Folha Dirigida Entrar Assine

Educadores lamentam a perda da professora Lucy Vereza


A educação brasileira perdeu uma de suas mais queridas e ilustres representantes: a professora, jornalista, escritora e ex-secretária de Educação do Rio de Janeiro, Lucy Vereza. Educadores de destaque em várias áreas, além de lamentarem a perda, ao mesmo tempo, exaltaram o legado e o exemplo deixados através de uma vida dedicada a atuar em prol do ensino no país.

Lucy Vereza ocupou a Secretaria de Educação entre 1979 e 1983. Antes dela, a responsável pela pasta era Terezinha Saraiva, que assumiu, em 1975, após a fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro. Conhecidas de longa data, Terezinha Saraiva lamentou a perda de alguém que dedicou sua vida à Educação e ao Direito, pois também era advogada. "Deixou seu nome gravado por onde passou. Pessoalmente, lamentei profundamente seu falecimento. O Rio de Janeiro perde uma educadora que muito fez pela educação das crianças e jovens cariocas e fluminenses", disse, relembrando sua trajetória como professora do Instituto de Educação, de faculdades e universidades e na direção do antigo Centro de Treinamento de Professores do Estado do Rio de Janeiro (CETRERJ), incorporado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) depois da fusão.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Educação (ABE), João Pessoa de Albuquerque, Lucy Vereza deixa uma imensa herança cultural para o país. Ele fez um apelo para que os educadores mantenham vivo seu legado e seus ideais por um ensino de qualidade. "Todos deixam algo, que pode ser material ou cultural. A herança deixada por ela foi cultural e de muito valor. Posso dizer que todos nós, educadores, somos herdeiros de sua obra. E com a responsabilidade que todo herdeiro deve ter, devemos cultuar seu legado", falou.

Victor Notrica, vice-presidente do Sinepe-Rio, exaltou o perfil da educadora, observado durante os contatos no Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro (CEE-RJ), que, de acordo com ele, marcaram época. "Sempre deu pareceres consistentes e objetivos, com pouca demagogia e muita prática. Suas participações sempre foram oportunas. É uma perda imensa, pois poucas pessoas possuem esses valores e essa projeção que ela foi capaz de alcançar", lamentou.
 


Lucy Vereza, a educadora

Adolfo Martins*

A comunidade educacional perdeu uma figura admirável, uma humanista  incansável, uma educadora respeitada, uma mestra que sempre espalhou a filosofia do bem-fazer e do bem-querer. E ficou mais pobre com a perda dessa figura de invulgar estatura humana, cujos caminhos trilhados, cujos compromissos encampados, cujas convicções vigorosas na crença do papel transformador da Educação, e cujo trabalho persistente a tornaram alvo da admiração e do respeito de todos que puderam conviver com ela.

Estamos nos referindo à professora Lucy Serrano Vereza, cujo falecimento, há poucos dias, espalhou um profundo sentimento de tristeza e pesar entre seus familiares e amigos. Ela enfrentou seus últimos dias com a mesma fé e serenidade que marcaram sua trajetória de vida.

Por onde ela passou, em todos os quadrantes onde atuou (seja na sala de aula, seja à frente da Secretaria de Educação do Rio, seja nas dezenas de artigos que espalhou com suas ideias, seja nos livros que publicou), ela sempre sinalizou o atalho do entendimento, a ponte da compreensão, o acostamento da tolerância, a curva da erudição e a rota do saber.

Com o vigor de seu entusiasmo, levou milhares de pessoas (de todo gênero, de toda procedência, de todos os credos, de toda estatura, mas principalmente as mais humildes) a içarem suas velas, nessa fascinante aventura educativa e a navegarem seus mares, abrirem seus caminhos, descortinarem seus horizontes, escreverem sua própria história e construírem seu próprio destino.

Nas suas andanças profissionais, corporificou os exemplos de uma vida de ideias conjugadas com ações, de utopias embaladas pelo trabalho perseverante, de aspirações entrelaçadas com desafios. Foi uma mulher de fibra, de fé e de saberes que soube como ninguém o quanto a imaginação que nos habita, em silêncio, pode inspirar sonhos que, muitas vezes, a razão parece desautorizar. Foi, sim, uma sonhadora, uma idealista, uma escultora de pessoas, uma artífice de valores humanos, uma ourives de esperanças, uma arquiteta da cidadania, uma poliglota do altruísmo.

Lucy foi uma dessas pessoas especiais, de cujo convívio a gente sempre saía mais vivo, mais disposto, mais lúcido, mais confiante. E que encantava pela sua simplicidade, seduzia pelo seu otimismo, catalizava pela sua moderação, convencia pela sua cultura, agregava pela sua liderança, mobilizava pela sua tenacidade. E avançava pela sua inarredável fé na vida, nos homens e, sobretudo, em Deus.

Ela pertenceu a esse grupo, cada vez mais raro da espécie humana, dos que fazem da felicidade alheia, condição expressa da própria felicidade. E que nos ensinou, cotidianamente, a conjugar o verbo servir em todos os tempos, menos no tempo reflexivo. Ela sempre colocou sua vida a serviço de sua família e, sobretudo, do próximo.

Nas nossas conversas, quando nos honrava com sua visita à redação da Folha Dirigida, defendia que a essência da Educação estava na capacidade de questionar, debater, recriar o poder, o pensamento crítico e buscar alternativas para uma sociedade sufocada pela desumanização, machucada pelas assimetrias humanas e que vem transformando o ser humano numa sombra de si mesmo, como se fosse um ser perambulante à procura de uma prótese do espírito, como se estivesse com seus valores éticos e espirituais amputados.

Numa de suas entrevistas ao nosso jornal, alertava; “é necessário alargar os limites da visão cartesiana (sem lhe subtrair o mérito), de forma a buscar uma permanente interconexão da razão com o sentimento, do cérebro com o coração, da lógica com a consciência, da tecnologia com o humanismo. Ciência é raciocínio. Vida é sentimento. É indispensável que uma se entrelace com a outra”.

Entendia que é papel do educador sempre utopizar a visão de mundo, através de sua inquietude e de suas reflexões, para buscar um sentido ético e humano do conhecimento, em todas as suas perspectivas, indagando que tipo de conhecimento se produz, a quem ele se destina e, principalmente, a quem ele serve para que não se torne um mero reprodutor de um modelo que já não atende às grandes demandas humanas na nossa dramaturgia contemporânea.

Nesse momento, quando amigos e familiares ainda buscam consolo para a tristeza que sua falta traz, desejamos celebrar sua memória e registrar o profundo sentimento de admiração pela educadora inteira que ela foi.

Lucy Vereza deixou uma obra sem os holofotes da vaidade, mas cuja essência estará sempre presente pelas ideias que plantou, pelas convicções que espalhou e pelo trabalho que realizou.
 
* Diretor-fundador da Folha Dirigida

Por: Renata - [email protected]
Assine e tenha acesso completo ao conteúdo do Folha Dirigida
OU

Comentários

NEWSLETTER
Cadastre-se para receber notícias e Informações