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Críticas ao governo federal no Congresso Rio de Educação


Foi com críticas às declarações da presidente da República Dilma Rousseff a respeito das demandas pela qualidade de ensino no país, que o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Rio de Janeiro (Sinepe-Rio), Victor Notrica, abriu o 8º Congresso Rio de Educação, na manhã da última sexta, dia 13.

A uma plateia de mais de 700 educadores, incluindo gestores de ensino, docentes e estudantes, reunida no salão de convenções do Hotel Sofitel, em Copacabana, o presidente do Sinepe-Rio revelou considerar tardias as preocupações da presidente Dilma Rousseff com o setor educacional, assinalando as dúvidas que ainda pairam sobre o montante do Produto Interno Bruto (PIB) que deve ser investido em educação.
 
“Fui surpreendido com as declarações da presidente de que um país não deve ser medido pelo seu PIB, mas pelo tratamento dado a crianças e adolescentes, ressaltando a necessidade de uma educação de qualidade. Ela descobriu a pólvora”, ironizou Victor Notrica, denunciando uma “interferência centralizadora” por parte do governo federal na livre iniciativa da educação que, segundo o docente, está assegurada tanto pela Constituição Federal de 1988 quanto pela Lei de Diretrizes e Bases de Educação de 1996 (Lei 9394/96). 

Quem também comentou as declarações da presidente da República foi Arnaldo Niskier, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Embora o encontro reunisse gestores de iniciativa privada, o acadêmico salientou que a aspiração maior é que todos no país tenham uma educação de qualidade. Segundo Niskier, a preocupação com a educação tem aparecido de forma sistemática nos discursos dos políticos e também em ações concretas, como as da rede municipal e estadual do Rio de Janeiro.
 
“Penso que hoje existe uma preocupação em fazer um pouco mais pela educação. Existe a discussão se investir 10% do PIB é muito ou pouco. O governo fala em gastos, mas os recursos destinados à educação são investimentos, que retornam em melhor atendimento, em melhor qualidade. Mas percebo novos ares na educação municipal e estadual do Rio o que, em breve, será confirmado pelos resultados nas avaliações nacionais. Há uma vibração boa, com há muito tempo não sentia”, argumentou Niskier.

Presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), Amábile Pacios apresentou números que revelam a importância do setor privado no ensino brasileiro e também a sua força política. De acordo com a educadora, a Fenep representa 30 mil instituições de ensino, que atendem a 14 milhões de estudantes no país. “Hoje, 75% dos estudantes de ensino superior e 23% de crianças e adolescentes estudam na rede particular. Em Brasília, acompanhamos a pauta no Congresso. Precisamos unir nossas forças em torno do interesse das escolas particulares e da melhoria da educação em nosso país”, defendeu a presidente da Fenep. 

A solenidade de abertura do 8º Congresso Rio de Educação contou, também, com a presença de Paulo Alcantara Gomes, O Centro Regional de Expertise da Universidade das Nações Unidas, Helena Bomeny,  subsecretária de ensino na Secretaria Municipal de Ensino do Rio de Janeiro(SME/RJ), João Pessoa de Albuquerque, presidente em exercício da Associação Brasileira de Educação (ABE), Comte Bittencourt, presidente da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e de Gilberto Alves, diretor comercial do Grupo FOLHA DIRIGIDA.

Manifesto dos Pioneiros da Educação - Ainda na abertura do evento, aconteceu o lançamento de uma publicação especial: o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em sua versão original, mantendo a grafia da época, em comemoração aos seus 80 anos. Este documento é considerado por especialistas como o mais importante da história educacional brasileira. Editado pela ABE, o livro foi distribuído aos inscritos no congresso.
 
O evento se estendeu até o sábado, 14, tendo como discussão central a importância da Leitura e seu papel no processo ensino-aprendizagem. Também foram debatidos tópicos como mediação do conflito escolar, inclusão, questões jurídicas, marketing, aperfeiçoamento pessoal, sustentabilidade e novas tecnologias.

Medalha homenageia Edília Coelho Garcia
- Logo após a abertura do 8º Congresso Rio de Educação, Henrique Zaremba da Câmara, diretor financeiro do Sinepe-Rio, prestou uma homenagem à professora Edília Coelho Garcia, falecida em 14 de janeiro deste ano. Zaremba apresentou um pequeno texto sobre a educadora, que foi integrante do Conselho Federal de Educação, do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro e presidente do Sinepe-Rio, terá seu nome eternizado na “Medalha Edília Coelho Garcia”, comenda que será entregue a figuras de destaque do setor.
 
Estavam presentes à cerimônia seus filhos Vanessa Garcia e Fábio Garcia. “Eu e meus irmãos ficamos muito agradecidos. Acho uma homenagem merecida. Ela era uma pessoa com uma visão muito à frente da época para educação e foi revolucionária. Fico feliz com o reconhecimento de seu legado”, declarou Vanessa Garcia.

Eis a íntegra do discurso de Zaremba:

Homenagem à Professora Edília Coelho Garcia

A vida nos ensina que as coisas estão unidas por vínculos secretos. As memórias que hoje nos ocorrem encerram e resumem toda uma existência. Evocá-las é como viver de novo aqueles momentos distantes, carregados de admiração e respeito. Coube-me, nesta cerimônia, o privilégio de evocar a memória da Professora Edília Coelho Garcia, mulher corajosa, desbravadora de caminhos, que sempre soube transitar, com elegante sabedoria, entre a ética das convicções e a ética da responsabilidade. Virtudes  presididas pelo discernimento, pelo bom senso, que nossa homenageada exerceu em alto grau.

Vamos relembrar uma vida exemplar, tal como nós a percebemos hoje e que é consenso entre todos aqueles que conviveram com a Professora Edília, que dividiram com ela o sabor da luta. As biografias que merecem ser lembradas exigem a disponibilidade da memória afetiva, por isso divido com todos os que conviveram com ela a lembrança daqueles tempos heróicos, quando muito  estava por se fazer no terreno da educação.

Sabia buscar a verdade das coisas antes de seus limites, por isso, em sua vida ativa, imperava a serenidade, pois nunca foi refém de fatos consumados. Aliás, em toda ela, repousava uma beleza clássica, discreta; por esta razão exercia sobre nós uma presença acolhedora, fraternal, silenciosa, mas que era sempre o prelúdio de sua altivez. Conduzia com suave segurança os mais difíceis desafios.

Em sua vida profissional exerceu inúmeras atividades e ocupou importantes funções, tanto no setor privado como no público. Professora, Diretora e Fundadora de Escolas, autora de livros, Presidente do Sindicato das Escolas Particulares, Sub-Secretária Estadual de Educação do R.J, membro do Conselho Federal de Educação, Presidente do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro, entre vários outros cargos.

Lembro-me quando era um jovem educador, atuando no ensino em nosso Estado, fui por ela convidado a participar como conselheiro do Conselho Estadual de Educação, no ano de 1975, convite que foi estendido a outros jovens educadores. Disse jovens porque estávamos em nossos trinta e alguns anos de vida: Carlos Alberto Serpa, Edgar Flexa Ribeiro, Fátima Cunha, Arnaldo Niskier.  Creio que era justamente o que pretendera: queria gente nova, com novos ares, com visões abertas, sem o viés confortável do que é cômodo, do já visto e feito. Queria ousadia,cenários novos, fronteiras mais distendidas, porque, para Edília Garcia, educar não combinava com segmentações ideológicas ou de interesses.

Nossa tarefa, entre outras, era a de normatizar a educação no recém criado Estado do Rio de Janeiro.  Fomos crescendo com a professora Edília, Presidente do Conselho e Sub-Secretária Estadual de Educação. Aprendemos a pensar a educação a partir de um contexto mais amplo, de atos e fatos que efetivamente mudavam o rumo das coisas, sem preconceitos, sem descaminhos. Nossa mestra exercia a política em seu sentido mais original e puro, cujo escopo foi sempre o interesse público e a defesa do ensino de qualidade. Tivemos o privilégio de fazer parte de sua vida exemplar e, se não tínhamos consciência plena disto, ao menos desconfiávamos estar vivendo um momento especial que nem os arroubos da juventude nos impediram perceber. Hoje, da bruma fina do tempo, tenho certeza disso.
 
Diz Cecilia Meirelles, poeta, e notável educadora, que "a vida só é possível reinventada". Como não é de bom alvitre contrariar poetas, a vida exemplar de Edília Coelho Garcia merece, sim, ser reinventada, por nós, seus admiradores, seus seguidores, aqui e agora. Uma reinvenção que vale um capítulo na história da educação no Rio de Janeiro.

Em reconhecimento por tudo que nos proporcionou, a Diretoria deste Sindicato, de que foi ela presidente, criou a Medalha Professora Edilia Coelho Garcia a ser outorgada aos educadores que, com inconteste reconhecimento, prestarem  relevante contribuição à educação.

Quanto à sua memória, cuja presença aqui se acrescenta em seus filhos, Edison, Fábio e Vanessa, e que fazemos reviver neste instante, merece esta homenagem que é apenas uma pálida tentativa de reinventar uma vida tão significativa, tão plena de realizações. Mas este Memorial de uma vida não estaria completo se não fosse possível convocar a sabedoria de um poeta. São eles que nos ofertam, em linguagem concentrada, como é natural na poesia, o resumo de tudo o que é raro e belo na alma humana.

Penso que nossa homenageada viveu como todos nós, de sua rotina cotidiana, em seu dia a dia, entre sofrimentos e alegrias, como é próprio a qualquer vida. Teve vitórias e impasses, exerceu com coragem suas virtudes, marcou seu nome na história da educação em nosso meio, foi mãe e mulher, educadora, líder inconteste na área da educação. Seu
nome é uma legenda.

Contemplando, agora, o panorama dessa vida exemplar, que lamentavelmente já não habita mais entre nós, enquanto matéria, encontro em Fernando Pessoa, o numeroso Pessoa, a síntese de uma história, que é também a síntese de uma existência. É o ensinamento que gostaria de compartilhar com todos , como uma espécie de aprendizado, porque foi esta a lição que ela seguiu e que nos deixou como legado:

Segue teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas
O resto é sombra
De árvores alheias

Muito obrigado.
Henrique Zaremba da Câmara

 

Por: Tainara Silva - [email protected]
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