o Enem perdeu sua identidade e passou a ser o grande vestibular do país. Com isso, tornou-se muito mais um instrumento para a formação de um ranking e, sob esse aspecto, o não vejo com bons olhos. Acho uma crueldade, pois limita todo o papel educacional. No entanto, se os dados forem trabalhados para que avanços sejam alcançados, aí considero o exame importante. Para isto, é preciso que exista uma vontade política séria e se defina, entre outras coisas, qual o papel do ensino médio na realidade do hoje.

A seu ver, qual deveria ser essa identidade?
O primeiro aspecto é que o ensino médio tenha uma característica de diálogo com a realidade. Não pode ter conteúdos que não são significativos. É preciso também que ele abra portas para uma realidade que se aproxima do mercado. Para isso, necessita ter também foco no desenvolvimento de outras habilidades e competências. Faz-se necessária, ainda, uma formação mais humana. Muitas escolas, hoje, trabalham o conteúdo pelo conteúdo. E quando este aluno entra no ensino superior, que tem suas especificidades e desafios, ou quando chega à realidade do mercado, valores e habilidades fundamentais, como saber trabalhar em equipe, não foram construídos. E isto acaba gerando desemprego. Não estou falando da competência técnica, mas de competência humana. Não se trata de dizer que o ensino médio deve se tornar um ensino técnico, mas que possa também ter essa perspectiva. Aqui na escola, por exemplo, procuramos realizar práticas de visitas a universidades públicas e privadas de qualidade, que tenham experiências diferenciais no mercado. É interessante já trazer um pouco dessa realidade e dessa discussão para o ensino médio.

Como o senhor avalia a situação do ensino privado? Quais os principais desafios para uma escola do setor, hoje, manter-se no mercado?
Parto do pressuposto que a gestão ela não tem receita pronta. Mas, há alguns aspectos que são fundamentos da gestão. Respeitar a cultura local e organizacional é um fator decisivo para qualquer gestão. Isto nos dá a sensibilidade necessária para traçar algumas metas e desafios. É importante também planejar conhecendo a realidade. E, nesse aspecto, entra a dimensão orçamentária, dos investimentos. Dizem que o papel do gestor é ser o grande maestro da instituição educacional que possibilite o resultado final da qualidade, que é a aprendizagem dos alunos. E para isto, temos o papel fundamental de articulação, de mediação, de liderança junto à equipe de professores, equipe pedagógica, família. Outro desafio também é poder avançar nos resultados sem perder aquilo que lhe é princípio e valor. Um aspecto importante é alinhar processos administrativos, entenda-se financeiros, de forma específica. Não se pode comprometer esta parte de forma alguma. Esta é uma organização como qualquer outra, do ponto de vista de empresa. Então, não se pode levar a um comprometimento. As despesas devem ser feitas de forma muito bem planejada. Este são os principais desafios, a meu ver, para qualquer instituição educacional.

Muitos gestores educacionais dizem que gera muita preocupação as mudanças frequentes na legislação educacional. De que forma isto afeta as escolas?
Uma boa escola, mais ou menos em setembro, está projetando ou já tem projetado todo o ano vindouro. E, de repente, vem uma decisão de legislação, um decreto ou uma normatização, que vai comprometer muito seu orçamento. Então, o que se faz necessário? Percebo que as normatizações têm um fim em si, mas precisam ter um tempo para que sejam executadas. E não tenha dúvida que algumas decisões que parecem ter um fim positivo têm um impacto direto, no sentido financeiro, de estrutura, entre outros aspectos. Quando estas leis são impostas, têm um impacto na organização letiva, funcional e administrativa. E lamentavelmente, temos sofrido com isso na educação e, principalmente, no ensino superior. Isso é um desafio para o setor privado.

Por: Larica Santos - [email protected]
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