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Uma proposta de educação crítica e mais acessível


Incentivar a formação do cidadão é um dos compromissos mais exigidos para as escolas, nos dias de hoje. Mas, diante do extenso programa a trabalhar ao longo de toda a educação básica, que se tornou praticamente uma obrigação devido à importância assumida pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), boa parte das instituições queixam-se de não terem tempo para trabalhar uma dimensão mais formativa de seus estudantes.

A Rede Alub, que possui 13 escolas, todas no Distrito Federal, encontrou uma solução para este dilema. Para manter a diretriz de preparar para Enem e vestibulares e trabalhar a formação do cidadão, em matérias como Direitos Humanos, Filosofia, Sociologia, Direito do Consumidor, Línguas Estrangeiras, entre outros conteúdos, a instituição adota uma grade com 200 horas a mais que o mínimo estabelecido pelo MEC. Assim, coloca em prática a proposta de Educação Crítica, como ressalta o diretor e fundador da Rede Alub, Alexandre Crispi.

Este papel de trabalhar conteúdos do currículo nacional e contemplar o aspecto formativo do alunos é uma das tendências que ele vê para o cenário educacional do país. Para o especialista, ganham força também as instituições que direcionam seu trabalho para o público da Classe C, o que significa manter um ensino de qualidade, mas com preço mais baixo. Outra tendência, afirma, é o surgimento de escolas de menor tamanho, para atender o público de um ou poucos bairros, facilitando o deslocamento dos estudantes para os locais de estudos.

Nesta entrevista, Alexandre Crispi, ex-líder estudantil e formado em Tecnologia da Informação pela Universidade de Brasília (UnB), também fala sobre expansão do mercado educacional, analisa outras tendências para o ensino privado no país, comenta o impacto de problemas como o da inadimplência nas instituições de ensino, aponta os aspectos que fazem da educação básica um segmento em potencial para grandes investidores e avalia o impacto da formação de grandes grupos econômicos na área do ensino. Para ele, as fusões e incorporações ocorridas nos últimos anos, no campo da educação superior, foram positivas para o país.

“Leva-se uma educação com novos recursos tecnológicos, que estas grandes redes conseguem oferecer para o aluno. Elas conseguem investir mais, pois têm disponibilidade de capital maior”, destaca Alexandre Crispi.

FOLHA DIRIGIDA - Quais os desafios para uma escola, atualmente, do ponto de vista pedagógico?
Alexandre Crispi - A escola dos dias de hoje tem que atender dois objetivos. O primeiro é o tradicional, conteudista, que dará ao aluno a base, por exemplo, para se sair bem no Enem e nos vestibulares. Só que isso já não basta mais. É preciso ter um compromisso maior com o aspecto formativo, que é o principal desafio atualmente. As instituições que tentam fazer isso, em geral, acrescentam algumas disciplinas nesta linha, mas enxugam outras. Com isso, cumpre-se o programa do MEC, porém, em menos tempo, para sobrar espaço na grade que permita o trabalho com este ensino formativo. Outra forma de lidar com esta questão, que adotamos na Rede Alub, é aumentar a grade. Um dos aspectos de nossa proposta de educação crítica é adotar uma grade com 200 horas a mais do que o mínimo estabelecido pelo MEC justamente para contemplar esta dimensão formativa. Não adianta trabalhar, por exemplo, em cima de palestras esporádicas. Isso não é formar um cidadão. É fundamental inserir esta dimensão no dia a dia do estudante.

O senhor mencionou uma proposta de educação crítica. Quais as suas principais diretrizes?
Nós acreditamos muito que o cidadão tem que ser formado e que a escola não pode se limitar ao modelo do século passado, de só ensinar conteúdos. Muitos colocam a culpa no MEC, ressaltando que o Ministério padroniza o ensino. O que o MEC estabeleceu foi o padrão mínimo. Nós, por exemplo, temos 200 horas a mais do que o MEC determina, nas quais trabalhamos estes conceitos da educação crítica, como cidadania, ética, respeito, valores humanos. Em relação à ética, é essencial trabalhar isto desde o primeiro ano do ensino fundamental. Na educação financeira, como vamos falar de consumismo e sustentabilidade se a pessoa tem um impulso consumista? Então, trabalhamos com orçamento doméstico, planejamento, previsão de futuro. Abordamos também a teoria dos jogos ou seja, o aluno aprende a ganhar, perder, a dialogar com o colega. Além destes, inserimos na grade outros conteúdos relacionados a Direitos Humanos, Código do Consumidor, Código de Trânsito, Direito Civil, Direito Constitucional, Música, Sociologia, Filosofia, Espanhol e Inglês. E isto sem comprometer o que o MEC exige. A média dos nossos alunos no Enem é uma das cinco maiores no Distrito Federal. Além disso, a rede Alub continua entre as 10 melhores no ranking Brasil na Ong Melhores Colégios.Org. Em todo o país ficamos em 8° e, no Distrito Federal, ficamos em 5° lugar, em um ranking de mais de 400 escolas. Isto com um trabalho focado na classe C, com mensalidades de R$400 a um salário mínimo, no máximo. Então, conseguiu-se provar que preço alto não é requisito para qualidade.

Diante da concorrência que marca o mercado de ensino privado atualmente, quais os principais desafios para uma escola escola se manter e crescer?
As escolas que crescem e se destacam podem ser incluídas em dois grupos. O primeiro é o daquelas que trabalham com processos diferencias, que trazem inovação, como esses que mencionei há pouco. O segundo grupo é o das que têm como foco a Classe C, que hoje é o segmento que mais cresce no país. As escolas que se posicionam com mensalidades mais baixas de, aproximadamente, até um salário mínimo, conseguem ter um crescimento maior que as outras. Mas, não adianta cobrar menos se o ensino não tiver qualidade, pois, desta forma, temos a chamada escola barata, que, por sinal, tende a ser extinta, pois ninguém quer só pagar pouco. As famílias querem que seus filhos tenham um bom ensino a um preço justo.

Isto pode ser considerado uma tendência?
Sim, entre os desafios da escola de hoje, está o de repensar seu modelo de formação e também sua precificação. Então vou te contar um pouco da experiência da Rede Alub e como ela superou isso. Ao trabalhamos com uma precificação mais baixa, conseguimos ter uma escola com um pouco mais de alunos. Procuramos adotar, também, turmas pela manhã e à tarde. Desta forma, os custos foram barateados. Outro aspecto interessante é o conceito de escolas-bairro, que que são menores e comportam de 800 a 900 alunos do ensino fundamental até o ensino médio. A verdade é que os colégios grandes, centralizados, tendem a acabar com o tempo, por causa do trânsito. A pessoa não quer se deslocar por duas horas em um trânsito caótico para ir e voltar da escola. E a escola-bairro é um modelo que permite um trabalho mais atencioso e caloroso com o aluno, com acompanhamento pedagógico melhor, e o principal, próximo da casa do estudante. Este é o conceito da Rede Alub. São 13 escolas em Brasília e o aluno não gasta mais de vinte minutos para chegar no colégio. Vemos aqui no Rio algumas escolas já enxergando este conceito e que crescem exatamente por isso.

Muitos gestores afirmam que a legislação brasileira muda com muita frequência e isto amarra o trabalho das escolas? Como vê esta questão?
Bom, a parametrização da educação no país é muito grande. Mas, como disse no início, esse é o padrão mínimo. As escolas podem oferecer mais do que consta do currículo básico. Agora, para a escola conseguir um credenciamento, certamente precisa preencher todos os requisitos, como modelo de estrutura física, modelo de grade, mas isso eu acho que enriquece a escola. Neste ponto de vista, creio que esta parametrização é um mal necessário, porque, do contrário, cada colégio ensinaria de um jeito diferente. A meu ver, parâmetros mínimos são necessários. Agora, isso não pode servir de desculpa para a escola não inovar.

A inadimplência talvez seja o problema mais apontado pelos gestores. Na sua opinião, qual a forma mais adequada de lidar com isso?
Certamente um dos grandes desafios é a questão da inadimplência, até pela legislação, pela qual o aluno não pode ser retirado da instituição e ter interrompido seu processo de aprendizado, por falta de pagamento. Mas isso não é algo dificultador para as escolas privadas, tanto é que este segmento tem crescido muito no país. A inadimplência é alta? É, mas muito menor se comparada à do ensino superior. O que temos hoje é um mercado precisa ser profissionalizado. E isto não quer dizer que as mensalidades vão aumentar. Pelo contrário, elas vão baixar e a qualidade vai melhorar, como ocorreu no ensino superior.

O ensino superior vem crescendo por vários processos de fusão e pela formação de grandes grupos com capital aberto. Como vê esse processo?
Vejo de forma positiva. Quando se padroniza, segue-se os parâmetros do MEC. E os grandes grupos têm que seguir, pois são auditados por investidores. Dessa forma, consegue-se levar uma educação de qualidade para vários municípios, várias capitais brasileiras. Percebe-se que, com essa movimentação, aumentou o número de pessoas que acessam o ensino superior o que, inclusive, é uma das razões para o Brasil, apesar de estar passando por uma crise, não ter alto índice de desemprego. Esta é uma dúvida internacional que ninguém consegue entender.

Por que isso acontece?
O Brasil entrou em um processo de especialização da mão de obra nos últimos doze anos. Hoje em dia, quem é especializado, quem tem ensino superior, é pouco provável que fique desempregado. E se está, a pessoa pode fazer uma especialização, uma pós-graduação naquela área de conhecimento, que tende a ser logo encaixada no mercado de trabalho. O Brasil fez esse dever de casa, ao implantar programas como o ProUni, que ampliou o acesso nas instituições privadas; além do Sisu e do ReUni, que aumentaram a entrada nas universidades públicas. Um dos avanços mais importantes foi o fato de a iniciativa privada ter crescido de forma significativa. Em menos de sete anos, as grandes redes chegaram a crescer 1.400%, o que democratizou o acesso. Outro aspecto importante é que não se ouve falar em problemas graves de qualidade nessas grandes redes com capital aberto. Não há muitos cursos com IGC 2 ou 1. Ou seja, as redes que se fundiram e que formaram grandes grupos conseguiram levar a qualidade de seus cursos para a maioria dos outros que aglutinaram. Então, o movimento de formação de grandes grupos educacionais foi positivo para nosso país. Talvez menos do que gostaríamos, mas vemos que a qualidade tem se tornado melhor.

Por que?
Leva-se uma educação com novos recursos tecnológicos, que estas grandes redes conseguem oferecer para o aluno. Elas conseguem investir mais, pois têm disponibilidade de capital maior, por terem ações na Bolsa de Valores. Além disso, a precificação abaixou. Em 2007, o custo médio de um curso universitário estava na casa dos três salários mínimos. Se fosse hoje, o aluno gastaria, em média, de R$1.800 e R$2.100. Atualmente, valor médio das mensalidades média nestas universidades de grandes redes não passa de R$800, ou seja, um pouco mais de um salário mínimo. Em sete anos, fizeram cair muito a precificação e manteve-se uma qualidade adequada aos padrões de exigência. Agora, precisa-se melhorar a qualidade? Sem dúvida. Até porque as grandes redes expandiram e promoveram inclusão. Nós, hoje, temos um número bem maior de pessoas com ensino superior, representativamente. Não só jovens, mas muitos brasileiros com 35 anos ou mais de idade retomaram os estudos e fizeram o ensino superior por meio pela metodologia a distância, até pela capilaridade que essas grandes redes têm. O próximo passo tem de ser aumentar a qualidade que já existe. Talvez não tenhamos conseguido perceber, nos grandes centros, um acréscimo de qualidade, porque elas mantiveram o que já tinham, mas, nas outras capitais e nos municípios que possuíam só pequenas instituições de ensino superior, elas trouxeram o padrão adotado nos grandes centros, o que aumentou a qualificação da nossa mão de obra. Prova disso é que nunca houve tanta oferta de pós-graduação e especialização como existe hoje.

Esse processo de fusão, de formação de grandes grupos que tem ocorrido no ensino superior, tende a acontecer também na educação básica?
Sim. Até porque, as grandes redes não têm crescido muito mais do que 10% ao ano. No entanto, no resto do país, as redes de educação básica têm se expandido muito. A Rede Alub, por exemplo, cresceu 140% de 2012 para 2013. De 2013 para 2014, o crescimento foi de 91%. Aquelas escolas que cobram mais de R$1.000, R$1.500 de mensalidade, crescem, em média, 1,5% ao ano. Em dez anos, cresceram cerca de 14%. As escolas que cobram até um salário mínimo cresceram 140% nos últimos 10 anos, segundo dados do IBGE. Por isso, escolas com este perfil têm sido percebidas como grandes oportunidades de investimento no país. Além disso, existem muitas pequenas redes, formadas por duas, três escolas, e que tendem, com o tempo, a se aglutinarem formando redes médias e, muito em breve, já haverá grupos de colégio com capital aberto na Bolsa. Há uma oportunidade muito grande, até porque estas escolas contemplam alguns fatores que as instituições de ensino superior não atendem.

Quais seriam estes fatores?
As escolas de educação básica são negócios muitos mais estáveis economicamente, para um investidor. Enquanto, nas faculdades, há até quatro anos de tempo máximo de permanência do aluno, nos colégios, são 12 anos. Enquanto a inadimplência, na educação básica, está na casa de 6% a 8%, nas faculdades, chega a 15%. Até porque, quem paga a faculdade é o próprio aluno. No colégio, quem paga é a família; por isso, a inadimplência é menor. Quanto à evasão: nas faculdades, o tempo médio de permanência entre todos os alunos que entram e os que se formam é de 2,5 anos. Já nos colégios, o tempo médio de permanência é de 10,2 anos. Então, nas escolas, o aluno permanece mais tempo. Além disso, a mensalidade média no ensino médio, hoje, é mais alta. Ou seja, há chance de se formar um valor um pouco mais baixo do que no ensino superior e, com isso, atrair mais alunos. A tendência é que cada vez mais se consiga colocar em prática o conceito de levar ao estudante uma boa educação, com bons professores, a um preço acessível. E isto tem se mostrado possível. Não é fácil, mas o ensino superior conseguiu e a educação básica vem conseguindo isso também.

Por: Diego Da - [email protected]
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