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A ciência como aliada da aprendizagem


A aprendizagem não é um simples processo em que o professor fala e o aluno automaticamente capta. Aprender envolve os processos neurais que o educando sofre, reagindo aos estímulos do ambiente. Do que fala o educador, como ele fala, o que está a sua volta, quais objetos estão em uso e como esse aluno compreende toda essa informação. Tudo isso é percebido por ele, que reage de acordo com a forma como processa essas informações.

Com a Ciência da Aprendizagem, que é o diálogo entre a ciência e a sistematização pedagógica educacional, de acordo com professora Marta Relvas, especialista na área de neurociência aplicada à aprendizagem cognitiva e emocional no desenvolvimento humano, é possível saber sobre o funcionamento do cérebro e indicando potencialidades ou disfunções orgânicas ligadas ao aprender humano.

A psicopedagoga explica que há algumas dimensões envolvidas na tomada de decisão do professor e em suas ações e que necessitam de aperfeiçoamento no processo educativo. Segundo Marta Relvas, há várias dimensões que podem influenciar no aprendizado. Uma delas, é a afetiva, relacionada às expectativas de cada um. Há também, a vertente pedagógica, referente aos recursos didáticos e diferentes estratégicas de ensino que o professor tem à sua disposição. A epistemológica, por sua vez, é evidenciada pelas características do conhecimento que se deseja ensinar. "A neurobiológica, por sua vez, perpassa pelo ritmo neural de cada aluno, potencializada por diferentes estímulos", ressaltou.

O aprendizado permite assim novas conexões neurais. E o papel do educador é estimular a atualização do pensamento do aluno com possibilidades e potencialidades em que o cérebro desse estudante é um sistema aberto para novos caminhos. Para a especialista, o desejo de aprender é um dos principais aspectos que influenciam a aprendizagem. A professora afirma também que a Neurociência permite perceber que não há alunos "atrasados", mostrando que cada um tem um ritmo de aprendizagem, um modo de aprender e dificuldades, e que essa diferença não impede o direito a uma educação de qualidade.

É possível usar linguagens diversas para o aprendizado

Marta Relvas, que também é neurobióloga, psicanalista e especialista em fisiologia humana, diz que a Neurociência não é uma poção mágica ou um livro de receitas que dá ao professor a solução dos problemas. É, antes de qualquer coisa, uma ferramenta que traz ao educador o conhecimento para identificar os desempenhos dos estudantes em sala de aula e estimular áreas específicas do cérebro desses alunos de acordo com esse saber que ele adquiriu.

"Todos os indivíduos têm a possibilidade de aprender, em maior ou menor grau, e que o importante é realizar uma observação e investigação precoce das estruturas que envolvem os fatores da aprendizagem", comentou a especialista. Ela cita como alguns destes fatores, entre eles, a atenção, ou o foco, relacionados diretamente aos desejos e interesses; a memória, que funciona como uma atividade executiva do cérebro; e a compreensão, ou seja, significado que é contextualizado à informação recebida".

Em função desses fatores, a Neurociência contribui para que o professor se aprofunde no conhecimento da mente humana, auxiliando-o na prática educativa com o uso de diferentes linguagens como, por exemplo, a arte, a imagem, o humor, desenhos e histórias que proporcionam uma melhora na aprendizagem. Para Relvas, deve-se despertar nos alunos o desejo em aprender, seja através do estímulo na participação de debates, da utilização de informações em gráficos, além de promover atividades de movimentos etc. combinado ao ritmo de aprendizagem de cada aluno e as habilidades específicas demonstradas. A professora conta ainda que um grande impacto na educação e que provoca a ampliação das redes neurais dos alunos é a revolução digital na mente humana. "A intervenção pedagógica é capaz de promover processos de pensamento, fazer a relação entre as informações e situá-las em uma rede mais complexa de significação", disse a especialista.
 

 
Trazendo o mundo para dentro da sala de aula

Com a aprendizagem, o aluno tem suas redes de conexões transformadas, adquirindo novas habilidades cognitivas, motoras e emocionais, como explica a professora Claudia Nunes, mestre em educação e em Tecnologias Educacionais e em Neurociência Pedagógica.

"O aprender biológico é aquele aprender do desenvolvimento cerebral inato. A escola é mais um fator de aprendizagem e é o mundo extragenético entrando nesse mundo genético e modificando essas conexões, essa plasticidade. A prática pedagógica deve se voltar a essa transformação, mudar essas conexões".

A Neurociência é, então, uma ciência capaz de ajudar o professor a saber como promover os devidos estímulos para permitir que o aluno perceba, associe e compreenda. Esse processo de transformação tem grande valor na educação, principalmente quando se trata de saber transformar o olhar do aluno sobre algo com o qual ele já possui uma relação.

Atualmente é muito comum os jovens brincarem com os celulares durante uma aula. Simplesmente mandar guardar o telefone não resolverá o problema. O que o professor pode fazer, segundo Claudia Nunes, é aproveitar a situação e estimular o aluno a ter uma nova visão sobre aquele objeto e seu papel em sala de aula, ou seja, de que forma este celular é capaz de contribuir com o aprendizado dele.

"Então, a Neurociência e a prática pedagógica mostram que essa mudança de comportamento é possível, desde que o professor consiga entender a dinâmica das tecnologias. Não adianta recusar. Hoje em dia o professor não pode recusar minimamente o uso do celular em sala de aula em algum projeto. Não dá mais pra usar só papel, lápis e os recursos tradicionais", afirma.

Segundo a especialista, uma das contribuições que a Neurociência pode trazer é o entendimento do que chama de jogo neuronal. A partir dessa compreensão, quando o professor criar uma estratégia de ensino, pode saber as conexões neuronais que serão afetadas. Trata-se de entender como o cérebro aprende.

"A modificação de comportamento vai acontecer por aí. Agora, mudança de pensamento não é ninguém quem faz, ela vai depender das interações, dos trabalhos de grupo, da colaboração, de uma série de coisas que vão acontecer em sala de aula, e essa sala de aula não é mais aquela linear, é aquela que está pulverizada, é o mundo. Por isso, é importante trazer o mundo pra dentro de sala de aula."

Falta de recursos prejudica a aplicabilidade da Neurociência

Para Claudia Nunes, é essencial que o professor trabalhe a sala de aula como um ambiente interessante para o aluno. Levar para a aula aquilo que o aluno vê fora dela e saber trabalhar esses elementos pode contribuir na transformação de comportamento e na mudança de visão de mundo.

"Então, nesse processo, quando as estratégias de ensino são percebidas dentro da Neurociência, dentro desse conjunto neurológico, jogado com os interesses do aluno, principalmente nos artefatos utilizados, os recursos, ele percebe que é um movimento diferente. Então, cria-se um ambiente de mais atenção e mais foco e aí consegue-se aprender e desenvolver a aprendizagem."

A Neurociência tem contribuído de forma significativa para o processo educativo. No entanto, é importante reconhecer a dificuldade que os professores enfrentam para conseguir captar em cada aluno os seus desejos e disfunções e desenvolver uma pedagogia para atender as demandas de cada um.

Com dezenas de alunos por turma e várias horas de trabalho, estimular a aprendizagem é um processo muito complicado, de acordo com o professor Vasco Manuel Martins do Amaral, mestre em Ciência da Motricidade Humana. "Não há condição do professor conseguir acionar seus alunos por intermédio dos seus conhecimentos, porque ele não tem tempo. Ele passa mais tempo chamando a atenção e com receio das agressões e do que acontece com 40 alunos. E com 40 alunos, a possibilidade de olhar para todos é bem diferente".

Para Vasco Manuel, o sistema educacional não garante ao professor as condições necessárias para que ele possa desenvolver a prática pedagógica, estimulando seus alunos ao conhecimento e ao aprendizado. "A Neurociência não vai salvar a educação. É só uma forma de fazer com que a parte pedagógica seja compreendida pelo professor. Até porque não basta trazer todo esse conhecimento e o sujeito não ter condição de aplicar", salientou Vasco Manuel Martins.

Por: Marwin Castro - [email protected]
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