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A conquista da liberdade através dos clássicos


Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.” Essa é uma das definições para clássico literário apresentadas pelo escritor italiano Ítalo Calvino, em sua obra “Por que ler os clássicos”. O tema, que desperta inúmeros questionamentos entre escritores e estudiosos, foi discutido com professores — a maioria da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro — durante o 16º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens.

Ao público docente, literatos mostraram que os clássicos estão longe de ser livros impregnados de poeira, que ficam escondidos no alto das estantes, nas bibliotecas. Pelo contrário, são obras que se perpetuam justamente pela capacidade que sua temática tem de atravessar épocas, sendo transposta para diversas culturas com o passar de anos, séculos e, até mesmo, milênios.

Realizada no dia 29 de maio, no auditório do Centro de Convenções SulAmérica, no Centro do Rio de Janeiro, a mesa “Primavera de Clássicos” contou com a participação de Antônio Torres, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL); Godofredo de Oliveira Neto, escritor e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Marina Colasanti, escritora e artista plástica; e Nélida Piñon, escritora e membro da ABL.

Sob a mediação de Anna Maria de Oliveira Rennhack, da Editora Record, os especialistas em letras, livros e histórias, ressaltaram a importância dos clássicos na cristalização dos valores de nossa civilização, destacando a relevância dessas obras na formação dos cidadãos.

Escritora e artista plástica, Marina Colassanti ressaltou que a sociedade faz uma peneira daquilo que é fugaz e daquilo que deve ser transmitido às gerações futuras. “Consideramos clássico aquilo que já foi filtrado pelo tempo, pelas circunstâncias, após uma peneira feita pela sociedade. Porém, infelizmente, a palavra clássico, muitas vezes, é confundida pelos estudantes com poeira”, observou a autora de “A casa das palavras”. 

Escritor e membro da ABL, Antônio Torres sugeriu que os jovens iniciem suas leituras por autores contemporâneos para, posteriormente, procurarem os clássicos. Segundo o escritor, a imposição dos clássicos, especialmente nas escolas, pode afastar os jovens não apenas dos clássicos, mas de todo o universo literário.

“Temos clássicos na Música, no Cinema, no Teatro, na Literatura. Penso que os jovens devem começar pelos autores contemporâneos e os clássicos um dia chegarão. E quando eles chegarem, ficarão, com certeza. De fato, o clássico não escapa da classe. Nem sempre os clássicos são bem-vindos para determinadas classes de leitores que, em muitos casos, não estão preparados para eles. Os leitores se formam por degraus”, assinalou o acadêmico.

Também integrante da ABL, a escritora Nélida Piñon afirmou que não é favorável à leitura de Machado de Assis por crianças e adolescentes sem que haja um trabalho prévio. A escritora reconheceu que, muitas vezes, leitores iniciantes ainda não estão preparados para ambivalência, ironia e complexidade do “bruxo do Cosme Velho”.

Por isso, a acadêmica ressaltou que os professores devem seus alunos para trabalhar com esse autor. No entanto, Nélida Piñon condenou o uso de “adaptações” ou “versões simplificadas” da obra de Machado de Assis que, em sua opinião, devem ser lidos na versão integral.

“O clássico é uma chancela, uma garantia, é um livro que tem uma tradição, que resiste ao tempo. Os clássicos formaram nosso conceito de vida e fazem parte de nossa civilização. Precisamos abolir o preconceito de que os clássicos são chatos, de que existe uma certa poeira sobre os clássicos. Eles são sempre atuais, sendo traduzidos em várias línguas e assimilados pelas mais diversas culturas, como o Dom Quixote, de Cervantes. Por isso, o clássico é o mais moderno possível”, completou a escritora.

Professor da Faculdade de Letras da UFRJ e escritor, Godofredo de Oliveira Neto defendeu a relevância do bom trabalho dos clássicos em sala de aula. Para o educador, o conhecimento traz liberdade aos alunos e, desse modo, o professorado deve oferecer ferramentas para os estudantes desfrutarem da beleza e da riquezas das obras que a nossa civilização consagrou como “clássicos”.

“Os professores têm a importante responsabilidade de resgatar a liberdade do aluno através do conhecimento. Por isso, o trabalho docente e o ensino de Literatura devem estar a serviço da liberdade”, completou o escritor.

A Literatura Brasileira nas salas de aula - Foi lançado durante o 16º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, o projeto “Literatura Brasileira na Sala de Aula”, do Grupo Editorial Record. Segundo a pedagoga Anna Maria de Oliveira Rennhack, responsável pela iniciativa, trata-se de um projeto piloto, realizado em parceria com a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME/RJ).

A distribuição da primeira leva do material, que inclui um manual voltado para o trabalho do professor em sala de aula, aconteceu durante a mesa “Primavera de Clássicos”, realizada no dia 29 de maio.

O primeiro autor contemplado pelo Literatura Brasileira na Sala de Aula é José Lins do Rêgo. Segundo Anna Maria Rennhack, essa coleção pretende levar ao professor oportunidades de novos projetos, utilizando autores considerados clássicos de nossa literatura, como José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos e Raquel de Queiroz.

“Escolhemos esse evento porque acreditamos que a ‘Primavera de Clássicos’ é permanente. É o resnascer, o entrar em contato novamente com valores de nossa cultura e de nossa literatura que, às vezes, ficam um pouco afastados de nossas escolas. Antes de tornar o livro mais fácil, optamos por desenvolver esse trabalho”, explicou a responsável do Grupo Record.

O kit do projeto Literatura Brasileira na Sala de Aula estimula os professores a trabalhem com a versão integral dos livros de José Lins do Rêgo. O kit distribuído contém um manual, que, de acordo com Anna Maria Rennhack, traz resenhas, as capas e as sinopses dos livros do autor de “O menino do Engenho” e também opções de trabalho com as obras em sala de aula.

“As resenhas apresentam as diversas temáticas presentes na obra de José Lins do Rêgo, como a religiosidade e o Ciclo da cana-de-açúcar.  O objetivo é orientar os docentes a escolherem o tema mais adequado a ser tratado em cada turma, considerando o contexto histórico. Embora a obra desse autor tenha toda uma temática nordestina, ele tem um livro que se passa em Cabo Frio. Assim, damos algumas sugestões para os docentes”, acrescentou a pedagoga.

Em fase experimental, o projeto Literatura Brasileira em Sala de Aula vislumbra o acesso a escolas de diversas regiões do país, informou a integrante do Grupo Record. No momento, o material é restrito a docentes da rede municipal de educação do Rio de Janeiro que devem entrar em contato com a Diretoria de Mídia e Educação da SME/RJ para solicitar o material.

“Vamos continuar esse trabalho fazendo novos encontros junto ao professorado. No momento, esse é um projeto piloto, desenvolvido na rede municipal do Rio de Janeiro. E depois vamos prosseguir com as outras capitais. Quem quiser saber mais informações sobre esse projeto deve entrar em contato com a Editora Record”, completou Anna Maria Rennhack.
 
Serviço
www.record.com.br.

Enquete: Qual clássico marcou a sua vida?

Lindonéia Brandão (Funcionária da Biblioteca Popular Municipal Agripino Grieco)

“Eu sou machadiana. Li ‘Dom Casmurro’ pela primeira vez quando tinha 9 anos de idade. E leio e releio em várias épocas da minha vida. E a cada nova leitura entendo a obra de modo diferente, encontro novas nuances. Acredito que a leitura entre os jovens pode ser incentivada de diversas maneiras. Uma delas são as histórias em quadrinhos. Vários autores, como Guimarães Rosa e José de Alencar, já têm várias de suas obras em quadrinhos.”

Cilene Oliveira (Coordenadora da Rede de Bibliotecas Públicas da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro)

“Sempre li muito desde pequena, inclusive romances de banca de jornal. Meu pai era escritor e minha mãe contadora de histórias. Portanto, sempre tive muitos livros dentro de casa. Uma obra que marcou bastante a minha formação foi ‘O Castelo do homem sem alma’ (A.J.Cronin). Depois, fiz o curso Normal e entrei em contato com autores como Ana Maria Machado, Sílvia Orthof e Machado de Assis. Acredito que os contos de fada são fundamentais para incentivar a leitura pois marcam a vida de todos, desde a infância.”

Ana Lolita Canavitas (Professora da Sala de Leitura da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro)

“Acredito que Hans Christian Andersen é o melhor autor de todos. Pegou histórias orais, reais, e as transformou em histórias eternas, que se perpetuam até os nossos dias. Quando contamos e recontamos os contos de fadas, sempre podemos fazer uma análise de como seriam essas histórias em nossos dias. Por isso, com meus alunos, fazemos dramatizações, desenhos, para que possamos fazer do nosso jeito e explorar a história de várias maneiras.”

Rita Vaz (Professora da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro)

“O livro que marcou a minha vida foi ‘Dom Casmurro’, de Machado de Assis. Quando eu li devia ter 12 ou 13 anos. Tínhamos sempre livros em casa, acesso aos clássicos e às enciclopédias. Machado de Assis tem uma linguagem típica e acredito que, na escola, os professores devem fazer uma apresentação desse autor aos alunos. A temática de Machado de Assis é muito atual e seus livros podem suscitar vários debates em sala de aula.”

 

Por: Tainara Silva - [email protected]
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