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Em artigo, Paulo Alonso, reitor da Facha, escreve sobre Tereza Rachel


Para sempre Tereza Rachel

Paulo Alonso

Repórter de O Globo, fui entrevistar a atriz Tereza Rachel. Na ocasião, ela estava nas telas encarnando a Rainha Valentine, na novela "Que rei sou eu?", um dos seus personagens mais emblemáticos e populares. Ao chegar em seu apartamento da Rua Nascimento Silva, em Ipanema, um pouco mais cedo do que o horário agendado para o nosso primeiro encontro - muitos outros aconteceriam ao longo das nossas vidas -, Tereza, segundo o seu fiel mordomo, tinha saído para levar os cachorros para caminhar na Avenida Vieira Souto. Pediu-me o elegante (uniforme engomado e de luvas) e gentil senhor, para esperar um pouco, oferecendo-me um saboroso suco de caju, servido em taça de cristal e disposto em bandeja de prata portuguesa. Tereza era uma mulher sofisticada! Como a atriz estava atrasada, resolvi descer e aguardá-la na portaria do prédio em que vivia com o marido, Ipojuca Pontes, à época Secretário Nacional de Cultura do Governo Collor.

Já lá embaixo, minutos depois, chega Tereza, ou melhor a Rainha de Avilã. A empatia foi recíproca e eu a reverenciei como se súdito fosse do seu reinado. Rimos. Na mesma hora, sempre espontânea, começou a falar comigo como se tivesse no set de filmagem, incorporando Valentine, sua personagem. E assim foi durante todo o tempo da entrevista.

Subimos e já em sua sala, cercada de bons quadros e de tapetes orientais, continuamos a conversar e eu, impressionado, registrava aquela entrevista que se tornaria inesquecível, com a entrevistada dando um show de versatilidade, humor, irreverência e inteligência viva. Durante quase uma hora, Teresa/Valentine não se desvencilhou do sotaque francês, aliás, ela foi buscar inspiração para viver esse personagem em Madame Henriette Morineau, amiga de longa data e com quem, em 1955, estreara no teatro, atuando em “Os elefantes”, de Aurimar Rocha.

Falamos muito sobre a importância do Terezão, Teatro Tereza Rachel, fundado por ela em 1971, em Copacabana, e palco sagrado dos grandes shows musicais (nele, Gal Costa estreou com o show “A topo vapor”), tendo os maiores ídolos da MPB por lá passado, além de importantes peças nele encenadas. Aliás, “Um bonde chamado desejo”, de Tennessee Williams, em produção sua e dirigida por Maurice Vaneau, foi um estrondoso sucesso de crítica e de público, com Tereza vivendo Blanche Dubois, em uma interpretação simplesmente magistral.

Ao longo de uma carreira de sucesso de 60 anos, La Rachel recebeu os prêmios mais importantes do teatro, do cinema e da televisão, interpretando papéis dos mais variados, na realidade, todas as mulheres do mundo. Atriz versátil, densa, intensa, histriônica e olhar sedutor, era comum roubar as cenas nas quais se apresentava, mesmo que, ao seu lado, outros grandes atores estivessem também atuando. Ela tinha magnetismo e seu talento era simplesmente arrebatador. O vigor e o arrojo de suas interpretações eram comentados e elogiados pelos colegas de profissão, como uma das muitas características da atriz, que sempre esteve à frente do seu tempo. Aliás, o excepcional ator Milton Gonçalves, ao se despedir da amiga, falou: “Tem pessoas que vem à vida e passam em branco. E tem outras que tem importância porque, em suas manifestações, eles mudam a temporalidade. E ela foi uma dessas pessoas".

Todo esse talento ficou registrado, e para sempre, na dramaturgia brasileira não apenas em novelas, como “Que Rei sou eu?”, “O Astro”, “A próxima vítima”, e em “Babilônia”, mas também em vários filmes, como “Pedro Mico”, “Amante muito louca” e “Ganza  Zumba” e em uma quantidade sem fim de peças teatrais, como “Édipo Rei”, “Prima Donna”, “Quando se morre de amor”, “Boca de Ouro”, “Bonitinha mas ordinária”, “Liberdade, Liberdade”, “Tango” e “O balcão”. E não podemos nos esquecer do musical “Gota D’Água”, montado em um momento delicado da vida política nacional.

E essa mulher-atriz-guerreira-empresária-produtora nos deixou, aos 82 anos de idade. Sua obra, todavia, estará para sempre imortalizada nas mentes e nos corações dos amantes da boa interpretação e que viam em Tereza Rachel uma artista simplesmente genial.

Jornalista e Diretor-Geral das Faculdades  Integradas Hélio Alonso, FACHA

Por: Larica Santos - [email protected]
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