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Qualidade que não passa dos discursos


O desempenho dos estudantes brasileiros em leitura, escrita e Matemática nos primeiros anos do ensino fundamental ainda está abaixo do ideal. Essa é a conclusão do 4° Relatório de Monitoramento das 5 Metas do Todos pela Educação, divulgado no início do mês, em São Paulo, que revelou dados alarmantes sobre a situação da educação básica no país. A entidade estabelece, dentre outras metas, que todas as crianças com até 8 anos de idade estejam plenamente alfabetizadas em 2022, ano do bicentenário da independência. No entanto, o movimento alerta que, no ritmo de evolução do aprendizado atual, este objetivo não será cumprido até o prazo.

“O grande alerta que fazemos é que se as autoridades públicas não criarem uma política educacional forte não iremos atingir nenhuma das metas”, reforça Priscila Cruz, diretora-executiva do movimento.
A entidade analisou os resultados obtidos pelos estudantes na Prova ABC, realizada pela primeira vez no ano passado, em parceria com a Fundação Cesgranrio, o Instituto Paulo Montenegro/Ibope e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

A avaliação foi feita em 2011 e contou com a participação de 6 mil alunos do 4° ano do ensino fundamental, de todas as capitais, com a participação de 250 escolas das redes privada e particular. Os estudantes fizeram provas de Matemática e Língua Portuguesa, em que foram avaliadas suas habilidades em leitura e escrita.

Nenhuma região, nem o Brasil como um todo, atingiu a meta prevista para 2010, de 80% das crianças com o aprendizado esperado até o final do 3° ano do ensino fundamental. Os resultados apontaram que 56,1% dos avaliados tiveram bom desempenho em leitura e 53,3% em escrita.

Em Matemática, o quadro é bem pior: apenas 42,8% atingiram o conhecimento esperado. O baixo resultado dos estudantes nesta disciplina é um dado que preocupa os especialistas. “Os alunos que não adquirem os conhecimentos básicos da Matemática próprios para a faixa etária deles ficam atrasados para os próximos anos. Isso terá reflexo no ensino fundamental e no ensino médio”, aponta Nilma Fontanive, articulista da pesquisa e consultora da Fundação Cesgranrio.

De acordo com Nilma, a principal causa para este problema é a falta de um conhecimento mais profundo dos professores do ensino da Matemática. “O educador é mais preparado para alfabetizar do que para fazer a alfabetização numérica dos alunos”, destaca. “Esses professores geralmente vêm do curso de Pedagogia, ele não é licenciado”, acrescenta. Para a especialista a solução seria reforçar os conteúdos de Matemática nos cursos de formação do profissional que irá alfabetizar.

Abismo entre o ensino
público e o particular

A prova ABC também revelou a comparação dos desempenhos dos alunos da rede pública e da privada. Nas três competências avaliadas, a rede particular concentrou o maior número de estudantes com o nível esperado. A diferença ultrapassou 30 pontos percentuais em escrita, leitura e Matemática.
Na rede particular, 80,7% dos alunos atingiram o desempenho esperado em escrita, 79% em leitura e 74,3% em Matemática. Já nas escolas públicas, os índices de aprovação foram de 44,3% em escrita, 48,6% em leitura e 32,6% em Matemática.

O relatório apontou que um dos motivos para a grande diferença de aprendizagem entre os alunos do ensino público e particular é o fato de o estudante ter cursado ou não a pré-escola. De acordo com os resultados, a rede privada recebe alunos com melhores condições socioeconômicas e que fizeram a educação infantil. “É preciso que a pré-escola seja de alta qualidade para compensar as lacunas sociais”, avalia Nilma.

Analisando os dados por sexo, o relatório apontou que as meninas obtiveram melhores resultados na avaliação escrita e em leitura. A diferença em escrita foi de 16,4 pontos percentuais e em leitura de 9,4. Em escrita, por exemplo, 61,4% das meninas conquistaram bons resultados, enquanto que 45% dos meninos atingiram o esperado. Em Matemática, a diferença não foi significativa, mas novamente elas estão na frente.

Segundo o documento, é necessário investigar se os baixos resultados dos meninos ocorrem devido a uma questão cultural ou se há diferenças no tratamento pela equipe escolar. Também é ressaltado que em se tratando de Educação, tal diferença não deve existir.

País ainda investe pouco
nas políticas educacionais
A qualidade da Educação brasileira ainda está longe do que é almejado, assim como os investimentos nessa área. Com relação aos gastos, o estudo revelou que o Brasil ainda destina pouca verba para a Educação, principalmente para o ensino básico. Conforme os dados da organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 2011, o investimento por aluno no país foi de US$2,4, valor inferior em comparação com a média dos países da OCDE, que foi de US$8,9. Enquanto isso, são investidos no ensino superior no país cerca de U$14.

“Ficou evidente que no Brasil os investimentos por aluno do ensino superior é bem maior do que no ensino básico. Ainda precisamos avançar”, alertou o analista Amaury Gremaud, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (Fea-RP).

A diferença dos gastos entre a educação básica e o ensino superior é algo que tende a ser natural. De forma geral, os gastos por aluno crescem ao longo dos anos de estudos. No entanto, o problema brasileiro são os baixos índices de investimentos nos anos inciais, em comparação com a média dos países da OCDE.

Os indicadores revelaram que o investimento por aluno no Brasil na educação infantil não chega a US$2, enquanto que em países da OCDE a média é superior aos US$6. No ensino médio a diferença é ainda maior: menos de US$2 no país e mais de US$9 na OCDE.

Gremaud analisa que para cumprir as cinco metas estabelecidas pelo movimento será necessário ampliar os investimentos. “Assim poderemos continuar com o processo de inclusão dos alunos, diminuir a distorção idade-série e melhorar a qualidade do ensino e da aprendizagem”, argumenta.

Quase 4 milhões estão
excluídos da educação
A pesquisa também revelou que 3,8 milhões de crianças e adolescentes com idades entre quatro e 17 anos anos estão fora da escola. O dado indica que a primeira meta estabelecida pelo Todos pela Educação não está sendo cumprida em um ritmo adequado, já que nenhum estado brasileiro tem um atendimento escolar para todos. A análise foi feita a partir dos resultados preliminares do Censo Demográfico de 2010.

O estudo apontou que, proporcionalmente, a região com o maior atendimento é a Sudeste, com 92,7% de estudantes no ensino básico. No entanto, em números absolutos, esta também é a região que apresenta o maior número de indivíduos fora da escola, totalizando 1,2 milhões. A menor taxa de atendimento é na região Norte, com 87,8% e o segundo maior número absoluto de crianças e jovens fora da escola é na região Nordeste, com pouco mais de 1 milhão.

Outro resultado importante é que o acesso à educação no país é menor nos anos iniciais e finais, para crianças com idades entre quatro e cinco anos e 15 a 17, respectivamente. Já na faixa etária de 6 a 14 anos, o resultado é positivo: 96,7% frequentam a escola.

A possível solução apontada para o problema dos anos iniciais e finais seria combater a evasão e o atraso escolar, e não apenas criar novas vagas. Tufi Machado Soares, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e um dos analistas da pesquisa, argumenta que o atraso escolar desestimula o aluno, pois quanto maior é sua defasagem menores são suas chances de concluir os estudos.
“É preciso ter a convicção de que a reprovação representa um grande fracasso, tanto para o aluno quanto para o sistema. Seria necessário reduzir ao máximo as reprovações, com alternativas de recuperação dos alunos ao longo de todos os anos de estudo”, afirma.

Ele defende que organizar os anos escolares dentro de ciclos e ampliar a recuperação são duas formas de evitar a reprovação. “Acho que a reprovação deveria ser proibida para crianças com até 8 anos, e até mesmo além disso. Não faz sentido reprovar o aluno nesta fase em que ele está aprendendo a ler e a escrever”, avalia Soares.

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