Folha Dirigida Entrar Assine

A greve sob o olhar dos estudantes


Paralisação em universidades federais de todo o Brasil aproxima-se de um mês de duração. Enquanto parte dos estudantes considera o movimento válido, por trazer à tona uma série de dificuldades com as quais têm de conviver no dia a dia, parte já pensa nos problemas que a greve trará, seja para a formatura, para conseguir um estágio ou no planejamento das férias

Para muitos, o último recurso de luta e mobilização por melhorias salariais e de condições de trabalho é a greve. Um movimento em que, na maioria das vezes, a população é a maior prejudicada. E não tem sido diferente na paralisação dos professores e técnicos administrativos das instituições federais de ensino superior, onde os alunos sofrem os efeitos da “queda de braço” entre o governo e as representações dos profissionais de educação.

Até por isso, paralisações como a que ocorre nas instituições federais são motivo de polêmica. Enquanto parte dos estudantes apoia o movimento e concorda com as reivindicações dos docentes, outros não se conformam com perspectivas como a de estudar durante o férias ou ver atrasar a formatura ou o ingresso no mercado de trabalho.

A greve está próxima de completar um mês e já recebeu a adesão de 80% das universidades brasileiras, o que afetaria cerca de um milhão de universitários. No país inteiro, diretórios centrais dos estudantes (DCEs) estão realizando assembleias para deflagrarem greve estudantil em apoio aos professores e aos técnicos. Para muitos, a paralisação é o caminho para alcançarem melhores condições de ensino, principalmente em relação a infraestrutura.

“A realidade do estudante nas universidades públicas é caótica. O governo já privatizou aeroporto, a previdência, e a qualidade da educação só cai. Os aprovados no vestibular encaram faculdades em péssimas condições”, afirma Julio Anselmo, 22 anos, estudante de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor da Assembleia Nacional dos Estudantes Livres (Anel).

Um problema apontado por Julio Ancelmo, e que é apresentado com frequência por críticos do processo de expansão dos últimos anos, é o fato de as universidades terem recebido um número maior de alunos sem uma evolução correspondente na infraestrutura e no quadro funcional. “Em dia de prova, já vi situações em que, quando todos os alunos estão presentes, tem cadeira para o lado de fora da sala”, relembra Julio Ancelmo, que também critica a política de assistência estudantil.

“O valor das bolsas é pequeno e não há restaurante e moradia universitária em todas as universidades. O governo deve agir em relação a isto, pois, se auxilia o aluno a ingressar, também tem que auxiliar a se manter. Alimentação, transporte, xerox, tudo isso é caro.”

Reclamações sobre qualidade
da infraestrutura são comuns
Os problemas de infraestrutura nas instituições federais estão entre os mais criticados pelos estudantes. Rafael Brito, aluno de Engenharia Civil da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), afirma que, onde estuda, ele precisa conviver com problemas como falta de salas de aula, de laboratórios e de profissionais qualificados para orientar alunos.

“A biblioteca é precária; existem poucos professores para ministrar as aulas, fazendo com que fiquem sobrecarregados”, comenta Rafael, que também critica a falta de restaurante universitário. “Se o restaurante fosse criado, traria não só maior comodidade aos estudantes, como também economia no tocante a transporte e alimentação, visto que não precisariam se deslocar até suas casas e retornar no período da tarde”.

Segundo a estudante de História da Universidade Federal Fluminense (UFF) Thaisa dos Reis, de 25 anos, a esperança era de que a instituição desse um salto de qualidade a partir dos investimentos que recebeu da União. Alguns anos depois, o quadro, para ela, ainda está muito ruim.

“As coisas continuam precárias. O prédio novo sofre dos mesmos problemas de estrutura dos antigos. E pior: não há ventiladores, nem ar-condicionado como havia sido prometido. Os elevadores, novinhos, vivem parados como os “museus” dos prédios mais velhos. Isso pra citar só alguns dos problemas estruturais”, critica a estudante, que também reclama do tamanho das turmas. “Um professor deveria ser responsável por, no máximo, vinte alunos, e isso já é muito. Mas na UFF, os professores são responsáveis por mais que o dobro disso.”


Entre os problemas de hoje e
esperança de melhoria no curto prazo
Da mesma forma que é defendida de forma enfática por parte dos estudantes, a greve nas universidades federais é criticada por muitos universitários. Em geral, estes alunos, de alguma forma, são diretamente afetados e têm seus planos prejudicados pela atitude dos professores e funcionários de paralisar as atividades. Pesa também na postura crítica em relação ao movimento, em alguns casos, a descrença de que a união de esforços seja motivada, de fato, pelo desejo de uma universidade melhor após o movimento.

No primeiro período do curso de Jornalismo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Leandro Marlon, de 23 anos, acredita que é ingenuidade achar que a luta é apenas pela educação. Formado em História, ele entende que as greves em geral, assim como a das universidades públicas, são motivadas por choques de interesses.

“Cada um tem de defender o seu ganho e, muitas vezes, gera o confronto. Esse movimento, em particular, também é alimentado por essa lógica. Procurando relatos recentes nos movimentos grevistas dos últimos 20 anos temos sempre um fator comum: salários”, comentou o historiador.

Apesar da visão crítica em relação às greves, Leandro se diz favorável aos princípios que sustentam a mobilização nas federais. Ele concorda, por exemplo, que os professores merecem melhor remuneração e que, hoje em dia, há incentivo muito maior para trabalhar com pesquisa do que em sala de aula ou em atividades de extensão. Mas teme que, após um acordo na questão salarial, o restante da pauta fique de lado.

“No momento, sou a favor da greve pela junção das demandas docentes, discentes e técnicas no cenário da universidade. Entretanto, caso a greve termine por conta dos reajustes financeiros, continuarei com a opinião de que tudo é jogo de interesse político”.

A preocupação mais comum dos alunos com a paralisação, no entanto, são os problemas que ela pode trazer. Fabrício Borba, estudante de Geografia da Universidade Federal de Goiás, por exemplo, está no último período do curso. Aos 25 anos, ele teme que, caso a greve se estenda mais, não consiga se formar neste semestre, por falta de tempo hábil para a reposição das aulas perdidas.

Mesmo receio tem Arthur Fernandes, de 23 anos, aluno de Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Apesar de, em seu curso, os professores não terem aderido à greve, ele acredita que a interrupção das atividades administrativas, por exemplo, pode atrasar a colação de grau e, consequentemente, a busca por um emprego.

Isto, por sinal, pode acontecer não apenas entre os que estão se formando, como defende Victor Ohana, da Rural. Para ele, além de prejudicar o andamento do curso e atrapalhar o fluxo de aprendizagem, a paralisação pode dificultar a conquista de uma vaga para estágio.

“Muitas empresas pedem previsão de formação. A greve pode atrapalhar nesse caso. Além disso, é provável que haja reposição de aulas em janeiro. Quem tem viagem marcada, quer voltar para casa, ou pretende passar as férias com a família, sairá prejudicado.”

Camila Farias, de 20 anos, veio da Bahia para estudar Engenharia de Petróleo e Gás na UFRJ. Assim como diversos estudantes, está preocupada com o quanto a paralisação pode afetar seus planos. “Vim de Salvador para o Rio Janeiro só para estudar. A greve, além de atrasar minha formação, deve atrapalhar a minha ideia de voltar para casa no fim do ano”, afirma.

Com problema semelhante, Jéssica Mazza, que estuda Jornalismo na Rural, resolveu antecipar suas férias. “Mudei totalmente minha rotina por causa da greve. Voltei pra casa dos meus pais, estou em regime de férias”, afirmou a jovem.

Se Camila teme a reposição nas férias, a estudante Raize Souza, de 20 anos, espera justamente o contrário. “Caso a reposição das aulas não ocupe as férias, com certeza vai atrasar minha formatura. Sem contar que, como a paralisação quebrou o período no meio, quando houver o retorno, os alunos e professores vão ter perdido o “pique” das aulas”.

Um ponto que divide opiniões é a manutenção ou criação de atividades durante o movimento. Alguns estudantes apoiam a ideia de que a paralisação deveria ser geral, incluindo os projetos de extensão, pesquisa e pós-graduação.

Na Rural, professores criaram o “OCUP-AÇÃO”, pelo qual são realizados debates, palestras e reuniões, que ocorreriam com maior dificuldade durante o ano letivo. Neste caso, o lema é: greve não é férias. É uma forma também de ocupar o aluno que não tem condições de voltar para casa, já que boa parte vem de outras cidades e mora no alojamento.

Na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), os docentes que paralisaram estão cumprindo projetos iniciados e alguns se dispuseram a manter contato com as turmas para tirar dúvidas, como garantiu Larissa Rosa, de 20 anos, do curso Jornalismo.

Vários estudantes, apesar de acreditarem que a greve trará prejuízos, defendem que é melhor passar por dificuldades neste momento para, no curto ou médio prazo, terem um ensino de melhor qualidade. É o que pensa, por exemplo, Marília Silva, de 21 anos, aluna de Enfermagem da UFU. “Prefiro um prejuízo agora que o arrependimento por não ter reivindicado, por não ter lutado pelos meus direitos.”

Jhonatam da Mata, de 23 anos, estudante de Ciência da Computação da UFMT, afirma que como está no sétimo período, de oito, a greve não poderia ter vindo em pior hora. Mesmo assim, apoia o movimento. “Seja como for, precisamos ser pessoas de pensamento comunitário e deixar de lado o egoísmo em prol de um bem maior”, garantiu Jhonatam.
 

Assine e tenha acesso completo ao conteúdo do Folha Dirigida
OU

Comentários

NEWSLETTER
Cadastre-se para receber notícias e Informações